Contos

O homem sem nome

sábado, 23 de junho de 2007 Texto de

Ca­pí­tulo 1

UMA CARTA

Ao acaso, encontrou-me o es­cri­tor na­quele dia, há pouco mais de seis me­ses, en­vol­vido num des­ses epi­só­dios que, a des­peito da ad­mi­ra­ção de quem quase nunca os pre­sen­cia, constituem-se, nas gran­des ci­da­des, em ocor­rên­cias tão co­muns quanto cho­can­tes. En­tre­tanto, acho que não devo in­ter­fe­rir nessa parte. Tal­vez o se­nhor possa, se as­sim de­se­jar, contá-la com mais de­ta­lhes, pois acom­pa­nhei ape­nas o des­fe­cho. Mas veja como a vida é cu­ri­osa, às ve­zes nos le­vando a crer, por meio de ca­pri­chos, que em seus me­an­dros há muito mais do que pos­sa­mos en­xer­gar a prin­cí­pio. Quando o se­nhor me propôs es­cre­ver o tal diá­rio, forneceu-me um alento cujo be­ne­fí­cio, acre­dite, não se pode men­su­rar. E, por essa opor­tu­ni­dade, sou-lhe grato. An­tes de pas­sar ao que deve de fato mais lhe in­te­res­sar, creio se tra­tar de algo con­ve­ni­ente ra­ti­fi­car as in­for­ma­ções que for­neci a meu res­peito, se é que o se­nhor ainda as guarda na me­mó­ria.

Fui pro­fes­sor de gi­ná­sio du­rante al­gum tempo. Le­ci­o­nei em di­ver­sos co­lé­gios. Casei-me aos vinte anos, mas só pude me for­mar mais tarde. Pri­meiro, por­que mi­nha vida sem­pre foi di­fí­cil. Fi­lho único, perdi meus pais muito cedo e, an­tes de ir para a fa­cul­dade, tive que ga­nhar di­nheiro para po­der pa­gar os es­tu­dos. De­pois, pre­ci­sei interrompê-los por conta da morte de mi­nha mu­lher. Ela mor­reu quando nosso fi­lho mal ti­nha in­gres­sado na es­cola. So­zi­nho, com sa­cri­fí­cios, eu o criei. Formou-se con­ta­bi­lista e não de­mo­rou a se fi­xar num em­prego que, em­bora não fosse uma mina de ouro, ser­via ao me­nos para co­brir seus gas­tos. De mi­nha parte, tal­vez por ter já certa idade, não con­se­guia uma ca­deira fixa de pro­fes­sor. Pe­ram­bu­lava de bairro em bairro, sem­pre atrás de pre­en­cher va­gas para subs­ti­tu­tos. Mesmo acres­cendo à mi­nha renda os re­sul­ta­dos de ou­tros bi­cos, re­ce­bia par­cos ven­ci­men­tos, que mal po­diam me sus­ten­tar.

Num certo dia, apareceu-me o fi­lho com uma na­mo­rada, uma moça vis­tosa e muito co­mu­ni­ca­tiva. Sem­pre me tra­tou muito bem, até que após um ano de­ci­diu se ca­sar. Mo­rá­va­mos numa casa mo­desta de dois quar­tos. No co­meço, tudo cor­reu bem, mas pas­sando um certo tempo, coisa de me­ses, per­cebi al­te­ra­ções no com­por­ta­mento dos dois. Vi­viam aos se­gre­dos pe­los can­tos, mui­tas ve­zes ten­sos, in­qui­e­tos.

Coin­ci­den­te­mente por es­ses dias, mi­nha saúde pi­fou. Fui pa­rar no hos­pi­tal com sus­peita de in­farto, que não se con­fir­mou. O mé­dico do ser­viço pú­blico me aten­deu e re­co­men­dou que eu me cui­dasse. O se­nhor tem o co­ra­ção muito fraco – lembro-me de ele ter dito. Fo­mos para casa, onde per­ma­neci em re­pouso por dias se­gui­dos. Tam­bém não de­ve­ria fa­zer es­forço por al­guns me­ses, até que mi­nha saúde pu­desse se es­ta­bi­li­zar. Sem po­der tra­ba­lhar, mi­nha si­tu­a­ção fi­nan­ceira se tor­nou in­sus­ten­tá­vel. Eu não ti­nha mais di­nheiro al­gum. Nisso, os dois de­ci­di­ram, sem me con­sul­tar, bus­car so­corro numa ins­ti­tui­ção as­sis­ten­cial, um des­ses de­pó­si­tos de ve­lhos e do­en­tes. Eu nunca pude en­ten­der essa ati­tude de meu fi­lho. Tam­bém não posso cul­par sua mu­lher, já que nada com­pro­vei. Mas a ver­dade é que eles me aban­do­na­ram numa casa de re­pouso e de­pois disso nunca mais os vi. Quando con­se­gui es­ca­par do lu­gar, pude to­mar co­nhe­ci­mento de que mi­nha casa, cuja es­cri­tura eu pas­sara para o nome dele desde a morte da mãe, ha­via sido ven­dida. Ou­tra fa­mí­lia já a ocu­pava.

Sem nin­guém, sem di­nheiro e sem des­tino, pro­cu­rei a ajuda de al­gu­mas pes­soas com as quais eu tra­ba­lhara nos co­lé­gios por onde pas­sei. Al­guns pro­me­te­ram em­pe­nho na ten­ta­tiva de que au­las me fos­sem atri­buí­das, ou­tros se jus­ti­fi­ca­ram expondo-me con­di­ções nada ani­ma­do­ras. En­fim, com as es­mo­las que me de­ram para que eu pu­desse so­bre­vi­ver por uns pou­cos dias, an­dei por al­ber­gues uma ou duas se­ma­nas. Nesse pe­ríodo, sem­pre vol­tava às pes­soas que me au­xi­li­a­riam em busca de tra­ba­lho, mas elas min­gua­vam a cada nova con­versa, até que não ha­via mais a quem re­cor­rer. Ainda dei­xei meu nome em vá­rias agên­cias de em­pre­gos, mas, ad­mito, mi­nha apa­rên­cia a essa al­tura já não de­ve­ria ser das mais agra­dá­veis, não ape­nas pe­los pro­ble­mas de saúde, mas prin­ci­pal­mente pelo co­ti­di­ano que pas­sou a me ator­men­tar. Não era todo dia que ha­via um chu­veiro para to­mar ba­nho ou mesmo creme den­tal e ou­tros pro­du­tos de hi­gi­ene pes­soal. Mi­nhas rou­pas, car­re­ga­das numa pe­quena bolsa, es­ta­vam su­jas e amas­sa­das. Tudo em mi­nha vida se tor­nara pre­cá­rio. Aos pou­cos, eu me trans­for­mava num an­da­ri­lho.

