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Um segundo antes

sexta-feira, 18 de maio de 2007 Texto de

Não con­se­gui ler a no­tí­cia toda no por­tal, mas o tí­tulo fi­cou na me­mó­ria: “Goma de mas­car da­ni­fica obra de arte”. Ig­noro se a obra de arte era um qua­dro de al­guns mi­lhões de dó­la­res, um ma­nus­crito de um es­cri­tor de sé­cu­los atrás ou qual­quer ou­tra peça va­li­osa de co­le­ção. O que me im­porta no mo­mento é ima­gi­nar que al­guém, com nada in­te­res­sante a fa­zer na vida e sem ne­nhuma no­ção do que sua idi­o­tice po­de­ria pro­vo­car, es­tra­gou uma pre­ci­o­si­dade. E me pus a pen­sar em como um pe­queno ato de um se­gundo na vida de al­guém pode in­ter­fe­rir tão pro­fun­da­mente na vida de ou­tros.

Se foi um qua­dro a peça ar­rui­nada com aquele gesto, a par­tir dali quan­tas pes­soas dei­xa­ram de apreciá-lo, de sen­tir em suas co­res e ima­gens as emo­ções que seu cri­a­dor ex­pres­sou ou tal­vez nem te­nha ima­gi­nado pro­vo­car? Quan­tos la­drões de obras de arte ti­ve­ram que adiar ou de­sis­tir de seus pla­nos para re­a­li­zar o roubo do sé­culo? Quan­tos lei­lo­ei­ros per­de­ram a opor­tu­ni­dade de ofe­re­cer be­leza e arte em seus pre­gões? E quan­tas no­vas ge­ra­ções pas­sa­rão a co­nhe­cer a pin­tura ape­nas em ca­tá­lo­gos e fo­tos?

Se o ma­nus­crito des­truído foi um po­ema numa única pá­gina agora ama­re­lada e quase em pe­da­ços, com ra­bis­cos e ano­ta­ções do po­eta ao lado dos ver­sos, ele dei­xará de mos­trar o quanto aquele au­tor ima­gi­nou e suou e ten­tou e se em­pe­nhou para che­gar ao re­sul­tado fi­nal. En­co­ra­ja­ria ou de­ses­ti­mu­la­ria as no­vas ge­ra­ções de po­e­tas que por acaso des­co­nhe­ces­sem o tra­ba­lho que existe por trás da cons­tru­ção de um so­neto?

A peça es­tra­gada pela goma de mas­car pode ter sido um par de lu­vas, de renda fi­nís­sima e bor­dada, da rai­nha de uma corte eu­ro­péia de­posta do trono e con­de­nada a aca­bar seus dias numa torre es­cura, so­li­tá­ria e úmida à es­pera da gui­lho­tina e – o mais triste de tudo – sem suas lin­das lu­vas. Como os vi­si­tan­tes do mu­seu po­de­rão a par­tir de agora ima­gi­nar as mãos re­ais cal­çando aquela peça de rara be­leza en­quanto acom­pa­nham a his­tó­ria da so­be­rana e seu des­tino de con­de­nada, se as lu­vas nunca mais es­ta­rão na vi­trine?

Todo esse des­com­passo por causa de uma goma de mas­car pe­ga­josa nas mãos de al­guém in­sen­sí­vel. Um se­gundo an­tes desse mo­mento, se a de­ci­são do mas­ti­ga­dor de chi­clete fosse ou­tra – jo­gar a goma no lixo, por exem­plo -, a his­tó­ria de vida de mui­tas pes­soas po­de­ria ser di­fe­rente. As­sim como a de­ci­são to­mada um se­gundo an­tes da pa­la­vra mal­cri­ada, um se­gundo an­tes de não usar ca­mi­si­nha, um se­gundo an­tes de um Sim ou Não de­fi­ni­ti­vos e an­tes de aper­tar o ga­ti­lho.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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