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Correndo por fora - Texto de Otávio Nunes

quarta-feira, 23 de maio de 2007 Texto de

Sá­ba­do de ma­nhã, sol ain­da tí­mi­do, pe­din­do li­cen­ça ao dia, Clé­sio ba­te
pal­ma no por­tão. So­no­len­to e sem von­ta­de, Jo­bé­lio pou­sa a xí­ca­ra de
ca­fé na me­sa e le­van­ta-se pa­ra aten­der o do­no das mãos que fa­zem
aque­le ba­ru­lho cha­to tão ce­do. Pen­sa ser al­gum ven­de­dor, ou pre­ga­dor
re­li­gi­o­so e qua­se de­sis­te de che­gar ao por­tão. Mas vai as­sim mes­mo, a
ru­mi­nar al­guns im­pro­pé­ri­os.

- Bom dia! É aqui que tem um quar­to pa­ra alu­gar? Per­gun­ta Clé­sio.

- É aqui mes­mo, res­pon­de Jo­bé­lio, re­cu­pe­ran­do o hu­mor.

De­pois de cin­co mi­nu­tos de con­ver­sa na cal­ça­da, o do­no da ca­sa con­vi­da
o vi­si­tan­te pa­ra en­trar, to­mar ca­fé, co­nhe­cer o quar­to e acer­tar os
de­ta­lhes do alu­guel. Du­as xí­ca­ras de ca­fé e dois pães com mar­ga­ri­na
de­pois, en­tram em acor­do so­bre o alu­guel.

O in­qui­li­no ob­ser­va o lo­cal, na ver­da­de são dois quar­tos, gos­ta e pa­ga
um mês adi­an­ta­do a Jo­bé­lio, com a pro­mes­sa de que se mu­da­rá no dia
se­guin­te na­que­la mes­ma ho­ra. Tem pou­cos per­ten­ces, ape­nas rou­pas,
ca­ma, cô­mo­da, fo­gão de du­as bo­cas, me­sa pe­que­na e uma fu­ra­dei­ra
elé­tri­ca.

- Se pre­ci­sar de al­gu­ma coi­sa, eu te ar­ru­mo, pro­me­te o do­no da ca­sa.
Fa­zen­do-se de de­sin­te­res­sa­do, Jo­bé­lio as­se­gu­ra ao in­qui­li­no que não
ti­nha von­ta­de de alu­gar os dois cô­mo­dos dos fun­dos, pois os usa­va pa­ra
guar­dar bu­gi­gan­gas. No en­tan­to, de­sem­pre­ga­do vá­ri­os me­ses, a vi­ver de
bi­cos es­po­rá­di­cos, não ha­via al­ter­na­ti­va. Pre­ci­sa do di­nhei­ro do
alu­guel.

As­sim que Clé­sio dá as cos­tas, So­lei­de, es­po­sa de Jo­bé­lio, sai do
quar­to e per­gun­ta ao ma­ri­do so­bre a vi­si­ta. Jo­bé­lio res­pon­de ter
ar­ru­ma­do uma pes­soa pa­ra mo­rar nos quar­ti­nhos dos fun­dos. Diz a
So­lei­de que o ho­mem lhe pa­re­ce tra­ba­lha­dor e ho­nes­to, é pren­sis­ta nu­ma
fá­bri­ca de ge­la­dei­ras e se­pa­ra­do re­cen­te­men­te da es­po­sa.

As­sim que So­lei­de dei­xa a co­zi­nha pa­ra la­var rou­pas no tan­que, no
quin­tal, Jo­bé­lio se­pa­ra par­te do di­nhei­ro re­ce­bi­do, pe­lo alu­guel
adi­an­ta­do, e se en­ca­mi­nha pa­ra o bo­te­co acer­tar su­as con­tas. Pa­ga os
fi­a­dos, jo­ga pif-paf e si­nu­ca, to­ma cer­ve­ja e ca­cha­ça e dei­xa o lo­cal
às seis e meia da noi­te, bê­ba­do, mo­vi­men­tan­do-se co­mo pên­du­lo de
re­ló­gio.

Em ca­sa, ati­ra-se di­re­ta­men­te na ca­ma co­mo na­da­dor na pis­ci­na, sem ao
me­nos co­mer ou fa­lar com a es­po­sa. Acos­tu­ma­da com as be­be­dei­ras do
ma­ri­do, So­lei­de faz que na­da vê e con­ti­nua a es­co­lher o fei­jão na
me­sa. Na ma­nhã se­guin­te, ela acor­da Jo­bé­lio às se­te ho­ras e sen­te o
chei­ro da ca­cha­ça exa­lar por to­dos os po­ros do ma­ri­do.

