Contos

Boletim de ocorrência

quinta-feira, 16 de agosto de 2007 Texto de

1

Com certa di­fi­cul­dade, ela se vi­rou para o meu lado e me pre­gou um olhar de fome, mas não era o olhar las­civo, não era a fome de sem­pre. Era ou­tra fome… Eu po­de­ria co­me­çar as­sim. Ou di­zendo que o fo­ci­nho frio da vaca res­va­lando em mi­nha bunda nua me fez au­men­tar o ritmo do sexo. E que por conta desse con­tato ines­pe­rado e inu­si­tado, tam­bém mordi in­vo­lun­ta­ri­a­mente o pes­coço de Jú­lia… Tam­bém se­ria ade­quado no iní­cio con­fes­sar que as his­tó­rias que se pas­sam no mar e em seus ar­re­do­res com­põem meu re­per­tó­rio fa­vo­rito. “O ve­lho e o mar”, “Moby Dick”, “No co­ra­ção do mar” e “A carta es­fé­rica” es­tão en­tre meus li­vros pre­fe­ri­dos…

No en­tanto, a des­peito de to­das as si­tu­a­ções acima se ade­qua­rem per­fei­ta­mente a este meu re­lato (sim, é ape­nas um re­lato, pois ape­nas disso sou ca­paz), não é as­sim que vou co­me­çar.

Neste prin­cí­pio, quero tra­çar al­gu­mas li­nhas que com­bi­nem mais com nos­sas per­so­na­li­da­des e com nosso mo­derno es­tilo de vida, que tal­vez se apre­sen­tem como um de­sa­fio a você, em­bora sai­ba­mos que qual­quer res­posta de sua parte a algo as­sim nunca pas­sará de um sim­ples pen­sa­mento, no má­ximo um res­mungo qual­quer. Mas, as­sim mesmo, aí vai. 

Você pode di­zer que já fez sexo em mil lu­ga­res, em tan­tas po­si­ções que até per­deu a conta; você pode con­tar quan­tas van­ta­gens qui­ser; en­tre­tanto, es­teja certo disto: di­fi­cil­mente você le­vou suas aven­tu­ras a fron­tei­ras tão ar­ris­ca­das e ex­ci­tan­tes ca­pa­zes de, num só ins­tante, trans­for­mar pra­zer em dor, eu­fo­ria em frus­tra­ção, fe­li­ci­dade em tra­gé­dia, vida em morte. 

Dito isso, detenho-me a um de­ta­lhe bas­tante ín­timo, mas que a esta al­tura dos acon­te­ci­men­tos, já pouco me im­porta que você saiba: às ve­zes, acho que Jú­lia está muito pró­xima de ser uma nin­fo­ma­níaca. Em ou­tras, passa pela mi­nha ca­beça a cer­teza de sua ab­so­luta nor­ma­li­dade, já que seus atos se tra­tam nada mais nada me­nos do que a ex­ten­são de de­se­jos en­car­ce­ra­dos na mente da mai­o­ria das mu­lhe­res, ge­ral­mente de­sen­co­ra­ja­das pela vida a as­su­mir tais ati­tu­des.

Pois é ela quem dá as car­tas em nossa re­la­ção. Não sei di­zer se isso acon­tece por­que ela é mais ve­lha ou se esse as­pecto nada tem a ver com sua as­cen­dên­cia so­bre mim e na ver­dade a ex­pli­ca­ção surge sim­ples­mente a par­tir da con­jun­ção de nos­sos es­pí­ri­tos, o dela mais ex­pan­sivo e de­ci­dido, o meu um tanto ca­rente de es­tí­mulo para fi­nal­mente pe­gar fogo. 

Nós nos co­nhe­ce­mos no ano pas­sado, nas fé­rias de ju­lho, num cru­zeiro pelo Atlân­tico, e desde en­tão ti­ve­mos a cer­teza da ne­ces­si­dade de fi­car­mos jun­tos. A gente se ama muito, certo? Eu es­tava com meus pais e ela, com ami­gos. Foi ali, note bem: no mar, que tudo co­me­çou.

Houve uma atra­ção ir­re­sis­tí­vel à pri­meira vista. Eu me lem­bro que es­tá­va­mos à beira da pis­cina, o na­vio con­tor­nando len­ta­mente a costa, o sol fer­vendo o am­bi­ente, quando tro­ca­mos uns olha­res e, en­tão, ne­nhum dos dois teve como es­ca­par.

Eu sei que os ami­gos dela an­da­ram de go­za­ção co­migo por causa de mi­nha pouca idade, mas dei de om­bros e, com cer­teza, ela tam­bém. Devo di­zer aqui que desde os quinze ou de­zes­seis anos eu posso me con­si­de­rar um ho­mem feito. A pre­sença de uma ga­rota de 22 anos à época em que eu ti­nha 18 não meu as­sus­tou nem um pouco. 

Se­ria pre­ci­pi­ta­ção lhe con­tar o que se pas­sou logo na pri­meira noite em que nos co­nhe­ce­mos? Bom, nós tran­sa­mos numa bei­rada do na­vio, ba­nha­dos por um pá­lido luar. Ló­gico que nós po­día­mos ter ido à ca­bine dela, mas não. Desde aquele mo­mento, senti a ex­ci­ta­ção de fa­zer sexo pe­ri­go­sa­mente.

