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10 papos com o escritor Lucius de Mello

terça-feira, 12 de junho de 2007 Texto de

1 Como nas­ceu a idéia de es­cre­ver um li­vro so­bre a saga de ju­deus que fu­gi­ram do na­zismo no Bra­sil?

Lu­cius – Foi logo de­pois que lan­cei a bi­o­gra­fia da Eny. Na época a edi­tora Va­lé­ria Motta – hoje não mais na Ob­je­tiva, mas ro­tei­rista da TV Record,(escreveu a no­vela Bi­cho do Mato), me su­ge­riu co­nhe­cer a his­tó­ria dos re­fu­gi­a­dos ju­deus quando per­gun­tei a ela se ti­nha al­guma idéia do que po­de­ria ser o meu pró­ximo pro­jeto li­te­rá­rio.

2 E a par­tir daí, você de­ci­diu to­car o pro­jeto?

Lu­cius – No iní­cio de 2003 fui co­nhe­cer a ci­dade de Ro­lân­dia, no norte do Pa­raná, e fa­zer as pri­mei­ras en­tre­vis­tas. Não deu ou­tra. A saga dos re­fu­gi­a­dos ju­deus me con­quis­tou. E te­nho cer­teza que vai con­quis­tar os meus lei­to­res tam­bém. Agra­deço aos edi­to­res Pe­dro Paulo de Sena Ma­du­reira e Luiz Vas­con­cel­los, da Novo Sé­culo, que acre­di­ta­ram no pro­jeto.

3 Qual é o prin­ci­pal tem­pero da obra? O que você pode adi­an­tar?

Lu­cius – O tí­tulo A Tra­ves­sia da Terra Ver­me­lha foi ins­pi­rado na Tra­ves­sia do Mar Ver­me­lho. As­sim como os ju­deus que fu­gi­ram do fa­raó no an­tigo Egito, os re­fu­gi­a­dos do meu li­vro tam­bém fu­gi­ram, neste caso, da per­se­gui­ção na­zista. Como no Pa­raná, a terra tem esse ape­lido ca­ri­nhoso de terra ver­me­lha, achei le­gal fa­zer esse link.
Este novo li­vro é um ro­mance his­tó­rico ba­se­ado numa in­tensa e mi­nu­ci­osa pes­quisa re­a­li­zada aqui no Bra­sil e na Ale­ma­nha. Como disse Santo Agos­ti­nho: “A me­mó­ria é a casa da alma”. E acho que ele pode es­tar certo sim. Ao vas­cu­lhar a me­mó­ria dos imi­gran­tes e re­fu­gi­a­dos pro­cu­rei en­trar em con­tato com o que es­tava além dos fa­tos e das fo­tos; quis co­nhe­cer mais a fundo as co­res da per­so­na­li­dade de cada um. E des­co­bri ver­da­des que pou­cos co­nhe­ciam. Se­gre­dos de fa­mí­lia, por exem­plo, que muito con­tri­buem para com­pre­en­são dos fa­tos his­tó­ri­cos. Junto com o res­gate e a re­cons­tru­ção desse pas­sado, fiz tam­bém um re­trato psi­co­ló­gico des­sas pes­soas mar­ca­das para mor­rer na Ale­ma­nha, mas que re­nas­ce­ram na fér­til Terra Ver­me­lha do Pa­raná. O prin­ci­pal tem­pero da obra são as his­tó­rias de re­sis­tên­cia das pes­soas que fi­ze­ram parte dessa saga. A li­ção de vida. Elas me en­si­na­ram e de­vem en­si­nar aos meus lei­to­res como a vida fica me­lhor sem­pre que va­lo­ri­za­mos a es­pe­rança e o oti­mismo.

4 Seu pri­meiro li­vro é de con­tos. O se­gundo e agora o ter­ceiro tri­lham ou­tros ru­mos, de pes­quisa jor­na­lís­tica in­clu­sive. Você vai por essa es­trada ou gosta de en­cru­zi­lha­das?

Lu­cius – Pre­firo cha­mar essa “en­cru­zi­lhada”, como você diz, de es­paço fas­ci­nante, para pou­cos e ra­ros e sím­bolo da atual pós-modernidade ou re­a­li­dade lí­quida como diz o fi­ló­sofo po­lo­nês Zyg­munt Bau­man. Es­paço que os aca­dê­mi­cos cos­tu­mam cha­mar de mis­te­ri­osa fron­teira en­tre a re­a­li­dade e a fic­ção.

