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O RG – Texto de Reinaldo Chaves

quarta-feira, 16 de maio de 2007 Texto de

Me abai­xei para pe­gar um do­cu­mento de iden­ti­dade que en­con­trei na rua. Logo vi que ti­nha o meu rosto, ape­sar de mais jo­vem. O nome era ou­tro e a data de nas­ci­mento tam­bém. Pen­sei que pu­desse ser al­guma fal­si­fi­ca­ção, mas o nú­mero do do­cu­mento era di­fe­rente do meu.

Guar­dei no bolso e fui em­bora pen­sando no ho­mem da foto. Que­ria conhecê-lo, sa­ber se é al­gum pa­rente. No meio da ma­nhã li­guei para mi­nha mãe e per­gun­tei se co­nhe­cia aquele su­jeito. A res­posta foi uma per­gunta:

– De onde você ti­rou esse nome?

Nunca gos­tei desse jeito de me tra­tar, como se eu sem­pre es­ti­vesse em risco ou fosse re­tar­dado. Pre­feri di­zer que ele ti­nha pas­sado no meu tra­ba­lho quando eu não es­tava e dei­xado lem­bran­ças para mim, mas não ha­via dito se era amigo ou pa­rente. Seu tom de voz mu­dou do es­panto para o abor­re­ci­mento:

– Eu não sei quem é, mas fica longe desse ho­mem… vai sa­ber quem pode ser!

Dei uma ri­sada e me des­pedi. An­tes, po­rém, ela disse para avi­sar se ele apa­re­cesse de novo e pe­diu para pas­sar na sua casa quando aca­basse meu ex­pe­di­ente.

Não me pre­o­cu­pei mais com isso, mais tarde ou ou­tro dia ia fa­lar com um co­nhe­cido meu na po­lí­cia so­bre o do­cu­mento.

No fi­nal do dia fui be­ber um pouco em um bar perto do tra­ba­lho. Ve­lhos res­sen­ti­men­tos tam­bém fo­ram in­ge­ri­dos junto com a cer­veja.

É isso na ver­dade que te faz fi­car bê­bado, na gar­rafa junto com a be­bida eles co­lo­cam pe­que­nas por­ções da­quilo que in­co­mo­dam as pes­soas, seja o que que­rem es­con­der ou li­ber­tar. O ál­cool só es­ti­mula a be­ber numa quan­ti­dade su­fi­ci­ente para que es­ses mons­tri­nhos pos­sam fa­zer o ser­viço den­tro do corpo.

A mi­nha dose ti­nha a frus­ta­ção com mi­nha fa­mí­lia. Esse do­cu­mento que en­con­trei na rua bem que po­de­ria ser a chance de me apro­xi­mar mais de meus pa­ren­tes. Sei que eles pe­dem di­nheiro, te jul­gam, exi­gem hi­po­cri­sia, dão
pre­sen­tes hor­rí­veis e vá­rias ou­tras ma­ra­vi­lhas, mas dá muita in­veja ver meus ami­gos se­rem abra­ça­dos e bei­ja­dos pe­los pais. 

Já pas­sei dos 30, te­nho meu em­prego e mi­nha casa, mas este ho­mem que olha para o fundo de um copo de
cer­veja num bar es­fu­ma­çado que­ria vol­tar a ser cri­ança para ten­tar de novo.

Pas­sei muito tempo cul­pando quem me criou por essa forma de iso­la­mento. Mi­nha fa­mí­lia mal con­versa e se vê, sem­pre foi as­sim.

No fi­nal é um ci­clo de bru­ta­li­dade, meus avôs fi­ze­ram isso com meus pais tam­bém. Um monte de fi­lho para ali­men­tar, quase ne­nhum en­sino, um em­prego va­ga­bundo na roça que pa­gava uma mi­sé­ria e ti­rava o couro. Se em­be­be­dar e des­con­tar nos fi­lhos era a op­ção mais fá­cil mesmo para meus avôs. Foi essa a edu­ca­ção da mi­nha fa­mí­lia.

É claro que o mundo está cheio de his­tó­rias as­sim, mas isso ló­gico que não é con­solo. Que­ria mesmo é co­nhe­cer al­guém pa­re­cido co­migo, de pre­fe­rên­cia para be­ber e cho­rar.