De­pois, em terra, fo­ram tan­tas es­ca­pa­das ab­sur­das que o con­teúdo da­ria um li­vro eró­tico. Vou ci­tar ape­nas al­gu­mas, ne­ces­sá­rias para que você com­pre­enda o que nos le­vou a esta ter­rí­vel si­tu­a­ção.

Jú­lia é apai­xo­nada por es­por­tes, quase sem­pre ra­di­cais, e a cada nova si­tu­a­ção vi­vida, ela su­gere que in­clu­a­mos o sexo no ro­teiro. E as­sim já es­ti­ve­mos em meio à su­jeira de um cur­ral, onde aquela vaca branca de fo­ci­nho frio bis­bi­lho­tou mi­nha bunda; em cima de uma ár­vore com as pes­soas pas­se­ando logo abaixo; no lombo de um ca­valo numa tri­lha eqües­tre; den­tro de um jipe em pleno rali; num salto de pára-quedas, os dois nus lá em cima. 

To­das es­sas ex­pe­ri­ên­cias, ga­ranto, aca­ba­ram bem. Esta úl­tima, no en­tanto, esta à qual me de­te­rei em se­guida, foi a que nos jo­gou neste pe­sa­delo que, à mão, e num ve­lho ca­derno de ano­ta­ções que por­ven­tura car­rego em mi­nha mo­chila, ten­ta­rei des­cre­ver, em­bora sem sa­ber que pro­veito você possa ti­rar disso.

2

Há uma se­mana, Jú­lia me pro­cu­rou es­ba­fo­rida: des­co­brira por acaso, por meio de um amigo, um lu­gar fan­tás­tico para pra­ti­car ra­pel. Ela é ma­luca por ra­pel e, tal­vez por isso, tal­vez por causa desse ím­peto amo­roso que nos une, de uns tem­pos para cá eu tam­bém pas­sei a gos­tar. Ela me olhou as­sim, as­sim, com um jeito ma­roto que logo me fez com­pre­en­der o ta­ma­nho in­te­resse.

Por conta dos lu­ga­res quase sem­pre bas­tante freqüen­ta­dos pe­los adep­tos dessa prá­tica es­por­tiva, ja­mais ti­ve­mos a chance de “ba­ti­zar”, como ela cos­tuma di­zer, esse tipo de aven­tura. Muito de­pressa, explicou-me que o lu­gar des­co­berto por ela se tra­tava de um pa­re­dão numa ilha a uns vinte quilô­me­tros da ci­dade, mas que fi­cava a pouca dis­tân­cia da costa. 

Uma ilha? Não sei di­zer o porquê, mas, ape­sar da ex­ci­ta­ção que me do­mi­nou quando pen­sei em fa­zer sexo com Jú­lia pen­du­rado numa corda, um certo re­ceio tam­bém se apo­de­rou de mim quando ima­gi­nei a ne­ces­si­dade de nos iso­lar­mos numa ilha. Ló­gico que mi­nha na­mo­rada, toda cheia de lá­bia, não de­mo­rou nem um pouco a me con­ven­cer. Além do mais, eu não po­de­ria impedi-la caso ela qui­sesse ir só. Nossa re­la­ção mo­derna, li­vre de amar­ras hi­pó­cri­tas di­ta­das pela so­ci­e­dade an­ti­quada, im­pede na­tu­ral­mente esse tipo de com­por­ta­mento pos­ses­sivo de um ou de ou­tro. Tam­pouco po­de­ria fi­car longe dela numa aven­tura dessa. Quero es­tar com ela nos gran­des mo­men­tos de sua vida, e nin­guém me­lhor do que eu para sa­ber que es­sas aven­tu­ras fa­zem parte, ao me­nos hoje em dia, de seus mo­men­tos mais im­por­tan­tes.

Na an­te­vés­pera de Na­tal, saí­mos bem cedo, o sol ainda des­pon­tando bem fraco no ho­ri­zonte. Pelo jeito, o dia se­ria de tempo bom. Me­nos mau, pen­sei sem di­zer isso a ela. Na ver­dade, nunca me senti à von­tade para de­mons­trar qual­quer tipo de he­si­ta­ção a uma pes­soa tão de­ci­dida como Jú­lia. Além disso, eu não que­ria es­tra­gar a per­fei­ção de nossa quí­mica. Nunca um ou ou­tro re­jei­tou pro­posta para qual­quer aven­tura. So­mos muito avan­ça­dos para ce­der a bo­ba­gens como pres­sen­ti­men­tos ou te­mo­res in­fun­da­dos.

No dia an­te­rior, tam­bém com a ajuda do tal amigo, ela já ha­via alu­gado um barco por te­le­fone num lu­ga­rejo perto da ilha. Che­ga­mos lá em mi­nha moto. Um su­jeito de pou­cas aten­ções pe­diu o di­nheiro adi­an­tado e in­di­cou onde o bote es­tava an­co­rado. Aliás, um bar­qui­nho que não me ins­pi­rou a me­nor con­fi­ança, mas a ilhota pa­re­cia re­al­mente ser bem pró­xima à costa e isso afas­tou ou­tros pen­sa­men­tos ruins de mi­nha mente. 

