Contos

Onda morta (novela de 32 capítulos)

terça-feira, 15 de maio de 2007 Texto de

Ca­pí­tulo 1 

– Meu Deus! Você tem idéia do que pode ter sido?
 – Não sei… Não sei… Como eu posso sa­ber?
 – Al­guém aqui pode me ex­pli­car o que acon­te­ceu? Há al­guém fe­rido? Es­tão me ou­vindo? Ei! Mas o que é que está ha­vendo?

*** ***

– Todo mundo vai fi­car aí pa­rado? Vo­cês fi­cam aí com os olhos vi­dra­dos em quê?
 – Es­cute, amigo, nós es­ta­mos tão sem jeito quanto você, só que tal­vez você fale de­mais…
 – Mas eu quero ape­nas con­ver­sar… ape­nas con­ver­sar…

*** ***

– O se­nhor tem al­guma idéia so­bre isso tudo?
 – Acho que vi­mos e sen­ti­mos a mesma coisa, não é? Va­mos pro­cu­rar nos acal­mar, pre­ci­sa­mos nos acal­mar!
 – Onde está o ca­pi­tão? Ei, ca­pi­tão!

*** ***

– En­con­trei o ca­pi­tão lá em­baixo, ele está bem, ao me­nos fi­si­ca­mente, mas fala muito pouco… Será que eu sou o único a que­rer fa­lar por aqui?
 – Não, claro que não. É o que ele disse: es­tão to­dos num es­tado de cho­que. Pre­ci­sa­mos pelo me­nos vol­tar a ter do­mí­nio so­bre nos­sos ner­vos.
 – Tudo bem, mas vo­cês não acham que o me­lhor re­mé­dio para isso é con­ver­sar­mos? Meu Deus, o que pode ter acon­te­cido?

*** ***

Ca­pí­tulo 2

– Ah, olá, ca­pi­tão! O se­nhor está bem? Pode fa­lar? O que houve co­nosco?
 – Eu gos­ta­ria muito de sa­ber, meu ra­paz, muito mesmo! Mas o di­abo é que não sei, não sei de jeito ne­nhum, en­tende? Es­tá­va­mos na­ve­gando nor­mal­mente, vo­cês se lem­bram? To­dos se lem­bram?
 – Claro, claro, tudo ia bem até que sur­giu o cla­rão…
 – Está cor­reto, isto mesmo! Um cla­rão… muito forte!
 – E de­pois, um es­trondo surdo, não foi?
 – Per­feito, per­feito! Um es­trondo seco. Mas e en­tão? Ah, sim! Eu me lem­bro. Os apa­re­lhos in­di­ca­ram algo muito grande vindo em nossa di­re­ção, e eu avi­sei a to­dos, es­tão lem­bra­dos?
 – Eu me re­cordo, sim. Acho que to­dos se re­cor­dam. Sim, ca­pi­tão, foi isto: na­ve­gá­va­mos num mar muito tranqüilo, de­pois vi­e­ram o cla­rão, o ba­ru­lho e a apre­en­são. Foi as­sim.
 – Sim, foi.
 – Es­cute, ca­pi­tão, tudo isso está claro nas nos­sas men­tes. O pro­blema é o que acon­te­ceu de­pois, o se­nhor tem uma ex­pli­ca­ção em vista?
 – Não, por en­quanto, não te­nho qual­quer ex­pli­ca­ção. Olhem! Vo­cês per­ce­bem como o mar está qui­eto? Nunca vi algo as­sim! A água pa­rece es­tar com­ple­ta­mente pa­rada!
 – Ei, al­gum de vo­cês tem pelo me­nos uma vaga idéia do que pode ter se pas­sado?
 – Se nem o ca­pi­tão tem, amigo, quem por aqui vai sa­ber qual­quer coisa?
 – E o se­nhor, já se acal­mou? O se­nhor não diz nada?
 – Meu caro, es­tou co­me­çando a con­cor­dar com ele: você pre­cisa dar um tempo! Você não com­pre­ende que a mai­o­ria aqui está no mar pela pri­meira vez e que isso au­menta a ten­são?
 – Desculpe-me, peço des­cul­pas a vo­cês to­dos, mas não con­sigo me con­for­mar com o si­lên­cio. Algo muito es­tra­nho está acon­te­cendo. Tal­vez nós não te­nha­mos tempo su­fi­ci­ente para des­can­sar, sabe? Acho que pre­ci­sa­mos de um norte ra­pi­da­mente. Ca­pi­tão, o se­nhor não de­ve­ria ten­tar con­tato com ou­tros bar­cos ou com a costa?
 – Pouco an­tes de su­bir, eu ve­ri­fi­quei nosso equi­pa­mento de rá­dio. Está mudo. Não há um si­nal se­quer! Nada fun­ci­ona aqui! Você não per­ce­beu que o barco está à de­riva? Tal­vez não, tal­vez não. Quem per­ce­be­ria? O mar está tão calmo!

*** ***

Ca­pí­tulo 3 

– Meu re­ló­gio! Está pa­rado tam­bém! Al­guém pode con­sul­tar o re­ló­gio? Meu te­le­fone ce­lu­lar apa­gou. Al­gum ce­lu­lar por aí? – Du­vido muito. Pa­rece que to­dos os apa­re­lhos, di­gi­tais ou não, pi­fa­ram. Eu já ti­nha con­sul­tado o meu. Qual­quer coisa aí fora sim­ples­mente anu­lou to­dos os ti­pos de ener­gia de que dis­pú­nha­mos.

– Não é pos­sí­vel! Pre­ci­sa­mos nos me­xer, deve ha­ver algo que possa ser feito, ca­pi­tão! O se­nhor por fa­vor nos ori­ente!

– O que eu devo fa­zer numa hora des­sas? Não sei. Nós sem­pre so­mos trei­na­dos para en­fren­tar tem­pes­ta­des, aci­den­tes com o barco e tudo mais, mas aqui não há nada para se en­fren­tar. O barco está em óti­mas con­di­ções, te­mos co­mida, be­bida, as ca­bi­nes es­tão em or­dem … a água está um sos­sego … o pôr do sol, como vo­cês po­dem ver, chega a ser cor-de-rosa, a tem­pe­ra­tura é agra­dá­vel, en­fim, não ha­ve­ria do que se quei­xar se não es­ti­vés­se­mos flu­tu­ando a cerca de vinte mi­lhas da costa e sem qual­quer ca­nal de co­mu­ni­ca­ção em fun­ci­o­na­mento. Vo­cês sa­bem, con­tando a tri­pu­la­ção, es­ta­mos com vinte pes­soas a bordo. Se al­guém en­tende de na­ve­ga­ção mais do que eu, fi­que à von­tade para con­ser­tar o que for ne­ces­sá­rio, mas eu du­vido. Já ave­rigüei e não en­con­tro uma ex­pli­ca­ção ló­gica para isso. Tudo pa­rece es­tar tra­vado. Vo­cês com­pre­en­dem a si­tu­a­ção?

– Ca­pi­tão, deixe-me di­zer: já ouvi di­zer que uma cal­ma­ria des­sas ge­ral­mente pre­cede pro­ble­mas…

– De­pende de uma sé­rie de as­pec­tos, meu se­nhor. Eu di­ria que neste mo­mento, di­ante das cir­cuns­tân­cias que nos en­vol­vem, nada pode ser ava­li­ado pela ló­gica. Esta cal­ma­ria, o se­nhor não te­nha dú­vida, é sim­ples­mente ex­tra­or­di­ná­ria, ja­mais vista por mim e du­vido que por al­gum ma­ri­nheiro.

*** ***

Ca­pí­tulo 4

– Vo­cês es­tão per­ce­bendo uma coisa? Faz muito tempo que es­ta­mos as­sim, acho que pelo me­nos três ho­ras, e ve­jam o ho­ri­zonte, nada mu­dou, a mesma cor ró­sea, como se o sol es­ti­vesse se pondo. Es­tão lem­bra­dos de que an­tes de tudo isso já era fim de tarde? De­ve­ría­mos es­tar agora em plena noite…

– Re­al­mente, você tem ra­zão… Não há como sa­ber­mos as ho­ras, ca­pi­tão?

– Pelo sol? Por uma ou ou­tra es­trela? Sim, sem­pre te­mos como fa­zer cál­cu­los. O di­abo é que não te­mos nada disso ao al­cance dos olhos, o se­nhor per­cebe? Não há sol nem es­tre­las nem lua ou qual­quer mo­vi­mento no céu. Ele tem ra­zão: três ho­ras ou mais já se pas­sa­ram desde que acon­te­ceu…

– Sim, mas o que isso im­porta agora? O que nos im­porta sa­ber quan­tas ho­ras se pas­sa­ram? Aliás, nem po­de­mos sa­ber! Como disse o pró­prio ca­pi­tão, não te­mos a ló­gica a nosso fa­vor.

– Há algo mais…

– Puxa, en­fim, ou­tra pes­soa dis­posta a fa­lar! Es­ta­mos me­lho­rando!

– Quando fico muito tenso, como es­tou agora, cos­tumo co­mer por im­pulso. Vêem es­ses bis­coi­tos? Ten­tem comê-los e não vão sen­tir gosto al­gum…

– Está di­zendo que os bis­coi­tos es­tra­ga­ram?

– Não, não pa­re­cem es­tar es­tra­ga­dos. Ape­nas não senti qual­quer sa­bor ao mastigá-los…

– Deixe-me ver, amigo…

– Es­ta­mos muito an­si­o­sos, essa é a ver­dade…

– Ele tem ra­zão! Não sinto o gosto!

– Ei, olhem: es­ses san­duí­ches tam­bém per­de­ram o sa­bor!

– Deve ha­ver al­guma ex­pli­ca­ção, ca­pi­tão…

– Sim, meu caro, deve ha­ver, deve ha­ver…

– Tal­vez um fenô­meno que in­clua a ca­pa­ci­dade de anu­lar cer­tas pro­pri­e­da­des dos ali­men­tos?

– Tal­vez um fenô­meno mag­né­tico ca­paz de anu­lar cer­tas per­cep­ções or­gâ­ni­cas, quem sa­berá?

