Colaboradores

Futebol e cinema – Texto de Fernando BH

sexta-feira, 14 de setembro de 2007 Texto de

No pri­meiro texto que as­si­nei neste es­paço, re­co­men­dei o filme “O Mi­la­gre de Berna” an­tes mesmo de tê-lo visto con­fi­ando na crí­tica, que o ci­tou como uma das me­lho­res re­pro­du­ções de um jogo de fu­te­bol.

Re­al­mente, a re­cons­ti­tui­ção da fi­nal da Copa de 1954, ven­cida pela Ale­ma­nha, im­pres­si­o­nou. O hún­garo Pus­kas ga­nhou um só­sia e tanto. O ir­ri­tante re­curso de fil­mar ca­ne­las apa­rece pouco, mas os efei­tos es­pe­ci­ais não com­bi­nam com uma par­tida de meio sé­culo atrás. Em re­sumo, passa. Con­ti­nuo re­co­men­dando.

Ape­sar de mui­tos ve­rem exa­gero na­ci­o­na­lista, não vejo como ser di­fe­rente, pois aquele Mun­dial sim­bo­li­zou o re­nas­ci­mento dos ger­mâ­ni­cos, des­truí­dos pela guerra mo­ti­vada por eles mes­mos.

En­tre­tanto, o ver­da­deiro mi­la­gre – o de ha­ver um filme muito bem feito so­bre fu­te­bol – já ha­via acon­te­cido. Em 1998, Ugo Gi­or­getti di­ri­giu “Bo­lei­ros: Era Uma Vez o Fu­te­bol”. Sen­sa­ci­o­nal.

Es­tava tudo lá: o bo­teco, a cer­veja, os cau­sos, a bola. Sem pi­e­guice, foi fundo no maior drama do bo­leiro, que é pa­rar de jo­gar. Os lan­ces de jogo – que eu tanto so­nho ver re­tra­ta­dos com fi­de­li­dade no ci­nema (como é o fu­te­bol ame­ri­cano em “Um Do­mingo Qual­quer” e “Du­elo de Ti­tãs”) – não são lá es­sas coi­sas, mas quem se im­porta? “Bo­lei­ros” tem o cheiro do gra­mado mo­lhado, pois apela ao ima­gi­ná­rio, como faz o pró­prio fu­te­bol.

A es­pera foi longa até a seqüên­cia do filme, pro­du­zida em 2005. Ainda está lá o trei­na­dor tur­rão vi­vido por Lima Du­arte, com seus pa­la­vrões ita­li­a­na­dos. Im­pe­cá­vel. O me­lhor mo­mento do longa. 

“Bo­lei­ros 2: Ven­ce­do­res e Ven­ci­dos” passa a sen­sa­ção de es­tar fal­tando algo, mas é co­var­dia com­pa­rar com o pri­meiro. E, com so­bras, me­rece ser re­co­men­dado. Ainda mais se pen­sar­mos em re­cen­tes pro­du­ções bra­si­lei­ras de­sas­tro­sas.

“Zico – O Filme” ti­nha tudo para ser uma linda ci­ne­bi­o­gra­fia, pelo bri­lhan­tismo do he­rói em ques­tão, mas ju­dia do es­pec­ta­dor. Dá a im­pres­são de que quem fez en­tende pouco de fu­te­bol, ao pri­o­ri­zar a dra­ma­ti­za­ção – com um ator perna de pau. 

Em “Gar­rin­cha – A Es­trela So­li­tá­ria”, o único mé­rito está na im­pres­si­o­nante ca­rac­te­ri­za­ção de Taís Araújo como Elza So­a­res. Me­lhor fi­car com o li­vro de Ruy Cas­tro.

O erro nos fil­mes des­ses dois cra­ques não se re­pe­tiu em “Pelé Eterno”. A es­trela é o pró­prio Pelé – ex­ce­ção feita à re­cons­ti­tui­ção do gol de placa do Ma­ra­canã e à sua in­fân­cia em Bauru.

Do­cu­men­tá­rio bem feito, com ro­teiro de José Ro­berto To­rero. Pena que Ed­son Aran­tes do Nas­ci­mento não é tão bom quanto Pelé. 

En­tre ou­tros pro­ble­mas, o lan­ça­mento do filme foi adi­ado para ser omi­tido, na edi­ção, o gol de Gér­son na go­le­ada so­bre a Itá­lia, na fi­nal da Copa de 1970. Tudo por­que o Ca­nho­ti­nha ha­via cri­ti­cado uma opi­nião de Pelé dias an­tes. Ati­tude pe­quena para um Rei. 

En­tre es­sas e ou­tras, pelo me­nos o maior jo­ga­dor de to­dos os tem­pos fi­cou eter­ni­zado. To­das as ge­ra­ções po­de­rão com­pro­var que não houve – nem ha­verá – al­guém como ele den­tro de campo.

O que há de co­mum en­tre os fil­mes na­ci­o­nais so­bre fu­te­bol? Bi­lhe­te­rias va­zias. Como afir­mei em ou­tro ar­tigo, bra­si­leiro não con­some fu­te­bol.

E-mail: fernando_bh@yahoo.com.br

Compartilhe