Contos

Vinte contos

domingo, 9 de setembro de 2007 Texto de

– Pai, os ho­mens.

O pri­meiro al­vor da ma­nhã infiltra-se em meio aos sar­ra­fos en­ver­ga­dos pelo peso da lona, quando Jus­ti­ni­ano em­purra para o lado a col­cha sur­rada e senta-se na bei­rada do ca­tre. Como nos ou­tros dias de mui­tos anos de seus ses­senta e pou­cos, as do­res nas cos­tas erguem-se com ele. Mira a fi­lha e por um ins­tante toma-o um so­bres­salto. A me­nina, agora en­tre os quinze e os de­zes­seis, pa­rece ter pros­pe­rado em suas car­nes da noite para o dia. Den­tro de um ves­tido mal­tra­tado, em­bora bem limpo e pas­sado, perfaz-se em fei­ções de mu­lher pronta, o colo abun­dante e as an­cas far­tas. Como se dera aquilo?

– Os ho­mens vêm vindo, pai.

Ju­li­ana toma a mão di­reita do ve­lho e beija-a nas cos­tas.

– A sua bên­ção.

Jus­ti­ni­ano lembra-se de Ju­li­ana ainda muito pe­quena; aliás, desde que veio ao mundo. Com três fi­lhos ho­mens já graú­dos, ele e a fi­nada Ju­dite nem mais gos­ta­vam de dar à luz ou­tra cria, mas a me­nina re­ben­tou as­sim mesmo. Adi­ante dos qua­renta, a mãe re­a­giu com vi­gor aos tra­ba­lhos do parto. Fo­ram para frente.

– A água está quase pronta.

Ju­li­ana bandea-se para o ou­tro lado da cor­tina de pano. O pai ouve o ruído do alu­mí­nio. Pela trans­pa­rên­cia do te­cido que se­para o quarto e a pe­quena co­zi­nha, des­co­bre o fo­ga­reiro aceso. Na sua mente, en­tão, surge Ju­dite à beira do fo­gão de le­nha, numa ma­nhã­zi­nha qual­quer da­que­les tem­pos, fer­vendo um bule de água. O ver­me­lhão frio vai es­quen­tando e logo re­flete o cla­rão das bra­sas, até disso ele se lem­bra. À mesa de ma­deira ta­lhada com es­mero, ele es­pera mas­ti­gando o pão mo­reno do forno de barro.

De­pressa, ele fe­cha os olhos e num re­pente sucede-se um aroma pra­ze­roso de café fresco.

– Está aqui pai, tome.

Abre os olhos, abrupto, com o cheiro ainda im­preg­nado nas na­ri­nas pe­lu­das, e es­tira o braço à frente para ar­re­ba­tar a ca­neca que Ju­li­ana lhe serve. Leva-a à boca, mas ali só há chá, só um chá que ele sorve sob a nos­tál­gica fra­grân­cia.

– Bebe, que está quen­ti­nho.

Ele bebe. E en­quanto bebe, vira-se para o lado. Ali, bem perto dele, abrem-se fres­tas que anun­ciam as ga­lha­das de fora. Faz de conta que são pés de café. Pode mesmo vis­lum­brar os pe­que­nos grãos ver­me­lhos que jun­tos en­ver­gam os ra­mos na época da co­lheita. Se olhasse bem, se­ria ca­paz de ver es­cor­rer, por en­tre os de­dos com­pri­dos e en­ru­ga­dos que se­gu­ram a ca­neca de chá, o caldo da­que­las se­men­tes.

– Aca­bou, pai?

Jus­ti­ni­ano de­volve a ca­neca à fi­lha. Está pronto para levantar-se de vez. Busca numa ca­deira ao lado a calça e a ca­misa. As bo­tas e as meias dor­mem em­baixo da cama. Veste-se de­va­gar. De uns anos para cá, acorda com ver­ti­gem dia sim, dia não. Acautela-se para não cair e dar mais tra­ba­lho à fi­lha. Ju­li­ana vai lá fora um ins­tante. Lava-se na ba­cia e re­nova a água para o pai.

– O se­nhor está pronto?

O sol já des­ponta em meio à ne­blina es­pessa da­quela bai­xada, num dos ex­tre­mos da ci­dade, quando Jus­ti­ni­ano ar­queia o es­pi­nhaço para ven­cer a porta de va­ras. Na rua em frente, dois ou três ca­va­los apressam-se aos maus tra­tos de um me­nino de pouca idade que os toca cheio de bir­ras. O ve­lho es­taca en­tre o bar­raco e a ba­cia de água, e pisa na grama como se o fi­zesse anos an­tes, em com­pa­nhia de Ja­cinto, o fi­lho mais ve­lho. Lá es­tão os dois no es­tá­bulo, es­co­vando os ani­mais, dando-lhes mi­lho do paiol sem­pre cheio, aparando-lhes a crina.