O se­nhor sabe, já foi nes­sas con­di­ções que nos en­con­tra­mos na­quele dia, na porta do hos­pi­tal. En­tão, o es­cri­tor me pe­diu o tal diá­rio, para um li­vro ou uma re­por­ta­gem, se bem me lem­bro. E agora eu lhe digo: me­lhor que o diá­rio é a his­tó­ria que te­nho para lhe con­tar…

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Ca­pí­tulo 2

O ENCONTRO

Isto mesmo, foi na porta de um hos­pi­tal que eu o en­con­trei. Den­tro de um pa­letó sur­rado e vi­si­vel­mente roído em al­gu­mas par­tes, aquele su­jeito ma­gro, de olhos can­sa­dos, pele sar­denta e ca­be­los já muito bran­cos, em­bora vas­tos, pro­cu­rava in­for­ma­ções so­bre um com­pa­nheiro de rua. Já era o ter­ceiro hos­pi­tal que per­cor­ria. En­fim, você o lo­ca­li­zara. Seu amigo Do­nato es­tava ali, pas­sando por uma ci­rur­gia que, ao fi­nal, am­pu­ta­ria pela me­tade sua perna di­reita. Mas esse epi­só­dio teve ori­gem dois dias an­tes, quando um pa­rente me con­vi­dou para uma aven­tura inu­si­tada: ca­çar ro­e­do­res. Exa­ta­mente isto: ele e mais dois ami­gos são ca­ça­do­res de ra­ta­za­nas. Trata-se de uma es­pé­cie de la­zer mis­tu­rado à prá­tica de um bem pú­blico. Permita-me, lei­tor, deter-me um ins­tante a essa cu­ri­o­si­dade, ten­tando ex­pli­car como é o pro­ce­di­mento. Tudo co­meça com o pre­paro das is­cas. Os res­tos de pizza – ca­na­pés pre­di­le­tos dos ani­mais – são acon­di­ci­o­na­dos em in­vó­lu­cros plás­ti­cos e guar­da­dos no fre­e­zer. No dia da ca­çada, os ali­men­tos são re­ti­ra­dos e de­vi­da­mente aque­ci­dos. Fi­cam per­fei­ta­mente sa­bo­ro­sos. Os ca­ça­do­res, en­tão, apoderam-se de suas ar­mas (pe­que­nos ri­fles com mu­ni­ção es­pe­cí­fica para os ro­e­do­res) e se lan­çam aos lo­cais onde pro­va­vel­mente en­con­tra­rão esse tipo de ani­mal, como em beira de cór­re­gos ou be­cos imun­dos. Lá, es­pa­lham as is­cas e aguar­dam para aba­ter esse que é um dos prin­ci­pais trans­mis­so­res de do­en­ças e por isso uma das gran­des ame­a­ças à saúde do ho­mem.

Bom, nem é pre­ciso di­zer que acei­tei o con­vite. Num fim de tarde, fo­mos de carro a um cór­rego po­luído, onde pu­de­mos desde logo vi­su­a­li­zar em suas mar­gens dois ou três des­ses bi­chos as­que­ro­sos. Não foi di­fí­cil atraí-los com o cheiro das piz­zas ainda quen­tes, que eram re­ti­ra­das da caixa de iso­por ape­nas de acordo com a ne­ces­si­dade. Só ali, fo­ram aba­ti­das doze ra­ta­za­nas, uma de­las con­si­de­rada a maior até en­tão já vista pe­los ex­pe­ri­en­tes ca­ça­do­res. Con­fesso que sua fuça hor­renda e seu rabo aver­me­lhado che­ga­ram a me dar medo. De­pois de juntá-las num re­ci­pi­ente pró­prio for­ne­cido pela se­cre­ta­ria do meio am­bi­ente para o fim de transportá-las vi­sando a in­ci­ne­ra­ção, dei­xa­mos para trás o ri­a­cho po­dre. En­tre­tanto, an­tes de en­tre­gar­mos a en­co­menda, um de­les su­ge­riu que dés­se­mos uma volta pela área mais cen­tral da ci­dade. Já era noi­ti­nha e sua fi­na­li­dade não era ou­tra se­não so­mar mais dois ou três ani­mais mor­tos. Pelo que eu en­tendi, eles ten­ta­vam ob­ter um nú­mero re­corde. Acho que por isso, os de­mais logo con­cor­da­ram. Fo­mos en­tão para uma área pró­xima a um des­ses mer­ca­dões de hor­ti­fru­ti­gran­jei­ros. Quando en­tra­mos numa das es­trei­tas ruas que cir­cun­da­vam a cons­tru­ção, logo per­ce­be­mos o mo­vi­mento de uma ra­ta­zana que se es­guei­rava em meio a en­gra­da­dos de ma­deira e res­tos de pro­du­tos. Com cui­dado, pro­cu­ra­mos segui-la até uma es­quina. E foi ali, nessa es­quina, que pu­de­mos as­sis­tir ao mons­tru­oso epi­só­dio.

Devo di­zer que a prin­cí­pio nada na­quela cena acres­cen­tava mais aver­são ou as­som­bro do que já tí­nha­mos acu­mu­lado até ali. En­cos­tado a uma pa­rede de um ne­grume tal que se tor­nava di­fí­cil visualizá-lo no es­curo, dor­mia, apa­ren­te­mente em­bri­a­gado, um ho­mem de cor ne­gra. De nosso ân­gulo de vi­são, pu­de­mos ver tam­bém do lado oposto, mas na mesma cal­çada, uma ra­ta­zana fu­çando em meio a tra­pos ve­lhos. En­tre os dois, interpunha-se uma lata de lixo das gran­des, de cuja boca pen­diam cas­cas de fru­tas e ou­tros ob­je­tos que não pude iden­ti­fi­car. Es­tá­va­mos a quinze ou vinte me­tros do lo­cal. Como o ro­e­dor se mos­trasse ape­nas do meio do corpo para a tra­seira, detendo-se de resto a es­miu­çar algo co­mes­tí­vel em meio aos pa­nos, um de meus co­le­gas pro­cu­rou aproximar-se o mais que pôde, ten­tando as­sim uma si­tu­a­ção me­lhor para o dis­paro. Cau­te­loso, eu o se­gui. Já muito perto e como a ra­ta­zana não se in­co­mo­dasse com nossa pre­sença, a cena nos dei­xava a cada ins­tante mais cu­ri­o­sos. En­tão, em vez de nos apro­xi­mar­mos ainda mais, de­ci­di­mos me­lho­rar nossa po­si­ção e des­co­brir o que tanto pren­dia a aten­ção do ani­mal. Ao con­tor­nar­mos a lata de lixo, um ter­rí­vel tor­por se apos­sou de meus sen­ti­dos. Po­de­ria ser mesmo o que eu via à mi­nha frente? Olhei para meu co­lega de caça e seu sem­blante não es­con­dia pa­vor me­nor do que o meu. 

