Um segundo antes

Não consegui ler a notícia toda no portal, mas o título ficou na memória: “Goma de mascar danifica obra de arte”. Ignoro se a obra de arte era um quadro de alguns milhões de dólares, um manuscrito de um escritor de séculos atrás ou qualquer outra peça valiosa de coleção. O que me importa no momento é imaginar que alguém, com nada interessante a fazer na vida e sem nenhuma noção do que sua idiotice poderia provocar, estragou uma preciosidade. E me pus a pensar em como um pequeno ato de um segundo na vida de alguém pode interferir tão profundamente na vida de outros.

Se foi um quadro a peça arruinada com aquele gesto, a partir dali quantas pessoas deixaram de apreciá-lo, de sentir em suas cores e imagens as emoções que seu criador expressou ou talvez nem tenha imaginado provocar? Quantos ladrões de obras de arte tiveram que adiar ou desistir de seus planos para realizar o roubo do século? Quantos leiloeiros perderam a oportunidade de oferecer beleza e arte em seus pregões? E quantas novas gerações passarão a conhecer a pintura apenas em catálogos e fotos?

Se o manuscrito destruído foi um poema numa única página agora amarelada e quase em pedaços, com rabiscos e anotações do poeta ao lado dos versos, ele deixará de mostrar o quanto aquele autor imaginou e suou e tentou e se empenhou para chegar ao resultado final. Encorajaria ou desestimularia as novas gerações de poetas que por acaso desconhecessem o trabalho que existe por trás da construção de um soneto?

A peça estragada pela goma de mascar pode ter sido um par de luvas, de renda finíssima e bordada, da rainha de uma corte européia deposta do trono e condenada a acabar seus dias numa torre escura, solitária e úmida à espera da guilhotina e – o mais triste de tudo – sem suas lindas luvas. Como os visitantes do museu poderão a partir de agora imaginar as mãos reais calçando aquela peça de rara beleza enquanto acompanham a história da soberana e seu destino de condenada, se as luvas nunca mais estarão na vitrine?

Todo esse descompasso por causa de uma goma de mascar pegajosa nas mãos de alguém insensível. Um segundo antes desse momento, se a decisão do mastigador de chiclete fosse outra – jogar a goma no lixo, por exemplo -, a história de vida de muitas pessoas poderia ser diferente. Assim como a decisão tomada um segundo antes da palavra malcriada, um segundo antes de não usar camisinha, um segundo antes de um Sim ou Não definitivos e antes de apertar o gatilho.

E-mail: anaflores.rj@terra.com.br

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