Prato, bolacha e amor - Texto de João Pedro Feza | Márcio ABC

Bai­la­ri­na, car­ros­sel, he­li­cóp­te­ro, a Ter­ra. A Ter­ra. E o liqüi­di­fi­ca­dor tam­bém.

Tan­ta coi­sa gi­ra e o gi­rar ins­ti­ga quem vê. “Pre­ci­so dar um gi­ro por aí.” “É pre­ci­so se vi­rar.” “Dá uma ro­da­da pra sa­ber.”

A ci­da­de ex­pli­ca. Mo­vi­men­to é vi­da em vi­bra­ção. Às vol­tas com a vi­da, pre­fe­ri­mos as­sim.

Mas nem mes­mo o pró­prio pla­ne­ta gi­ra tão lin­da­men­te quan­to um dis­co de vi­nil no pra­to sem­pre re­cep­ti­vo a gi­rar sem quei­xas.

A mú­si­ca di­gi­tal é per­fei­ta. Taí o er­ro.

Ou­ço The Smiths nes­se mo­men­to. Pre­ci­so bo­tar no la­do B por­que, no A, a ca­da dez se­gun­dos há uma fra­ção de pu­lo. Não exa­ta­men­te um so­la­van­co. Es­tá mais pa­ra pres­ta-aten­ção.

Ha­via mui­ta po­ei­ra, mui­ta mes­mo. Meu olho es­quer­do co­ça. Nem por um CD vo­cê bei­ja­ria aque­le plás­ti­co ras­ga­do na pon­ta que en­vol­ve o ál­bum que ago­ra gi­ra.

Não te­nho ne­nhu­ma re­la­ção mais afe­ti­va com Smiths. Co­lo­quei por­que, ape­sar de clás­si­co, é um dos dis­cos que me­nos ou­ço. Acho um pe­ca­do per­der a le­tra por não sa­ber in­glês. E a le­tra, pa­ra es­sa ban­da in­gle­sa, é qua­se tu­do.

Quem ou­vi­ria Chi­co Bu­ar­que em chi­nês?

Ok, até te­nho al­gu­ma no­ção do in­glês. Cap­to as in­ten­ções. Não faz di­fe­ren­ça tan­to as­sim: o que im­por­ta é que 1986 ro­da lá no pra­to se­ten­tis­ta de um Po­li­vox re­cém-ado­ta­do.

Há tem­pos is­so não ocor­ria.

Há to­do um ri­tu­al, não é co­mo ti­rar o dis­qui­nho pra­te­a­do da frá­gil cai­xi­nha qua­dra­da ou bai­xar a can­ção pre­fe­ri­da na lon­ga e si­nu­o­sa re­de.

Vo­cê pre­ci­sa pri­mei­ro vi­su­a­li­zar as ca­pas gran­des em fi­la in­di­a­na. Do­ce de­sor­dem co­lo­ri­da. E em­po­ei­ra­da, cla­ro.

A mão es­quer­da apóia as ca­pas de trás e a di­rei­ta par­te pa­ra a se­le­ção co­mo que em bus­ca da­que­le do­cu­men­to im­por­tan­te que dor­me em pas­tas sus­pen­sas de um ve­lho ar­má­rio de aço.

Uma a uma, vai pu­xan­do que acha.

Há al­gu­mas pa­ra­das es­tra­té­gi­cas pa­ra ob­ser­var me­lhor a ri­que­za vi­su­al de ca­da ca­pa. Do pon­to de vis­ta do de­sign, o for­ma­tão tra­di­ci­o­nal tem lá su­as mui­tas van­ta­gens.

Ao achar a obra pres­tes a ser ou­vi­da, va­le che­car o en­car­te. Ti­rar do plás­ti­co amas­sa­do, pas­sar um pa­no se­co.

Aper­tar os bo­tões ul­tra­pas­sa­dos, dei­xar as lu­zes ga­nha­rem o cô­mo­do. Abrir o tam­pão, as­so­prar a agu­lha. De­po­si­tar o vi­nil em seu me­re­ci­do lu­gar.

E, de al­go ina­ni­ma­do, cria-se o es­plen­dor.

A mú­si­ca e su­as ir­re­gu­la­ri­da­des. O chi­a­di­nho ao fun­do, es­sa ou­tra tex­tu­ra so­no­ra. Mais crua, me­nos an­ti­bió­ti­ca.

Cla­ro que Ba­den Powell fi­ca um pou­co pre­ju­di­ca­do. Mas o ve­lho rock se sai bem, in­cor­po­ra os ruí­dos me­câ­ni­cos.

O rock nas­ceu pa­ra o vi­nil.

O bo­la­chão é igual a gen­te: tem seus de­fei­tos, mas as vir­tu­des são pu­ras, pa­ra to­da a vi­da.

Se o dis­co in­sis­te em pu­lar, ris­ca­do que es­tá, es­bo­ce um le­ve sor­ri­so de sim­pá­ti­ca re­sig­na­ção.

Let it be. Dei­xa es­tar. Dei­xa gi­rar.

E-mail: jfeza@bol.com.br

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