A ver­dade nua e crua é que o ho­mem, que de­pois vi­e­mos a sa­ber se tra­tar do tal Do­nato, ja­zia mesmo bê­bado, tendo ao seu lado uma gar­rafa de aguar­dente e um par de mu­le­tas. Suas per­nas es­ta­vam es­ti­ca­das e uma de­las, em­bru­lhada em fai­xas hos­pi­ta­la­res e ga­zes. Era ali, me­tida meio corpo no ema­ra­nhado de te­ci­dos imun­dos, que a ra­ta­zana se ali­men­tava. Ávida, tri­tu­rava e de­vo­rava aos bo­ca­di­nhos o pé desse Do­nato. Mais tarde, no hos­pi­tal para onde o le­va­mos, você me con­tou so­bre a perna alei­jada de seu amigo. En­tão, o epi­só­dio fi­cou ex­pli­cado: em­bri­a­gado, Do­nato não viu que sua perna morta co­me­çava a se trans­for­mar em co­mida para ra­tos. Aliás, con­fesso a você que até hoje sinto um certo incô­modo quando penso nisso: in­vo­lun­ta­ri­a­mente me fla­gro a ob­ser­var meu pró­prio pé, pro­cu­rando me cer­ti­fi­car de que não há bi­cho al­gum ro­endo mi­nhas car­nes.

Bem, mas na­quela noite, en­quanto os mé­di­cos am­pu­ta­vam a perna do Do­nato, lembro-me de lhe ter feito a pro­posta. De­pois da breve con­versa que ti­ve­mos, não me foi di­fí­cil cons­ta­tar que você não se tra­tava de um mo­ra­dor de rua qual­quer. Seu jeito de fa­lar e os co­nhe­ci­men­tos de­mons­tra­dos em nosso diá­logo bem ex­pli­ca­vam a for­ma­ção que agora me é re­ve­lada em de­ta­lhes. Eu lhe pedi algo como um diá­rio, no qual você con­ta­ria como é o co­ti­di­ano de pes­soas que vi­vem nas ruas. Você não se re­cu­sou. Ape­nas manteve-se, por um ins­tante, alheio a tudo, o olhar per­dido. De­pois, disse-me que não ti­nha pa­pel su­fi­ci­ente para tanto, tam­pouco lá­pis. En­tão, dei-lhe di­nheiro. E, para dali a al­gu­mas se­ma­nas re­ce­ber os es­cri­tos pelo Cor­reio, ano­tei num pe­daço de pa­pel meu en­de­reço, pois você não quis di­zer onde eu po­de­ria lhe en­con­trar. Aqui, é pre­ciso lhe con­fes­sar duas coi­sas: exa­ta­mente por­que você pre­ten­deu omi­tir onde dor­mia, eu o se­gui na­quela mesma noite e pude co­nhe­cer o vi­a­duto sob o qual al­guns an­da­ri­lhos se jun­ta­vam à beira de um cór­rego. De­pois, vivi um bom tempo ar­re­pen­dido por ter feito o pe­dido. Re­moí um amargo sen­ti­mento de egoísmo. Eu de­ve­ria tê-lo aju­dado, isto sim. Mas, ao mesmo tempo, eu pen­sava de que ma­neira eu po­de­ria to­mar al­guma ati­tude di­fe­rente da­quela que só o le­va­ria no­va­mente a um al­ber­gue ou algo pa­re­cido. O tempo pas­sou e a vida atri­bu­lada que to­dos vi­ve­mos hoje em dia se in­cum­biu de, aos pou­cos, ir apa­gando você de mi­nha mente. Desculpe-me, eu já não es­pe­rava mais as fo­lhas de pa­pel su­jas e amas­sa­das que re­cebi pelo Cor­reio e que tra­zem a sua his­tó­ria nas ruas.

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A HISTÓRIA

Ca­pí­tulo 3

No co­meço, não ha­via um dia se­quer sem que eu me de­ses­pe­rasse. Quando tudo me foi ar­ran­cado de ma­neira tão rude, su­bi­ta­mente o medo e a re­volta pe­ne­tra­ram em mi­nha alma, deixando-me à mercê da mais pro­funda de­ses­pe­rança. Meus pen­sa­men­tos me re­me­tiam ir­re­me­di­a­vel­mente ao pas­sado. As lu­tas que tra­vei para a so­bre­vi­vên­cia de mi­nha fa­mí­lia, os sa­cri­fí­cios, as frus­tra­ções e mesmo os mo­men­tos de fe­li­ci­dade per­me­a­vam mi­nha mente. Como tudo aquilo po­dia ter se dis­si­pado de uma hora para ou­tra? Às ve­zes, nos ban­cos das pra­ças ou nos be­cos onde eu bus­cava abrigo, em meio às tur­bu­lên­cias de meu sono, tudo pa­re­cia con­ver­gir para um me­do­nho pe­sa­delo, mas logo eu acor­dava so­bres­sal­tado e o pa­vor da­quela ver­dade vol­tava a me opri­mir de forma a não se po­der men­su­rar. As­sim, vá­rios me­ses se pas­sa­ram, com­pondo um pe­ríodo de an­gús­tia e in­son­dá­vel so­li­dão. Mui­tas fo­ram as oca­siões em que im­plo­rei a Deus para que meu co­ra­ção en­fim ra­ti­fi­casse o di­ag­nós­tico mé­dico a res­peito de sua de­bi­li­dade. A cada dia, en­tre­tanto, esse ór­gão de meu corpo pa­re­cia se pe­tri­fi­car. Meu medo se con­ver­teu em des­dém, e mi­nha re­volta, em re­sig­na­ção.

De­pois de um certo tempo, quando mi­nhas es­pe­ran­ças se es­go­ta­ram por com­pleto, con­cluí que não ha­via ou­tro modo se­não me adap­tar a uma nova e cruel re­a­li­dade. Cu­ri­o­sa­mente, lembro-me de, por es­ses dias, ver mi­nha ima­gem re­fle­tida numa vi­trine do co­mér­cio. Não sei di­zer por quanto tempo per­ma­neci ali, es­tá­tico, es­tu­pe­fato com a trans­for­ma­ção que ha­via se ope­rado em mi­nha fi­gura. Meus ca­be­los, em toda a vida sem­pre muito bem pen­te­a­dos, es­ta­vam in­tei­ra­mente des­gre­nha­dos e ti­nham ad­qui­rido um tom ama­re­lado; meus olhos se afun­da­vam em duas co­vas de mar­gens ar­ro­xe­a­das; a barba cheia e de­sa­jei­tada me con­fe­ria um as­pecto de ho­mem das ca­ver­nas. Um sen­ti­mento de fra­casso com­pri­miu meu peito por um mo­mento, mas logo algo me cha­mou a aten­ção no lado de den­tro da loja: uma das ven­de­do­ras aproximou-se da vi­trine, creio que para pe­gar al­gum pro­duto, e num olhar de re­lance se de­teve em mi­nha triste fi­gura. Eu, para ser gen­til, ca­rac­te­rís­tica que ja­mais perdi, pro­cu­rei lhe abrir um sor­riso, à me­dida do que me era pos­sí­vel fazê-lo den­tro de mi­nha me­lan­co­lia. E nisso, ao sor­rir, em vez de me fi­xar na im­pro­vá­vel re­ci­pro­ci­dade da moça, não tive como evi­tar o susto que le­vei com mi­nha boca. Meus den­tes apo­dre­ciam a olhos vis­tos, ene­gre­ci­dos pela falta de es­co­va­ção ou qual­quer tipo de hi­gi­ene bu­cal. En­tão, sú­bito, apressou-se em mi­nha mente a cer­teza de que ali es­tava ou­tro ho­mem, não exis­tia mais resquí­cios do pro­fes­sor que um dia so­nhara com uma vida me­lhor.