Após os tra­di­ci­o­nais ma­la­ba­ris­mos para não tro­pe­çar na rua che­guei em casa e caí na cama com a roupa do tra­ba­lho mesmo. Não sei ao certo quanto tempo dormi, mas não deve ter sido muito por­que acor­dei com pouca res­saca, ape­sar de bem can­sado.

No fim das con­tas não fez im­por­tân­cia, o mo­tivo para ter
des­per­tado foi bem pior. Meu pai me li­gou e di­zia que mi­nha mãe es­tava morta.

Ele che­gou do tra­ba­lho e en­con­trou ela caída no chão com um fe­ri­mento de bala no peito. Des­li­guei e ime­di­a­ta­mente co­me­cei a cho­rar.

Além da dor da perda, senti culpa por não ter ido vê-la como ela como ha­via pe­dido. Fi­quei mal tam­bém por tudo aquilo que ha­via pen­sado no meu porre e de certa forma por ter jul­gado ela. E tam­bém por­que per­cebi a voz em­bar­gada de meu pai, um som que nunca ti­nha ou­vido na vida.

É in­te­res­sante que na hora da pan­cada, seja ela boa ou ruim, você não tem no­ção de que seus sen­ti­men­tos têm uma ava­lan­che de in­gre­di­en­tes.

Na­que­les se­gun­dos, de­pois que lar­guei o te­le­fone e fui pe­gar um carro, eu ape­nas ho­rava e sen­tia dor, só de­pois fui pen­sar em tudo que es­tava me di­la­ce­rando.

A casa e a rua dela es­ta­vam cheias de gente. En­trei pela porta da frente sem pressa, pro­cu­rando pe­dir li­cença para aque­les que não me re­co­nhe­ciam, fa­zendo pouco ba­ru­lho. Acho que era medo de ver ela morta, dei­tada no chão sem mo­vi­mento.

O corpo es­tava na co­zi­nha com um len­çol por cima. Foi es­tra­nho, nesse mo­mento foi em­bora todo o re­ceio que sen­tia, au­to­ma­ti­ca­mente me abai­xei e des­co­bri mi­nha mãe. 

De olhos fe­cha­dos, a ex­pres­são no rosto não era de medo ou an­gús­tia pela morte, mas co­mum. Eram os mes­mos olhos can­sa­dos, a boca sem­pre sem ba­tom e o ca­belo pen­tedo para trás. Será que to­dos os mor­tos são as­sim?

Quando per­ce­be­mos que não tem mais volta, tudo fica para trás e mor­rer é o ca­mi­nho aceito de bom grado?
No­tei o fe­ri­mento no peito e o medo vol­tou. Ra­pi­da­mente co­bri ela de novo e fui pro­cu­rar meu pai. 

Ele es­tava logo atrás de mim. Nós dois já não cho­rá­va­mos mais. Tive o re­flexo de abraçá-lo, mas não fiz isso. Te­nho cer­teza que ele tam­bém quis fa­zer isso. De novo nosso dis­tan­ci­a­mento fa­lou mais alto. Per­gun­tei o que acon­te­ceu.

– Me dis­se­ram que você veio aqui de noite. O que acon­te­ceu? – ele res­pon­deu, per­gun­tando com an­gús­tia.

– Como? Não, ela me pe­diu para vir aqui hoje mas não pude vir – por­que eu não disse que na ve­rade eu não quis apa­re­cer?

– Dois vi­zi­nhos te vi­ram pas­sar na rua e en­trar na casa – ele apon­tou para pes­soas que re­al­mente eu co­nhe­cia, mas que não via fa­zia tempo.

– Não, deve ter sido ou­tra pes­soa… eu, eu es­tava no bar be­bendo e de­pois fui para casa – disse com ver­go­nha.

– Paulo, fi­lho, me diz a ver­dade… quero sa­ber quem fez isso – logo de­pois co­me­çou a cho­rar. Foi uma das pou­cas ve­zes que ele me cha­mou de fi­lho.