– Quer mais água, pai?

Ju­li­ana veste-se lá den­tro, apro­vei­tando a saída do pai. Jus­ti­ni­ano encontra-se com a va­si­lha de lata. Leva às mãos à água fria e faz com que ela es­corra pelo rosto. Numa fra­ção de se­gundo, seus pen­sa­men­tos voam: Ju­dite está bem ao seu lado, a to­a­lha branca com bor­da­dos nas ex­tre­mi­da­des pou­sada so­bre os bra­ços. Mas não há tempo de apanhá-la. Muito de­pressa Ju­dite se vai, as­sim como ocor­rera dez anos an­tes. Tão de­pressa ela par­tiu, to­mada por um des­ses ata­ques do co­ra­ção, que não houve tempo de dizer-lhe adeus.

– So­brou um pouco de chá, o se­nhor quer?

Volta, a pas­sos ler­dos, em di­re­ção ao bar­raco. Meia dú­zia de cri­an­ças cruza a rua a ca­mi­nho da es­cola. No meio de­las, Jus­ti­ni­ano avista Je­ri­valdo e Ja­nuá­rio, os gê­meos que gos­ta­vam de ler e es­cre­ver. Os dois, ainda pe­que­nos, se­gu­ra­vam os ca­der­nos em­baixo dos bra­ços e to­ma­vam o rumo. Aos pou­cos, a al­ga­zarra dilui-se. O sol co­meça a su­bir, a cer­ra­ção cede pouco a pouco.

– Va­mos dei­xar a lona?

O en­ce­rado preto tem dois gran­des re­men­dos e ou­tros me­no­res. Só a me­tade presta, e nela Jus­ti­ni­ano fixa-se para lembrar-se dos amon­to­a­dos de café nos ter­rei­ros. À tar­de­zi­nha, quando a chuva ame­a­çava, ele e Ja­cinto es­ti­ca­vam as lo­nas.

– Acho que é bes­teira le­var isso, pai.

En­tra no bar­raco, curvando-se no­va­mente e desta vez ge­mendo por causa da dor nas cos­tas. Na noite an­te­rior, Ju­li­ana ha­via jun­tado os alu­mí­nios e a pouca louça numa caixa de pa­pe­lão que ela já içara so­bre o ta­blado de ma­deira da co­zi­nha. As rou­pas, os do­cu­men­tos e os pa­nos ti­nham sido guar­da­dos num ve­lho baú. Com a ajuda da fi­lha, Jus­ti­ni­ano arrasta-o para fora. Senta-se em cima dele para des­can­sar um pouco do es­forço re­pen­tino. Tam­bém agora é como se fos­sem nou­tros tem­pos. O baú, que fora do avô e de­pois do pai, se­gue firme. Foi sen­tado ali que Jus­ti­ni­ano ou­viu uma con­versa que re­fres­cava sua me­mó­ria como um jo­vem de vinte anos. Não se lem­bra se fora o pai ou o avô, mas um dos dois re­ce­bera uma pro­posta para ven­der suas ter­ras, ao que res­pon­deu de su­pe­tão com uma ne­ga­tiva. Olha que são mui­tos con­tos, aler­tou o pro­po­nente. Nem por vinte con­tos, respondeu-lhe o an­te­pas­sado de Jus­ti­ni­ano.

– Acho que não es­que­ce­mos de nada, o se­nhor se lem­bra?

Recorda-se ape­nas dos vinte con­tos. Quanto va­le­riam vinte con­tos hoje? Dez anos an­tes, ao en­tre­gar ao banco sua pro­pri­e­dade a troco das dí­vi­das que se avo­lu­ma­vam dia a dia, Jus­ti­ni­ano tam­bém lembrou-se dos vinte con­tos. Se os ti­vesse, ou o equi­va­lente, de­certo re­sol­ve­ria aquela pen­dên­cia. E tan­tas ve­zes mais vieram-lhe às idéias os vinte con­tos: quando per­deu um dos gê­meos por causa de do­ença grave e cara, quando o ou­tro foi-se em­bora para bem longe bus­car a sorte e ele nada pôde fa­zer, quando olhava para Ju­li­ana, que pas­sava a ju­ven­tude tão dis­tante de uma boa fe­li­ci­dade, em to­das es­sas oca­siões inquietavam-no os vinte con­tos. E agora, quando o ca­mi­nhão en­costa para car­re­gar seus tras­tes, não há no­va­mente como fu­gir de seu fan­tasma: os vinte con­tos.

