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mendigo - Texto de Thiago Roque

domingo, 9 de setembro de 2007 Texto de

Des­pre­za­do, o ca­ri­nho co­me­çou a be­ber.

Vod­ca e uís­que, ca­da um no seu co­po, ora com ge­lo, ora do jei­to que vi­nha.

Que­ria es­que­cer a dor de não ser mais lem­bra­do, de não es­tar mais no to­que dos apai­xo­na­dos, no abra­ço dos ami­gos, no bei­jo das fa­mí­li­as.

Fo­ra de mo­da, bra­da­vam. Não aces­sa­va a in­ter­net, não ti­nha Or­kut, não sa­bia o que é wi­re­less...

No co­me­ço, pen­sou que três di­as bê­ba­dos se­ri­am su­fi­ci­en­tes.

Ho­je, com­ple­tam-se três anos.

Anes­te­si­a­do, rou­pa ras­ga­da, to­do mi­ja­do, o ca­ri­nho pe­ram­bu­la pe­las ru­as.

Ca­ra fe­cha­da, bar­ba com­pri­da, ca­be­lo des­gre­nha­do. Nem de lon­ge lem­bra o ga­lã que fa­zia su­ces­so en­tre os sen­ti­men­tos.

Al­guns ain­da o re­co­nhe­cem – e ele cho­ra. Mas, via de re­gra, as pes­so­as pas­sam ba­ti­do pe­lo mi­se­rá­vel.

Ele ain­da so­fre.

A be­bi­da não é mais tão for­te as­sim. A aguar­den­te que di­vi­de com o es­que­ci­men­to, co­le­ga de ban­co de pra­ça, não con­se­gue mais apa­gar as lem­bran­ças, que cor­tam ca­be­ça e co­ra­ção fei­to foi­ce da mor­te.

Mor­te que ele abo­mi­na­va. Que, ho­je, ele de­se­ja.

E ela só es­pia de lon­ge. E ri.

Ao ca­ri­nho, res­ta men­di­gar: pão, água, aten­ção, sor­ri­so.

Ele es­tá sem­pre no fa­rol da ave­ni­da prin­ci­pal. A cai­xa de do­ces na mão es­quer­da é só pra dis­far­çar.

O que ele quer mes­mo é ver amor sin­ce­ro. Uma fa­gu­lha que se­ja. Um bei­jo na tes­ta.

Mas o si­nal ver­de sem­pre abre mui­to de­pres­sa.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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