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O trato

quinta-feira, 24 de maio de 2007 Texto de

Ainda não eram nove da ma­nhã e Ed­gar já es­tava à es­pera, na sua sala, quando Da­nilo en­trou. Pediu-lhe que fe­chasse a porta, e ele mesmo já ha­via bai­xado as per­si­a­nas que da­vam para a sala dos re­da­to­res, numa ten­ta­tiva de evi­tar que aquela con­versa pu­desse ser de­ci­frada pela lei­tura de lá­bios. Mesmo as­sim, sentou-se de frente para Da­nilo, dando as cos­tas para as per­si­a­nas.

– Bom, você sabe por que eu te cha­mei aqui…

– Claro. Quer di­zer, acho que sim. É por causa do filme. 

– Certo. Você está com ele aí?

– Claro. Não é so­bre isso que va­mos con­ver­sar?

– É. Mas, por fa­vor, pare de res­pon­der “claro” a tudo o que eu per­gun­tar.

– Claro. Não me custa nada.

– Mas é pra fa­zer um es­forço, Da­nilo. É muito chato você fi­car res­pon­dendo “claro” a toda hora. 

– Não tem pro­blema.

– Bom, en­tão este aí na sua mão é o tal filme do ci­ne­gra­fista anô­nimo.

– É. O que eu en­con­trei den­tro da câ­mera nos es­com­bros do pré­dio.

– O mesmo que você me mos­trou on­tem.

– Per­feito. E já vi umas trinta ve­zes. Me diz uma coisa, Ed­gar, nós es­ta­mos fa­lando do mesmo as­sunto?

– Por que essa per­gunta agora?

– Você vê o filme, me pede pra vir aqui, e agora vem com esse ro­deio todo… 

– Não tem ro­deio ne­nhum.

– O que é, en­tão?

– É só uma ques­tão de se­gu­rança.

– Olha, desde que eu en­trei aqui que eu es­tou sen­tindo al­guma coisa es­qui­sita que ainda não con­se­gui de­ci­frar. Porta tran­cada, per­si­ana ar­ri­ada e esse olhar de alo­prado no seu rosto. E agora vem fa­lar em se­gu­rança.

– Está bem, você não po­dia, mesmo, en­ten­der.

– En­tão me ex­plica.

– Es­cuta com aten­ção. – Ed­gar ajeitou-se na ca­deira como se qui­sesse se cer­ti­fi­car de que Da­nilo não per­de­ria nem uma sí­laba do que ia di­zer. E bai­xou a voz. – Da­nilo, neste exato mo­mento você pode es­tar dando o grande passo da sua vida.

– Es­tou ou­vindo.

– E quer sa­ber por quê?

– Tem a ver com o filme?

– Tem tudo a ver com o filme. Você está pres­tes a en­trar para a his­tó­ria do jor­na­lismo como o au­tor des­sas ima­gens que es­tão aí.

– Como é que é…?

– Isso mesmo que você ou­viu. Vai ser o grande salto na sua car­reira.

– Pe­raí. Que his­tó­ria é essa?

– Calma. Quer um café, uma água? Te­mos tempo.

– Não. Só quero en­ten­der o que você está di­zendo.

– Bom, eu es­tou di­zendo que se você qui­ser, muda a his­tó­ria da sua vida agora mesmo. – Os olhos de Ed­gar es­ta­vam fi­xos no rosto de Da­nilo, ob­ser­vando cada mi­lí­me­tro dos mo­vi­men­tos fa­ci­ais do co­lega.

– Por acaso eu ouvi você di­zer que eu po­dia ser o au­tor des­sas ima­gens?

– Ou­viu. Foi o que eu disse.

– En­tão deixa eu ver se eu en­tendi bem. Eu es­tou no pré­dio quando co­meça o in­cên­dio, e pouco tempo de­pois, já no meio da con­fu­são e dos gri­tos, vejo uma câ­mera caída no chão, sem nin­guém por perto.

– Isso. Você, ci­ne­gra­fista sem câ­mera, está no pré­dio por­que Deus te man­dou ir ao den­tista na­quele dia e na­quela hora. Re­co­lhe a câ­mera, pro­cura o dono, não en­con­tra e traz pro nosso es­tú­dio.

– E o com­bi­nado é que hoje, quando o no­ti­ciá­rio for pro ar, va­mos ho­me­na­gear o au­tor anô­nimo des­sas ima­gens.

– Que Deus o te­nha.

– E o que isso tem a ver com os seus pla­nos de agora?