- O ho­mem do quar­ti­nho es­tá aí. Já che­gou com a mu­dan­ça.

Os per­ten­ces de Clé­sio cou­be­ram to­dos nu­ma pe­rua e foi fá­cil car­re­gar
tu­do da cal­ça­da até os fun­dos do quin­tal.

À tar­de, o in­qui­li­no re­sol­ve ir ao bo­te­co to­mar uma cer­ve­ja e se
en­con­tra com Jo­bé­lio. Bê­ba­do, es­te per­gun­ta ao ou­tro so­bre os mo­ti­vos
que o le­va­ram à se­pa­ra­ção.

- Des­co­bri que mi­nha mu­lher ti­nha ou­tro. Se­pa­rei-me e não pen­so em me
ca­sar no­va­men­te, tão ce­do, res­pon­de Clé­sio.

- Nos­sa se­nho­ra, is­to é hor­rí­vel. Ain­da bem que te­nho uma es­po­sa
su­per-ho­nes­ta, que ja­mais irá me trair. Acre­di­ta?

- Cla­ro que acre­di­to seu Jo­bé­lio. Sua es­po­sa é mui­to sé­ria.

- Não sen­ti mui­ta fir­me­za no que fa­lou. Acho que vo­cê du­vi­da da
fi­de­li­da­de de mi­nha mu­lher.

- Ima­gi­ne, seu Jo­bé­lio. Ja­mais pen­sa­ria is­to.

Ton­to pe­las ca­cha­ças, Jo­bé­lio acre­di­ta mes­mo que o seu in­qui­li­no
du­vi­da de So­lei­de. En­tão pro­põe que Clé­sio co­me­ce a pa­que­rá-la pa­ra
pro­var a fi­de­li­da­de da mu­lher. Clé­sio, que to­ma ape­nas uma la­ta de
cer­ve­ja, per­ce­be a in­sen­sa­tez de Jo­bé­lio e re­sol­ve cair fo­ra.

Át­son, o vi­zi­nho da fren­te, dei­xa a me­sa do pif-paf, apro­xi­ma-se de
Jo­bé­lio e o pre­vi­ne.

- Ju­ba, meu ami­go. Eu ou­vi o que vo­cê fa­lou. Dei­xe dis­so. Mu­lher
me­re­ce res­pei­to.

- Quem é vo­cê pa­ra di­zer es­sas coi­sas? Não co­nhe­ce na­da de mu­lher.
Nun­ca se ca­sou. Acho até que é vir­gem até ho­je.

- Ti­ve na­mo­ra­das, sim. Não me ca­sei por­que não apa­re­ceu ain­da a
opor­tu­ni­da­de. Is­to acon­te­ce sem a gen­te es­pe­rar.

- Vá...Não me en­cha o sa­co Át­son. Mu­lher não é a sua praia.

Dois di­as de­pois, o do­no da ca­sa ba­te a por­ta do quar­ti­nho e é
con­vi­da­do pa­ra en­trar.

- En­tão, Clé­sio, já co­me­çou a pa­que­rar mi­nha mu­lher?

- Deus me li­vre seu Jo­bé­lio.

- Não me cha­me de se­nhor. Te­mos a mes­ma ida­de.

- Tá bom. Jo­bé­lio, pa­re com is­so. Res­pei­to mui­to sua es­po­sa.

- Eu sei que res­pei­ta. E até de­mais. Co­la­bo­re co­mi­go. Que­ro fa­zer um
tes­te pa­ra ver se ela tem co­ra­gem de me trair, diz Jo­bé­lio.

O ou­tro, sur­pre­so com o ru­mo do as­sun­to, re­pa­ra que Jo­bé­lio, mes­mo
só­brio no mo­men­to, in­sis­te na pro­pos­ta.

- Jo­bé­lio, va­mos es­que­cer es­te as­sun­to. Se vo­cê in­sis­tir te­rei de
pro­cu­rar ou­tro quar­ti­nho no bair­ro.

- Cal­ma, cal­ma, Clé­sio. Vo­cê sa­be que eu pre­ci­so do alu­guel. Só que­ria
que vo­cê sou­bes­se que exis­te mu­lher ho­nes­ta no mun­do, co­mo a So­lei­de.

