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quinta-feira, 7 de junho de 2007 Texto de

O en­tre­ga­dor de jor­nais que vi­sita di­a­ri­a­mente os por­tões das re­si­dên­cias dos se­nho­res Se­púl­veda, à di­reita, e Magno, à es­querda da casa aban­do­nada da rua Santa Lu­zia, é um su­jeito cu­ri­oso. Ao ati­rar o jor­nal quin­tal aden­tro, des­fere dois ta­pi­nhas rá­pi­dos numa das per­nas en­tre uma en­trega e ou­tra, e, à me­dida que ouve cada ruído cau­sado pela queda do pa­pel, emenda um de­sa­jei­tado si­nal da cruz. Ele é cu­ri­oso por es­sas ex­cen­tri­ci­da­des, mas tam­bém, e prin­ci­pal­mente, pelo fato de con­si­de­rar que to­das as no­tí­cias são para dis­trair. Em vez de per­gun­tar se o lei­tor de sua re­gião já leu o jor­nal hoje, ele pre­fere sa­ber da dis­tra­ção. En­tão, Seu Se­púl­veda, já se dis­traiu? E o se­nhor, Seu Magno, gos­tou da dis­tra­ção? Pois bem, esse ra­paz ainda bas­tante jo­vem, como quase to­dos os jor­na­lei­ros, pas­sou ou­tro dia por maus bo­ca­dos.

Vi­nha ele já pela rua Santa Lu­zia, com­posta de cinco qua­dras es­pre­mi­das en­tre duas im­por­tan­tes ave­ni­das, mas ao mesmo tempo de pouco trá­fego e muito pa­cata por estender-se em área es­tri­ta­mente re­si­den­cial, quando o agua­ceiro que ame­a­çava de­sa­bar desde o meio da noite in­ter­veio pe­sado na ma­dru­gada. Os exem­pla­res encontravam-se de­vi­da­mente me­ti­dos em sa­qui­nhos plás­ti­cos. Den­tro de seu es­mero, Vi­tal, este é seu nome, sentiu-se tranqüilo ao certificar-se do cui­dado ex­tra ado­tado pela em­presa. Seu tra­ba­lho não se­ria pre­ju­di­cado, nem seu nome en­la­me­ado, em­bora suas bo­ti­nas, sim. A chuva pa­re­cia que­rer ala­gar tudo à sua volta. Já in­tei­ra­mente en­so­pado, Vi­tal pro­cu­rou pro­te­ção sob a mar­quise de uma das ca­sas que, no iní­cio da­quela rua, cola-se ao pas­seio. Ali, com os jor­nais co­ber­tos por uma lona, ele manteve-se por al­guns mi­nu­tos, es­pe­rou, por as­sim di­zer, o que dava para es­pe­rar, pois com ou sem chuva as pes­soas aguar­dam sua dis­tra­ção diá­ria, pen­sou.

Eram qua­tro e meia. Vi­tal ha­via per­ma­ne­cido sob o abrigo pre­cá­rio me­nos do que cinco mi­nu­tos, mas para sua pa­ci­ên­cia, para seus há­bi­tos ma­ti­nais re­gi­dos por se­gun­dos, a im­pres­são era de que o mundo já te­ria tido tempo de transformar-se. Re­leu as le­tras gar­ra­fais que, den­tro do sa­qui­nho plás­tico, tra­ta­vam da cri­mi­na­li­dade fora de con­trole. Tam­bém cor­reu os olhos so­bre a no­tí­cia cujo teor era o cres­ci­mento dos ín­di­ces de de­sem­prego. A dis­tra­ção está boa hoje, ra­ci­o­ci­nou de leve, lembrando-se tam­bém de ou­tras man­che­tes que lera há pouco numa banca, a mai­o­ria ex­pli­cando cri­mes, mi­sé­ria, os ju­ros al­tos… A an­si­e­dade trespassou-lhe o es­pí­rito. Sal­tou so­bre a moto e não ha­ve­ria chuva que pu­desse detê-lo. O tem­po­ral, em­bora mais ameno, ainda chicoteava-o nas cos­tas. À água, pas­sava a aliar-se o zu­nido de um vento hor­rí­vel. Mesmo as­sim, Vi­tal pôde ou­vir o pri­meiro exem­plar ati­rado chocar-se con­tra a porta de ferro. Seu sem­blante en­du­re­ceu, a mão ba­teu duas ve­zes na perna e logo su­biu à fronte para tas­car o si­nal da cruz. 