Meu pai foi para a sala e sentou-se em si­lên­cio. Os vi­zi­nhos vi­e­ram fa­lar co­migo e dis­se­ram ter cer­teza de que era eu, ape­sar de não ter cum­pri­men­tado
ne­nhum de­les. A po­lí­cia tam­bém veio fa­lar co­migo e me fa­zer per­gun­tas. Disse os ho­rá­rios que saí do tra­ba­lho e pas­sei no bar. 

No meu pré­dio não tem por­teiro nem câ­mera, en­tão só não po­de­riam con­fir­mar mi­nha che­gada em casa. A po­lí­cia disse que não ha­via si­nais de ar­ro­ba­mento ou luta na casa e nada pa­re­cia ter su­mido.

Os vi­zi­nhos tam­bém não ou­vi­ram ne­nhum ba­ru­lho. Ao que pa­rece, o as­sas­sino foi ser­vido pela mi­nha mãe an­tes do crime. Co­meu doce de ba­nana e be­beu re­fri­ge­rante.
Era um dos mui­tos do­ces de mi­nha mãe que eu gos­tava de co­mer. Só nesse ins­tante lem­brei do que acon­te­ceu de ma­nhã. Ti­rei do bolso o do­cu­mento de iden­ti­dade que achei.

– Deve ter sido esse fi­lho da puta! – disse com raiva, lem­brando a re­a­ção es­tra­nha da mi­nha mãe quando fa­lei seu nome por te­le­fone.

Con­tei o caso para a po­lí­cia e disse que po­de­ria ter sido ele. Me dis­se­ram que pa­re­cia de fato um do­cu­mento ver­da­deiro mas pre­ci­sava an­tes ser che­cado no sis­tema de re­gis­tro ge­ral da po­lí­cia.

En­quanto fa­ziam isso per­gun­tei ao meu pai se ele co­nhe­cia al­guém com esse nome ou mesmo se eu não po­de­ria ter al­gum pa­rente muito pa­re­cido co­migo. A res­posta tam­bém foi ne­ga­tiva, mas di­fe­rente da mi­nha mãe ele fa­lou com con­vic­ção.

Após a po­lí­cia téc­nica ter­mi­nar de ana­li­sar a cena do crime e le­va­rem o corpo da mi­nha mãe para o IML, o pes­soal que foi che­car o do­cu­mento vol­tou.

Nem o nome nem o nú­mero exis­tiam. Para o Es­tado aquele rosto não per­ten­cia a nin­guém. A única coisa que po­de­riam fa­zer quando ama­nha­cesse era in­ves­ti­gar
como aquele do­cu­mento ti­nha sido for­jado.

Isso me dei­xou pre­o­cu­pado tam­bém com meu pai. Não sa­bia se o cara que fez isso iria atrás dele. Li­guei para aquele co­nhe­cido meu da po­lí­cia e ex­pli­quei o que es­tava acon­te­cendo. Pelo me­nos até de ma­nhã a po­lí­cia
po­de­ria acom­pa­nhar meu pai, já que ele te­ria mesmo que pres­tar mais de­poi­men­tos e de­pois bus­car o corpo. Tam­bém re­cebi a in­di­ca­ção de con­ver­sar com o de­le­gado de plan­tão. Ele disse que ia de­sig­nar um po­li­cial para
acom­pa­nhar meu pai até o meio dia.

Para mim, como ir­mão mais ve­lho, me res­tou ape­nas fi­car ma­luco cui­dando de toda a bu­ro­cra­cia de fu­ne­rá­ria e bus­car di­nheiro para pa­gar to­das as des­pe­sas dos mor­tos (ates­ta­dos, cai­xão, lá­pide, co­veiro, flo­res etc.). 

Pas­sei em casa para to­mar um ba­nho an­tes e ali­viar um pouco a res­saca que co­me­çava a fi­car forte. Sen­tado na mi­nha cama en­con­trei o ho­mem a quem per­ten­cia o do­cu­mento de iden­ti­dade.

Ele ti­nha re­al­mente os meus olhos gran­des, na­riz re­dondo, boca fina e som­bran­ce­lha grossa. O for­mato do rosto tam­bém era igual, qua­drado com testa larga. A cor da sua pele ape­nas era di­fe­rente, muito branca e com
sar­das, di­fe­rente de mim que sou pardo.

