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Amor junino - Texto de Otávio Nunes

quarta-feira, 6 de junho de 2007 Texto de

“Com a fi­lha de João, An­to­nio ia se ca­sar. Mas Pe­dro fu­giu com a noi­va, na ho­ra de ir pro al­tar.” A mú­si­ca in­va­dia to­do o quar­tei­rão da rua en­fei­ta­da de ban­dei­ro­las co­lo­ri­das. A fo­guei­ra ar­dia, es­tra­la­va e as pes­so­as se di­ver­ti­am na­que­le bair­ro, co­mo em to­dos os me­ses de ju­nho.

En­quan­to co­mia uma es­pi­ga de mi­lho as­sa­do e be­bia quen­tão, Cal­cí­dio pro­cu­ra­va avi­da­men­te des­co­brir o vul­to de Glo­ri­nei­de en­tre as pes­so­as. Ner­vo­so, sem sa­ber se ela iria apa­re­cer e to­par le­var adi­an­te o pla­no tra­ça­do ha­via dois di­as, o ra­paz che­gou até a se en­gas­gar com um pe­da­ço de gen­gi­bre do quen­tão. Cus­piu no chão a be­bi­da e tam­bém di­ver­sos ca­ro­ços de mi­lho, até de­sobs­truir a gar­gan­ta. Mi­nu­tos de­pois, en­xer­gou Glo­ri­nei­de.

- E en­tão. Es­tá pron­ta pra gen­te ir em­bo­ra?

- Não sei, Cal. Meu fi­lho es­tá res­fri­a­do e nem trou­xe ele aqui na fes­ta. Dei­xei dor­min­do em ca­sa.

Cal­cí­dio in­sis­tiu. Dis­se que aque­le era o mo­men­to cer­to. Ti­nha ar­ru­ma­do um tá­xi, que os es­pe­ra­va na es­qui­na pa­ra le­vá-los à ro­do­viá­ria. Até pas­sa­gem com­pra­da ele guar­da­va no bol­so.

- Te­mos de ir em­bo­ra ago­ra. An­tes que seu ma­ri­do che­gue do tra­ba­lho.

Con­ver­sou, pe­diu, cla­mou, re­zou. Até que ela con­cor­dou e foi pe­gar o fi­lho, em­bru­lha­do num co­ber­tor, e sua ma­la de rou­pas. Os três saí­ram ru­mo ao tá­xi, sem nin­guém ver. To­dos es­ta­vam de olho na fo­guei­ra que ar­dia na es­cu­ri­dão. Du­as qua­dras de­pois, o pneu do tá­xi fu­rou.

En­quan­to o mo­to­ris­ta e Cal­cí­dio tro­ca­vam o pneu, Glo­ri­nei­de e o ga­ro­to ti­ri­ta­vam de frio na­que­la noi­te de 29 de ju­nho. De re­pen­te, sur­ge o ma­ri­do de Glo­ri­nei­de, que ti­nha des­ci­do do ôni­bus ha­via pou­co, e per­gun­tou o que es­ta­va acon­te­cen­do.

- Oh que­ri­do. Nos­so fi­lho não es­tá bem e o Cal­cí­dio ar­ru­mou um tá­xi pra gen­te ir ao hos­pi­tal. Não deu tem­po de te es­pe­rar. Mas, ago­ra, fu­rou o pneu do car­ro....

O ma­ri­do per­gun­tou se ti­nha co­mi­da em ca­sa e ela dis­se que sim. Agra­de­ceu ao “meu gran­de ami­go” Cal­cí­dio pe­la gen­ti­le­za de le­var o ga­ro­to e dis­se que iria pa­ra ca­sa, pois es­ta­va can­sa­do e com fo­me.

To­mou ba­nho, pro­cu­rou a co­mi­da e não en­con­trou. En­tão amal­di­ço­ou a mu­lher. Co­meu, en­tão, o pão ama­nhe­ci­do, uma ba­na­na e li­gou a te­le­vi­são pa­ra es­pe­rar por Glo­ri­nei­de e o me­ni­no.

Já se pas­sa­ram ou­tras fes­tas ju­ni­nas na rua. E ele con­ti­nua a es­pe­rar e a co­mer ba­na­nas.

E-mail: otanunes@gmail.com

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