O mar es­tava sim­ples­mente calmo. O sol, muito quente. Dei­xa­mos a moto num es­ta­ci­o­na­mento pró­ximo, ati­ra­mos nossa tra­lha so­bre a em­bar­ca­ção e ru­ma­mos para a ilha. Já bem perto, Jú­lia sol­tou um grito de eu­fo­ria. Podia-se ver que o pe­nhasco era fa­bu­loso: do topo, pen­dia um pa­re­dão quase na ver­ti­cal, ex­ce­lente para o ra­pel. Mais abaixo, quebrava-se em ro­chas co­ber­tas por lon­gas fo­lha­gens e de cu­jas fen­das, em vá­rios pon­tos, es­cor­riam fios de água, to­dos bri­lhan­tes à luz so­lar, até o sopé, onde as on­das se es­pa­ti­fa­vam com certo ba­ru­lho.

Cal­cu­lei: ha­ve­ria ali, somando-se a des­cida ver­ti­cal ao res­tante, uns du­zen­tos me­tros de ex­ten­são, em­bora a al­tura não che­gasse a tanto. Pro­cu­ra­mos um acesso ade­quado ao bar­qui­nho e em pou­cos mi­nu­tos es­tá­va­mos pi­sando terra firme fora do con­ti­nente. Não pa­re­cia ha­ver gente. E isso era bom. 

A ilha é pe­quena, quase se com­pleta com a massa de pe­dra que com­põe o monte. En­tre as pri­mei­ras ro­chas e o mar, contam-se não mais que dez pas­sos, e as­sim mesmo na parte mais aces­sí­vel, a leste. O pa­re­dão, na parte oeste, mer­gu­lha di­reto na água. 

De­pois de ajei­tar­mos o barco, fo­mos pro­cu­rar uma pas­sa­gem aces­sí­vel à su­bida, e a en­con­tra­mos fa­cil­mente. Em quinze mi­nu­tos, no má­ximo, che­ga­mos ao cume. 

Desculpe-me se avanço rá­pido em de­ma­sia, omi­tindo pas­sa­gens que po­de­riam ilus­trar ainda mais a nossa re­la­ção de ab­so­luta pai­xão e de­sejo, mas tam­bém penso ser um equí­voco im­por a este re­lato con­tor­nos de exa­ge­rado ero­tismo. Basta a você sa­ber isto: o jeito que nos ama­mos es­ta­be­lece en­tre nós um vín­culo que ex­clui tudo o mais ao nosso re­dor.

Esta aven­tura, saiba você, co­me­çou e con­ti­nua sem que nos­sas fa­mí­lias des­con­fiem deste pro­pó­sito. Mas isso tam­bém pode ser per­fei­ta­mente dis­pen­sá­vel à sua lei­tura. Neste ins­tante, acre­dito ser mais ho­nesto lhe con­fes­sar algo cru­cial ao texto: se es­crevo muito, cer­ta­mente me fal­tará o pa­pel.

3

Pelo meio da ma­nhã, de­pois de ava­li­ar­mos as con­di­ções cli­má­ti­cas, o re­levo do pa­re­dão e a com­po­si­ção de suas ro­chas, meu ânimo cres­ceu bas­tante. Ao con­trá­rio do que eu ima­gi­nara em se­gredo, po­día­mos des­cer em to­tal se­gu­rança. Nisso, olhei lá longe e ob­ser­vei um na­vio dos gran­des. Ele na­ve­gava rumo ao alto mar, com­pondo uma pai­sa­gem bo­nita num ho­ri­zonte in­cri­vel­mente claro. Senti uma imensa fe­li­ci­dade por es­tar ali com a pes­soa que eu amo. 

Pas­sa­mos a con­fe­rir nos­sos equi­pa­men­tos. As cor­das, os mos­que­tões, os freios oito, as ca­dei­ri­nhas, tudo em or­dem. À me­dida que nos apron­tá­va­mos, uma ex­ci­ta­ção ex­tra cres­cia em nós. Fi­quei ima­gi­nando como se­ria ex­tra­or­di­ná­rio tran­sar ali, acom­pa­nhando o leve ba­lanço das cor­das, vis­lum­brando o mar aberto à nossa frente, sen­tindo na pele a brisa morna e res­pi­rando o ma­ru­lho.

To­dos es­ses as­pec­tos eram es­ti­mu­lan­tes de­mais para nos man­ter­mos no topo. En­tão, co­me­ça­mos a des­cer. Nossa in­ten­ção era es­ca­lar a ex­ten­são ver­ti­cal do pa­re­dão e só “ba­ti­zar” o ra­pel quando a in­cli­na­ção das ro­chas se tor­nasse um pouco mais fa­vo­rá­vel ao nosso pro­jeto. Fo­mos tra­ba­lhando lado a lado. A vi­são re­al­mente mostrava-se exu­be­rante. Tal­vez esse te­nha sido um dos mo­ti­vos para nossa de­sa­ten­ção num mo­mento cru­cial da es­ca­lada.

Pouco an­tes de con­cluir­mos a pri­meira fase da des­cida, um nó mal feito rompeu-se no equi­pa­mento de Jú­lia e ela cer­ta­mente iria abaixo caso não es­ti­vés­se­mos tão pró­xi­mos. Num rá­pido im­pulso eu a am­pa­rei junto ao pa­re­dão, mas dessa vez foi a mi­nha corda que não su­por­tou sus­ten­tar os dois. Coisa de ama­do­res, com toda a cer­teza.