– Quem é você? – per­gun­tei as­sus­tado.

– Sou seu ir­mão mais ve­lho.

– Foi você que ma­tou mi­nha mãe?

– Es­cuta, eu não ti­nha a in­ten­ção de te co­nhe­cer, mas aquela mu­lher disse que você per­gun­tou pelo meu ou­tro nome hoje. Eu ima­gi­nei que você deve ter en­con­trado meu do­cu­mento falso que perdi.

– Res­ponde! – gri­tei.

– Sim, fui eu que ma­tei – ele ti­rou da cin­tura um re­vól­ver.

– Por quê?

– An­tes de você nas­cer, uns qua­tro anos an­tes, ela me dei­xou na rua. Eu era bebê de pou­cos me­ses. Isso foi em ou­tro es­tado, nin­guém co­nhe­cia ela lá. Ape­nas dei­xou um bi­lhete pe­dindo que eu fosse re­gis­trado como Ciro Val­dez, o nome de um ator de no­vela que ela achava bo­nito na época. Dá para acre­di­tar? Na­quele dia eu pe­guei uma pneu­mo­nia e fi­quei do­ente me­ses se­gundo o que me con­ta­ram de­pois. No or­fa­nato que fi­quei tam­bém pe­guei um monte de do­ença, ca­xumba, sa­rampo, di­ar­réia, sem­pre sa­rava e pe­gava ou­tra, nunca fui ado­tado e sei que foi por isso que nunca fui ado­tado. Por ser po­bre e so­zi­nho nunca con­se­gui es­tu­dar di­reito tam­bém. Aca­bei indo preso por rou­bar uma loja e para não ser dedo duro mo­fei cinco anos na ca­deia. De­cidi que a única ra­zão da mi­nha vida fo­dida era en­con­trar meus pais e ma­tar os dois. Meu pai, in­fe­liz­mente, já cui­dou disso, ele mor­reu quando eu ti­nha cinco anos, mas
pelo me­nos foi atro­pe­lado. E hoje eu ma­tei nossa mãe.

– Você vai me ma­tar tam­bém?

– Não, não sei ainda. Eu não ti­nha a in­ten­ção nem de te ver, mas você ti­nha que achar meu do­cu­mento. Eu fiz ques­tão de tro­car de nome quando fiz 18 anos, mas não sei por­que mo­tivo es­co­lhi a porra do nome que a nossa mãe me deu para fa­zer o do­cu­mento falso. Se acha­rem ele vai fi­car mais fá­cil me en­con­trar.

– Eu já en­tre­guei para a po­lí­cia, seu bosta! – a raiva ti­nha vol­tado.

– Calma, ir­mão. As­sim vou ter que te ma­tar tam­bém, sinto muito.

– En­tão faz isso logo! Sabe que eu quis te co­nhe­cer quando en­con­trei sua foto na rua? Pen­sei até to­mar uma cer­veja junto com você, con­tar como é a merda da mi­nha vida. Que pa­lha­çada! An­tes você ti­vesse mor­rido de pneu­mo­nia!

– Foi nisso que eu pen­sei hoje, mano, quando ma­tei a mãe.

– Cara, você pensa que é o coi­ta­di­nho? Pode ter so­frido mais que a gente, mas todo mundo aqui nessa fa­mí­lia tem uma vida di­fí­cil.

– Cala a boca play­boy! – disse cho­rando e apon­tando a arma para mim – Eu só que­ria sa­ber por­que ela me aban­do­nou. Sabe o que ela disse? Que era muito nova, po­bre, burra e ti­nha medo dos pais. Eu per­cebi sim que ela era uma coi­tada, mas não ti­nha volta. Ti­nha que ma­tar. No fundo eu sei que mi­nha vida vai pi­o­rar agora, mas eu não tô nem aí. Eu não era para ter nas­cido
mesmo.

Le­vei uma co­ro­nhada na ca­beça e des­maei. Nunca mais vi meu ir­mão e tam­bém achei me­lhor não con­tar para a po­lí­cia o que acon­te­ceu. Mas pedi o do­cu­mento de iden­ti­dade de volta. Até hoje car­rego ele no bolso. 

E-mail: reichaves@hotmail.com

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