Fron­teira tão freqüen­tada por no­mes con­sa­gra­dos da li­te­ra­tura como Um­berto Eco, por exem­plo. Claro que não é de hoje que esse es­paço ins­tiga es­cri­to­res e jor­na­lis­tas. No co­meço da dé­cada de 60, Tom Wolfe, Tru­man Ca­pote e Ta­lese, tam­bém re­pór­te­res, na­da­ram em águas pa­re­ci­das, as águas do New Jour­na­lism. Há tam­bém a meta-ficção que vi­bra em freqüên­cia muito se­me­lhante.

José Sa­ra­mago tam­bém mer­gu­lha nes­sas águas. E vive di­zendo: In­gê­nuos são os que acre­di­tam que vi­ve­mos num “mundo real”. Me­dío­cres os que se li­mi­tam a vi­ver ten­tando man­ter o pa­drão ul­tra­pas­sado que in­siste em se­pa­rar a re­a­li­dade da fic­ção ou vice-versa. Deus é uma re­a­li­dade? O Di­abo é real? Quem ga­rante que lá no alto, em cima das nos­sas ca­be­ças não existe, li­te­ral­mente, um céu de fic­ção? A de­mo­cra­cia é uma re­a­li­dade? Há quem diga, in­clu­sive, que no atual mundo em que vi­ve­mos, onde quase to­dos e quase tudo são re­féns do po­der econô­mico, o fic­ci­o­nista é mais fiel à re­a­li­dade do que o jor­na­lista. “Os fa­tos têm o pés­simo há­bito de ocul­tar a ver­dade aos nos­sos olhos”, diz Amós Oz, o maior au­tor is­ra­e­lense vivo. Mais do que nunca, os pa­ra­dig­mas es­tão aí para se­rem que­bra­dos. Re­cons­truí­dos. Re­pen­sa­dos.

O mundo que os co­mer­ci­ais de te­le­vi­são mos­tram para con­ven­cer o te­les­pec­ta­dor a com­prar re­vela o real? O car­tão de cré­dito, por exem­plo… Ele é a maior prova de que mui­tos de nós vi­ve­mos num mundo que está longe de ser o mundo real que de­ve­ría­mos viver…O mundo do con­sumo é o reino da fic­ção. Os shop­pings cen­ters, en­tão… são cas­te­los de con­tos de fa­das… Não é por acaso que o fi­ló­sofo po­lo­nês Zig­munt Bau­man pre­fere cha­mar a nossa re­a­li­dade de “re­a­li­dade lí­quida”, ou seja, aquela que muda de forma com a mesma agi­li­dade da água.

Sha­kes­pe­are es­cre­veu Ro­meu e Ju­li­eta, ba­se­ado num caso ve­rí­dico. Mar­cel Proust criou sua obra maior Em Busca do Tempo Per­dido con­tanto a sua pró­pria vida e a vida dos seus ami­gos e pa­ren­tes, mas tro­cando os no­mes das pes­soas. Grande parte da li­te­ra­tura uni­ver­sal bebe no “mundo real”.
Para es­cre­ver esse meu novo li­vro eu bebi na fonte da Me­mó­ria e, com base em de­ze­nas de de­poi­men­tos, do­cu­men­tos, car­tas, diá­rios, re­cons­truí o pas­sado de mãos da­das com jor­na­lismo e a li­te­ra­tura.

Nunca disse que es­crevo li­vros re­por­ta­gens. Não é esse o meu pro­pó­sito. E não acho, como al­gu­mas pes­soas pen­sam, que um es­tilo seja me­lhor que o ou­tro ou que a li­te­ra­tura seja uma fer­ra­menta me­nor que en­fra­queça pro­je­tos deste gê­nero. Sin­ce­ra­mente acho que quem pensa as­sim não tem re­per­tó­rio in­te­lec­tual para en­ten­der a pro­posta.

Con­si­dero a li­te­ra­tura um sa­cer­dó­cio. Quando es­crevo busco cons­truir uma obra de arte. E muito sé­ria. Tanto no caso da Eny (bi­o­gra­fia ro­man­ce­ada) como agora com meu novo li­vro. E acho que o pú­blico em ge­ral e até o mais in­te­lec­tu­a­li­zado e crí­tico têm en­ten­dido o meu pro­pó­sito. Tanto que Eny che­gou à fi­nal do Prê­mio Ja­buti. E A Tra­ves­sia da Terra Ver­me­lha ainda nem saiu e já me va­leu o con­vite da pro­fes­sora dou­tora Ma­ria Luiza Tucci Car­neiro, para in­te­grar a equipe de pes­qui­sa­do­res do LEER – La­bo­ra­tó­rio de Es­tu­dos so­bre Et­ni­ci­dade, Ra­cismo e Dis­cri­mi­na­ção da Uni­ver­si­dade de São Paulo. O qual já acei­tei. Tam­bém fui con­vi­dado para lan­çar meu novo li­vro na OFF-FLIP deste ano em Pa­raty e no se­gundo se­mes­tre vou apre­sen­tar meu novo pro­jeto em dois con­gres­sos aca­dê­mi­cos: um na USP e ou­tro em Bu­e­nos Ai­res, na Ar­gen­tina.