A ver­dade é que desde o iní­cio, desde que fi­ze­mos as pri­mei­ras aven­tu­ras de ra­pel, nunca nos de­di­ca­mos a apren­der mi­nu­ci­o­sa­mente as téc­ni­cas dos nós, tam­pouco ou­vi­mos as re­co­men­da­ções so­bre a qua­li­dade ne­ces­sá­ria aos equi­pa­men­tos. En­fim, pa­ga­mos o preço. 

Quando num se­gundo per­cebi que des­li­za­ría­mos coisa de dois ou três me­tros até a jun­ção do pa­re­dão ver­ti­cal com vá­rias ou­tras ro­chas que ini­ci­a­vam um de­clive mais ameno, onde cer­ta­mente po­de­ría­mos frear a queda, se­gu­rei o corpo de Jú­lia com toda a mi­nha força. Cal­cu­lei que o má­ximo que po­de­ria nos acon­te­cer era uma ou ou­tra fra­tura de mem­bro, o que àquela al­tura não se­ria ne­nhuma tra­gé­dia.

Es­cor­re­ga­mos re­al­mente os pou­cos me­tros até as ro­chas sem nos fe­rir gra­ve­mente, mas o caso é que não pa­ra­mos ali. Na­quele ponto, as ro­chas es­ta­vam úmi­das, im­preg­na­das de um lodo verde liso que co­la­bo­rou para nos man­dar ainda mais abaixo. Con­forme es­cor­re­gá­va­mos, ten­tá­va­mos en­con­trar apoio em pe­que­nos ga­lhos que às ve­zes des­pon­ta­vam por en­tre as jun­ções das ro­chas, mas não foi pos­sí­vel.

De re­pente, sen­ti­mos algo abrir-se sob nos­sos pés. Pe­que­nos ci­pós co­briam a en­trada de uma gruta e não nos bar­ra­ram a pas­sa­gem. Por ali, en­tra­mos e, atra­vés de pa­re­des muito es­cor­re­ga­dias, fo­mos dar no fundo. Mi­nu­tos após a queda, quando nos cer­ti­fi­ca­mos de que os fe­ri­men­tos à pri­meira vista não eram gra­ves, pro­cu­rei ati­nar para a si­tu­a­ção. E era a se­guinte: tí­nha­mos caído numa gruta for­mada en­tre ro­chas que se jun­ta­vam abaixo do pa­re­dão ver­ti­cal. Da en­trada do bu­raco até o mar não res­ta­riam mais que vinte me­tros de al­tura. No en­tanto, o fundo da gruta fica a cerca de dez me­tros abaixo dessa en­trada. Isso levou-me a cal­cu­lar que ou­tros dez me­tros, tal­vez até me­nos, se­pa­ram o fundo da gruta do ní­vel do mar. Essa era a po­si­ção em que nos en­con­trá­va­mos quando caí­mos, há três dias. De lá para cá, a po­si­ção con­ti­nuou a mesma. Aqui es­ta­mos, no mesmo lu­gar.

4

Você deve es­tar se per­gun­tando: mas como? Fi­ca­ram pre­sos numa gruta? Logo no pri­meiro dia, ten­tei de­ses­pe­ra­da­mente su­bir até a en­trada, em­bora só nos res­tasse mi­nha mo­chila, que sal­vei da queda e onde não ha­via cor­das e equi­pa­men­tos su­fi­ci­en­tes para qual­quer es­ca­lada. Pro­cu­rei su­bir à unha, mas as pa­re­des des­tas ro­chas são li­sas como sa­bão.

O má­ximo que con­se­gui foi che­gar à me­tade do ca­mi­nho, de onde ber­rei até fi­car rouco na es­pe­rança de que al­guém pu­desse me ou­vir. Tam­bém re­co­lhe­mos vá­rias pe­dras pe­que­nas e as ati­ra­mos pela boca da gruta. Cer­ta­mente, elas des­li­za­ram até o mar e fi­ze­ram al­gum ba­ru­lho, mas pelo jeito não ha­via nin­guém para per­ce­ber algo as­sim.

Nos­sos te­le­fo­nes ce­lu­la­res perderam-se du­rante o aci­dente. Nada nos resta além de al­guns bis­coi­tos que es­ta­mos eco­no­mi­zando di­ante de nossa ter­rí­vel si­tu­a­ção. Eu ti­nha al­gu­mas fru­tas na mo­chila, mas já as co­me­mos. Uma sorte foi ter en­con­trado, numa pe­quena greta de nossa pri­são, um fio de água doce que es­corre em go­tas. Lambe-se muito ali na ten­ta­tiva de ma­tar a sede, mas o gosto ab­sor­vido da água e da ro­cha não é dos me­lho­res. Além do quê, é de­pri­mente ob­ser­var Jú­lia, e ela a mim, pas­sar ho­ras a fio à es­pera das go­tas que ro­lam len­ta­mente.

Bus­ca­mos apu­rar a au­di­ção es­pe­rando ou­vir al­gum barco que possa che­gar à ilha, mas o ruído das on­das quebrando-se na costa ro­chosa im­pede que te­nha­mos no­ção do que possa es­tar se pas­sando lá fora. 