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Ca­pí­tulo 4

Perdoe-me se evi­tei aden­trar ime­di­a­ta­mente meus pi­o­res pe­sa­de­los, e tal­vez, da­qui para frente, tam­bém os do es­cri­tor, mas jul­guei ser ne­ces­sá­rio de­mons­trar, em­bora de ma­neira ape­nas breve e su­per­fi­cial, como se deu a trans­for­ma­ção de meu ser, como um ho­mem con­victo de suas cren­ças foi le­vado a se per­der por um ca­mi­nho tor­tu­oso e des­co­nhe­cido. Manifestar-me so­bre essa al­te­ra­ção em meu es­pí­rito será im­por­tante para que, mais adi­ante, eu te­nha certo cré­dito para re­cla­mar um in­dulto di­ante da even­tual con­de­na­ção por meu com­por­ta­mento. Por ora, compreenda-me as­sim, caro es­cri­tor, que será o bas­tante.

Nesse mesmo dia em que pude ob­ser­var meu fla­gelo no re­flexo da vi­trine, deixei-me aban­do­nar, sem norte, sob a co­ber­tura de um ponto de ôni­bus numa rua se­cun­dá­ria. Até al­tas ho­ras, as­sisti a che­ga­das e par­ti­das, a ros­tos ale­gres e tris­tes, pre­o­cu­pa­dos e dis­traí­dos, um mo­vi­mento con­tí­nuo que de pouco em pouco, à me­dida que a ma­dru­gada se apro­xi­mava, foi se ar­re­fe­cendo. Num dado mo­mento, peguei-me com­ple­ta­mente só. Es­tá­va­mos no ou­tono e, junto com uma ga­roa in­ces­sante, a tem­pe­ra­tura ha­via caído ra­zo­a­vel­mente. Meu de­sa­lento di­ante da des­co­berta da­quele ho­mem da vi­trine me im­pe­dia de to­mar qual­quer ati­tude na busca de um re­fú­gio mais apro­pri­ado para uma noite fria. Ape­nas pro­cu­rei me abri­gar da me­lhor ma­neira pos­sí­vel com mi­nhas pró­prias ves­tes, en­co­lhido so­bre o banco de ci­mento ge­lado e vez por ou­tra sor­vendo um resto de ca­chaça. A certa al­tura, ador­meci em meio a so­nhos in­qui­e­tan­tes que mis­tu­ra­vam lem­bran­ças de mi­nha fa­mí­lia com si­tu­a­ções inu­si­ta­das que só os so­nhos são ca­pa­zes de pro­du­zir. As­sim, nes­ses en­re­dos da mente, mi­nha mu­lher e meu fi­lho vi­nham a meu en­con­tro, abraçavam-me e eu lhes dava, com in­tensa sa­tis­fa­ção, al­guns em­bru­lhos con­tendo ali­men­tos. Feito isso, eu logo re­tro­ce­dia e re­tor­nava a meu tra­ba­lho, que en­tão me era ofus­cado por es­sas ca­rac­te­rís­ti­cas tão pró­prias dos so­nhos. Es­sas ce­nas se re­pe­ti­ram por di­ver­sas ve­zes, até que de sú­bito me en­con­trei em frente a um posto de com­bus­tí­veis, aten­dendo a um cli­ente. En­quanto abas­te­cia o carro, eu po­dia sen­tir o cheiro da ga­so­lina. En­tre­tanto, sem uma jus­ti­fi­ca­tiva plau­sí­vel, meu cli­ente ar­ran­cou com seu veí­culo, deixando-me com a pis­tola jor­rando o com­bus­tí­vel, e nisso o cheiro se in­ten­si­fi­cou de forma brusca, o que me fez des­per­tar as­sus­tado. En­tão, muito pró­xi­mos de mim se en­con­tra­vam dois ra­pa­zes. Um de­les, tendo à mão um des­ses ga­lões plás­ti­cos, só fa­zia me en­char­car com ga­so­lina, en­quanto seu com­pa­nheiro se pre­pa­rava para me atear fogo. Por um ins­tante, desesperei-me, mas, em pou­cos se­gun­dos, e sem que os dois pu­des­sem me com­pre­en­der, um de­sejo tão forte de mor­rer se ma­ni­fes­tou em meu âmago que eu co­me­cei a sor­rir. Logo, eu gar­ga­lhava. Meus al­go­zes se en­tre­o­lha­ram in­de­ci­sos, mas muito de­pressa re­sol­ve­ram pôr fim a seu pro­pó­sito. O ga­lão va­zio foi jo­gado den­tro do porta-malas do carro que eles ti­nham es­ta­ci­o­nado a pou­cos me­tros dali, e quando uma pe­quena to­cha que ser­vi­ria para me in­cen­diar foi acesa, sur­gi­ram não sei de onde três su­jei­tos que, ame­a­çando os ra­pa­zes, in­ter­ce­de­ram a meu fa­vor. An­tes que me pu­ses­sem fogo, o grupo os do­mi­nou. O cheiro de ga­so­lina, o frio e a ca­chaça me en­tor­pe­ciam. Sei di­zer que meus de­fen­so­res se pre­ci­pi­ta­ram de ma­neira de­ci­siva para cima dos cri­mi­no­sos e sem que hou­vesse tempo para quase nada, des­pi­ram os dois e, de­pois de fa­ze­rem o mesmo co­migo, ves­ti­ram am­bos com mi­nhas rou­pas, en­fi­ando as cal­ças num e a ca­misa e o pa­letó em ou­tro. Em se­guida, en­quanto eu ves­tia as rou­pas se­cas de um dos dois, fui to­mado por um grande susto: meus sal­va­do­res pu­se­ram fogo na­que­les pa­nos en­char­ca­dos de ga­so­lina e os as­sas­si­nos de men­di­gos ro­la­ram no as­falto para con­tro­lar as cha­mas an­tes que elas os fe­ris­sem gra­ve­mente. Mas disso não te­nho mais qual­quer cer­teza, pois dei­xa­mos o lu­gar às pres­sas. Acom­pa­nhei o grupo até seu abrigo, de­baixo de um vi­a­duto, onde pas­sei a noite sem to­mar chuva e sem sen­tir frio.

