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tempo – Texto de Thiago Roque

sexta-feira, 29 de junho de 2007 Texto de

o re­ló­gio mar­cava uma da ma­nhã. mas ela já es­tava lá desde às onze da noite.

e ele não ia se per­doar pelo atraso.

po­de­ria ter pas­sado duas ho­ras a mais com aque­les gran­des olhos azuis, que ilu­mi­na­vam uma pele alva, des­ta­cada ainda mais pela lua min­guante, oni­pre­sente num céu abar­ro­tado de es­tre­las.

duas ho­ras a mais com aquela boca car­nuda, dis­far­çada com um ba­tom ba­rato, louco pra ser ti­rado du­rante um beijo quente, mo­lhado, ma­cio.

ela dei­tada na relva do par­que, ele ajo­e­lhado, por pe­ni­tên­cia. que­ria pe­dir per­dão, mas não sa­bia por onde co­me­çar.

pas­sa­ria noi­tes e noi­tes na­quela po­si­ção, olhando, ob­ser­vando, de­se­jando aquela mu­lher.

o ves­tido ver­me­lho dei­xava as co­xas um tanto à mos­tra, pro­te­gi­das com uma meia-calça fio 40. o ca­saco preto, aberto, de­nun­ci­ava o de­cote. ela que­ria amar aquele noite.

mas ele che­gou duas ho­ras atra­sado.

e o tempo, meus ami­gos, é im­pla­cá­vel. fez es­tá­gio com o demô­nio, não ti­nha com­pai­xão na ge­la­deira.

ele sa­bia disso. por isso, as lá­gri­mas des­ciam os olhos e, ora ou ou­tra, in­sis­tiam em pas­sear pelo rosto.

ele bal­bu­cia al­guma coisa in­te­li­gí­vel, já que os pen­sa­men­tos são mui­tos e mais rá­pi­dos do que a boca. di­ante da be­leza dela ali, es­tá­tica, ele des­via os olhos, baixa a ca­beça, chora.

ele não a co­nhe­cia. mas, em dois mi­nu­tos, já a amava.

e como a amava.

não te­ria ou­tra chance para en­cos­tar no ou­vido dela, como faz agora, e sus­sur­rar uma ava­lan­che de pai­xão. agora, tudo pa­rece mi­ga­lha. ela já não dá mais ou­vi­dos.

ela tam­bém não se ar­re­pia quando ele a beija no om­bro, quando a boca quente pro­cura a testa gé­lida pelo ou­tono recém-chegado, quando o len­çol branco a pro­tege da brisa fria e cinza da­quela ma­dru­gada.

che­gam os po­li­ci­ais. sem pai­xão, ar­re­mes­sam longe o scar­pin preto, aper­tam uma eti­queta fora de moda no pé es­querdo, ta­tu­ado com a flor de ló­tus.

as­sim, sem pai­xão, a le­van­tam. com me­nos pai­xão ainda, le­vam a mu­lher ao ne­cro­té­rio.

ele le­vanta. dá as cos­tas. um passo em se­guida do ou­tro.

mal sa­biam os po­li­ci­ais que, junto com o corpo sem vida, ia de bô­nus uma alma des­pe­da­çada.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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