– Da­ni­li­nho, meu amigo, acorda. Você já con­se­guiu o apar­ta­mento que você e a Síl­via que­rem com­prar?

– Ainda não.

– E por que não?

– Vai di­reto ao ponto, Ed­gar. Tem al­guma coisa fe­dendo por aqui.

– Eu te digo por quê. Por­que teu sa­lá­rio é uma merda, os ser­vi­ços de rua que você tem feito são me­dío­cres e, nesse an­dar da car­ru­a­gem, sabe quando vo­cês vão com­prar apar­ta­mento? Pre­ciso di­zer? Hein?

– E você, mo­vido por sua ex­trema bon­dade, se lem­bra de me fa­zer pas­sar pelo au­tor das ima­gens para eu fi­car rico e fa­moso, e fi­nal­mente po­der com­prar a porra do apar­ta­mento.

– Bingo!

– Por pura so­li­da­ri­e­dade a um amigo fo­dido.

– En­gano seu. De São Fran­cisco eu não te­nho nada. Acom­pa­nhe meu ra­ci­o­cí­nio: não sou o seu chefe? Não lem­bra que fui eu que te man­dei le­var a câ­mera na­quele dia do den­tista, como se já pres­sen­tisse que al­guma coisa boa fosse acon­te­cer?

– A coisa boa que você diz é o in­cên­dio com 14 mor­tos?

– En­tão veja por ou­tro ân­gulo. Nós ti­ra­mos a sorte grande, Da­nilo. Eu, como seu chefe, te dando o con­se­lho certo, e você se­guindo o con­se­lho. Con­se­gui­mos o grande furo para o nosso no­ti­ciá­rio.

– É isso que você pla­neja di­zer no jor­nal de hoje?

– Não, Da­nilo. É isso o que eu vou di­zer. E você, como um ex­ce­lente ci­ne­gra­fista que é, fez o que eu su­geri, fil­mou tudo o que es­tava acon­te­cendo e cap­tou ima­gens que ne­nhum ou­tro con­se­guiu, sim­ples­mente por­que ne­nhum ou­tro re­pór­ter ti­nha ido ao den­tista no lu­gar certo e na hora certa, como você. 

– Você sabe bem o que está me pe­dindo?

– E se eu dis­ser que não es­tou exa­ta­mente pe­dindo?

– Pô, Ed­gar, pega leve. Olha bem o que você está que­rendo.

– Pen­sei que nós es­ti­vés­se­mos que­rendo.

Ed­gar se le­van­tou, serviu-se de café, to­mou dois go­les gran­des, como se fosse água, e vol­tou para sua ca­deira.

– Da­nilo, an­tes que seus es­cru­pu­lo­zi­nhos to­mem conta de sua ra­zão, me diga só uma coisa: o que nós te­mos a per­der com isso? Você co­nhece o ci­ne­gra­fista que per­deu a câ­mera?

– Pro­va­vel­mente é um dos mor­tos no in­cên­dio.

– En­tão. – Ed­gar di­mi­nuiu o vo­lume da voz, su­a­vi­zando o tom como se ten­tasse con­ven­cer uma cri­ança a dor­mir de­pois de um pe­sa­delo. – Mor­reu… Aca­bou… Não é sim­ples? E a câ­mera que você en­con­trou já foi des­truída, não foi?

– Foi.

– E a fita não tem nome nem as­si­na­tura, certo?

– Fita, não, mas ima­gens, sim.

– Pelo amor de Deus, Da­nilo, – o vo­lume au­men­tava no­va­mente – no meio do fogo e da fu­maça, nin­guém pensa em ân­gu­los e luz. Quer é re­gis­trar o que está vendo an­tes de sair cor­rendo.

– Nunca vi nada igual.  – Da­nilo fa­lava como se Ed­gar não es­ti­vesse ali. – E o pior é que não é fic­ção.

– Gra­ças ao seu santo não é fic­ção. É a re­a­li­dade nui­nha que 20 mi­lhões de es­pec­ta­do­res do nosso jor­nal vão ado­rar ver. E nós é que va­mos dar esse pre­sente a eles. 

– Ele gra­vou até a mu­lher su­bindo na ja­nela pra sal­tar.

– E sal­tando.

– Vão cha­mar de re­por­ta­gem opor­tu­nista, an­tié­tica, o di­abo a qua­tro.

– Ou vão cha­mar de pro­fis­si­o­na­lismo: o ci­ne­gra­fista que ar­risca a pró­pria vida em nome da me­lhor no­tí­cia.

– Você sabe que atu­al­mente já não é tanto as­sim. A pa­tru­lha da ética anda gri­tando por aí.