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Ca­pí­tulo 5

Ainda muito cedo acor­dei com o tre­mor do con­creto so­bre as nos­sas ca­be­ças. O trá­fego in­tenso de veí­cu­los pe­sa­dos era um des­per­ta­dor e tanto. Mas ape­nas para mim. Olhei para o fundo da­quela mo­rada, que se es­trei­tava con­forme o vi­a­duto se en­cra­vava no solo, e ob­ser­vei mais cinco ho­mens dor­mindo, tal­vez já acos­tu­ma­dos à bal­búr­dia ma­ti­nal. Apro­vei­tei para in­ves­ti­gar o lu­gar, cor­rendo os olhos sem dei­xar mi­nha cama im­pro­vi­sada. Os tras­tes se amon­to­a­vam: dois pe­que­nos ar­má­rios ve­lhos de ma­deira car­co­mida, um fo­gão, uma mesa e al­gu­mas ca­dei­ras, um sofá ve­lho e vá­rias pa­ne­las pen­du­ra­das nas ex­tre­mi­da­des, além de um fil­tro de barro e uma en­xada en­cos­tada num canto. No lado de fora, en­tre a bar­ranca que des­cia a par­tir de uma ex­tensa pe­dreira e o cór­rego que pas­sava à nossa porta, ha­via tam­bém uma chur­ras­queira im­pro­vi­sada, feita a par­tir de um des­ses la­tões cor­ta­dos ao meio, e so­bre ela, uma gre­lha toda en­fer­ru­jada, cuja uti­li­za­ção cer­ta­mente de­ve­ria ser muito rara. De qual­quer ma­neira, aque­les ho­mens vi­viam ali como se o lu­gar fosse uma casa, em­bora muito mi­se­rá­vel. O pri­meiro a se le­van­tar foi um ne­gro apa­ren­te­mente forte, que se apre­sen­tou a mim como Do­nato, o mesmo que mais tarde se­ria atro­pe­lado e per­de­ria com­ple­ta­mente os mo­vi­men­tos de uma das per­nas. An­tes de tudo, en­tre­tanto, bus­cou água num balde e se la­vou. De­pois, en­quanto me di­zia al­gu­mas pa­la­vras, acen­deu o fogo e se pôs a fa­zer um café que, a des­peito de se mos­trar bas­tante ralo, acomodou-se muito bem em meu estô­mago. Do­nato, en­tão, pas­sou a me fa­lar dos mo­ra­do­res de rua que ali es­ta­vam. À me­dida que ele se re­fe­ria aos seus com­pa­nhei­ros, uma sen­sa­ção des­con­for­tá­vel me con­su­miu. Ao con­trá­rio do que meu pen­sa­mento egoísta sem­pre me le­vou a acre­di­tar, aque­les mi­se­rá­veis, aos quais eu ha­via agora me jun­tado, tam­bém ti­nham suas his­tó­rias, um pas­sado, en­fim. Como o re­sul­tado de uma lâ­mina que nos fere, doeu-me cons­ta­tar que men­di­gos não nas­cem ne­ces­sa­ri­a­mente nessa con­di­ção, que so­bre eles quase sem­pre re­cai o peso de uma ter­rí­vel trans­for­ma­ção so­cial, cu­jas con­seqüên­cias são ig­no­ra­das por to­dos os de­mais em nome da mal­fa­dada guerra pela so­bre­vi­vên­cia.

Em meio a um pen­sa­mento as­sim é que pro­cu­rei, à me­dida do pos­sí­vel, per­ma­ne­cer atento a seu re­lato, le­vado a cabo com certa gra­vi­dade. Pude sa­ber que ele pró­prio, o Do­nato, vi­via nas ruas há me­nos de dez anos. An­tes disso, fora ope­rá­rio e co­mer­ci­ante. Os des­ca­mi­nhos da eco­no­mia o ha­viam ati­rado à mar­gem. Sua fa­mí­lia se es­pa­lhara e ele, agora afun­dado na men­di­cân­cia, aban­do­nara qual­quer am­bi­ção de revê-la um dia. Ou­tro de­les, de nome Bra­gui­nha, pas­sara mais de vinte anos no pre­sí­dio. Quando saiu, em­bora tendo cum­prido sua pena e pago seus pe­ca­dos à Jus­tiça, ja­mais con­se­guiu ser aceito num em­prego se­quer. O mais ve­lho, um tal Ca­rijó, Do­nato não soube ex­pli­car de onde veio. Os de­mais, Amé­rico e Ser­gi­pano, re­pe­tiam his­tó­rias se­me­lhan­tes à mi­nha: de­sen­ten­di­men­tos fa­mi­li­a­res, fi­lhos que se vão para não se sabe onde e coi­sas as­sim. Conheceram-se, ló­gico, nas ruas, cada qual bus­cando ajuda para não fi­car à mercê dos pe­ri­gos de se vi­ver só, pe­ri­gos como o que eu ti­nha en­fren­tado na noite pas­sada. Pouco a pouco, ob­ti­ve­ram a con­fi­ança re­cí­proca, o su­fi­ci­ente para di­vi­dir o mesmo teto – o con­creto do vi­a­duto. As­sim, ao passo que Do­nato se adi­an­tava em suas apre­sen­ta­ções e logo eu tam­bém con­tava mi­nha ori­gem, os ou­tros se le­van­ta­ram e vi­e­ram nos fa­zer com­pa­nhia. Ao fi­nal, detiveram-se por al­guns ins­tan­tes, até que Do­nato se vi­rou a mim e me ofe­re­ceu um lu­gar en­tre eles. Não so­mos um bando – disse-me, ex­pli­cando que cada um con­tava com sua pró­pria vida du­rante o dia e que ape­nas à noite pro­cu­ra­vam se man­ter uni­dos quando saíam. De pronto, acei­tei. Ao me­nos, te­ria um bu­raco para me es­con­der. Mas ha­via algo mais, alertou-me Do­nato, algo que eu com­pre­en­de­ria na­tu­ral­mente com o pas­sar do tempo e que de nada me va­le­ria sa­ber de ime­di­ato. Nessa hora, per­cebi que o tal Bra­gui­nha pas­sara a se sen­tir in­co­mo­dado, des­vi­ando o olhar para al­gum ponto dis­tante. O es­cri­tor que atente para este de­ta­lhe na seqüên­cia de meu re­lato, pois verá como sou bom ob­ser­va­dor. Bem, quanto ao aviso, não posso ne­gar que me cau­sou certa in­qui­e­ta­ção, em­bora eu te­nha pro­cu­rado não de­mons­trar, afi­nal, se eu acei­tara vi­ver numa co­mu­ni­dade, de­certo tam­bém se­ria ne­ces­sá­rio obe­de­cer a de­ter­mi­na­das re­gras de con­ví­vio. Como meu es­tado de es­pí­rito não es­tava para me per­mi­tir qual­quer tipo de ini­ci­a­tiva, muito me­nos ques­ti­o­na­men­tos com­pli­ca­dos, abandonei-me ao acaso. 