– Os ho­mens, pai.

Jus­ti­ni­ano apruma-se e cum­pri­menta os ra­pa­zes que, vi­go­ro­sos, ra­pi­da­mente ajei­tam os ca­ca­réus so­bre a car­ro­ce­ria. Ali tam­bém so­bem pai e fi­lha e juntam-se a ou­tras fa­mí­lias que se­guem o mesmo rumo. Ju­li­ana faz o si­nal da cruz, en­quanto o pai, aper­tando o cha­péu, apóia-se na ma­deira do ca­mi­nhão para avis­tar pela úl­tima vez o bar­raco onde mo­ra­ram quase um ano à es­pera do as­sen­ta­mento. É cu­ri­oso, pensa o ve­lho, tan­tos dias pas­sa­dos aí den­tro e nunca me dei conta de como é triste mo­rar as­sim. Os sar­ra­fos tor­tos co­ber­tos pela lona fu­rada de­sa­pa­re­cem na curva lá atrás, a po­eira vem su­bindo.

Dali a meia hora, des­cem na área des­ti­nada às fa­mí­lias recém-assentadas. O sol já vai alto, e Jus­ti­ni­ano sente o suor es­cor­rer por de­baixo das man­gas lon­gas da ca­misa. Uma fer­ro­ada trespassa-lhe o peito de prin­cí­pio e, se não re­busca um pouco da va­len­tia de ou­tras épo­cas, se­ria mesmo o caso de cho­rar di­ante de Ju­li­ana e dos ou­tros. Há para ele algo com o que não se con­forma: a morte do fi­lho mais ve­lho. De­pois que per­de­ram as ter­ras, Ja­cinto era quem ti­nha o com­bus­tí­vel para animá-los a bus­car no­vos ca­mi­nhos. Ainda jo­vem e ro­busto, nada era ca­paz de desanimá-lo, nem mesmo a falta de pers­pec­ti­vas no campo. Um dia, ha­ve­re­mos de ter um pe­daço de chão ou­tra vez, di­zia ao pai. E foi nessa luta que Ja­cinto tom­bou. Afoito, se­dento pela terra, viu-se ba­le­ado no meio de um con­flito.

Ali, en­quanto o pes­soal do go­verno or­ga­niza a che­gada dos sem-terra, Jus­ti­ni­ano pensa com an­gús­tia em sua fa­mí­lia de cam­po­ne­ses, nas ter­ras que la­vrara em to­dos os seus anos, nas co­lhei­tas, na co­mida farta à mesa, nos fi­lhos cri­a­dos com a força de seu tra­ba­lho, na com­pa­nhia de Ju­dite. Pensa com raiva nos úl­ti­mos tem­pos, em que per­deu a mu­lher e os três fi­lhos, dois para a morte e um para a vida. E, pen­sando as­sim, de­seja abater-se na­quele mesmo ins­tante e ja­zer em cima da­quela terra quente que ele não co­nhece. Mas, nisso, en­quanto en­saia enfiar-se na bar­riga o pu­nhal que sem­pre car­rega preso a uma das bo­tas, en­quanto mal­diz men­tal­mente sua vida es­tra­gada, sente a mão quente de Ju­li­ana apoiar-se em seu braço trê­mulo pe­las in­cer­te­zas da­quela hora. Vê Ju­li­ana ati­nar longe para aque­les cam­pos pron­tos para se­rem la­vra­dos e se­me­a­dos, vê a fi­lha sus­pi­rar ali­vi­ada ao certificar-se da exis­tên­cia de uma pe­quena casa de al­ve­na­ria, vê na­quele rosto de mu­lher a von­tade de vi­ver e de lu­tar. Vê, num re­pente, sur­gi­rem di­ante de seus olhos as ní­ti­das ima­gens da­que­les que um dia se fo­ram. Lá es­tão Ju­dite e os fi­lhos ou­tra vez. Sim, eles es­tão lá, como se o es­pe­ras­sem para um novo co­meço. Até sor­riem para ele. As­sim é que Jus­ti­ni­ano, sem os vinte con­tos ou ne­nhum ou­tro conto, es­quece o pu­nhal, de­sa­fia as do­res nas cos­tas e, voltando-se para a casa que será sua, cinge à fronte o ve­lho cha­péu, e a pas­sos lar­gos e fir­mes lança-se à frente. Ju­li­ana, logo atrás, pre­cisa cor­rer, en­tre sor­ri­dente e ad­mi­rada:

– O se­nhor não me es­pera?

Mas Jus­ti­ni­ano, com o ím­peto de um fe­liz, mal pode ouvi-la.

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