– Ou seja: uma re­por­ta­gem po­lê­mica, as­sunto de en­tre­vis­tas, aná­li­ses so­ci­o­ló­gi­cas, ar­ti­gos e me­sas re­don­das em uni­ver­si­da­des. En­fim, a gló­ria.
Você já li­be­rou as cha­ma­das para o jor­nal?

– Só es­tou es­pe­rando o seu sim. E tem que ser logo, para fa­zer­mos uma bela en­trada com a sua ima­gem, com a câ­mera nas mãos, evi­den­te­mente, e su­pe­rar to­dos os ín­di­ces de au­di­ên­cia do ho­rá­rio.

– E quanto eu levo para dar o sim?

– O quê?…

– Quanto eu levo pra acei­tar a mu­treta?

– Mais do que você vai le­var com a fama e a po­pu­la­ri­dade, Da­nilo? Você está que­rendo que eu te pa­gue pra acei­tar o trato??? 

– Por que não? A fama e a po­pu­la­ri­dade são hi­pó­te­ses. O trato, aqui, é real.

– Se eu es­ta­lar o dedo, te­nho uma fila de ci­ne­gra­fis­tas que fa­riam isso de graça.

– En­tão chama. Mas não es­queça que eu sei da his­tó­ria ver­da­deira e ela pode vir à tona a qual­quer mo­mento. Posso até mos­trar a câ­mera que eu en­con­trei e pro­cu­rar pela fa­mí­lia do dono.

– Você não disse que des­truiu a câ­mera?

– Disse. Mas es­tou des­di­zendo.

Ed­gar se le­van­tou, sem ti­rar os olhos de Da­nilo que, cal­ma­mente, con­ti­nu­ava sen­tado e en­ca­rava o co­lega. Olhou-o de cima e fi­nal­mente con­se­guiu fa­lar.

– Ina­cre­di­tá­vel.

– O que que é ina­cre­di­tá­vel?

– O que eu es­tou vendo na mi­nha frente. O in­cor­rup­tí­vel Da­nilo Se­a­bra, ci­ne­gra­fista de merda, um belo de um chan­ta­gista.

– E você, Ed­gar, tão es­perto, achou mesmo que eu ia pas­sar o resto da vida ou­vindo você me cha­mar de ci­ne­gra­fista de merda? E ajo­e­lhado, em êx­tase, aos pés do gê­nio do jor­na­lismo bra­si­leiro?

– Está bem. Quanto você quer?

– Não é quanto. É o quê.

– Pode ser mais es­pe­cí­fico?

– Quero a di­re­ção de re­por­ta­gens ex­ter­nas.

– Ahn??

– Isso mesmo que você ou­viu.

– Você quer o lu­gar do As­sis???

– Ele é que está no meu lu­gar. Não se es­queça nunca disso.

– Você não está se com­pa­rando a ele…

– E por que não? Não sou o ci­ne­gra­fista que fez a me­lhor co­ber­tura dos bas­ti­do­res de um in­cên­dio, ar­ris­cando a vida para cum­prir meu de­ver? Meu tra­ba­lho não vai ser apre­sen­tado ao país hoje à noite? Re­a­li­dade nui­nha, lem­bra? Suas pa­la­vras. A não ser que você já te­nha de­sis­tido do nosso grande furo…

Ed­gar abriu duas pa­le­tas da per­si­ana, olhando para a sala dos re­da­to­res. Fi­cou as­sim por al­guns ins­tan­tes, fechou-as e voltou-se para Da­nilo. Seu rosto já não ti­nha qual­quer traço da ani­ma­ção de mi­nu­tos an­tes.

– Está bem. Você fica com as re­por­ta­gens ex­ter­nas.

– Ótimo. Avise aos co­le­gas e ao As­sis, claro. As­sim posso ter vá­rias tes­te­mu­nhas. E nem pense em mu­dar de idéia.

– Vou avi­sar agora. Eles tam­bém não sa­bem do filme ainda.

– Ótimo. Ah, e ou­tra coisa.

– O que é?

– Pare com essa bo­ba­gem de me proi­bir de di­zer “claro”. É um ve­lho há­bito do qual não te­nho a me­nor in­ten­ção de abrir mão. Fui claro?

– Vá à merda, Da­nilo.

Da­nilo se le­van­tou e dirigiu-se para a porta.

– Não, Ed­gar. Agora é que eu es­tou saindo dela. E obri­gado pela força. Hoje mesmo vou co­me­çar a pro­cu­rar um apar­ta­mento.

(Es­crito em outubro/2002)

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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