– Sim, o ca­pi­tão pode ter ra­zão. O pro­blema todo pode es­tar em nos­sos or­ga­nis­mos, em nos­sas men­tes!

– É uma hi­pó­tese ra­zoá­vel se con­si­de­rar­mos que não te­mos a ló­gica a nosso fa­vor… Desculpe-me, amigo… Desculpe-me pela im­pa­ci­ên­cia…

– Es­cu­tem: vo­cês já de­vem ter ou­vido fa­lar de alu­ci­na­ções co­le­ti­vas e coi­sas as­sim. Quem pode di­zer que não es­ta­mos en­fren­tando uma des­sas? Que ou­tra ex­pli­ca­ção pode ha­ver?

– Per­dão, mas não acho que te­nha­mos mer­gu­lhado em ne­nhuma alu­ci­na­ção co­le­tiva. Não sou psi­có­logo nem pa­rap­si­có­logo e nem nunca me en­volvi em ex­pe­ri­ên­cias desse tipo, mas so­mos um grupo tão he­te­ro­gê­neo, com tão pou­cas li­ga­ções en­tre nós, que acre­dito ser im­pos­sí­vel par­ti­ci­par­mos jun­tos de uma alu­ci­na­ção. Na mi­nha opi­nião, houve algo trá­gico no pla­neta en­quanto ru­má­va­mos para a ilha, ape­nas isso.

– Algo como o quê? Uma bomba atô­mica, por exem­plo? É a isso que você se re­fere?

– Por que não? Você julga ser tão im­pro­vá­vel as­sim ha­ver pes­soas dis­pos­tas a lan­çar mão desse re­curso?

– Es­pe­rem aí, os efei­tos de uma bomba atô­mica ou de ou­tras agres­sões bé­li­cas se­riam um pouco di­fe­ren­tes, não acham?

– Quem pode nos ga­ran­tir?

– Pa­rem! Por fa­vor, pa­rem um ins­tante! Pa­rece que há um ru­mor dis­tante. Es­tão ou­vindo?

– Não ouço ab­so­lu­ta­mente nada…

– Que tipo de ruído é?

– Não sei, penso ter ou­vido al­guma voz…

– Tam­bém não con­sigo per­ce­ber coisa al­guma!

– Tal­vez te­nha sido só im­pres­são. Desculpem-me, acho que me atra­pa­lhei.

– Pode ter sido seu de­sejo de dei­xar esse es­tado. Pre­ci­sa­mos nos acau­te­lar quanto às re­a­ções que ainda po­de­re­mos ter in­vo­lun­ta­ri­a­mente…

– Ca­pi­tão, não se­ria bom ir­mos ten­tar o rá­dio no­va­mente? Acho que pre­ci­sa­mos agir de al­guma forma. Os de­mais fi­quem aten­tos o quanto po­dem. A essa al­tura, um pe­queno de­ta­lhe pode ser im­por­tante para nossa so­bre­vi­vên­cia.

*** ***
Ca­pí­tulo 5

– E en­tão? Al­gum su­cesso?

– Nada, os equi­pa­men­tos se en­con­tram to­dos apa­ga­dos. Apa­ren­te­mente não há jus­ti­fi­ca­tiva, ne­nhum de­feito per­cep­tí­vel. Sim­ples­mente não fun­ci­o­nam. Vo­cês vi­ram algo?

– Tudo está como an­tes. Veja você mesmo: a cal­ma­ria, o ho­ri­zonte cor-de-rosa sem sol e ne­nhum mo­vi­mento de nu­vens ou fenô­meno me­te­o­ro­ló­gico…

– Ca­pi­tão, há equi­pa­men­tos de mer­gu­lho no barco?

– Te­mos, mas de­vem ser usa­dos ape­nas numa emer­gên­cia, prin­ci­pal­mente nesta área afas­tada da costa.

– Se isso não for uma emer­gên­cia, caro ca­pi­tão, o que se­ria?

– Desculpe-me, você tem ra­zão.

– Ca­pi­tão, es­tou ape­nas ou­vindo as con­ver­sas desde o iní­cio. Até agora, eu não disse nada por­que não me com­pete in­ter­vir em as­sun­tos dos quais não en­tendo pa­ta­vina. Quanto a mer­gu­lho, é ou­tra his­tó­ria. Além de ser um hobby para mim, te­nho um cur­rí­culo de di­ver­sos cur­sos. Gos­ta­ria de me co­lo­car à dis­po­si­ção para co­la­bo­rar.

– Seja bem-vindo, ma­ri­nheiro! Va­mos prepará-lo para des­cer. Você sabe que não po­derá se afas­tar muito? Tam­bém é pre­ciso ser rá­pido. Fran­ca­mente, não sei quais os pe­ri­gos que irá en­fren­tar nes­tas cir­cuns­tân­cias com­ple­ta­mente des­co­nhe­ci­das…

*** ***
Ca­pí­tulo 6

– Ca­pi­tão, pela mi­nha con­ta­gem, falta cerca de um mi­nuto. Se ele não re­tor­nar, o com­bi­nado é puxá-lo de volta. O se­nhor acha que pode ter ocor­rido algo ruim?

– Acho que não. Qual­quer pro­blema te­ria pro­vo­cado al­te­ra­ção no cabo. Lá em­baixo, com tan­tas pre­o­cu­pa­ções e sem re­ló­gio, ele tal­vez te­nha se atra­pa­lhado na mar­ca­ção do tempo. Va­mos aguar­dar…

*** ***

– Ca­pi­tão, pelo me­nos um mi­nuto já cor­reu além do com­bi­nado. Tal­vez de­vês­se­mos…

– Muito bem, preparem-se, va­mos içá-lo.

– Va­mos lá, va­mos lá… Pu­xem, pu­xem…

– Ca­pi­tão, o peso… Não es­ta­mos con­se­guindo…

– Pu­xem, pu­xem, dêem es­paço para mais al­guns de vo­cês. Pre­ci­sa­mos subi-lo!

– Ca­pi­tão, isso é muito es­tra­nho, é muito peso para uma só pessoa!Estamos pu­xando em sete ho­mens e o cabo não se mexe!

– Deixem-me ajudá-los, va­mos, va­mos… Força, força…

– O cabo não se mexe, ca­pi­tão…

– Isto é im­pos­sí­vel! Olhem para o cabo: não está to­tal­mente es­ti­rado, mas não po­de­mos içar aquele ho­mem! Cer­ta­mente, o oxi­gê­nio se es­go­tou. Se não o ti­rar­mos de lá, ele mor­rerá muito de­pressa.

– Ei, vo­cês, há ou­tra roupa de mer­gu­lho, ca­pi­tão?

– Sim, vista-a de­pressa ou não ha­verá tempo para ele.

– Olhem isto! O cabo está frouxo e ao mesmo tempo, pe­sado. Não é pos­sí­vel! Não é pos­sí­vel!

– Ca­pi­tão, não se­ria ade­quado al­guém tra­zer ma­te­rial de pri­mei­ros so­cor­ros para a con­clu­são do res­gate?

– Sim, é claro. Al­guém da tri­pu­la­ção, rá­pido.

– Quem po­de­ria ex­pli­car algo as­sim, meu Deus?

– Es­tou pronto, ca­pi­tão, amarrem-me.

– Você já sabe, não é pre­ciso re­co­men­dar cui­dado, certo? Vá e volte rá­pido. Se, por um mo­tivo, não hou­ver como içá-lo, volte, en­ten­deu? Volte de­pressa. Agora, vá. Pode sal­tar! Al­guém faça a con­ta­gem de tempo…

*** ***

Ca­pí­tulo 7

– Cinco mi­nu­tos, ca­pi­tão. Não se­ria tempo de­mais?

– Va­mos içá-lo, pu­xem o cabo, pu­xem o cabo…

– Está vindo, ca­pi­tão… Está vindo… Es­pe­rem, o que é que há? Va­mos lá, va­mos lá…

– O que houve, se­nho­res?

– Pa­rou, pa­rou como an­tes… Está muito pe­sado, a mesma si­tu­a­ção…

– Ou­tra vez isto: o cabo frouxo e não po­de­mos içá-lo… Como ex­pli­car?

– O que po­de­mos fa­zer, ca­pi­tão?

– “O que po­de­mos fa­zer, ca­pi­tão?”, “como se ex­plica isso, ca­pi­tão?”, “o que acon­te­ceu, ca­pi­tão?”, pelo amor de Deus, vo­cês po­dem pa­rar de me fa­zer per­gun­tas por um mi­nuto? Eu não sei, sim­ples­mente não sei o que po­de­mos fa­zer…

– Vou sal­tar e ten­tar ver o que há…

– Está louco, ra­paz? Há algo nos tra­gando um a um. Nin­guém mais vai ao mar até des­co­brir­mos como nos de­fen­der.

– Meu Deus, eles de­vem es­tar mor­tos…

– Sim, cer­ta­mente eles es­tão mor­tos…

– E não po­de­mos fa­zer nada! Ab­so­lu­ta­mente nada! Isto é de­ses­pe­ra­dor!

– Sim, é de­ses­pe­ra­dor!

– Mas o que fa­zer? O que fa­zer?

– Ne­nhum si­nal na água, não há qual­quer ves­tí­gio de um ata­que de tu­ba­rões ou coisa as­sim, nada!

– E quanto aos ca­bos, ca­pi­tão? De­ve­mos deixá-los como es­tão?
 – Corte-os…

– Cortá-los e per­der os dois de­fi­ni­ti­va­mente?

– Não há mais vida aí, meu se­nhor. E man­ter os ca­bos pre­sos ao barco sem sa­ber o que há na ou­tra ponta se­ria ar­ris­car a to­dos nós… Corte-os.

*** ***

Ca­pí­tulo 8

– Vou di­zer a vo­cês o que es­tou pen­sando, posso?

– Desde o co­meço, ve­nho ten­tando fa­zer com que to­dos fa­lem…

– Acho que tudo isso não passa de uma brin­ca­deira.