On­tem à noite, de­pois de lem­brar­mos que era Na­tal e que nos­sas fa­mí­lias de­ve­riam es­tar à nossa pro­cura, pen­sei numa hi­pó­tese que me de­ses­pe­rou. Es­condi de Jú­lia, mas não é di­fí­cil ima­gi­nar que aquele su­jeito mal en­ca­rado do barco já po­de­ria nos ter sal­vado caso ti­vesse boas in­ten­ções. Se não vol­ta­mos no mesmo dia, como é que ele não deu conta de algo es­tra­nho? Ou­tra coisa: em três dias, nin­guém te­ria vindo à ilha e visto nosso barco?

Ima­gino que o des­gra­çado te­nha vindo e, não nos en­con­trando fa­cil­mente, le­vou em­bora a em­bar­ca­ção. Penso tam­bém que ele pode ter fi­cado com mi­nha moto. Essa gente é ca­paz de tudo. 

Jú­lia chora muito. Como três dias são ca­pa­zes de mu­dar uma pes­soa! Con­fesso que isso tem me ir­ri­tado um pouco, em­bora eu pro­cure não de­mons­trar. Ja­mais previ que ela po­de­ria ab­di­car tão fa­cil­mente de sua per­so­na­li­dade forte e de­ci­dida.

Agora há pouco, com certa di­fi­cul­dade, ela se vi­rou para o meu lado e me pre­gou um olhar de fome, mas não era o olhar las­civo, não era a fome de sem­pre. Era ou­tra fome. Ela quer co­mer, eu tam­bém. Dei a ela um dos úl­ti­mos bis­coi­tos. Acho que só te­mos mais dois, que co­me­re­mos mais tarde, à noite, quando a luz do dia, que já co­meça a se es­vair, aban­do­nar no­va­mente este bu­raco. Aliás, já é di­fí­cil en­xer­gar es­tas le­tras. Por isso, con­ti­nu­a­rei ama­nhã.

5

QUARTO DIA

Acor­dei sem sa­ber onde es­tava, com uma in­su­por­tá­vel von­tade de co­mer. On­tem à noite, como ha­via es­crito, aca­ba­mos com nossa ra­ção. Não há mais nada para co­mer aqui. Tam­bém in­co­mo­dam os cor­tes e le­sões cau­sa­dos pelo aci­dente, e a la­mú­ria in­ter­mi­tente de mi­nha na­mo­rada.

An­tes que ela des­per­tasse, fi­quei olhando para seu rosto can­sado, en­quanto um mau pen­sa­mento se apro­xi­mou: se não fosse por suas lou­cu­ras, nossa si­tu­a­ção se­ria ou­tra. Por al­guns ins­tan­tes me abor­reci. Os ca­pri­chos dela! Sem­pre os ca­pri­chos dela! E agora aí, dessa ma­neira, toda cho­rosa…

De­pois, quando ela co­me­çou a se me­xer, senti certa culpa. Que bo­ba­gem! Se eu a acom­pa­nho nes­sas aven­tu­ras é por­que tam­bém é meu de­sejo. Du­rante o dia, es­ti­ve­mos nos re­ve­zando en­tre a água mi­se­rá­vel que brota da pa­rede e as ter­rí­veis có­li­cas pro­vo­ca­das pela falta de ali­men­ta­ção.

Mais uma vez, ten­tei su­bir na di­re­ção da en­trada da gruta, mas em vão. Pior ainda: des­co­bri que es­tou bem mais fraco do que nos ou­tros dias. De­pois de al­gum es­forço, senti que meus bra­ços e mi­nhas per­nas tre­miam bas­tante. Tam­bém re­pe­ti­mos o ri­tual de to­das as ma­nhãs ao gri­tar­mos feito lou­cos es­pe­rando que al­guém nos ouça lá fora, mas nada. Da mesma ma­neira, sen­ti­mos nos­sas vo­zes mais fra­cas e um can­saço exa­ge­rado após o es­forço. Pas­sa­mos quase a tarde toda sen­ta­dos, en­cos­ta­dos um ao ou­tro, sem nem mesmo con­ver­sar­mos, pro­cu­rando re­ter o má­ximo de ener­gia pos­sí­vel.

6

QUINTO DIA

Fui acor­dado pe­los gri­tos de Jú­lia. O mar calmo per­mi­tiu, se­gundo ela, ou­vir o ba­ru­lho de um mo­tor de barco, tal­vez o nosso pró­prio sendo rou­bado, sei lá. Po­bre­zi­nha, seus gri­tos ser­vi­ram para me acor­dar, mas ja­mais se­riam ou­vi­dos por quem quer que fosse. Não eram mais gri­tos, eram ape­nas guin­chos, guin­chos de­ses­pe­ra­dos.

Acho que por conta do es­forço, ela vol­tou a dor­mir. Para mim, foi um alí­vio. Não posso me con­for­mar com essa fra­queza emo­ci­o­nal de Jú­lia. Ela não pa­rece ser a mu­lher que eu co­nheço tão bem. Se é para es­tar as­sim, por que em­pre­en­deu esta aven­tura? Por que nos ar­ris­cou dessa forma? 

