“A fa­mí­lia é a ins­ti­tui­ção mais
mis­te­ri­osa do uni­verso.
E nesse lar, ao in­vés do as­tro­nauta
eu pre­firo ser a mosca na pa­rede.”

Amós Oz

En­con­trar in­se­tos em pra­ças pú­bli­cas não é nada di­fí­cil no Bra­sil. Mas o que o pú­blico da FLIP – Festa Li­te­rá­ria In­ter­na­ci­o­nal de Pa­raty – en­con­trou este ano na praça da Ma­triz, na ci­dade do li­to­ral flu­mi­nense, não era qual­quer um. Era a mais fa­mosa ba­rata do mundo. A que fez Gar­cía Már­quez de­ci­dir que se­ria es­cri­tor na vida e es­cre­ver Cem Anos de So­li­dão. Fan­tás­tica. Imensa. Enig­má­tica. Es­tava lá en­ro­lada numa co­berta dei­tada so­bre uma cama. Uma ba­rata no divã? Tal­vez fosse mais um freu­di­ano ana­lista de pa­pel ma­chê ge­ne­roso com os cu­ri­o­sos que pa­ra­vam.

Kafka não foi tema de ne­nhuma mesa di­re­ta­mente. Mas aquela ins­ta­la­ção do conto Me­ta­mor­fose não fi­cou ali ex­posta dia e noite por acaso. Era um es­pe­lho. Éra­mos to­dos ali Gre­gor Samsa. Ba­ra­tas pro­fes­so­ras, mé­di­cas; ba­ra­tas ad­vo­ga­dos, pu­bli­ci­tá­rios, em­pre­sá­rios; ba­ra­tas jor­na­lis­tas, es­tu­dan­tes; ba­ra­tas so­ci­a­li­tes e apo­sen­ta­das; ba­ra­tas es­cri­to­ras, duas de­las Prê­mio No­bel; ba­ra­tas anô­ni­mas; nor­des­ti­nas, ca­ri­o­cas, pau­lis­ta­nas; ba­ra­tas afri­ca­nas e ale­mãs; ba­ra­tas da fa­vela e de Nova York; ba­ra­tas in­di­a­nas e por­tu­gue­sas; pa­les­ti­nas e is­ra­e­len­ses; ba­ra­tas re­ca­ta­das e por­no­grá­fi­cas; bei­ja­do­ras do as­falto; sem fa­mí­lias e se­nho­ras dos afo­ga­dos; ba­ra­tas ins­pi­ra­do­ras de Nel­son Ro­dri­gues (ho­me­na­ge­ado da FLIP 2007); ba­ra­tas cen­su­ra­das, já não mais fãs de Ro­berto Car­los.

Per­nas, per­nas, per­nas, per­nas e per­nas e mais per­nas… Quan­tas per­nas se de­li­ci­a­ram para lá e para cá, cru­za­ram a ci­dade e cir­cu­la­ram de um lado para o ou­tro so­bre as ruas cal­ça­das com pe­dras, sa­bo­ro­sa­mente cha­ma­das de pé-de-moleque da his­tó­rica Pa­raty. Dia e noite a ba­ra­tai­ada fez a festa! Quando não es­ta­vam nas ten­das aten­tas às pa­les­tras e dis­cus­sões, pas­se­a­vam de es­cuna, de car­ru­a­gem; an­da­vam pela praia, lo­ta­vam os res­tau­ran­tes, ba­res e pa­da­rias.

“Com sorte você atra­vessa o mundo, sem sorte você não atra­vessa uma rua”, já di­zia Nel­son Ro­dri­gues. E para pro­te­ger as co­le­gas, as ba­ra­tas po­li­ci­ais tra­ba­lha­ram do­brado. As far­da­das tam­bém eram mui­tas. De re­pente um chi­nelo vi­o­lento po­dia ser dis­pa­rado con­tra uma das par­ti­ci­pan­tes, não é mesmo? In­fe­liz­mente, a vi­o­lên­cia, os ho­mi­cí­dios, as cha­ci­nas e os aten­ta­dos ter­ro­ris­tas já cho­cam tanto como dar chi­ne­la­das em ba­ra­tas.

Falou-se da guerra, de Osama Bin La­den, de Bush, de Blair, do fim do mundo. E acre­dito que foi em busca da nossa quase per­dida hu­ma­ni­dade que nós, fli­pa­do­res, ré­pli­cas de Gre­gor Samsa, fo­mos a Pa­raty. De carro, ôni­bus, he­li­cóp­tero… An­dando ou vo­ando, as­sim como fa­zem os in­se­tos de asas ca­ra­me­la­das quando saem para ca­çar co­mida, lá fo­mos nós à FLIP. 

Como pou­cas e ra­ras ba­ra­tas lei­to­ras fo­mos nos ali­men­tar de idéias, ide­ais, li­vros e pa­la­vras que nos tor­nas­sem mais hu­ma­nas e nos de­vol­ves­sem pelo me­nos um pouco da nossa sau­dosa ca­pa­ci­dade de nos in­dig­nar com a ba­na­li­za­ção da vida, prin­ci­pal­mente. E lá es­tava Kafka na praça para nos lem­brar: A me­ta­mor­fose é pos­sí­vel.

Ainda é pos­sí­vel. E a li­te­ra­tura é o ca­mi­nho. Su­pera a ci­ên­cia e a fi­lo­so­fia no en­ten­di­mento de ver­da­des cada vez mais pro­vi­só­rias. Por isso, tornem-se ba­ra­tas vi­ci­a­das em po­e­sia. Su­bam pe­las pa­re­des, pas­sem pe­las fres­tas das por­tas e das ja­ne­las, in­va­dam fo­gões e ge­la­dei­ras se for pre­ciso, para dar uma única lam­bida, se for o caso, num sor­vete de po­e­sia, em do­ces e be­bi­das de po­e­sia, ba­las, bom­bons, num bolo de po­e­sia…

E para to­das nós, ba­ra­tas que ainda acre­di­ta­mos na me­ta­mor­fose, a FLIP 2007 foi um ban­quete e tanto. Prin­ci­pal­mente o que foi ser­vido à mesa de Amós Oz e Na­dine Gor­di­mer. Ser­vi­ram paz e li­te­ra­tura. E teve duas ce­re­jas no bolo da so­bre­mesa afro-casher:

A pri­meira ce­reja:

“Quando você é es­cri­tor é uma bên­ção ser in­gê­nuo, por­que é como ver as coi­sas pela pri­meira vez. Uma pes­soa in­gê­nua é mais rica; ela vê mais, apro­veita mais. Quem ga­nha o tempo todo es­quece de vi­ver.” ( Amós Oz)

A se­gunda ce­reja:

“Quando eu era me­nino eu que­ria ser bom­beiro”, disse Amós Oz a Na­dine.
“Mas quando você es­creve você é um bom­beiro”, res­pon­deu a es­cri­tora afri­cana.

E as­sim de me­lado em me­lado poé­tico, vol­ta­re­mos a nossa forma ori­gi­nal. E quem sabe num fu­turo pró­ximo não va­mos mais nos sur­pre­en­der ao ou­vir no rá­dio, na tevê ou ler nos jor­nais ou numa obra li­te­rá­ria:

Numa ma­nhã, ao des­per­tar de so­nhos in­qui­e­tan­tes, uma ba­rata deu por si na cama trans­for­mada num grande ho­mem…

E-mail: luciusdemello@uol.com.br

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