– Amigo, você de­mo­rou para fa­lar, mas ca­pri­chou, hein? Sin­ce­ra­mente, não sei se pode ha­ver brin­ca­deira num barco à de­riva que pa­rece não sair de um lu­gar onde dois de nós aca­ba­ram de mor­rer…

– Aí é que está. Não acre­dito que eles te­nham mor­rido.

– Ei, cara, do mesmo modo que você, tam­bém não abri mi­nha boca para dar opi­niões, mas se al­guém pa­rece es­tar brin­cando aqui, é você!

– Es­cu­tem, vo­cês não en­ten­dem? Pen­sem um pouco! O que es­ta­mos fa­zendo neste barco? Não fo­mos se­le­ci­o­na­dos para um con­curso? Não va­mos para uma ilha par­ti­ci­par da tal com­pe­ti­ção or­ga­ni­zada pela te­le­vi­são? Pois aí está: de­ve­mos es­tar sendo fil­ma­dos neste mo­mento. Nós aqui, de­ses­pe­ra­dos, e as pes­soas se di­ver­tindo às nos­sas cus­tas di­ante dos te­le­vi­so­res, é isso que está acon­te­cendo!

– Não pode ser. Este con­curso não se trata de ne­nhum re­a­lity show. Aliás, nem re­ce­be­mos ainda as ins­tru­ções com­ple­tas…

– Viu? Quem ga­rante que a fil­ma­gem desta vi­a­gem não faz parte do jogo?

– Bom, di­ga­mos que você es­teja certo, como po­de­ría­mos ser le­va­dos à nossa si­tu­a­ção atual?

– Você não as­sis­tiu ao “Show de Truh­man”?

– Amigo, fran­ca­mente isto não se pa­rece muito com um ce­ná­rio, não mesmo. E além do mais, como você ex­plica o fato de ter ha­vido um lapso de tempo em nosso tra­jeto? Lembre-se que não sa­be­mos o que houve de­pois de ter­mos visto o cla­rão e ou­vido o forte es­trondo.

– Quem me ga­rante que al­guns de nós não fa­zem parte da equipe de pro­du­ção da TV? E se nos de­ram um alu­ci­nó­geno?

– Meu Deus! Que ima­gi­na­ção fér­til a sua. Será que você não é da tal pro­du­ção da TV?

– Ra­pa­zes, ou­çam uma coisa vo­cês dois…

– Sim, ca­pi­tão?

– Você mesmo, meu caro, vem nos di­zendo que se­ria bom con­ver­sar­mos, que as­sim po­de­mos en­con­trar um rumo. Por isso deixei-os irem adi­ante nesse diá­logo. Mas posso afirmar-lhes com toda se­gu­rança: não há uma câ­mera de TV se­quer nesta em­bar­ca­ção. Vo­cês não es­tão sendo fil­ma­dos, eu ga­ranto. Meu barco foi con­tra­tado sim­ples­mente para levá-los à ilha. A re­gra de si­gilo so­bre cada um dos par­ti­ci­pan­tes tam­bém está va­lendo para mi­nha tri­pu­la­ção e para mim mesmo. Não sei o nome de ne­nhum de vo­cês, não sei de onde vêm, o que fa­zem, nada, nada. Ape­nas te­nho co­nhe­ci­mento, como qual­quer te­les­pec­ta­dor, que há en­tre o grupo pes­soas de vá­rias pro­fis­sões, gente po­bre e gente rica, mo­ra­do­res de ci­da­des e mo­ra­do­res do campo, nada mais do que isso. A emis­sora de te­le­vi­são pro­mo­tora do con­curso man­tém tudo em se­gredo. En­fim, não há qual­quer pos­si­bi­li­dade dessa hi­pó­tese se con­fir­mar. Acre­di­tem: a ver­dade é esta mesma que re­cai di­ante de nos­sos olhos.

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Ca­pí­tulo 9

– Lembram-se que há al­gum tempo eu pen­sei ter ou­vido um ru­mor es­tra­nho e dis­tante? Agora en­tendo me­lhor. Claro que vo­cês não po­diam ouvi-lo, ao me­nos não aquele. É que só ha­via aqui den­tro, na mi­nha ca­beça, com­pre­en­dem? Agora o ru­mor está vol­tando. Al­guma coisa es­tra­nha! Mui­tas fa­las ao mesmo tempo em que mi­nha me­mó­ria pa­rece es­tar se apa­gando. Meu Deus, é isto mesmo: a cada ins­tante, esse ru­mor me rouba uma lem­brança da vida. Vo­cês aten­ta­ram para isso? Não está acon­te­cendo com ne­nhum de vo­cês? Será só co­migo? Acre­di­tem, é ter­rí­vel!

– Es­pere. Agora que você disse eu per­cebo…

– Eu tam­bém…

Mi­nha nossa, o que está nos acon­te­cendo? Es­ta­mos en­lou­que­cendo?

– Ca­pi­tão, por Deus, o rá­dio con­ti­nua sem fun­ci­o­nar? Nada mu­dou?

Ra­pa­zes, sinto dizer-lhes, mas não me re­cordo como se faz para ope­rar os apa­re­lhos que te­mos a bordo. Não sei o que pode ser isto! Eu me es­queci, não é ab­surdo?

– Ami­gos, ouçam-me. Não sa­be­mos onde isso pode nos le­var, mas uma coisa é certa: se per­der­mos o con­trole de nos­sas men­tes, es­tará tudo aca­bado de uma vez. Pre­ci­sa­mos nos man­ter cons­ci­en­tes de al­guma ma­neira. A essa al­tura, acho que posso que­brar uma das re­gras do con­curso, não é mesmo? Sou lingüista e sei o quanto de­pen­de­mos da co­mu­ni­ca­ção para nos as­se­gu­rar em boas con­di­ções men­tais. Não po­de­mos per­mi­tir que nos­sas men­tes se tor­nem va­zias, em­bora não sai­ba­mos se esse é o caso. De qual­quer forma, an­tes pre­ve­nir do que re­me­diar, como já di­zia mi­nha avó. E, atra­vés da lem­brança de mi­nha avó, é que digo a vo­cês to­dos que pre­ci­sa­mos com ur­gên­cia exer­ci­tar nos­sas men­tes, para que não nos es­que­ça­mos de nosso pas­sado e de quem so­mos. Algo está nos afe­tando e com­pro­me­tendo o pen­sa­mento, e tal­vez es­teja nesse par­ti­cu­lar a chave para nossa sal­va­ção. Pro­po­nho que co­me­ce­mos a con­tar his­tó­rias de nos­sas vi­das, o que vier à ca­beça, mas que se­jam his­tó­rias re­ais. Acho que as­sim es­ta­re­mos lu­tando con­tra esse ini­migo in­vi­sí­vel que pro­cura nos de­te­ri­o­rar aos pou­cos. En­quanto con­ta­mos nos­sas his­tó­rias, po­de­mos pen­sar em pos­sí­veis so­lu­ções para esta si­tu­a­ção. E en­tão, to­dos de acordo? Se es­ti­ve­rem, tam­bém pro­po­nho que al­gum de nós trans­creva as nar­ra­ti­vas com os no­mes dos res­pec­ti­vos au­to­res, como ga­ran­tia de que não va­mos nos es­que­cer. Va­mos, ami­gos, não per­ca­mos tempo. Quem co­meça? Ca­pi­tão, por fa­vor, ar­rume pa­pel e ca­neta.

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Ca­pí­tulo 10

– Mi­nha his­tó­ria é so­bre uma coisa que eu me lem­bro agora, de­pois de tan­tos anos, e acho que ela só me vem à me­mó­ria por­que es­ta­mos nesta si­tu­a­ção… não es­tou certo disso, mas algo que me diz que sim… Bem em frente à mi­nha casa, mo­rava uma fa­mí­lia de ja­po­ne­ses. O pai era um co­mer­ci­ante muito amá­vel que saía to­dos os dias bem cedo. A mãe quase não saía. Cui­dava da casa e das cri­an­ças. Eram três cri­an­ças. Nas fes­tas de ani­ver­sá­rios, eles sem­pre vi­nham em casa ou nós ía­mos na de­les. En­tão, uma noite eu so­nhei uma coisa hor­rí­vel. So­nhei que du­rante uma tarde eu che­gava da es­cola e en­con­trava di­ante da casa dessa fa­mí­lia um grande aglo­me­rado de pes­soas, to­das cu­ri­o­sas. Lá den­tro ocor­ria algo es­tra­nho. Eu me apro­xi­mei. Quando che­guei perto, o co­mer­ci­ante es­tava de­ses­pe­rado, mas não ti­nha co­ra­gem de en­trar. As cri­an­ças ti­nham sido re­ti­ra­das do lu­gar. Eu per­gun­tava o que es­tava ha­vendo, mas nin­guém res­pon­dia. Até que a mu­lher saiu. Mas não foi como vo­cês es­tão pen­sando. Ela não saiu sim­ples­mente, se é que vo­cês me en­ten­dem. Ela veio como um raio e postou-se di­ante do ma­rido. En­tão, num golpe ab­surdo, ela abriu uma boca tão grande, mas tão grande, que nela ca­bia a ca­beça in­teira do co­mer­ci­ante. E em pou­cos se­gun­dos ela mas­ti­gou a ca­beça dele. Sabe quando co­me­mos uma sar­di­nha e só resta aquela es­cama? Foi isso. Ela su­gou a ca­beça do ma­rido e só res­ta­ram pe­que­nos os­si­nhos. Mas foi tudo tão rá­pido, tão rá­pido, que por al­guns se­gun­dos o ma­rido ainda se man­teve vivo, mesmo sem a ca­beça. E mesmo ele es­tando sem a ca­beça, eu pa­re­cia con­se­guir com­pre­en­der que o amá­vel co­mer­ci­ante se mos­trava per­plexo com aquele acon­te­ci­mento. Após su­gar a ca­beça do ma­rido, a mu­lher de­sa­pa­re­ceu pela rua. Acor­dei muito as­sus­tado. Eu me lem­bro que a ja­nela do meu quarto fi­cava bem de frente para a casa de­les. Eu le­van­tei bem de­va­ga­ri­nho e na ponta dos pés fui até a ja­nela e, no es­curo, afas­tei um pouco a cor­tina para en­xer­gar do ou­tro lado da rua. E foi quando vi, so­bre o te­lhado da­quela casa amiga, a mãe ja­po­nesa fu­mando e olhando para a lua que su­bia cheia por de­trás das cons­tru­ções. Meus ami­gos, eu era ape­nas uma cri­ança e senti a urina es­cor­rer até en­so­par meus pés. Será que eu vi mesmo ou foi ima­gi­na­ção ou foi o que eu quis ver? Eu nunca mais con­se­gui olhar para nossa vi­zi­nha, em­bora sem­pre ima­gi­nasse que ela fi­cava me en­ca­rando com um sor­riso es­tra­nho.

