Cada vez que tomo a pí­lula não sinto nada. O efeito não vem nem de­pois que a droga passa para a cor­rente sangüí­nea. Mas me ga­ran­ti­ram que essa não é uma pí­lula de fa­ri­nha, há uma quí­mica nela. Não ligo, o im­por­tante é que es­tão me pa­gando.

Es­crevo isso para pas­sar o tempo. É muito chato fi­car presa den­tro dessa casa. Já faz 13 dias. Não te­nho muito o que fa­zer, a co­mida vem pronta, as rou­pas são mu­da­das todo dia, en­fim, tudo o que eu pre­ciso é co­lo­cado numa porta gi­ra­tó­ria. Te­nho uma TV, mas é um cir­cuito fe­chado que só passa fil­mes an­ti­gos, sem co­res. Ainda bem que não sou obri­gada a ver.

Acho que nunca acei­ta­ria vi­ver aqui sem a grana. A Luísa me con­ven­ceu. De­pois de tanto tempo sem ver ela, re­solvi acre­di­tar que o di­nheiro era fá­cil. Ela es­tava certa, todo o dia an­tes das en­tre­vis­tas eles me mos­tram os re­ci­bos dos de­pó­si­tos.

Posso usar o di­nheiro para vi­a­jar. De quem sinto mais sau­dade aqui? É ló­gico que é você, Alice. Pena que você nunca mais vai que­rer olhar na mi­nha cara. Se não fosse isso já te­ria saído dessa casa. Você aca­bou co­migo, linda. Mas pelo me­nos vou fi­car rica. O me­lhor mesmo é ir para longe. Um lu­gar para fi­car qui­eta e te es­que­cer.

Só que aqui não vou con­se­guir. Esse mé­dico só faz per­gun­tas do que eu vivi, faz ques­tão de de­ta­lhes. Essa se­mana per­cebi que conto coi­sas para ele que nunca con­ta­ria a nin­guém. No con­trato que as­si­nei esse lu­gar se com­pro­mete a nunca di­vul­gar meu nome, tal­vez seja isso.

Quando ti­nha 16 anos me deu von­tade de brin­car com uma gar­rafa. Era uma fanta, só que an­tes de en­fiar eu quis be­ber. Como fui burra! O ar da gar­rafa pren­deu ela den­tro de mim. Meus pais ten­ta­ram ar­ran­car mas doía muito, eu gri­tava. Como o resto da mi­nha fa­mí­lia, eu já era pe­luda na­quela época. Os pê­los pu­bi­a­nos fi­ca­ram pre­sos e cada vez que pu­xa­vam era uma dor hor­rí­vel. Meu pai que­ria pu­xar até ar­ran­car, mas mi­nha mãe im­plo­rou para ele cha­mar um mé­dico, que só con­se­guiu ti­rar de­pois de ser­rar o vi­dro.

É claro que todo mundo fi­cou sa­bendo na rua e na es­cola. Os me­ni­nos pas­sa­ram a an­dar com uma gar­rafa de fanta na mo­chila e quando me viam sem­pre me per­gun­ta­vam rindo se eu que­ria usar. Até mi­nhas ami­gas que­riam sa­ber se mi­nha bo­ceta ti­nha fi­cado larga. Eu que­ria mor­rer. Foi o que con­tei on­tem na en­tre­vista.

Sem­pre tive di­fi­cul­dade de fa­lar so­bre tudo que possa ser re­la­ci­o­nado com sexo. Aqui aprendi a con­tar tudo o que me en­ver­go­nha ou me ma­goou. Mas não me sinto me­lhor com isso, con­ti­nuo sen­tindo ver­go­nha e má­goa do mesmo jeito. Quem disse que fa­lar a ver­dade faz bem? Só es­pero jun­tar di­nheiro com isso, quando sair sei que as coi­sas vão ser iguais.

– En­tão esse pa­ci­ente che­gou num es­tá­gio tão avan­çado da mi­to­ma­nia que men­tia para to­dos ser mu­lher e in­ven­tava coi­sas até es­cre­vendo?

– Sim, a droga só con­se­guiu fa­zer pa­rar a de­pres­são. Pelo que des­co­bri­mos ele mis­tura lem­bran­ças do pas­sado dele com fa­tos ima­gi­na­dos. Um dia trou­xe­mos essa Alice aqui. A prin­cí­pio ele re­a­giu bem, mas gri­tou quando ela lhe cha­mou de men­ti­roso. Mas Alice, eu já disse que não sou mitô­mano! – ele gri­tou vá­rias ve­zes.

– O que acon­te­ceu com ele?

– Pra­ti­ca­mente não re­a­giu aos tra­ta­men­tos. Está in­ter­nado aqui há seis anos e pensa es­tar jun­tando uma bo­lada. Por en­quanto, essa é a única vida em que ele já se ajus­tou.

E-mail: reichaves@hotmail.com

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