5 Quem, aí den­tro do Lu­cius, vence o du­elo: o jor­na­lista ou o es­cri­tor?

Lu­cius – Sem­pre quis ser es­cri­tor desde me­nino. Aos 11 anos co­me­cei a es­cre­ver meu pri­meiro ro­mance: a his­tó­ria de uma es­crava que está ina­ca­bado até hoje. Quando fiz ves­ti­bu­lar, es­co­lhi jor­na­lismo por­que era a pro­fis­são mais pa­re­cida com a de es­cri­tor. Acho que o es­cri­tor vence esse du­elo. Mas nem por isso se­ria ca­paz de ma­tar o jor­na­lista. O es­cri­tor pre­cisa dele para tra­ba­lhar. O jor­na­lista ajuda muito o es­cri­tor no ofí­cio de es­cre­ver e vice-versa. 

6 Afi­nal, Eny vai para a te­li­nha?

Lu­cius – Tudo ca­mi­nha para isso. Não es­tou au­to­ri­zado a fa­lar so­bre o as­sunto, mas o que sei é que o pro­jeto ainda está em fase de cap­ta­ção de re­cur­sos.

7 O bor­del é um grande su­cesso. Em que isso fa­ci­lita sua vida de
es­cri­tor?

Lu­cius – Acho que a bi­o­gra­fia da Eny me lan­çou no mer­cado na­ci­o­nal como es­cri­tor. Me le­vou à fi­nal do Prê­mio Ja­buti. Vi­a­jei quase todo o Bra­sil. Con­quis­tei lei­to­res, isso é muito im­por­tante. Até agora o li­vro já ven­deu quase 40 mi­le­xem­pla­res. Logo deve ser tra­du­zido na Polô­nia. Es­pero que o meu novo li­vro agrade aos meus lei­to­res tanto quanto Eny.

8 Quem vive na sua ca­be­ceira?

Lu­cius – Proust, Joyce, John Ban­ville, Sa­ra­mago, Ma­chado de As­sis, Bor­ges, Gar­cia Már­quez, Cor­tá­zar, Go­ethe, Rilke, Cla­rice Lis­pec­tor e Tho­mas Mann.

9 Para o jor­na­lista: com o au­mento dos ca­nais no­ti­ci­o­sos, in­cluí­dos os da in­ter­net, o jor­na­lismo está me­lhor?

Lu­cius – Acho que me­lho­rou sim den­tro do pos­sí­vel, mas ainda não ven­ceu seu maior de­feito: con­ti­nua exa­ge­ra­da­mente re­fém do po­der econô­mico. As­sim como todo o PODER no Bra­sil. E como as ví­ti­mas da Sín­drome de Es­to­colmo, se­gue fe­liz nos bra­ços dos seus seqües­tra­do­res.

10 Para o es­cri­tor: a pro­du­ção li­te­rá­ria no Bra­sil é muito farta para o pú­blico in­te­res­sado ou quanto mais tí­tu­los me­lhor para o há­bito da lei­tura?

Lu­cius –  O Bra­sil ainda pre­cisa des­co­brir o li­vro. O Pe­dro Al­va­rez Ca­bral da lei­tura ainda não che­gou por aqui, in­fe­liz­mente. E as te­le­vi­sões aber­tas que po­de­riam fa­zer o pa­pel das ca­ra­ve­las e das ven­ta­nias, nunca co­la­bo­ra­ram de forma re­al­mente efi­caz e até hoje não co­la­bo­ram.

Lu­cius de Mello é es­cri­tor e jor­na­lista, foi fi­na­lista do Prê­mio Ja­buti 2003 na ca­te­go­ria reportagem/biografia com o li­vro Eny e o Grande Bor­del Bra­si­leiro – edi­tora Ob­je­tiva. Pes­qui­sa­dor do LEER – La­bo­ra­tó­rio de Es­tu­dos so­bre Et­ni­ci­dade, Ra­cismo e Dis­cri­mi­na­ção – do De­par­ta­mento de His­tó­ria da USP, lança em ju­nho A TRAVESSIA DA TERRA VERMELHA – ro­mance his­tó­rico que conta a saga dos ju­deus ale­mães que se re­fu­gi­a­ram no norte do Pa­raná para es­ca­par do na­zismo.

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