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Ca­pí­tulo 11

– Ami­gos, te­nho cer­teza de que du­rante a his­tó­ria que ou­vi­mos, to­dos se lem­bra­ram de pas­sa­gens da pró­pria vida que de al­gum modo guar­dam se­me­lhan­ças com o que nos foi con­tado. Este é o exer­cí­cio que pro­pus. Às ve­zes, nossa mente pre­cisa de es­tí­mulo para se man­ter ativa. Nas atu­ais cir­cuns­tân­cias, co­la­bo­rar para que isso ocorra tem im­por­tân­cia para nossa pró­pria so­bre­vi­vên­cia.

– Ei, não sei se vo­cês tam­bém aten­ta­ram para isso, mas não há pei­xes nem pás­sa­ros neste mar. Vo­cês vi­ram algo se me­xer na água ou so­bre nos­sas ca­be­ças neste tempo todo? Não sei como não me dei conta disso an­tes. Eu gosto muito de ani­mais…

– Não, re­al­mente pa­rece não ha­ver mais nada vivo além dos que es­tão neste barco e da­quilo que tra­gou dois de nós.

– Meu Deus, isto é per­tur­ba­dor!

– Por isso de­ve­mos con­ti­nuar com nosso exer­cí­cio men­tal. Não po­de­mos nos dei­xar aba­ter. Quem é o pró­ximo? Você com a mão er­guida. Pode nos fa­lar, por fa­vor.

– Bem, tam­bém te­nho algo so­bre cri­an­ças…

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Ca­pí­tulo 12

– Eu me lem­bro de um ga­ro­ti­nho que mo­rava perto de casa. Oras bo­las, eu tam­bém era um ga­ro­ti­nho nessa época. Me des­cul­pem, é o que me vem à mente. Ele era muito mir­ra­di­nho. E ele era bom. Era sim. Te­nho cer­teza disso, mas as­sim mesmo os co­le­gas de es­cola ju­di­a­vam dele. Ba­tiam nele, en­ten­dem? Não sei bem o mo­tivo. E to­das as ve­zes que isso acon­te­cia, mi­nha von­tade era defendê-lo, mas nunca … nunca tive co­ra­gem. Sei que pa­rece bo­ba­gem fa­lar disso agora, muito tempo de­pois. Me des­cul­pem… Certo dia, num des­ses be­cos de­ser­tos, cer­ca­ram ele e ba­te­ram muito, muito mesmo. Ele san­grava pelo na­riz e es­tava caído quando um dos ou­tros me apon­tou e disse que eu tam­bém de­via ba­ter nele. En­tão, en­tre meia dú­zia de cri­an­ças de­ci­di­das, o que dá para fa­zer se você é ape­nas um? Mesmo con­tra mi­nha von­tade, eu an­dei na di­re­ção dele. Eu não sa­bia se ia chu­tar o ga­ro­ti­nho ou sei lá fa­zer o quê… En­tão, acon­te­ceu uma coisa muito es­tra­nha. Não sei se vo­cês vão acre­di­tar… A uns dois ou três pas­sos dele, eu per­cebi que no as­falto uma fenda co­me­çou a se abrir, uma pe­quena ra­cha­dura. No iní­cio, só eu me de­tive àquilo. Mas em se­guida, a rua trin­cou pra va­ler, como se um ter­re­moto se aba­tesse so­bre aque­les pou­cos me­tros onde es­tá­va­mos. Os ou­tros me­ni­nos se afas­ta­ram, to­dos as­sus­ta­dos. De­pois, eles cor­re­ram na di­re­ção oposta. Fo­ram em­bora dali. Eu não sa­bia o que fa­zer e no fim tam­bém dei­xei o lu­gar cor­rendo muito. Só pa­rei ao che­gar em casa. No ou­tro dia, nin­guém disse nada, ao me­nos para mim, so­bre a fenda mis­te­ri­osa no meio da rua. Os me­ni­nos não qui­se­ram mais sa­ber de ator­men­tar o ga­ro­ti­nho. O ano aca­bou e a fa­mí­lia dele mudou-se do bairro. Al­gum tempo de­pois, eu es­tava em ou­tro lu­gar da ci­dade com meu pai e lá eu avis­tei o ga­ro­ti­nho. Num ím­peto, tive von­tade de ir até ele e di­zer al­guma coisa, fa­lar “oi” ou algo as­sim. Mas, vo­cês não vão acre­di­tar, quando fui na di­re­ção dele e já es­tava a pou­cos me­tros, ele me viu e com os olhos, ape­nas com os olhos, indicou-me o chão. Ao re­dor dele, um pe­queno trinco se abriu. Era im­per­cep­tí­vel para to­dos, mas eu vi aquilo. Vol­tei e se­gu­rei firme na mão de meu pai. Ele logo foi em­bora dali, sem olhar mais para mim. 

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Ca­pí­tulo 13

– Vo­cês não me en­ga­nam com es­sas his­tó­rias. Elas só aju­dam a ex­pli­car o que eu já disse. Es­ta­mos sendo fil­ma­dos e es­ses ca­sos che­gam ao te­les­pec­ta­dor atra­vés da en­ce­na­ção de ar­tis­tas, é isso. Ca­pi­tão, o se­nhor soube re­pre­sen­tar muito bem quando ten­tou nos dis­su­a­dir, pa­ra­béns!

– Meu caro, você não ima­gina o quanto eu torço para que essa sua idéia ma­luca se torne uma ver­dade…

– Vo­cês ou­vi­ram algo ran­ger na em­bar­ca­ção? Pa­rece que eu per­cebi algo…

– Não, acho que não. Mas va­mos per­ma­ne­cer aten­tos a tudo. Em al­gum mo­mento, des­co­bri­re­mos o que está ha­vendo.

– Eu gos­ta­ria de con­tar mi­nha his­tó­ria…

– Va­mos lá, va­mos lá…

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Ca­pí­tulo 14

– Mi­nha his­tó­ria é sim­ples. Eu sou Je­sus Cristo e fui en­vi­ado para pu­ri­fi­car a alma de vo­cês neste mar sem fim… ahhahahahahahhahahahahahhahaha. Gos­ta­ram? Mi­nha cara não lem­bra a de Cristo? Não tem im­por­tân­cia, eu tam­bém não vi o rosto dessa ma­mãe ja­po­nesa que come ca­be­ças e nem faço idéia de como é esse me­nino po­de­roso que trinca o as­falto.

– Ei, amigo. Você está bem?

– Es­tou ótimo. Por que não es­ta­ria? Es­tou ótimo como to­dos vo­cês es­tão. Isso tudo não está uma ma­ra­vi­lha? Acalmem-se, ir­mãos. Em pouco tempo, trans­for­ma­rei es­tas águas em vi­nho e to­dos be­be­re­mos e dan­ça­re­mos como na­quele ca­sa­mento da Bí­blia, qual foi mesmo? …hahahahahahahahah. Se vo­cês qui­se­rem, po­dem con­vi­dar a ma­mãe ja­po­nesa co­me­dora de ca­be­ças de ma­rido e tam­bém o ga­ro­ti­nho abri­dor de fen­das ter­res­tres… ahahahhahahhahahahaha.

– Ami­gos, ami­gos, va­mos nos acal­mar an­tes de condená-lo. Ele só pode es­tar en­lou­que­cendo…

– Es­cute aqui, ra­paz: essa fala é mi­nha, eu sou Je­sus Cristo, você não se lem­bra? Não con­de­ne­mos nos­sos ir­mãos, não con­de­ne­mos… ahahahhahahahahahaha. 

– Basta, se­nho­res! Basta! Não foi para isso que dei a idéia de con­tar­mos nos­sas his­tó­rias… Se vo­cês não com­pre­en­dem a im­por­tân­cia de man­ter­mos vi­vas as nos­sas men­tes, eu sinto muito… O azar é de to­dos nós… 

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Ca­pí­tulo 15

– O apa­re­ci­mento desse Je­sus Cristo aí me faz pen­sar se nossa fé é ca­paz de su­por­tar esta pro­va­ção. Se está ao nosso al­cance acre­di­tar que há uma ex­pli­ca­ção para isso. Será que ter fé ou não muda al­guma coisa? 

– Quem sabe se os que mor­re­ram ti­nham fé ou não? O caso é que eles es­tão mor­tos. Isso é real.

– Desculpem-me a in­tro­mis­são, mas não acho que es­ca­par de tra­gé­dias deve ser um termô­me­tro para me­dir a fé. 

– Não? Se você não acre­dita que a fé pode sal­var sua pele quando é pre­ciso, para que ela serve?

– Amigo, você fala em fé como algo mer­ca­do­ló­gico…

– Falo em fé como algo a que se pode ape­gar na hora em que você corre ris­cos.

– Pois é. Você en­cara a fé como um ins­tru­mento para sal­var sua pele. 

– E qual o pro­blema disso?

– Es­pe­rem aí, meus que­ri­dos! Vo­cês es­tão fa­lando de fé e me dei­xam de fora? Não se es­que­çam quem é Je­sus Cristo aqui! Ahahahahhahahahaah….

– Ora, cale essa boca. Isso já está dando nos ner­vos…

– Acalme-se, ir­mão… Não seja gros­seiro com o pa­pai aqui… Aliás, com o pa­pai do céu aqui…hahahahahahahah…

– O pro­blema é que a fé não é um ar­quivo ao qual você pode re­cor­rer quando seu com­pu­ta­dor é afe­tado por um ví­rus, ok?