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Ca­pí­tulo 6

Os dias se se­gui­ram sem so­bres­sal­tos. Eu saía pela ma­nhã e só re­tor­nava à noite, quando nos reu­nía­mos para so­mar os re­sul­ta­dos de nos­sas men­di­cân­cias. Ra­ra­mente era pos­sí­vel com­prar mais que pão, leite e ca­chaça. En­tre­tanto, cerca de dois me­ses mais tarde, ao vol­tar para casa num fim de tarde, um fato inu­si­tado me cha­mou a aten­ção, causando-me, sem que eu pu­desse contê-la, uma re­pen­tina ale­gria. Do­nato e Ca­rijó se ocu­pa­vam de es­ten­der so­bre a gre­lha da ve­lha chur­ras­queira im­pro­vi­sada um belo naco de cos­tela, já con­di­men­tado e fer­vido. Ao lado, num va­ral onde ge­ral­mente pen­du­rá­va­mos nos­sos tra­pos, pen­diam ti­ras de carne de­vi­da­mente co­zi­das e sal­ga­das para con­sumo pos­te­rior. Os dois vi­e­ram ao meu en­con­tro, fe­li­zes, e quando lhes per­gun­tei como ha­viam con­se­guido a carne, ape­nas me dis­se­ram que o me­lhor era me pre­o­cu­par com o mi­la­gre e não com o santo. Em se­guida, tam­bém che­ga­ram Amé­rico e Ser­gi­pano, que, en­tre brin­ca­dei­ras e co­me­mo­ra­ções, juntaram-se a nós para o ban­quete. O único au­sente era Bra­gui­nha. Di­ante de mi­nha cu­ri­o­si­dade, disseram-me sim­ples­mente que ele já par­ti­ci­para de ou­tros e que aquele não lhe fa­ria falta. En­quanto a carne as­sava, meu estô­mago dava mos­tras inequí­vo­cas de an­si­e­dade. Era-me pos­sí­vel sen­tir suas pa­re­des se con­traindo e li­ber­tando ron­cos cons­tran­ge­do­res. Os ou­tros riam. Nem sei há quanto tempo não co­mia um chur­rasco. Mi­nha ali­men­ta­ção, desde que não es­ti­vesse em al­ber­gues, sem­pre se res­trin­gia a por­ções muito li­mi­ta­das que quase nunca con­ti­nham carne. Num re­lance, des­fi­la­ram em mi­nha mente ima­gens de chur­ras­cos que às ve­zes fa­zía­mos em casa nos al­mo­ços de do­mingo. E nisso me dei conta de que ha­via um bom tempo eu não me re­cor­dava de mi­nha mu­lher ou de meu fi­lho. Aos pou­cos, mi­nha si­tu­a­ção de mi­se­rá­vel cui­dava de ofus­car mi­nhas lem­bran­ças. A cada dia, pa­re­ciam se fe­char os aces­sos às re­cor­da­ções que di­ziam res­peito ao meu pas­sado. Se eu ten­tasse, creio que não con­se­gui­ria enu­me­rar cla­ra­mente nem mesmo os co­lé­gios onde ti­nha dado au­las. Até mesmo o rosto de mi­nha nora eu já o per­dia em meio às ima­gens de meu novo mundo. Quando meus com­pa­nhei­ros in­ter­rom­pe­ram aque­las me­di­ta­ções, já ti­nham tra­zido para cima da mesa a cos­tela gre­lhada. To­ma­mos um gole de ca­chaça e nos pu­se­mos a co­mer. Não posso afir­mar que es­tava sa­bo­rosa. O gosto não me fa­zia lem­brar nem um pouco dos chur­ras­cos que nós tão bem pre­pa­rá­va­mos em casa, tal­vez o tem­pero fosse ina­de­quado ou algo as­sim. Mas sei di­zer que esse sa­bor es­tra­nho não me im­pe­diu de de­vo­rar mi­nha parte com avi­dez. De pe­daço em pe­daço, meu estô­mago se acal­mou. No en­tanto, du­rante a noite, tive a cer­teza de ha­ver co­me­tido exa­ge­ros. Tam­bém me lem­brei da­quele sa­bor sin­gu­lar quando muita sede e con­tí­nuas ân­sias me ator­men­ta­ram ma­dru­gada aden­tro. Por di­ver­sas ve­zes, retirei-me para a beira do cór­rego, onde pre­ten­dia me li­vrar do incô­modo es­to­ma­cal, mas não con­se­guia ver­ter o que me fa­zia mal. O es­tra­nho era que es­ses re­sul­ta­dos só atin­giam a mim. Os de­mais dor­mi­ram du­rante a noite toda, como se ti­ves­sem sa­bo­re­ado um man­jar de deu­ses. So­mente quando o dia co­me­çava a raiar é que eu pe­guei no sono. En­tão, nem mesmo os ruí­dos dos car­ros em cima do vi­a­duto fo­ram ca­pa­zes de me acor­dar.

Lembro-me de ter dor­mido a ma­nhã in­teira. Quando des­per­tei, por volta de uma hora, não ha­via nin­guém “em casa”. Ima­gi­nei que to­dos ti­ves­sem saído por­que eu ti­nha fi­cado. Nunca o lu­gar era dei­xado sem nin­guém. Mesmo a mi­sé­ria corre ris­cos nesse mundo – cos­tu­mava di­zer o Do­nato. As pa­ne­las, que no dia an­te­rior ser­vi­ram para co­zi­nhar toda aquela carne, já se en­con­tra­vam la­va­das e pen­du­ra­das. A chur­ras­queira, lá fora, tam­bém es­tava em or­dem. Não ha­via mais resquí­cios do jan­tar, a não ser pe­las ti­ras de carne sal­gada pen­du­ra­das numa das ex­tre­mi­da­des in­ter­nas do vi­a­duto. Meus com­pa­nhei­ros as ti­nham po­si­ci­o­nado atrás de um dos ar­má­rios, de modo que sua vi­são era im­pos­sí­vel para quem olhasse de fora, da beira do cór­rego. An­tes de me le­van­tar in­tei­ra­mente, certifiquei-me de mi­nhas con­di­ções. As ân­sias ha­viam ces­sado, res­tando ape­nas uma sede bru­tal. En­tão, en­chi um ca­neco de água do fil­tro e me sen­tei pró­ximo à chur­ras­queira, aproveitando-me do pe­queno de­clive, onde uma terra dura como pe­dra me ser­viu de as­sento. Em pe­que­nos go­les, fui sor­vendo a água, en­quanto me de­ti­nha a algo que até en­tão não ha­via per­ce­bido em meio à ve­ge­ta­ção ci­liar do di­mi­nuto fio d’água que cor­ria por ali: a apro­xi­ma­da­mente trinta me­tros mar­gem abaixo, seguiam-se vá­rios ou­tei­ros, to­dos eles co­ber­tos de ca­pim, mas que fa­ziam o ter­reno os­ci­lar cla­ra­mente. Como não hou­vesse ou­tro plano pos­sí­vel, se­não o de per­ma­ne­cer to­mando conta do lu­gar, re­solvi in­ves­ti­gar de perto aque­las sa­li­ên­cias. Esse lado do cór­rego mar­ge­ava tam­bém uma com­prida bar­ranca de pe­dra. Esgueirei-me pela beira da bar­ranca até que pude che­gar ao pri­meiro monte. Dali em di­ante, emparelhavam-se ou­tros sete pra­ti­ca­mente idên­ti­cos, a não ser por um de­ta­lhe: o ca­pim do úl­timo se en­con­trava ape­nas es­pa­lhado so­bre ele, sem es­tar ainda en­rai­zado, dei­xando à mos­tra a terra re­vol­vida. Pro­cu­rei me apro­xi­mar e pude ver tam­bém, à me­dida que dei­xei para trás o sopé da bar­ranca e me in­fil­trei pelo brejo, di­ver­sas pe­ga­das re­cen­tes que cir­cun­da­vam o solo re­me­xido. Nisso, atendo-me com mais cau­tela às pro­por­ções de com­pri­mento dos pe­que­nos mon­tes e virando-me para observá-los sob um ân­gulo de vi­são que os per­fi­lava em seqüên­cia, uma sen­sa­ção in­des­cri­tí­vel enregelou-me a alma: ni­ti­da­mente, eles se as­se­me­lha­vam a co­vas ra­sas de ce­mi­té­rios.

