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herself – Texto de Thiago Roque

sexta-feira, 25 de maio de 2007 Texto de

era só es­cu­ri­dão quando ela abriu os olhos.

na ver­dade, de­ci­dira que era o fim da li­nha.

le­van­tou do col­chão ve­lho e ras­gado, ar­ras­tou a com­bi­na­ção calça de mo­le­ton cinza mais ca­mi­seta do iggy pop pela co­zi­nha, acen­deu uma vela, pe­gou ca­neta e pa­pel. mas não sa­bia bem o que ia es­cre­ver.

afi­nal, nos cur­sos de eti­queta, não en­si­nam como uma dama deve se por­tar em um sui­cí­dio.

bo­ce­jou, to­mou um copo com água. res­pi­rou fundo. e co­me­çou.

pri­meiro, pen­sou se ti­nha al­guém a agra­de­cer. não, não ti­nha.

en­tão, pen­sou se ti­nha al­guém a ofen­der. não, não ti­nha.

al­gum enigma para dei­xar, al­guém que po­de­ria fi­car com peso na cons­ci­ên­cia, ex-namorado, ca­chorro, qual­quer um?
nada.
ê, vi­di­nha de bosta. tá mais do que na hora de se ma­tar mesmo.

dei­xou a idéia do bi­lhete de lado (cá en­tre nós, bem blasé, né?). agora, o im­por­tante era pen­sar em como co­lo­car um ponto fi­nal em 27 anos de re­ti­cên­cias.

pri­meira op­ção: tiro. abri­ria a boca, co­lo­ca­ria o três-oitão den­tro, pu­xa­ria o ga­ti­lho. sim­ples – se ti­vesse um três-oitão.

se­gunda op­ção: se jo­gar do vi­a­duto. mas já eram 3 da ma­nhã, e aquela ci­dade de merda não ti­nha trân­sito nesse ho­rá­rio. e caso se jo­gasse e não mor­resse? se so­bre­vi­vesse, iria sub­vi­ver – e po­de­ria ser pior do que já es­tava.

ok, pró­xima op­ção: over­dose de re­mé­dio. to­ma­ria um vi­dro de qual­quer coisa que ter­mi­nasse com o su­fixo -ina e tava tudo certo. só que lem­brou que era ho­me­o­pata e, puta que pa­riu, só ti­nha flo­ral e bo­li­nhas de açú­car em casa – mal­dita seja a me­di­cina al­ter­na­tiva!

co­me­çou a fi­car an­gus­ti­ada – mas isso era bom, já que era sen­ti­mento de sui­cida.

faca! ela ti­nha uma faca em casa! po­de­ria en­fiar no peito, cor­tar os pul­sos, ras­gar a ju­gu­lar, sei lá! con­tudo, o re­sul­tado po­de­ria ser igual ao da se­gunda op­ção – com bô­nus de ter que fa­zer aque­les acom­pa­nha­men­tos psi­co­ló­gi­cos com gente mais doida do que ela. dei­xou de lado.

bo­tar fogo na casa? po­de­ria co­lo­car os vi­zi­nhos do pré­dio em risco. que­ria um sui­cí­dio, não de­ze­nas de ho­mi­cí­dios.

tam­bém não po­dia se jo­gar da ja­nela, mo­rava no pri­meiro an­dar. se bo­bear, nem a perna que­bra­ria.

ba­teu de­ses­pero – mas isso era bom, já que era sen­ti­mento de sui­cida.

cor­reu para o quarto, pe­gou o li­vro do he­mingway, deu uma fo­lhe­ada nas pá­gi­nas, ti­nhas al­gu­mas pas­sa­gens su­bli­nha­das.

as­sis­tiu de novo ao filme da so­fia cop­pola, deu um pause nu­mas ce­nas, ten­tou re­fres­car a me­mó­ria.

co­lo­cou no disk­man aquele cd do inxs que ado­rava, ti­nha até sui­cide blonde (tá certo, ela era ruiva, mas sem­pre ima­gi­nou aquela mú­sica era sua…).

nada. nem uma fa­gu­lha sem-vergonha, mi­se­rá­vel e mo­les­tada de idéia.

es­tava en­lou­que­cendo – mas isso era bom, já que era sen­ti­mento de sui­cida.

de re­pente, viu que a chama da vela ti­nha se apa­gado, mas exis­tia luz. sol des­perto, mais um dia so­li­tá­rio anun­ci­ado na fo­lhi­nha da ge­la­deira.

con­clu­são: cansa esse ne­gó­cio de ser sui­cida.

de­sis­tiu. vol­tou para o col­chão ras­gado, para sua es­cu­ri­dão, para mais um pouco de sono, para mais um pouco da sua vi­di­nha pá­lida.

lem­brou ape­nas que, à tarde, ti­nha ho­rá­rio no sa­lão de be­leza. sa­bia, ao me­nos, que ia pin­tar o ca­belo de loiro.

se acor­dasse de ma­dru­gada, ao me­nos, a mú­sica se­ria sua, afi­nal.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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