– Claro, eu pre­ciso ter fé para que ela sirva de pre­cau­ção con­tra o ví­rus, certo?

– Di­ga­mos que isso seja mais justo.

– Ora, e qual a di­fe­rença en­tre ter fé an­tes ou ter fé du­rante? Por acaso, se­ria por uma ques­tão de res­peito? Se você pre­cisa ter fé an­tes para que ela dê al­gum re­sul­tado, isso não é mer­ca­do­ló­gico? Não se­ria um “adi­an­ta­mento”?

– Eu não disse nada disso. Só acho que a fé não é uma mer­ca­do­ria que fica à sua dis­po­si­ção na pra­te­leira…

– Mas tam­bém não pode ser um um banco onde você de­po­sita suas es­pe­ran­ças to­dos os dias para um dia con­se­guir o cré­dito ne­ces­sá­rio, ora…

– Eu é que sei, eu é que sei, ir­mãos… Vo­cês de­ve­riam me ou­vir mais… hahahahahahahhahaah…

– Al­guém faça esse su­jeito ca­lar a boca?

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Ca­pí­tulo 16

– Algo me veio à ca­beça: a queda de um as­te­róide na terra. O cla­rão, de­pois o es­trondo. Quem sabe o oce­ano está calmo as­sim ape­nas por­que muito em breve so­frerá as con­seqüên­cias do aci­dente!

– Amigo, numa ou­tra si­tu­a­ção, eu to­ma­ria sua ob­ser­va­ção como pi­ada, mas sou obri­gado a considerá-la plau­sí­vel di­ante deste es­tado de coi­sas…

– Vo­cês dois aí, se pen­sar­mos as­sim, mais pro­vá­vel se­ria uma in­va­são de ex­tra­ter­res­tres, vo­cês não acham? Ex­tra­ter­res­tres es­fo­me­a­dos por hu­ma­nos, como são vis­tos em al­guns fil­mes. Afi­nal, dois de nós já se fo­ram. Quem sabe?

– Ve­jam, to­dos! Não são pás­sa­ros lá longe? Aque­les pon­ti­nhos es­cu­ros, não são pás­sa­ros?

– Onde es­tão? Não os vejo…

– Olhe na di­re­ção do po­ente…

– Nada, tam­bém só vejo a cor­tina ró­sea.

– Es­pe­rem, es­pe­rem! Não vejo pás­sa­ros, mas algo pa­rece ter se al­te­rado na­quela di­re­ção. Vo­cês per­ce­bem? Aten­tem para a li­nha que de­marca o en­con­tro do ho­ri­zonte com o mar. Não lhes pa­rece que houve uma mu­dança na to­na­li­dade? Te­nho a im­pres­são de que a cor rosa aos pou­cos está se trans­for­mando num azul muito claro…

– Tal­vez você te­nha ra­zão, mas é algo in­certo. O que o se­nhor acha, ca­pi­tão?

– Ele pode es­tar certo, as­sim como pode es­tar er­rado. Meu Deus, di­ante de tudo que se passa, só há es­paço para dú­vi­das e in­cer­te­zas, eis a ver­dade. Mas va­mos pro­cu­rar fi­car aten­tos a isso. Se essa al­te­ra­ção se con­fir­mar, ao me­nos sa­be­re­mos que nem tudo se en­con­tra imu­tá­vel…

– Es­cu­tem, te­nho que lhes di­zer algo que tal­vez nos traga mais de­sa­lento, mas as­sim mesmo lhes digo: o que nos está afe­tando tam­bém deve nos cau­sar vi­sões. Acabo de ver uma cri­ança pas­se­ando pelo con­vés… Desculpem-me, mas ha­via algo… Eu não sei… Mas ha­via tam­bém um cão ou um lobo… 

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Ca­pí­tulo 17 

– Mas lhe pa­re­ceu uma vi­são?

– De ma­neira al­guma! Por um ins­tante, os dois me en­ca­ra­ram e não pa­re­ciam ne­nhuma mi­ra­gem…

– Para onde fo­ram?

– Na di­re­ção do tra­quete, é as­sim que se chama aquele mas­tro, certo, ca­pi­tão?

– Sim, é isso mesmo. Va­mos ver se en­con­tra­mos algo, mas to­mem cui­dado.

– Es­tou achando tudo isso muito di­ver­tido, sa­bem? Pelo me­nos, ar­ru­mei uma ocu­pa­ção: tento des­co­brir quem faz parte da farsa mon­tada pela emis­sora de te­le­vi­são que está nos le­vando à ilha. Sor­riam, vo­cês es­tão sendo fil­ma­a­a­a­do­oos! Um lobo… Essa é boa! É, co­lega, você é um de meus can­di­da­tos fa­vo­ri­tos a far­sante.

– E, en­tão? Al­guém está vendo al­guma cri­ança, al­gum lobo ou ou­tro ani­mal a bordo? 

– Nada, ca­pi­tão! Não há nada por aqui…

– Nem deste lado do barco.

– Eu po­de­ria ju­rar que era de ver­dade!

– Acalme-se, amigo, to­dos es­ta­mos al­te­ra­dos.

– Bela en­ce­na­ção, ra­pa­zes! Con­ti­nuem, con­ti­nuem!

– Al­guém pode fazê-lo ca­lar a boca?

– Ora, ora, não está mais aqui quem fa­lou. Vo­cês agüen­tam esse Cristo fa­juto e es­tri­lam co­migo? Fi­que calmo. Bom, en­quanto vo­cês pro­cu­ram seu lobo, pre­tendo pro­var a mim mesmo que es­tou certo. 

– Ei, o que você está fa­zendo? Pare aí?

– Pa­rem aí, vo­cês! Es­tou farto dessa pa­lha­çada idi­ota. Vou dar um rá­pido mer­gu­lho e des­co­brir o sub­ma­rino que está bem em­baixo deste barco. “Uma coisa grande vindo em nossa di­re­ção”, lembram-se? 

– Meu jo­vem, não faça essa idi­o­tice. Acre­dite: você está er­rado.

– Meu ca­pi­tão, desculpe-me, mas a brin­ca­deira aca­bou. Bye, bye­eee…..

– Segurem-no… Des­gra­çado! Ele sal­tou mesmo!

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Ca­pí­tulo 18

– Rá­pido, uma corda!

– Uma corda para quê? Ele quer se­gu­rar uma corda?

– Sabe-se lá, um louco…

– Va­mos lá, ra­paz, va­mos lá, suba logo, suba logo, saia dessa água…

– Aí está o pas­pa­lho…

– So­corro! So­corro! Os ETs que­rem me co­mer! Eles são ver­des e li­sos! So­corro!

– Des­gra­çado ou­tra vez! Ele está brin­cando com to­dos aqui! Olhem como se di­verte!

– Es­cute aqui, ra­paz, você já se di­ver­tiu o bas­tante. Agora volte para o barco, pelo amor de Deus!

– Cal­mi­nha aí, ma­ri­nhei­ros de pri­meira vi­a­gem. Vou dar mais uma olhada nes­tas águas.

– Va­mos lá, amigo, não seja tolo, volte logo para este barco…

– Ei, mas o que é isso? Eu não posso… Ei, me aju­dem… Sé­rio mesmo, me aju­dem! Eu não posso… So­corro!…

– Meu Deus, al­guém faça algo!

– Ati­rem a corda, rá­pido!

– Mas que idi­o­tice ele fez!

– Ele não se­gura a corda, está tendo es­pas­mos, olhem…

– Mas o que acon­te­ceu com ele? O que há na água?

– Está imó­vel, e os olhos aber­tos, que coisa hor­rí­vel!

– Será mais uma brin­ca­deira de mau gosto?

– Acho que não! Meu Deus, acho que não!

– Ele está morto, ca­pi­tão?

– Pelo visto, sim…Mais um que se vai.

– Não há como res­ga­tar o corpo?

– Você se ar­ris­ca­ria?

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Ca­pí­tulo 19

– Ca­pi­tão, até aqui, cal­cu­la­mos o tempo, mas acre­dito que isso será cada vez mais di­fí­cil. Não se­ria me­lhor nos re­ve­zar­mos na con­ta­gem? Ou o se­nhor acha des­ne­ces­sá­rio?

– Claro, claro, va­mos fa­zer isso. Não po­de­mos per­der a no­ção do tempo, de forma al­guma. Vou pe­dir a al­guém da tri­pu­la­ção para que ini­cie a par­tir de agora. Le­ve­mos em conta que es­ta­mos há cinco ho­ras no mar, está certo?

– Ami­gos, su­giro mu­dar­mos um pouco nossa po­si­ção no con­vés. Não está nada agra­dá­vel a vi­são do ca­dá­ver nos fi­tando com aque­les olhos es­bu­ga­lha­dos.

– Vo­cês per­ce­bem lá no ho­ri­zonte? Eu es­tava certo! Ve­jam onde mar e céu se en­con­tram: o tom rosa vai aos pou­cos dando lu­gar para o azul. 

– Deixe-me ver… Sim, você tem ra­zão. Olhe, ca­pi­tão. Com a lu­neta, a al­te­ra­ção é mais per­cep­tí­vel.

– Re­al­mente, ra­pa­zes, re­al­mente. Isso é um alento, não acham? Ao me­nos é pos­sí­vel que al­guma coisa acon­te­cerá. Não sei di­zer se o mo­vi­mento do barco é res­pon­sá­vel por esse fenô­meno ou se está ha­vendo uma trans­for­ma­ção cli­má­tica ou algo pa­re­cido.

– Ca­pi­tão, tal­vez o aci­dente, a bomba ou seja lá o que acon­te­ceu te­nha es­ti­cado o dia. Tal­vez o azul seja um si­nal de que es­ta­mos ru­mando para a noite…

– Tudo pode ser, meu caro, tudo pode ser…

– Ami­gos, não se­ria in­te­res­sante con­ti­nu­ar­mos nosso exer­cí­cio men­tal? Sei que es­ta­mos muito an­si­o­sos, mas o caso é que tam­bém per­cebo mi­nha me­mó­ria se es­vaindo aos pou­cos. Tal­vez es­sas his­tó­rias e nos­sas ano­ta­ções nos se­jam muito úteis caso nos es­que­ça­mos muito mais coi­sas…

– Sem dú­vida, va­mos con­ti­nuar. Quem se dis­põe?

