Todo mundo que gosta de ci­nema tem seu Hit­ch­cock pre­fe­rido. O meu é ‘Os Pás­sa­ros’, um dos fil­mes mais in­tri­gan­tes do di­re­tor in­glês de ‘Psi­cose’, ‘Um Corpo que Cai’ e ‘Ja­nela In­dis­creta’. Por ter sido pro­du­zido de­pois dos três, ‘Os Pás­sa­ros’ mos­tra um di­re­tor mais sin­to­ni­zado com as pos­si­bi­li­da­des tec­no­ló­gi­cas da sua época. O ar­gu­mento: um dia, sem qual­quer ra­zão apa­rente, um bando de aves di­zima uma ci­dade, le­vando seus mo­ra­do­res ao de­ses­pero.

O filme co­me­çou a ser pre­pa­rado em 1961 e só foi con­cluído dois anos de­pois. Tem mon­tes de tru­ca­gens óti­cas, ino­va­ções so­no­ras (parte dos sons es­tri­den­tes das aves foi ge­rada pelo trau­to­nium, um ma­mute ele­trô­nico, que na época ge­rou um fris­son com­pa­rá­vel ao de Ge­orge Lu­cas hoje) e so­bre­po­si­ção de es­pa­ços que pren­dem o fô­lego nas ce­nas de ata­ques.

Essa re­vo­lu­ção de efei­tos ga­ran­tiu o sus­pense do filme, mas foi ou­tro tipo de téc­nica – a ten­são muda e psi­co­ló­gica dos per­so­na­gens – que gru­dou ‘Os Pás­sa­ros’ na me­mó­ria de ge­ra­ções (e mui­tas só o co­nhe­ce­riam dé­ca­das mais tarde).

A no­vi­dade do filme co­meça já na te­má­tica. Quem acre­dita que aves tão dó­ceis como par­dais, pom­bas e gai­vo­tas pos­sam fi­car en­san­de­ci­das de uma hora para ou­tra? E quem ima­gina que es­sas mes­mas aves pos­sam in­ves­tir con­tra toda uma co­mu­ni­dade e conduzi-la ao caos? Um de­ta­lhe: ne­nhuma é de ra­pina.

Pois elas ata­cam e o fa­zem in­dis­cri­mi­na­da­mente: san­gram o pes­coço das cri­an­ci­nhas, fu­ram os olhos das mu­lhe­res e pro­du­zem um de­sas­tre na ci­dade com­pa­rá­vel ao de um fenô­meno rai­voso da na­tu­reza, como um ter­re­moto, ou de um con­flito po­lí­tico, como uma guerra ci­vil. Mas são ape­nas aves – e te­o­ri­ca­mente ino­fen­si­vas.

CONHEÇA O ENREDO 

Tippi He­dren (Me­la­nie), mãe de Me­la­nie Grif­fith na vida real, vive uma so­ci­a­lite mi­li­o­ná­ria que se in­te­ressa por um ad­vo­gado ca­ma­rada, Mitch, in­ter­pre­tado por Rod Tay­lor. Como ele re­solve vi­si­tar a mãe que mora na praia – mais pre­ci­sa­mente na pa­cata ci­da­de­zi­nha de Bo­dega Bay -, ela de­cide segui-lo com um pre­texto: pre­sen­tear sua ir­mã­zi­nha com um par de pe­ri­qui­tos.

É nesse ponto que as ten­sões co­me­çam a es­tri­lar. À me­dida que os pás­sa­ros se re­be­lam, a apa­rente har­mo­nia de Bo­dega Bay vai re­ve­lando um uni­verso de re­pres­sões, ódios, de­sa­fe­tos e frus­tra­ções que dei­xam de se cur­var às con­ven­ções da es­tru­tura so­cial vi­gente. A mãe de Mitch é uma
mu­lher amar­gu­rada, que eleva o ciúme pelo fi­lho à con­di­ção de posse.

Me­la­nie é uma jo­vem fú­til e in­con­seqüente, que não sabe bem o que quer. Em Bo­dega Bay, ela co­nhece a pro­fes­sora An­nie (Su­zanne Pleshette), ex-namorada de Micth. Aban­do­nada por ele, a pro­fes­sora culpa a ex-sogra pelo in­su­cesso do ro­mance. E por aí vai.

O com­por­ta­mento es­tra­nho dos pás­sa­ros gera na ci­dade um sen­ti­mento ca­tár­tico e ge­ne­ra­li­zado de in­con­for­mismo. Su­pers­ti­ci­osa, a co­mu­ni­dade acre­dita que Me­la­nie trouxe um mau agouro: sua che­gada na ci­dade é que te­ria des­per­tado a fú­ria das aves.

O ci­nema au­to­ral é as­sim: por meio dos fil­mes, o di­re­tor re­trata sua ma­neira de en­xer­gar o mundo. Para Hit­ch­cock, ne­nhuma es­ta­bi­li­dade pode du­rar in­de­fi­ni­da­mente. Mais: ne­nhum pro­jeto pode ser pla­ne­jado sem que a im­pon­de­ra­bi­li­dade seja con­si­de­rada. É o acaso des­men­tindo o des­tino; são as tre­vas so­bre­pondo a luz.

Mas como não era um mero pes­si­mista, Hitch abre uma bre­cha: em mo­men­tos de tra­gé­dia ab­so­luta, o ho­mem pode solidarizar-se com seu se­me­lhante. Quando Me­la­nie é am­pa­rada pela mãe de Mitch no pós-ataque dos pás­sa­ros, o es­pec­ta­dor com­pre­ende que qual­quer pes­soa tem uma es­sên­cia con­ci­li­a­dora, o que su­gere uma es­pe­rança. É a guerra ge­rando a paz.

O in­te­res­sante é que todo esse hor­ror (in­cluindo o in­cên­dio no posto de ga­so­lina, fo­ca­li­zado pelo ponto de vista de uma gai­vota) se de­sen­rola du­rante um dia en­so­la­rado, numa pai­sa­gem ir­re­pre­en­sí­vel – a praia – e co
vi­lões inu­si­ta­dos: os par­dais. Hit­ch­cock não pre­ci­sou usar man­sões aban­do­na­das nem flo­res­tas so­tur­nas para im­pri­mir sua marca em ‘Os Pás­sa­ros’. Ele mos­tra que o con­teúdo pode su­pe­rar – e di­na­mi­tar – a forma. De­pois de ‘Os Pás­sa­ros’, o gê­nero de hor­ror nunca mais foi o mesmo.

(Mais uma coisa: preste aten­ção na cena em que Me­la­nie é agre­dida pe­los pás­sa­ros no só­tão da casa de Mitch. Ela vai em­bora em es­tado de cho­que e com uma ex­pres­são de pa­vor no rosto. Não foi mera in­ter­pre­ta­ção: a atriz debateu-se re­al­mente com al­guns pás­sa­ros, cu­jas per­nas fo­ram li­ga­das ao seu tail­leur verde por meio de fios de ny­lon fi­nís­si­mos. É o vale tudo de Hit­ch­cock).

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