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Lili erva-doce - Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, 24 de maio de 2007 Texto de

Da pri­mei­ra vez que Lí­li­an en­trou aqui, na pa­da­ria, no­tei que era di­fe­ren­te das de­mais me­ni­nas que tra­ba­lham nes­ta rua. Ela é edu­ca­da, ra­ra­men­te fa­la pa­la­vrões, não fu­ma, é chei­ro­sa e seus ca­be­los es­tão sem­pre mo­lha­dos co­mo se saís­se do ba­nho a ca­da mi­nu­to. Su­as rou­pas, em­bo­ra das mais ba­ra­tas, se amol­dam per­fei­ta­men­te ao seu cor­po, co­mo a cas­ca na ba­na­na.

Qua­se to­das as noi­tes Li­li che­ga ao bal­cão e me pe­de mé­dia e pão com man­tei­ga. Dis­far­ça­da­men­te, re­pa­ro em su­as unhas es­mal­ta­das de er­me­lho, seus lá­bi­os car­nu­dos fei­tos go­mos de me­xe­ri­ca e até em seu na­riz que bri­lha sob a luz da lâm­pa­da.

Seu de­co­te, en­tão, é tão con­vi­da­ti­vo que só fal­ta o ta­pe­te ver­me­lho. De­pois sai, re­bo­lan­do es­pon­ta­ne­a­men­te com sua bol­sa pre­ta. Acre­di­to que de­va ter vá­ri­os
cli­en­tes en­tre os ho­mens que pa­ram seus car­ros na cal­ça­da à pro­cu­ra de bons pro­gra­mas no­tur­nos.

Con­ver­sa­mos pou­co. Aliás, não sou de mui­to as­sun­to. Mi­nha vi­da é co­mo um trem, sem­pre no mes­mo tri­lho, mes­ma pai­sa­gem, iguais es­ta­ções.

Con­fes­so, po­rém, que a che­ga­da de Li­li en­char­cou mi­nhas noi­tes de ale­gria. É bom ver seu sor­ri­so, co­mo cri­an­ça brin­can­do nu­ma ma­nhã de do­min­go. Sem que meu pa­trão ve­ja, às ve­zes nem co­bro o que ela con­so­me no bal­cão.

Fi­quei sa­ben­do, por uma das ou­tras ga­ro­tas, que Li­li veio há pou­co do in­te­ri­or, bri­ga­da com os pais. Nes­ta ci­da­de enor­me, o úni­co em­pre­go que ar­ru­mou foi es­te, que não exi­ge car­tei­ra as­si­na­da ou ex­pe­ri­ên­cia an­te­ri­or, so­men­te o cor­po e a co­ra­gem.

Um dia ela irá em­bo­ra, co­mo to­das as ou­tras. Te­nho cer­te­za. Por ora, ad­mi­ro seu vul­to alu­mi­ar a rua, re­fle­tir o bri­lho da lua e dei­xar um aro­ma de er­va-do­ce no ar.

En­quan­to is­so, eu vou ser­vin­do ca­fé e ci­gar­ro pa­ra as me­ni­nas, ca­cha­ça pa­ra os bê­ba­dos e um cá­li­ce de so­nho pa­ra mim mes­mo.

E-mail: otanunes@gmail.com

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