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Ca­pí­tulo 20

– Eu per­cebi uma coisa aqui… não sei se es­tou certo… Es­ta­mos fa­lando de coi­sas so­bre­na­tu­rais ou algo as­sim, não é mesmo? É isso que vem à nossa mente neste lu­gar que nós nem sa­be­mos onde fica… É cu­ri­oso por­que eu tam­bém me lem­bro de uma coisa que me acon­te­ceu há muito tempo, eu tam­bém era me­nino ainda. Foi numa es­trada se­cun­dá­ria, muito perto de mi­nha casa na­quela época. Eu vol­tava da es­cola so­zi­nho e per­cebi que, a uma certa dis­tân­cia, uma moto ru­mava na mi­nha di­re­ção. Tal­vez ela es­ti­vesse ainda a um ou dois quilô­me­tros, não sei ao certo. Mas eu sa­bia que algo ia acon­te­cer. Não sei como e nem por que, mas eu sa­bia disso como dois e dois são qua­tro. En­tão, num se­gundo, per­cebi que eu não po­dia me me­xer, vo­cês en­ten­dem? Eu es­tava tra­vado ali, à beira do as­falto, e só me res­tava olhar para aquela moto em mo­vi­mento. Ela veio, veio e quando es­tava a pou­cos me­tros eu pude ver bem à frente dela uma pe­dra na es­trada. Não houve tempo para nada. O mo­to­queiro não pôde des­viar. A roda di­an­teira se cho­cou com a pe­dra e a moto deu vá­rias cam­ba­lho­tas. Foi um tombo feio, hor­rí­vel mesmo. O su­jeito deve ter su­bido vá­rios me­tros no ar para de­pois cair de ca­beça no as­falto. Ele não usava ca­pa­cete e eu pude ou­vir quando o crâ­nio dele se que­brou fa­zendo um ba­ru­lho me­do­nho. Eu es­tava a coisa de dois ou três me­tros de onde ele se en­con­trava es­ta­te­lado e agora, mais do que mis­te­ri­o­sa­mente imo­bi­li­zado, eu tam­bém es­tava con­ge­lado de pa­vor, mas fi­ca­ria muito mais, não du­vi­dem disso… Pou­cos se­gun­dos de­pois do aci­dente, sem que eu pu­desse acre­di­tar no que meus pró­prios olhos me mos­tra­vam, vi o mo­to­queiro sentar-se no meio do as­falto. Ele ergueu-se ainda com o crâ­nio gra­ve­mente par­tido. Eu po­dia ver uma cra­tera que se abria bem em cima de sua ca­beça como es­sas ero­sões em que as ra­cha­du­ras to­mam vá­rias di­re­ções. As­sim, nes­sas con­di­ções, es­tou di­zendo a vo­cês, ele le­vou as mãos à ca­beça e aper­tou da­qui, aper­tou dali, até que aquela car­caça man­chada de san­gue se en­cai­xou no­va­mente. Pe­tri­fi­cado, eu as­sisti a essa cena. Em­bora ele me olhasse, pa­re­cia não me ver. Eu só con­se­gui vol­tar a me me­xer quando o mo­to­queiro par­tiu ace­le­rando sua moto de­baixo de um sol es­cal­dante de ve­rão ao meio-dia.

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Ca­pí­tulo 21

– Ei, o que aquele su­jeito está fa­zendo?

– Mas que idéia atra­pa­lhada! Por que fez isso?

– En­quanto es­tá­va­mos aqui en­tre­ti­dos, ele des­ceu um bote salva-vidas…

– Ra­paz, você está louco? Não bas­tam as tra­gé­dias que já acon­te­ce­ram aos ou­tros?

– Poupe a gar­ganta, ca­pi­tão. Ele pa­rece não que­rer ou­vir…

– Mas o que ele vai fa­zer?

– É me­lhor que não seja o que es­tou pen­sando…

– Você acha que ele trará o ca­dá­ver a bordo?

– Es­pero que não… Es­pero que não. Quem sabe o que po­derá vir junto?

– O que ele quer? 

– Está se de­bru­çando so­bre o ca­dá­ver… Onde quer che­gar?

– Não faça isso, ra­paz. Não man­te­nha con­tato com o corpo, não sa­be­mos o que algo as­sim pode acar­re­tar.

– O que o fez agir dessa ma­neira? Será que es­ta­mos per­dendo de vez o con­trole so­bre nos­sas men­tes?

– Ve­jam, ele está se afas­tando aos pou­cos.

– Gra­ças a Deus!

– Volte para cá, meu jo­vem!

– Preparem-se para subi-lo.

– Ca­pi­tão, em­bora não pa­reça, nosso barco está em mo­vi­mento, não está?

– Sim, cer­ta­mente está. Se você for à proa e ob­ser­var rente à em­bar­ca­ção, po­derá per­ce­ber um cons­tante risco na água pro­vo­cado pelo con­tato com o casco. 

– Está certo, ca­pi­tão. Eu ima­gi­nava que fosse as­sim. Como, en­tão, ex­pli­car que o ca­dá­ver se man­te­nha na mesma po­si­ção? Acho que de­ve­ría­mos tê-lo per­dido de vista ou pelo me­nos o dei­xado para trás, não é?

– Sim, meu caro, acho que ne­nhum de nós ha­via pen­sando nisso… Você tem ra­zão. – Ele per­ma­nece ali, a bo­reste, à mesma al­tura de an­tes…

*** *** ***

Ca­pí­tulo 22

– Jo­guem a es­cada, ele está bem aqui.

– Va­mos lá, ra­paz, suba. Está se sen­tindo bem?

– O que deu em você, afi­nal?

– Desculpem-me, desculpem-me… Eu não pude re­sis­tir…

– Re­sis­tir a quê? Va­mos, diga!

– Aque­les ru­mo­res in­fer­nais em meus tím­pa­nos pa­re­ciam vir de lá…

– Mas que bes­teira, como po­de­ria um ca­dá­ver cau­sar ru­mo­res?

– Não de­sa­cre­dite, amigo… En­quanto vo­cês ou­viam a his­tó­ria, re­solvi me apro­xi­mar do corpo. Po­dem di­zer que es­tou louco, mas quando en­cos­tei meu ou­vido bem pró­ximo à boca dele, pude ou­vir uma vo­ze­a­ria muito fraca, mas inin­ter­rupta. Mui­tas coi­sas es­tão aban­do­nando aquele corpo agora, acre­di­tem…

– Mais essa? Será que so­bre­vi­ve­re­mos a esta lou­cura?

– Ca­pi­tão, veja atra­vés da lu­neta. Eu ti­nha mesmo ra­zão: olhe como o ho­ri­zonte cor-de-rosa vai len­ta­mente sendo tin­gido de azul.

– Deixe-me ver…

– Será que es­ta­mos indo na di­re­ção da noite?

– Na ver­dade, o céu vai se azu­lando muito de­va­ga­ri­nho…

– Posso lhes per­gun­tar uma coisa? Noite ou dia, em que nossa si­tu­a­ção vai mu­dar? Se re­al­mente vier a noite, os apa­re­lhos e o rá­dio vol­ta­rão a fun­ci­o­nar? Po­de­re­mos con­tro­lar o barco? Nós re­cu­pe­ra­re­mos a me­mó­ria que es­ta­mos per­dendo aos pou­cos? Os mor­tos vol­ta­rão a vi­ver?

– Ra­paz, tal­vez nada disso acon­teça, mas quando as pers­pec­ti­vas são nu­las, qual­quer no­vi­dade é bem-vinda, mesmo sendo uma in­cóg­nita. Nós de­ve­mos es­tar há pelo me­nos sete ho­ras no mar. Isso quer di­zer que es­ta­mos pró­xi­mos de meia-noite, e mesmo as­sim há cla­ri­dade do dia. Para nossa re­gião, isto é sim­ples­mente im­pen­sá­vel. Se da­qui a al­gu­mas ho­ras, a noite vier, sa­be­re­mos que ao me­nos o pla­neta se­gue gi­rando, com­pre­ende?

– Ca­pi­tão, ocorreu-me algo que pode de certa forma al­te­rar essa te­o­ria. Nós ti­ve­mos um lapso de tempo, pe­ríodo do qual não nos re­cor­da­mos de ab­so­lu­ta­mente nada, cor­reto? E se acaso esse pe­ríodo ti­ver sido muito mais longo do que acha­mos que foi?

– É uma hi­pó­tese, meu caro, é uma hi­pó­tese. Só po­de­re­mos ter uma no­ção mais ade­quada so­bre o tempo quando fi­nal­mente es­cu­re­cer e, en­tão, vier no­va­mente a au­rora. An­tes disso, só ha­verá su­po­si­ções. O que po­de­mos fa­zer?

– Se­nho­res, sinto que às ve­zes fogem-me mais ra­pi­da­mente as lem­bran­ças. Não de­ve­ría­mos con­ti­nuar com as his­tó­rias? Pelo que te­nho visto, pelo me­nos en­quanto nos en­tre­te­mos com elas, fi­ca­mos bem…

– Sim, va­mos ao pró­ximo.

*** *** ***

Ca­pí­tulo 23

– Essa his­tó­ria de que só es­ta­mos con­se­guindo nos lem­brar de coi­sas es­tra­nhas não está bem con­tada. Não se­nhor. Acon­tece é que nós es­ta­mos im­pres­si­o­na­dos com isso tudo, eu acho… So­mos le­va­dos a pen­sar em coi­sas es­tra­nhas, vo­cês me en­ten­dem? Eu tam­bém es­tou pen­sando ne­las. Eu es­tou aqui, não es­tou? No que vo­cês acham que eu po­de­ria pen­sar? Vo­cês acham que eu con­se­gui­ria me lem­brar de coi­sas boas? No meio de uma tra­gé­dia você se lem­bra de coi­sas boas? Não é di­fí­cil? O caos nos faz caó­ti­cos, eu acho…

*** *** ***

Ca­pí­tulo 24 

– Vo­cês se sen­tem can­sa­dos? Al­gum de vo­cês? Eu es­tou exausto. Mi­nhas pál­pe­bras pe­sam mais a cada se­gundo. Vo­cês não?

