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Se podemos dificultar…

domingo, 17 de junho de 2007 Texto de

So­bram ca­sais hé­tero e ho­mos­se­xu­ais que­rendo ado­tar cri­an­ças. So­bram cri­an­ças aban­do­na­das ou re­co­lhi­das em or­fa­na­tos à es­pera de pais que as ado­tem e cui­dem de­las num ver­da­deiro lar. Os ca­sais con­ti­nuam sem fi­lhos e as cri­an­ças con­ti­nuam sem pais. Um dia al­gu­mas de­las já fo­ram be­bês, mas cres­ce­ram e pas­sa­ram da idade mais pro­cu­rada, en­gros­sando a fila dos me­no­res sem casa e sem a aten­ção es­pe­cial que os can­di­da­tos a pais ado­ti­vos po­de­riam lhes dar. 

A queixa co­mum é o ex­cesso de bu­ro­cra­cia para se che­gar às cri­an­ças, que lu­cra­riam muito mais se fos­sem ado­ta­das de­pois de uma in­ves­ti­ga­ção cui­da­dosa, sim, de quem são seus fu­tu­ros pais, mas sem o ra­mer­rão que só en­trava os ca­nais en­tre as par­tes. Po­de­ria ser mais fá­cil, mas quan­tos bu­ro­cra­tas per­de­riam o em­prego se não hou­vesse tan­tas exi­gên­cias, tan­tos ca­rim­bos, tan­tas có­pias xe­rox au­ten­ti­ca­das disso ou da­quilo? Por fim, ga­nham os pais que es­go­tam sua pa­ci­ên­cia de es­pe­rar e, an­tes de tam­bém per­de­rem a ener­gia ne­ces­sá­ria para criar fi­lhos, pa­gam pela ado­ção de cri­an­ças nas­ci­das em ou­tros es­ta­dos. Tam­bém a es­ses ca­mi­nhos tor­tu­o­sos le­vam o ex­cesso de bu­ro­cra­cia e a má von­tade.

Uma ou­tra si­tu­a­ção bas­tante co­mum. O ci­da­dão se apo­senta den­tro do prazo e tem a pouca sorte de ver seus pa­péis caí­rem em exi­gên­cia, às ve­zes por uma bo­ba­gem que po­de­ria ser re­sol­vida por cor­reio, te­le­fone ou e-mail. Mas quan­tos fun­ci­o­ná­rios cu­jos ser­vi­ços se­riam con­si­de­ra­dos ir­re­le­van­tes te­riam que ser dis­pen­sa­dos se as coi­sas fos­sem as­sim tão sim­ples? Já houve caso de um pe­dido de apo­sen­ta­do­ria ter de­mo­rado mais de dois anos para ser li­be­rado e, ao tér­mino desse pe­ríodo, por in­sis­tên­cia do pró­prio re­que­rente, constatou-se que sua pasta de do­cu­men­tos ha­via caído atrás de um ar­quivo de aço e lá fi­cara sem que nin­guém desse pela falta. Nem mesmo a equipe de lim­peza per­ce­beu…

Mas tam­bém tem aquele com mais sorte, cu­jos pa­péis es­tão em or­dem, não caí­ram atrás do ar­quivo, o ca­chorro não es­tra­ça­lhou nem as tra­ças co­me­ram. Ale­luia! Saiu a apo­sen­ta­do­ria! E o FGTS? Ii­i­ihh, danou-se! Mas não é di­reito do ci­da­dão, por oca­sião de sua apo­sen­ta­do­ria, a re­ti­rada do fundo de ga­ran­tia acu­mu­lado du­rante dé­ca­das de re­co­lhi­mento? É di­reito, sim, meu se­nhor, mas não é uma ope­ra­ção au­to­má­tica. É ne­ces­sá­ria uma nova ma­ra­tona, com no­vos do­cu­men­tos, no­vas exi­gên­cias, no­vas có­pias e as­si­na­tu­ras, num fes­ti­val de in­for­ma­ções di­ver­gen­tes em cada agên­cia ban­cá­ria au­to­ri­zada para in­for­mar so­bre o as­sunto e vi­si­tada vá­rias ve­zes pelo in­cauto para esse fim. E olha lá mais al­guns me­ses para o ci­da­dão con­se­guir to­mar posse de seu “di­reito”.

Pa­rece que em cer­tas re­par­ti­ções pú­bli­cas e agên­cias ban­cá­rias ofi­ci­ais ainda vale a ve­lha per­gunta “Se po­de­mos di­fi­cul­tar, para que fa­ci­li­tar?” Deve ser um hor­ror vi­ver em paí­ses cu­jos ad­mi­nis­tra­do­res fa­zem ques­tão de não ten­tar sim­pli­fi­car o dia-a-dia dos seus ci­da­dãos em quase to­das as ins­tân­cias. Mas quan­tos fun­ci­o­ná­rios, ca­rim­bos e có­pias des­ne­ces­sá­rios te­riam que ser dis­pen­sa­dos se não exis­tisse a in­dús­tria da bu­ro­cra­cia?

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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