Hoje não ten­tei su­bir até a boca da gruta. Meu ânimo mal me per­mite ir até o fio d’água que es­corre com ava­reza. Jú­lia pediu-me que lhe trou­xesse água na boca. Fiz que não a ouvi. Deu-me von­tade de dizer-lhe pou­cas e boas, ou­tra vez aquele de­sejo de des­pe­jar so­bre ela meu de­sa­bafo guar­dado, dizer-lhe que de­ve­ria ter sido mais co­me­dida em suas ações, coi­sas as­sim. Ras­guei um pe­daço de mi­nha roupa e o en­so­pei com a água bar­renta. Jú­lia me agra­de­ceu. Seus olhos es­tão tris­tes.

7

SEXTO DIA

Não sei di­zer se o dia está nu­blado ou se mi­nha vi­são já não cor­res­ponde à nor­ma­li­dade. Digo ape­nas que está mais es­curo aqui den­tro. Há pouco, uma pomba sen­tou, arisca, num dos ci­pós que atra­ves­sam lá em cima a boca da gruta. Jú­lia a viu e num ím­peto ergueu-se com os olhos es­bu­ga­lha­dos. Cu­ri­o­sa­mente, quando vi o pás­saro, surgiu-me uma idéia nada nova, a do pombo-correio, mas logo essa bo­ba­gem dissipou-se. As in­ten­ções de Jú­lia eram mais ra­zoá­veis. Se hou­vesse um modo de atrair aquele pe­daço de carne, nós o co­me­ría­mos de bom grado. Nem me ar­risco a di­zer que an­tes lhe ar­ran­ca­ría­mos as pe­nas.

8

OUTRO DIA

Dor­mi­mos um tempo que não mais po­de­mos me­dir. Era noite e de­pois já era noite ou­tra vez ou tal­vez ainda a mesma, não sa­be­mos ao certo, em­bora neste mo­mento te­nha­mos cer­teza de que es­ta­mos no pe­ríodo da tarde, pois a luz do sol ilu­mina di­re­ta­mente a parte su­pe­rior in­terna da gruta. Sendo o pa­re­dão vol­tado para oeste, o sol vai na des­cen­dente.

Jú­lia anda di­zendo pa­la­vras in­cer­tas, des­co­ne­xas, de­pois volta à cons­ci­ên­cia, al­tera pe­río­dos de juízo e in­sen­sa­tez. Hoje não re­sisti à ten­ta­ção e lhe disse o que ti­nha von­tade. Para re­su­mir, que ela é a cul­pada de tudo isto. Se eu não ti­vesse co­nhe­cido cer­tas pes­soas…

No en­tanto, meu es­forço para acusá-la foi em vão. Ela pa­re­ceu não ter com­pre­en­dido. Fi­quei ima­gi­nando se tam­bém não es­tou na mesma si­tu­a­ção. Quem sabe? Em ou­tra opor­tu­ni­dade, vol­tei à carga, re­peti as re­pri­men­das. Dessa vez, ela en­ten­deu. Tanto é que me res­pon­deu com cha­te­a­ções. Chamou-me de ga­roto mi­mado, veja se pode! Em res­posta, disse-lhe que en­tão, ao me con­si­de­rar um ga­roto mi­mado, ela mos­trava to­tal des­co­nhe­ci­mento a meu res­peito. Can­sada, ela ata­lhou: tal­vez.

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NOVO DIA

Des­per­tei com medo. Vi Jú­lia sen­tada, bem perto de mim, como se es­ti­vesse ve­lando meu sono, os olhos vi­dra­dos. Com a fome so­be­rana ru­mando para a ina­ni­ção, passou-me pela ca­beça algo que não te­nho co­ra­gem de con­fes­sar. Tal­vez esse tam­bém fosse o pen­sa­mento dela na­quela hora.

A par­tir dali, eu tento evi­tar que o sono me pe­gue an­tes dela. De­certo, ela tam­bém faz es­forço se­me­lhante. Perdoe-me se omito tan­tas coi­sas, in­clu­sive nos­sos freqüen­tes de­sen­ten­di­men­tos e o ódio cres­cente que nu­tri­mos um pelo ou­tro, o que torna ainda mais in­su­por­tá­vel esta pri­são, mas o caso é que levo ho­ras para firmar-me so­bre as le­tras. Quase não posso mais vê-las. Para es­cre­ver to­dos os de­sa­fo­ros di­tos a mim, se­riam ne­ces­sá­rias ainda mui­tas fo­lhas em branco. 

Conto-lhe ape­nas este: diz ela que eu me per­mito à sub­mis­são por­que não te­nho ca­rá­ter, pois se o ti­vesse não dei­xa­ria de me in­co­mo­dar com os na­mo­ra­dos que ela ar­ranja sob meu na­riz. Que na­mo­ra­dos? Mi­nhas pou­cas for­ças não me ca­pa­ci­tam a agredi-la, a esfolá-la viva. Contento-me em atacá-la a so­cos e pon­ta­pés, mas ape­nas men­tal­mente.