– Meu caro, pro­cure des­can­sar. Vá à sua ca­bine e durma um pouco. Tal­vez por ser o mais agi­tado en­tre to­dos aqui, suas ener­gias se es­go­ta­ram an­tes. Se hou­ver al­guma no­vi­dade, man­da­rei avi­sar.

– Está bem, ca­pi­tão. Nin­guém mais? Pre­ciso ao me­nos me dei­tar um pouco…

– Fi­ca­re­mos aten­tos, meu caro, não se pre­o­cupe… *** ***

– Ah, e en­tão? Con­se­guiu des­can­sar?

– Acho que sim, ca­pi­tão. Pelo me­nos sinto-me dis­posto no­va­mente.

– Quer co­mer algo? Mesmo sem sen­tir o sa­bor, acre­dito ser ne­ces­sá­rio nos man­ter­mos ali­men­ta­dos…

– É ver­dade, co­me­rei algo. Mas me diga: algo de novo?

– Ape­nas a leve al­te­ra­ção de cor que se­gue seu curso no ho­ri­zonte, nada mais. Es­pe­rá­va­mos para pros­se­guir com as his­tó­rias…

*** *** ***

Ca­pí­tulo 25

– Eu con­sigo me re­cor­dar de uma coisa que pa­rece ter sido on­tem… Cu­ri­oso, vo­cês não acham? Uma coisa que acon­te­ceu há tanto tempo, mas que está tão fresca na mi­nha me­mó­ria… ao con­trá­rio de tudo mais, que me custa muito lem­brar, se é que eu me lem­bro ainda… Sabe, eu ia muito à praia quando era ado­les­cente. Aliás, nas mi­nhas fé­rias, eu só ia à praia. Por falta de um, eu ti­nha dois tios que mo­ra­vam em praias de­li­ci­o­sas. O que não fal­tava era lu­gar para fi­car. E eu sem­pre es­tava lá, na casa de um ou de ou­tro. Tanto numa como na ou­tra praia, eu fiz ami­gos. Vo­cês sa­bem como são os ado­les­cen­tes. Nós sem­pre es­tá­va­mos em gru­pos de qua­tro ou cinco, às ve­zes com me­ni­nas, às ve­zes sem me­ni­nas… Um dia, quando a noite já co­me­çava a cair, meu pes­soal se des­pe­diu e eu ainda fi­quei por ali, an­dando, ob­ser­vando al­guns bar­cos de pes­ca­do­res lá adi­ante, os úl­ti­mos sur­fis­tas que re­co­lhiam suas pran­chas, al­gu­mas pes­soas fa­zendo es­sas ca­mi­nha­das de fim de tarde. En­tão, re­solvi dar mais um mer­gu­lho. A água che­gava a es­tar quente… acho que vo­cês po­dem ima­gi­nar esse pra­zer… Bom, eu dei­xei a praia para trás e fui dar meu mer­gu­lho. O sol já ti­nha en­trado com­ple­ta­mente e a noite se­ria muito clara, uma bela noite de ve­rão. Eu es­tava me pre­pa­rando para mer­gu­lhar… E foi quando acon­te­ceu… Bem ao meu lado, coisa de um me­tro à mi­nha di­reita, uma ima­gem muito re­lu­zente me des­per­tou… Era algo que bri­lhava muito de­baixo d’água, vo­cês en­ten­dem? Pa­re­cia ha­ver ali uma luz tão forte que se eu olhasse para o céu, da­ria para ver aquele bri­lho en­trar pela imen­si­dão es­cura… Mas eu não pude olhar por­que ja­mais al­guém pen­sa­ria em se des­viar da­quela apa­ri­ção… Eu não fi­quei ame­dron­tado ou coisa as­sim, mas muito ad­mi­rado, ma­ra­vi­lhado mesmo, vo­cês ima­gi­nam? En­tão, eu ten­tei me apro­xi­mar ainda mais, e fui em di­re­ção da­quela luz sem sa­ber di­reito o que es­tava acon­te­cendo, o que eu es­tava fa­zendo… Quando me dei conta, quando re­cu­pe­rei mi­nha cons­ci­ên­cia, senti um te­cido ás­pero res­va­lando em mi­nhas cos­tas, em mi­nhas per­nas, em todo meu corpo. Foi quando des­per­tei de ver­dade e nessa hora eu vi que es­tava en­vol­vido por uma rede… sim, era uma rede de pes­ca­do­res e eu es­tava sendo cap­tu­rado em alto mar…eu ti­nha sido pes­cado! Quando me ti­ra­ram da água, os pes­ca­do­res não po­diam acre­di­tar no que viam. Eles ti­nham pes­cado um ga­roto de 16 anos, nu, e todo ma­chu­cado… Ami­gos, meu pê­nis es­tava tão in­chado… meu Deus, por que es­tou con­tando isso agora? Foi uma coisa tão es­tra­nha… Vo­cês acre­di­tam que há no mar cri­a­tu­ras além das que co­nhe­ce­mos?

– Meu fi­lho, ouça-me! Eu que já an­dei so­bre as águas posso di­zer que você é ca­sado com uma se­reia e pai de um peixe… ahahahhahahahaha. Va­mos logo en­con­trar esse seu fi­lho para que eu possa multiplicá-lo e as­sim te­re­mos o que co­mer… ahhahahahahhaha…

– Por que esse su­jeito não de­siste?

*** *** ***

Ca­pí­tulo 26

– Ca­pi­tão, perdoe-me, mas não tí­nha­mos de­zes­sete pes­soas a bordo?

– Cor­reto, éra­mos vinte, mor­re­ram três…

– Pois aqui, neste mo­mento, te­mos pre­sen­tes ape­nas de­zes­seis…

– Al­guém mais terá in­ven­tando ou­tra bes­teira?

– Te­mos que dar uma busca no barco, rá­pido!

– Você, por fa­vor, tome a lu­neta e veja se vê algo no mar além do ca­dá­ver que ainda nos se­gue…

– Re­vis­tem as ca­bi­nes. Ei, há al­guém aí? Alo­o­o­o­o­o­ooô! Al­guém por aqui?

– Nada aqui… não, es­pere… Meu Deus! Ve­nham, de­pressa!

– Santo Deus! Mas o que acon­te­ceu aqui?

– Como pode ter ha­vido algo as­sim?

– Veja, ele está todo sujo! O que será esta subs­tân­cia es­ver­de­ada?
Es­cu­tem, há um ruído…

– Sim, vem da boca dele!

– Aque­les ru­mo­res…

– Não, es­pe­rem! Não são ru­mo­res… Ei, ele está vivo, está que­rendo di­zer algo! Os olhos… Ve­jam, achei que, como o ou­tro, es­ti­vesse morto mas com os olhos es­bu­ga­lha­dos! Ele está vivo! Ei, va­mos lá, diga algo, amigo. O que houve?

– Saia da frente, deixe-me pas­sar, saia da frente…

– Es­pere, onde você pre­tende ir? Pelo amor de Deus!

– Se­gu­rem ele! 

– Não há como segurá-lo, ele pa­rece es­tar to­mado por uma força des­co­mu­nal, ajudem-me aqui, ajudem-me aqui, por fa­vor!

– Vo­cês aí em cima, ten­tem pará-lo… Meu Deus, o que acon­tece aqui?
Va­mos, rá­pido!

– Vo­cês não pu­de­ram segurá-lo? Ele sal­tou?

– Pas­sou por nós como um raio. Veja, pró­ximo ao ca­dá­ver…

– Terá mor­rido tam­bém?

– Tudo leva a crer… 

*** *** ***

Ca­pí­tulo 27

– Ca­pi­tão, desculpe-me, mas te­nho que per­gun­tar: o que va­mos fa­zer? Al­guma coisa está nos ma­tando aqui den­tro agora…

– Deixe-me pen­sar, deixe-me pen­sar… Não po­de­mos per­ma­ne­cer iso­la­dos, esta é a pri­meira pro­vi­dên­cia. Por fa­vor, nin­guém ande so­zi­nho neste barco.

– Dê-me a lu­neta, ele não se mexe?

– Não, ape­nas está lá, os olhos bem aber­tos, não há mais qual­quer mo­vi­mento.

– Qua­tro já mor­re­ram, qua­tro…

– É isso mesmo, amigo, es­ta­mos mor­rendo.

– Acalmem-se, por fa­vor, va­mos man­ter o con­trole da si­tu­a­ção. Se fi­car­mos jun­tos, é bem pro­vá­vel que não nos acon­teça nada. Algo que não sa­be­mos está agindo, mas ape­nas en­quanto não po­de­mos ver, ape­nas quando es­ta­mos so­zi­nhos. Va­mos fi­car jun­tos, é isso.

– Até quando? Até quando va­mos su­por­tar isso? 

– E se anoi­te­cer? Não te­mos luz, lembram-se disso? 

– Há lan­ter­nas a bordo, ca­pi­tão?

– Sim, mas como sa­be­mos nada fun­ci­ona, meu caro, in­clu­sive as lan­ter­nas.

– Ve­las, fós­fo­ros?

– Não acen­dem, eu ten­tei quando vas­cu­lhava uma das ca­bi­nes.

– Pre­ci­sa­mos pen­sar, pre­ci­sa­mos pen­sar, mi­nha mente pa­rece con­ti­nuar se es­va­zi­ando…

*** *** ***

Ca­pí­tulo 28

– Ei, você com a lu­neta, algo novo?

– Acre­di­tem: o ho­ri­zonte está se trans­for­mando. Veja você mesmo!

– Sim, o tom rosa está quase de­sa­pa­re­cendo…

– O se­nhor pode dar uma olhada, ca­pi­tão?