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Ca­pí­tulo 7

Ao mesmo tempo em que eu pro­cu­rava afas­tar de mi­nha mente idéias ab­sur­das, um tur­bi­lhão de pen­sa­men­tos ruins me acu­diu ime­di­a­ta­mente. A prin­cí­pio, ima­gi­nei se tra­tar de um lu­gar onde tal­vez tra­fi­can­tes de­so­vas­sem cor­pos de ini­mi­gos as­sas­si­na­dos. A di­re­ção dos veí­cu­los no vi­a­duto era exa­ta­mente in­versa, o que aju­dava ainda mais a es­con­der o lu­gar por en­tre o ca­pin­zal e pe­que­nos ar­bus­tos. A essa hi­pó­tese, acres­cen­tei a pos­si­bi­li­dade de meus ami­gos es­ta­rem en­vol­vi­dos. Quem sabe não aco­ber­ta­riam os cri­mi­no­sos em troca de al­guma ajuda? O chur­rasco do dia an­te­rior me pa­re­ceu ex­pli­car em parte essa te­o­ria. A carne po­de­ria ter sido for­ne­cida pe­los tra­fi­can­tes que usa­vam o ter­reno para co­me­ter tais he­re­sias. Um dado im­por­tante ainda me ocor­reu: quando me con­vi­da­ram para mo­rar com eles, Do­nato e seus ami­gos me aler­ta­ram so­bre algo que eu só fi­ca­ria sa­bendo mais tarde. Por­tanto, mi­nhas sus­pei­tas não eram de todo des­ca­bi­das. Restavam-me duas op­ções: ir em­bora dali e não mais vol­tar ou con­tes­tar aber­ta­mente o com­por­ta­mento de meus co­le­gas. A pri­meira logo se tor­nou in­viá­vel, pois fu­gir sem dar qual­quer ex­pli­ca­ção po­de­ria le­van­tar sus­pei­tas a meu res­peito, e as­sim eu le­va­ria co­migo para sem­pre o re­ceio de ser per­se­guido. Eu pre­ci­sa­ria lhes pe­dir ex­pli­ca­ções. Mas, an­tes, era ne­ces­sá­rio ter cer­teza de tudo aquilo, que ali re­al­mente ha­via um ce­mi­té­rio de cor­pos. E para isso, para le­var adi­ante a ini­ci­a­tiva da qual eu não ti­nha como me omi­tir, tive de jun­tar to­das as for­ças que ainda res­ta­vam em torno de meu es­pí­rito des­tro­çado.

De­viam ser umas qua­tro ho­ras quando vol­tei para baixo do vi­a­duto e, de­ci­dido, to­mei em mi­nhas mãos a ve­lha en­xada. Eu ia abrir aquela úl­tima cova, onde a terra fofa cer­ta­mente me per­mi­ti­ria um acesso me­nos tra­ba­lhoso. An­tes de en­ter­rar o aço no solo, ainda me de­tive um ins­tante. A par­tir dessa des­co­berta, mi­nha vida po­de­ria cor­rer cons­tante pe­rigo. Mas, en­tão, mais con­victo do que nunca, desci a en­xada com força: mi­nha vida se trans­for­mara num de­sas­tre e nada po­de­ria me cau­sar mais des­gosto do que sua pró­pria ocor­rên­cia. De­pois de vá­rios gol­pes se­gui­dos, senti a lâ­mina se cho­car con­tra algo que não era terra. Apressei-me na ta­refa, até que em pou­cos mi­nu­tos, afas­tando os úl­ti­mos tor­rões de areia com as mãos, al­can­cei um saco plás­tico amar­rado pela boca. Ao rasgá-lo, uma onda fé­tida en­cheu, densa, o ar das pro­xi­mi­da­des, en­quanto, com­ple­ta­mente ator­do­ado, pude ob­ser­var que ali ja­zia o ca­dá­ver do Bra­gui­nha. E o que vi me cau­sou ta­ma­nho trans­torno que mal posso me re­cor­dar: o corpo es­tava mu­ti­lado em vá­rios pon­tos. Ha­viam ar­ran­cado gran­des pe­da­ços de carne. En­tão, obe­de­cendo a um mo­vi­mento in­vo­lun­tá­rio cau­sado pelo mais in­tenso ter­ror, fui ati­rado vi­o­len­ta­mente para trás. Caído ao chão, de cos­tas, era di­fí­cil me le­van­tar. Quando reuni for­ças para me re­er­guer, uma hor­rí­vel ân­sia me fez ver­ter so­bre o ca­dá­ver do Bra­gui­nha todo o vô­mito ori­gi­nado pelo chur­rasco de suas pró­prias car­nes.

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Pe­núl­timo ca­pí­tulo

De­pois de co­brir o ca­dá­ver no­va­mente e ajei­tar o ca­pim por cima da terra, vol­tei de­ses­pe­rado ao vi­a­duto, onde Do­nato e Ca­rijó me es­pe­ra­vam sen­ta­dos à beira do cór­rego. Vendo-me com a en­xada na mão e em mi­nha face lí­vida o re­sul­tado do pa­vor, não foi pre­ciso qual­quer in­tro­du­ção, nem mesmo per­gun­tei o que sig­ni­fi­cava tal ul­traje. Cal­ma­mente, eles me dis­se­ram tudo, o que pro­cu­ra­rei re­su­mir em se­guida.