No sá­ba­do se­guin­te, no bo­te­co, Clé­sio en­cos­ta-se no bal­cão e pe­de sua
cer­ve­ja. Jo­bé­lio, que jo­ga do­mi­nó nu­ma me­sa ao la­do, le­van­ta-se e
cum­pri­men­ta o seu in­qui­li­no. Con­ver­sam so­bre ame­ni­da­des até que
Jo­bé­lio per­gun­ta no­va­men­te se ele es­tá pa­que­ran­do So­lei­de. Clé­sio to­ma
ra­pi­da­men­te o seu co­po de cer­ve­ja e vai em­bo­ra.

Át­son se apro­xi­ma e no­va­men­te pas­sa um ser­mão em Jo­bé­lio.

- Não fa­ça is­to Ju­ba. Te­nha mais res­pei­to pe­la sua mu­lher. Não é as­sim
que tra­ta­mos da es­po­sa.

- De no­vo, meu? Vo­cê nem sa­be o que é ter mu­lher. Taí sol­tei­rão da
sil­va. Vai fi­car mes­mo pra ti­tio. A mu­lher é mi­nha e tra­to ela co­mo
qui­ser.

Jo­bé­lio che­ga em ca­sa à noi­te e se es­ten­de no so­fá. So­lei­de, que la­va
lou­ça na pia, per­ce­be a che­ga­da do ma­ri­do, mas faz que não. En­tão ele
ber­ra da sa­la.

-So­lei­de vem cá. Di­ga-me a ver­da­de, o nos­so in­qui­li­no es­tá de olho em vo­cê?

- O que? As­sus­ta-se a es­po­sa.

- É is­to mes­mo. Ele an­da te pa­que­ran­do, te as­se­di­an­do?

- Cla­ro que não Jo­bé­lio, que bo­ba­gem. Mal ve­jo o coi­ta­do du­ran­te a
se­ma­na. Ele sai ce­do e vol­ta tar­de. Não ar­ru­me con­fu­são com o ho­mem,
Jo­bé­lio. Nós de­pen­de­mos do di­nhei­ro do alu­guel. Vo­cê es­tá de­sem­pre­ga­do
e meu tra­ba­lho de di­a­ris­ta ren­de mui­to pou­co.

- Vo­cê se­ria ca­paz de me co­lo­car chi­fres na ca­be­ça? Ques­ti­o­na Jo­bé­lio.

- Não. Ape­sar que vo­cê bem me­re­ce.

- O que vo­cê fa­lou?

Apro­vei­tan­do-se da be­be­dei­ra do ma­ri­do, So­lei­de res­sal­va.

- Eu dis­se vê se ESQUECE des­ta his­tó­ria.

No dia se­guin­te, do­min­go, Jo­bé­lio en­tra no bo­te­co às 10 ho­ras da ma­nhã
e só dei­xa o lo­cal às se­te da noi­te, de­pois de per­der o que ti­nha no
pif-paf. Che­ga em ca­sa e não en­con­tra a mu­lher. No quar­to, no­ta que o
guar­da-rou­pa es­tá aber­to e há, den­tro, pouquís­si­mas pe­ças de So­lei­de.
Ao la­do, no chão, a ma­la, a úni­ca que têm, não es­tá no lu­gar de
sem­pre. Na co­zi­nha, a pi­lha de lou­ça já cha­ma a aten­ção dos mos­qui­tos.
Não tem co­mi­da na ge­la­dei­ra nem fo­ra.

- Ela me dei­xou, trai­do­ra, e foi com aque­le ban­di­do do in­qui­li­no.
Cor­re ao quar­ti­nho dos fun­dos, ba­te a por­ta e é aten­di­do por Clé­sio,
que ou­ve fu­te­bol no ra­di­nho de pi­lha. Ner­vo­so, Jo­bé­lio per­gun­ta da
mu­lher, po­rém Clé­sio ga­ran­te não ter a me­nor idéia.

- Não sei, Ju­ba. Che­guei ago­ra há pou­co.

De­ses­pe­ra­do, Jo­bé­lio vai à ca­sa de Át­son. Quem aten­de é o no­vo
pro­pri­e­tá­rio, que ti­nha com­pra­do a re­si­dên­cia e se mu­da­do na­que­le
mes­mo dia.

- Eu vi o seu Át­son ho­je pe­la ma­nhã. Ele pe­gou o di­nhei­ro da ven­da da
ca­sa, su­as rou­pas e dis­se que iria vi­a­jar.

Apon­tan­do pa­ra a ca­sa de Jo­bé­lio, o ho­mem ar­re­ma­ta.

- Ele saiu de car­ro na com­pa­nhia de uma mu­lher que mo­ra na­que­la ca­sa.

E-mail: otanunes@gmail.com

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