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MAIS UM DIA

Jú­lia ainda não acor­dou, en­quanto en­frento do­lo­ri­das con­tra­ções. Uma ab­surda ân­sia de vô­mito me faz ro­lar no chão da gruta. Não te­nho nada a jo­gar fora. Os pou­cos mi­nu­tos em que a dor de­sa­pa­rece re­pre­sen­tam quase um pra­zer. Esta noite pas­sada, acor­dei com o luar bem so­bre a en­trada. Por um certo tempo, a luz pas­seou pelo fundo da gruta, ilu­mi­nando nós dois. Sentei-me e olhei para nos­sos cor­pos su­jos, ma­chu­ca­dos e quase imó­veis. Um tre­mor sú­bito lembrou-me de uma coisa que até en­tão eu não ha­via con­si­de­rado: es­ta­mos mor­rendo.

ÚLTIMO DIA

Não posso di­zer que este será o úl­timo dia de nos­sas vi­das, mas com toda cer­teza será o úl­timo deste re­lato. Os mo­ti­vos são dois. Um você já sabe: mal posso agüen­tar com a ca­neta. O ou­tro é que o pa­pel está no fim. Faço ape­nas mais esta ob­ser­va­ção, aproveitando-me de um raro ins­tante de lu­ci­dez: per­de­mos o con­trole de nos­sas ações, aos pou­cos es­ta­mos nos ma­tando um ao ou­tro, às ve­zes de­baixo de um in­sano pra­zer. Penso em con­se­guir matá-la an­tes para po­der fa­zer sexo com ela de­pois. Se não for pos­sí­vel, vou comê-la de ou­tro modo.

a)Tom Me­ne­zes Gan­duar

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10 DE JANEIRO (MANHÃ)

Chegaram-me às mãos hoje es­tes pa­péis. As­si­na­dos por To­más An­to­nio Me­ne­zes Gan­duar, as­si­na­tura re­co­nhe­cida pela fa­mí­lia. Jul­guei tratar-se de mais uma de suas lou­cu­ras. To­más conta hoje 24 anos e vive tra­zendo pro­ble­mas à fa­mí­lia. Ele mesmo en­viou o texto ao dis­trito, como se faz a um con­curso de li­te­ra­tura ou algo as­sim. Pedi que vi­esse e ele logo aten­deu ao cha­mado. Com um sor­riso in­sano, sentou-se à mi­nha frente e disse-me ter ti­rado um peso das cos­tas.

– Cinco anos não pas­sam num dia, dou­tor.

Calei-me por um mo­mento. Ele es­tava di­fe­rente das ou­tras ve­zes.

– Não é uma boa his­tó­ria, dou­tor? Eu a fa­bri­quei…

Não nego: senti um alí­vio. Perguntei-lhe por que en­viar um texto as­sim à po­lí­cia. E ele, sé­rio:

– Para o se­nhor dar fé, dou­tor. Quero que o se­nhor faça um bo­le­tim de ocor­rên­cia ca­pri­chado.

E as­sim eu fiz.

BO nº 814/2004

De­le­gado: Plá­cido An­tu­nes Fe­linto
Agente plan­to­nista: Gra­ci­ela Mar­que­zal Ori­ente
Na­tu­reza da ocor­rên­cia: du­plo ho­mi­cí­dio
Data: 10/01/2004
Lo­cal: Ilha do Monte
Hora da co­mu­ni­ca­ção: 10h.

INDICIADO:
To­más An­to­nio Me­ne­zes Gan­duar
Doc. Ident. nº: 15.611.518
Pai: Ju­ve­nal As­tor Gan­duar
Mãe: Jo­sefa Ja­cinto Gan­duar
Cor: branca
Idade: 24 anos
Es­tado Ci­vil: sol­teiro
Pro­fis­são: es­tu­dante
Na­ci­o­na­li­dade: bra­si­leira
Na­tu­ral: Natal/RN
Re­si­dên­cia: Rua dos Fa­raós, 132, Bairro Nova En­se­ada

VÍTIMAS:
Jú­lia Cu­nha de Vol­tair
Nes­tor Do­na­telo Souza
Obs: da­dos se­rão pes­qui­sa­dos.

TESTEMUNHAS:
1)Juvenal As­tor Gan­duar, re­si­dente na Rua dos Fa­raós, 132, Bairro Nova En­se­ada, RG 999.638.209 SSP/RN.
2)Josefa Ja­cinto Gan­duar, re­si­dente na Rua dos Fa­raós, 132, Bairro Nova En­se­ada, RG 803.740.500 SSP/RN.