A casa va­zia en­tre os se­nho­res Se­púl­veda e Magno fica no ex­tremo oposto da rua. Há coisa de cinco ou seis me­ses, a fa­mí­lia mudara-se para ou­tra re­gião da ci­dade. O jor­nal an­te­ri­or­mente le­vado por Vi­tal pas­sara aos cui­da­dos de um novo en­tre­ga­dor. Não se sabe bem o porquê, mas o caso é que na­quela ma­dru­gada in­ver­nal, de chuva, vento e raios ca­pa­zes de ator­doar, nosso amigo co­me­teu um equí­voco, algo como um ato fa­lho. Ao en­tre­gar o exem­plar do Seu Magno, cum­prir com seus há­bi­tos de sem­pre e dirigir-se al­guns me­tros adi­ante, onde ati­ra­ria o do Seu Se­púl­veda, Vi­tal atrapalhou-se en­tre as ba­ti­das na coxa e o ri­tual re­li­gi­oso, ar­re­mes­sando tam­bém um jor­nal na di­re­ção da casa aban­do­nada, rumo à va­randa en­tu­lhada de bu­gi­gan­gas e onde sa­mam­baias e ou­tras fo­lha­gens pa­re­ciam ter en­con­trado uma mo­rada se­gura. Pois sim. Não de­mo­rou um se­gundo para que ele, tão di­li­gente em sua ati­vi­dade, per­ce­besse o ocor­rido. Após livrar-se da úl­tima en­co­menda, di­ri­gida à porta do Seu Se­púl­veda, fez meia-volta e es­ta­ci­o­nou a moto di­ante do por­tão cu­jos trin­cos em­per­ra­vam pe­sa­dos e en­fer­ru­ja­dos com a falta de ma­nu­seio. Que bo­ba­gem a do Vi­tal! Ele, como ou­tros co­le­gas, sem­pre car­re­gam al­guns exem­pla­res a mais para si­tu­a­ções como aquela, mas, tendo já fi­na­li­zado seu tra­ba­lho, o que cus­tava dedicar-se um tanto mais? Afi­nal de con­tas, o jor­nal iria ama­nhe­cer, tal­vez por vá­rios dias se­gui­dos, sem que nin­guém lhe ofe­re­cesse uma mão amiga e prin­ci­pal­mente os olhos a correr-lhe as pá­gi­nas, distraindo-se em meio às suas no­tí­cias. Foi o que ma­tu­tou Vi­tal ao desvencilhar-se do trinco e se­guir em di­re­ção ao amon­to­ado de plan­tas e à es­cu­ri­dão onde ja­zia a po­bre fo­lha.

Mas eis que, ao aproximar-se do lo­cal onde o jor­nal ha­via caído, já den­tro da va­randa que con­tor­nava em L a casa va­zia, Vi­tal des­con­fiou de qual­quer coisa es­tra­nha. Ele não sa­bia do que se tra­tava. Do modo que ao me­nos uma vez na vida nos ocorre de ima­gi­nar­mos uma com­pa­nhia sem, no en­tanto, po­der visualizá-la, foi as­sim que Vi­tal sentiu-se. Po­rém, da mesma ma­neira que a prin­cí­pio, por um se­gundo que seja, nós pro­cu­ra­mos afas­tar de nosso en­calço uma idéia desse gê­nero, o en­tre­ga­dor de jor­nais tam­bém ten­tou agir sob a voz da ra­zão, pois se não via nin­guém di­ante de si ou mesmo em re­dor, o que po­de­ria te­mer? Com es­ses pen­sa­men­tos, arriscou-se dois pas­sos à frente, onde di­vi­sou por en­tre fo­lha­gens e de­mais plan­tas do jar­dim que avan­ça­vam cons­tru­ção aden­tro, trançando-se num sem nú­mero de bro­tos e fo­lhas, o pe­queno in­vó­lu­cro de plás­tico jo­gado no piso. Vi­tal, en­tão, desemaranhou-se dos pri­mei­ros ci­pós para al­can­çar o jor­nal, mas ao che­gar mais pró­ximo, mesmo na es­cu­ri­dão do quin­tal de­serto, per­ce­beu que o plás­tico fi­cara va­zio de re­pente. Um frio subiu-lhe pe­las en­tra­nhas e veio somar-se à pele ge­lada pela chuva que se­guia firme em sua can­to­ria. Sim, ali, no in­te­rior da va­randa, en­la­çado pe­las plan­tas, ele ti­nha a im­pres­são que vi­nham lá de den­tro da casa va­zia como que no­tas de um triste cân­tico em­ba­lado pelo mur­mú­rio de cons­tan­tes go­tei­ras. Ou­tra vez, en­quanto por um lapso per­deu o con­trole dos mo­vi­men­tos, teve a ní­tida sen­sa­ção de não es­tar só. E um se­gundo de­pois, exa­ta­mente quando con­se­guia de­be­lar parte de seu pa­vor, po­dia ju­rar, não sabe de onde, ter ou­vido sair aque­las pa­la­vras de sons en­tre­cor­ta­dos e gu­tu­rais: que­re­mos nos dis­trair…

En­quanto desenlaçava-se da­que­las mal­di­tas plan­tas que pa­re­ciam envolvê-lo tanto mais ele movimentava-se, Vi­tal tam­bém jura ter visto de­sa­pa­re­ce­rem len­ta­mente na ex­tre­mi­dade da va­randa oposta à sua, onde só ha­via o breu, um par de lu­zes ru­bras, tais como dois olhos. Ele jura, mas isso já é uma ou­tra his­tó­ria. Esta acaba com o en­tre­ga­dor de jor­nais so­bre sua moto, cor­rendo com o ter­ror ao seu en­calço, avan­çando em dis­pa­rada rumo à banca mais pró­xima, no meio da chuva e dos raios, cor­tando os ôni­bus api­nha­dos de ope­rá­rios e os pri­mei­ros car­ros que tra­fe­gam em di­re­ção à ma­nhã cin­zenta, arriscando-se em alta ve­lo­ci­dade, de­se­jando livrar-se do ar­re­pio que o toma in­teiro por de­baixo dos tra­jes en­so­pa­dos, mas mesmo as­sim impondo-se ape­nas um pen­sa­mento, per­mi­tindo que só uma idéia ha­bite sua mente, nada mais do que as man­che­tes que lera na­quela ma­dru­gada: a cor­rup­ção, a cri­mi­na­li­dade, os as­sas­si­na­tos, os ele­va­dos ín­di­ces de mi­sé­ria, os al­tos ju­ros. Pre­ciso me dis­trair, es­sas coi­sas me dis­traem, ia pen­sando Vi­tal, atendo-se às no­tí­cias do jor­nal para es­que­cer do medo en­cer­rado na pai­sa­gem de­so­la­dora da­quela casa va­zia.

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