Por mais de­mente que pu­desse pa­re­cer o re­sul­tado de suas ações, am­bos de­mons­tra­ram ab­so­luta con­vic­ção ao me re­por­ta­rem suas jus­ti­fi­ca­ti­vas. Há en­tre to­dos eles uma es­pé­cie de pacto. Mas não se pre­ci­pite, meu caro es­cri­tor. Não se trata de qual­quer ri­tual li­gado a uma seita ma­luca que possa sa­cri­fi­car seus se­gui­do­res, nada disso. O grupo de ho­mens que en­tão in­cluía Do­nato, Ca­rijó, Amé­rico, Ser­gi­pano e o pró­prio Bra­gui­nha ape­nas se propôs a uma au­to­des­trui­ção que, se­gundo seu jul­ga­mento, re­pre­senta o úl­timo re­curso con­tra sua me­do­nha in­di­gên­cia. Ou­tros já ti­nham sido sa­cri­fi­ca­dos em nome desse pen­sa­mento. Dito isso, am­bos olha­ram para o ce­mi­té­rio à mar­gem do cór­rego. Lá es­ta­vam oito cor­pos. Mas não são ape­nas aque­les. Em lu­ga­res dis­tin­tos, es­pa­lha­dos pela grande ci­dade, mais gru­pos agem dessa ma­neira, garantiu-me Ca­rijó. O que mais po­de­mos es­pe­rar? – perguntou-me Do­nato. Sem tro­pe­çar nas pa­la­vras, enu­me­rou tan­tas jus­ti­fi­ca­ti­vas quan­tas fos­sem ne­ces­sá­rias para mos­trar a ine­xis­tên­cia de pers­pec­tiva para eles. Di­ante do des­caso que en­fren­tam, tra­ta­dos como se­res alheios ao mundo das di­tas pes­soas nor­mais, que so­nhos eles po­de­riam aca­len­tar? Não sou­be­ram me in­for­mar quando tudo co­me­çou. Faz muito tempo, limitaram-se a di­zer. Tam­bém se an­te­ci­pa­ram à mi­nha ine­vi­tá­vel per­gunta so­bre o con­sumo da­que­las car­nes. Isto sim não vem desde o co­meço. Só de um certo tempo para cá é que ado­ta­ram tal pro­ce­di­mento. Que carne se pode co­mer en­tre nós? –  perguntou-se Ca­rijó, em tom de de­sa­bafo. Além do mais, corre en­tre os men­di­gos o co­men­tá­rio de que al­guém propôs o con­sumo como uma ho­me­na­gem ao morto. Não é em vão que se morre – definiu-me Do­nato. Nas pri­mei­ras ve­zes, tam­bém so­fre­ram de pro­ble­mas di­ges­ti­vos, mas com o pas­sar do tempo se acos­tu­ma­ram, além de te­rem me­lho­rado o tem­pero, se­guindo ins­tru­ções de ou­tros gru­pos mais ex­pe­ri­en­tes. Está aí a his­tó­ria que eu ti­nha para lhe con­tar, caro es­cri­tor. Ela é tão as­sus­ta­dora quanto real. E o cu­ri­oso é que faço este re­lato de uma ma­neira que só agora, bem agora, lembro-me que tam­bém eu in­te­gro este sub­mundo. Por­tanto, é tam­bém mi­nha pró­pria his­tó­ria. Só a conto, compreenda-me, por ser im­pro­vá­vel que um dia o se­nhor ou qual­quer ou­tra pes­soa se sinta in­co­mo­dado com o de­sa­pa­re­ci­mento de uns pou­cos men­di­gos das suas ruas. Fora isso, lan­çando mão do re­curso que aqui eles cha­mam de li­vre ar­bí­trio, ja­mais te­re­mos ou­tro con­tato. Ama­nhã será a mi­nha vez de me li­ber­tar de to­das as mi­sé­rias que re­caí­ram so­bre mi­nha vida nes­tes úl­ti­mos anos. Adeus. 

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Úl­timo ca­pí­tulo

A BUSCA DESESPERADA

Re­cebo esta sua carta numa ma­nhã de sá­bado. O sol está ra­di­ante lá fora e a pri­ma­vera en­che mi­nha rua de flo­res. As ár­vo­res en­can­tam os pas­san­tes com o sus­surro leve de um vento que teima em for­rar o chão de pé­ta­las. Quando saio para aten­der ao car­teiro, um ôni­bus de ex­cur­são passa bem em frente cheio de cri­an­ças fa­zendo uma al­ga­zarra en­sur­de­ce­dora. Elas gri­tam, ace­nam para os pe­des­tres, são um es­pe­lho de pura ex­ci­ta­ção e fe­li­ci­dade. Aquele sen­ti­mento em trân­sito vai dei­xando um ras­tro en­tre as pes­soas, que tam­bém se agi­tam, brin­cam com elas, gri­tam pa­la­vras en­gra­ça­das. Isso tudo me dá uma in­tensa sa­tis­fa­ção. Logo que o ôni­bus de­sa­pa­rece na es­quina, pa­rece ter ha­vido uma apa­ri­ção, uma fada que, en­jo­ada da fuça si­suda de todo mundo, re­solve co­lar um sor­riso em to­das as fa­ces. En­quanto penso nes­sas bo­ba­gens gos­to­sas, o car­teiro já se foi, apres­sado em sua bi­ci­cleta. Fico com seu en­ve­lope na mão, mas ainda não faço idéia de quem seja. Só ao vol­tar para casa e me sen­tar à mesa do es­cri­tó­rio é que tomo co­nhe­ci­mento do re­me­tente em branco. En­tão, eu es­tra­nho. Abro a carta e lá es­tão seus pa­péis. Corro ra­pi­da­mente os olhos so­bre suas li­nhas es­cri­tas a mão e daí me re­cordo per­fei­ta­mente de você e do que tí­nha­mos com­bi­nado. Co­meço a ler sem ne­nhuma de­mora. Logo, à me­dida que você se adi­anta na nar­ra­tiva, meu co­ra­ção co­meça a ba­ter mais forte. Uma sen­sa­ção que soma co­mi­se­ra­ção, ar­re­pen­di­mento e re­volta cresce em meu peito. De­pois, vem o medo. Nas li­nhas fi­nais, o de­ses­pero. Num ím­peto, agarro as cha­ves do carro e me lanço à rua sem avi­sar nin­guém em casa. Você es­cre­veu “ama­nhã será a mi­nha vez…”. Ama­nhã, meu caro, é hoje. Es­ta­mos pelo meio da ma­nhã. Você e seus ami­gos não fa­riam nada tão cedo, certo? Acho que ainda me lem­bro do vi­a­duto até onde o se­gui na­quela noite. É para lá que es­tou indo, apa­vo­rado, o re­morso me cor­ro­endo as en­tra­nhas. Eu po­de­ria ter aju­dado você, de al­guma ma­neira eu po­de­ria… Vou pen­sando as­sim, atra­vesso se­má­fo­ros e mal sei se es­tão aber­tos, bu­zino para os car­ros saí­rem da frente, tento ata­lhos, te­nho von­tade de gri­tar para que você e seus ami­gos es­pe­rem um pouco mais, meus olhos em­ba­çam de­baixo dos ócu­los. Di­rijo me lem­brando de seu rosto can­sado da­quela noite, de seus olhos fu­gi­dios, de sua he­si­ta­ção em se re­por­tar a mim, como se fôs­se­mos di­fe­ren­tes, como se hou­vesse se­res in­fe­ri­o­res e você fosse um de­les. Pro­curo me con­tro­lar ao vo­lante, o carro sa­code so­bre o as­falto mal cui­dado, vou do­brando cur­vas, vou ven­cendo re­tas, es­tou me apro­xi­mando do lu­gar onde você deve es­tar, vivo ou morto, onde você deve es­tar. Pre­ciso acre­di­tar que vou che­gar a tempo, que ainda há tempo para você, que ainda há tempo para mim, que ainda há tempo para to­dos nós… 

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