HISTÓRICO:
Re­lata o pró­prio in­di­ci­ado que em de­zem­bro de 1998 soube atra­vés de Jú­lia Cu­nha de Vol­tair que ela e o na­mo­rado, Nes­tor Do­na­telo Souza, que eram seus ami­gos, iriam par­ti­ci­par no dia 23 da­quele mês de uma aven­tura tida por ra­pel. Es­cla­rece que co­nhe­ceu Jú­lia an­tes de Do­na­telo, sendo que ela apre­sen­tou um ao ou­tro. Ex­plica o denunciante/indiciado que o ra­pel se trata de uma prá­tica es­por­tiva em que o pra­ti­cante utiliza-se de cor­das e ou­tros equi­pa­men­tos para es­ca­lar mon­ta­nhas, pa­re­dões ou re­le­vos dessa es­pé­cie. De­clara que, por in­di­ca­ção sua, os dois ami­gos ci­ta­dos dirigiram-se à Ilha do Monte, utilizando-se de um barco alu­gado. Como no dia de Na­tal, ele não os en­con­trasse e suas fa­mí­lias não sou­bes­sem in­for­mar seu pa­ra­deiro, es­cla­rece que no dia 26 de de­zem­bro se di­ri­giu ao lo­cal des­crito, do qual ti­nha pré­vio co­nhe­ci­mento, por ter es­tado na ilha dois ou três anos an­tes. De­clara que um pi­loto de alu­guel levou-o até a ilha e que tão logo che­gou a seu des­tino, en­con­trou o barco dos ami­gos em meio à ve­ge­ta­ção e en­tão dis­pen­sou o pi­loto. Em se­guida pas­sou a es­ca­lar o monte que pra­ti­ca­mente toma toda a ex­ten­são da ilha. Lem­bra que no topo ha­via mar­cas da pas­sa­gem dos dois ami­gos por ali e que logo pôde ob­ser­var par­tes dos equi­pa­men­tos na base do monte. De­clara que se pre­pa­rou com o equi­pa­mento pró­prio que le­vava e des­ceu pelo pa­re­dão até ou­vir os gri­tos de Jú­lia e de Nes­tor, e que não foi di­fí­cil encontrá-los. Es­cla­rece que após perguntar-lhes se es­ta­vam bem, a pri­meira idéia que teve foi içá-los, mas que, pen­sando me­lhor, re­sol­veu brin­car um pouco com os dois, ame­a­çando deixá-los ali mesmo até o Ano Novo. In­forma que no iní­cio os ami­gos pen­sa­ram se tra­tar de uma brin­ca­deira, mas ele logo fez ques­tão de as­se­gu­rar que não era uma brin­ca­deira, em­bora ainda fosse uma brin­ca­deira. De­clara que de­pois de al­guns mi­nu­tos, teve a idéia que le­vou a cabo em se­guida. Dei­xou os dois ami­gos pre­sos na gruta, lim­pou toda a área para que se al­guém apa­re­cesse na ilha não des­con­fi­asse de nada, de­vol­veu o barco à bar­raca de alu­guel com a des­culpa de que os ami­gos ha­viam so­li­ci­tado isso a ele e de­pois, du­rante vá­rios dias, vi­si­tou os dois com a pro­messa de libertá-los as­sim que o amigo de nome Nes­tor lhe es­cre­vesse apon­ta­men­tos so­bre sua re­la­ção com Jú­lia. Afirma ter per­gun­tado a Nes­tor se ha­via pa­pel e ca­neta com eles. Es­cla­rece so­bre esse as­sunto que não que­ria lhes dar qual­quer ob­jeto, com re­ceio de que mais tarde so­fresse qual­quer tipo de acu­sa­ção. De­clara que to­dos os dias es­pe­rava o amigo Nes­tor con­cluir a re­da­ção para que, atra­vés de um gan­cho com arame, ele içasse o pa­pel até a en­trada da gruta. Que avi­sou a Nes­tor co­nhe­cer Jú­lia e ele pró­prio há um bom tempo e que por isso não se atre­vesse a es­cre­ver bo­ba­gens ou men­ti­ras. Que se isso acon­te­cesse, ele não dava ga­ran­tia al­guma aos dois. Quando os ami­gos já se en­con­tra­vam em si­tu­a­ção de­ses­pe­ra­dora, es­cla­rece que foi pre­ciso ace­nar a Nes­tor com pães e fru­tas para que ele se dis­pu­sesse a con­ti­nuar es­cre­vendo. De­clara ainda que não se sente cul­pado pelo crime, pois os dois ami­gos a que se re­fere vi­viam em ou­tro mundo e pre­ci­sa­vam cair na re­a­li­dade. Es­cla­rece que pen­sava em libertá-los, mas quando de­ci­diu por to­mar a ati­tude já era tarde de­mais. Per­gun­tado pelo de­le­gado se Jú­lia al­guma vez foi sua na­mo­rada, es­cla­rece que sim. De­clara que essa foi a pri­meira e única vez que agiu dessa forma. So­bre o texto en­vi­ado à po­lí­cia, afirma tratar-se de có­pia dos ori­gi­nais es­cri­tos pelo amigo Nes­tor, os quais ele tam­bém en­trega à res­pon­sa­bi­li­dade po­li­cial. Nada mais. 

EXAMES REQUISITADOS:
Psi­quiá­trico.

Ela­bo­rado por Gra­ci­ela Mar­que­zal Ori­ente ( Mat. 003.989/91) – Agente de Po­lí­cia de plan­tão
10 de ja­neiro de 2004. 

10 DE JANEIRO (TARDE)

Uma equipe de in­ves­ti­ga­do­res le­vou To­más à Ilha do Monte. Lá, numa gruta com­ple­ta­mente ocul­tada pela ve­ge­ta­ção que co­bria sua en­trada, acha­ram as os­sa­das de Jú­lia Cu­nha de Vol­tair e Nes­tor Do­na­telo Souza, da­dos como de­sa­pa­re­ci­dos ha­via três anos. As os­sa­das encontravam-se longe uma da ou­tra. Sen­ta­das, es­ta­vam en­cos­ta­das a pa­re­des ex­tre­mas, cada qual com um ca­ni­vete preso à mão di­reita, encarando-se, como se ainda pu­des­sem vigiar-se mu­tu­a­mente.

a)Plácido An­tu­nes Fe­linto
De­le­gado de Po­lí­cia

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