– É isto mesmo, se­nho­res: não sei di­zer do que se trata, mas es­ta­mos ru­mando para uma si­tu­a­ção di­fe­rente. Al­guém mais quer ver? Apro­vei­tem, vo­cês não es­tão can­sa­dos de olhar para a mesma coisa há tanto tempo?

– Meu Deus, me di­gam que es­tou en­ga­nado… Ve­jam aquilo!

– Eu não com­pre­endo, como pode ser? 

– Quem é ele?

– O que acon­te­ceu?

– Veja lá, agora há três cor­pos boi­ando ao nosso en­calço, como isso pode ser ver­dade?

– Eu não posso acre­di­tar…

– Quem foi desta vez?

– Aquele se­nhor que apa­ren­tava muita se­re­ni­dade, ve­jam…

– Eu não sei o que pen­sar. Qual­quer um de nós pode ir para aquele ce­mi­té­rio ma­rí­timo a qual­quer mo­mento. Não va­mos con­se­guir im­pe­dir isso, não va­mos…

– Acalmem-se, acalmem-se…

– Ca­pi­tão, o se­nhor nos diz isso, mas pa­rece es­tar mais ner­voso do que to­dos aqui. Nós es­ta­mos sendo mor­tos, um a um, e nin­guém pode nos sal­var, o se­nhor não com­pre­ende isso?

– Sim, com­pre­endo. Por isso mesmo, pre­ci­sa­mos fi­car jun­tos, não po­de­mos nos se­pa­rar…

– Fi­car jun­tos, fi­car jun­tos… Nós es­tá­va­mos jun­tos, to­dos es­ta­vam aqui, mas algo na­quele mar atraiu o po­bre ho­mem, coi­tado…

– Sim, ele foi atraído, mas nin­guém o viu se di­ri­gir ao mar. Acho que acon­te­ceu quando es­tá­va­mos en­tre­ti­dos com a lu­neta.

– Lá es­tão os três, to­dos eles nos ob­ser­vando com aque­les olhos ar­re­ga­la­dos, é as­sus­ta­dor…

– Deus me per­doe, mas es­tou ou­vindo aque­les ru­mo­res vindo da di­re­ção dos mor­tos, vo­cês não es­cu­tam? Pres­tem aten­ção, ou­çam…

– Sim, ele está certo, tam­bém posso es­cu­tar…

– Pa­re­cem co­chi­chos…

– Um som in­ter­mi­tente, per­ce­bem?

– Como uma la­dai­nha dis­tante…

– O que será isso?

– Ami­gos… bem, acho que já posso chamá-los as­sim, não é? Já que es­ta­mos mor­rendo jun­tos, acho que já po­de­mos nos con­si­de­rar ami­gos, não é? Perdoem-me…. Eu não posso su­por­tar… Perdoem-me…

– Ei, amigo, fi­que calmo… Es­ta­mos to­dos no mesmo barco… Quer di­zer, li­te­ral­mente no mesmo barco… Va­mos se­guir o que disse o ca­pi­tão, va­mos per­ma­ne­cer uni­dos e aten­tos. Não po­de­mos per­mi­tir que ou­tro de nós se vá… Acho que de­ve­mos se­guir com nos­sas his­tó­rias. Al­guém já disse e pa­rece mesmo ser ver­dade: ao me­nos en­quanto as con­ta­mos, nada nos têm acon­te­cido. Além do quê, elas ser­vem para avi­var nossa me­mó­ria.

*** ***

Ca­pí­tulo 29

– His­tó­rias? O que já nos resta? So­mente bo­ba­gens… Ape­nas lem­bran­ças va­gas so­bre coi­sas que nunca acre­di­ta­mos e às quais agora, me­ti­dos no ab­surdo, re­sol­ve­mos nos ape­gar. Quem disse que elas man­têm nossa sa­ni­dade? Quem está aqui em sã cons­ci­ên­cia? O que es­sas his­tó­rias nos trou­xe­ram? Por que es­ta­mos di­zendo que elas nos aju­dam? Você pen­sa­ram nisso? Es­ta­mos mor­rendo, eis a única ver­dade. O céu torna-se azul? Es­ta­mos mais se­gu­ros jun­tos? E de que vale isso tudo? Que pro­gresso ti­ve­mos? Ami­gos, a his­tó­ria está aqui. Não é pre­ciso nos ape­gar­mos a lem­bran­ças pu­e­ris. Esta é a nossa his­tó­ria. A his­tó­ria da nossa morte, com­pre­en­dem?

– Amigo, eu com­pre­endo que você es­teja afe­tado por tan­tas amar­gu­ras. Mas não po­de­mos pen­sar como você… não, não po­de­mos. Ou es­ta­ría­mos en­tre­gues ao nosso fim. Es­ta­ría­mos en­tre­gando os pon­tos…

– Ahahha­ahahahah… Desculpe-me, amigo… Nem sei mais o que pen­sar… Acho que você tem ra­zão. De mi­nha parte, já en­tre­guei os pon­tos.

– Es­cu­tem, vo­cês… es­cu­tem… Vo­cês já pen­sa­ram numa hi­pó­tese ab­surda? Mas que, di­ante de tais cir­cuns­tân­cias, pode ser acei­tá­vel? Já pen­sa­ram se nesta imen­si­dão da Terra ape­nas res­ta­mos nós? Vo­cês já pen­sa­ram?

*** *** ***

Ca­pí­tulo 30

– Acho di­fí­cil pen­sar em qual­quer coisa que não seja na­que­les mor­tos que nos olham e na pró­pria morte que nos vela…

– Sim, nisso tam­bém, mas já ima­gi­na­ram se for­mos os úni­cos so­bre­vi­ven­tes? Que iro­nia, não? Es­ta­mos em quinze, mas já po­de­ría­mos con­si­de­rar a raça hu­mana ani­qui­lada… Nem uma mu­lher­zi­nha aqui, meus ca­ma­ra­das…

– Ria, amigo, ria…

– Rir, será que con­se­gui­re­mos rir ou­tra vez um dia?

– Ei, mas o que é aquilo? Vo­cês es­tão vendo aquilo? Olhem para lá, pelo amor de Deus… Não es­ta­mos mais em quinze…

– Como isso pôde acon­te­cer? Nós es­ta­mos aqui, jun­tos! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Mate-nos a to­dos de uma vez, eu imploro…Ai, meu Deus, eu im­ploro… Mate-nos a to­dos de uma vez…

– Ca­pi­tão, perdoe-me, mas não é pos­sí­vel acei­tar­mos isto! Te­mos que fa­zer algo! Va­mos abai­xar um bote salva-vidas, por fa­vor, eu não agüento mais… Va­mos até lá, va­mos ver de perto es­ses cor­pos. Te­mos que en­con­trar uma res­posta…

– Ca­pi­tão, não o deixe fa­zer isso! Não po­de­mos fa­ci­li­tar as­sim!

– Va­mos, ca­pi­tão, dê-me um bote… Es­ta­mos mor­rendo um a um. Ao me­nos, não fi­ca­re­mos es­pe­rando pela morte…

– Está bem, está bem…

– Você está louco, amigo. Em vez de pro­cu­rar uma ma­neira de não ser­mos atraí­dos para esse ce­mi­té­rio ma­rí­timo, você vai nos en­tre­gar… Você está louco…

– Sim, tal­vez es­teja mesmo, mas vou.

*** *** ***

Ca­pí­tulo 31

– Está pronto, ra­paz, pode des­cer…

– O se­nhor é co­ni­vente, ca­pi­tão, o se­nhor é co­ni­vente…

– Va­mos lá, se­gu­rem o cabo, não me dei­xem à de­riva…

– Boa sorte, ra­paz, tome cui­dado… Fi­ca­re­mos aler­tas…

– Aler­tas! Como se pu­dés­se­mos re­sol­ver al­gum pro­blema aqui! Vo­cês es­tão cri­ando mais um pro­blema, isso sim!

– Ca­pi­tão, olhe no rumo da proa: um na­vio, ca­pi­tão, um grande na­vio, gra­ças a Deus, um na­vio, es­ta­mos sal­vos, um na­vio, ca­pi­tão…

– Acalme-se, ho­mem, acalme-se. Que na­vio? Onde?

– Ali está, ca­pi­tão, ali está… Gra­ças a Deus, um na­vio, ca­pi­tão… Gra­ças a Deus… Va­mos, aqui, ei, aqui, es­ta­mos aqui… Sal­vos, ca­pi­tão… Sal­vos…

– Por Deus, onde está esse mal­dito na­vio? Al­gum de vo­cês o vê?

– Está ali, ca­pi­tão, sim, eu tam­bém o vejo… Que be­leza, olhe, o se­nhor não vê, ca­pi­tão? Que be­leza de tran­sa­tlân­tico… Com cer­teza vem nos sal­var…

– Ami­gos, cui­dado, algo está er­rado, eu não vejo barco al­gum além do nosso!

– Sim, ca­pi­tão, algo deve es­tar er­rado com o se­nhor…

– Fi­cou cego, ca­pi­tão? Pelo amor de Deus! Eis nossa sal­va­ção a pou­cas bra­ças de nossa po­si­ção… Va­mos, ca­pi­tão, va­mos nos pre­pa­rar para a bal­de­a­ção, ve­nha…

– Ho­mens, acalmem-se, não há barco al­gum… Ei, ra­paz, volte daí, deixe es­ses cor­pos aí, volte! Al­guma coisa muito es­tra­nha está acon­te­cendo com es­tes ho­mens! Volte de­pressa!

– O que disse, ca­pi­tão? Não posso ouvi-lo. Há por aqui uma es­pé­cie de vo­ze­a­ria inin­ter­rupta! É hor­rí­vel… O que es­tará acon­te­cendo?

– Va­mos, ca­pi­tão… Va­mos, ami­gos… Eis nosso na­vio tão perto! Va­mos em­bar­car… Es­ta­mos sal­vos!

– Ho­mens, por Deus, não fa­çam isso. Não há na­vio al­gum. Es­pe­rem, não… Não vão por aí! Não, não sal­tem… Meu Deus, vo­cês to­dos vão mor­rer…

*** ***

Ca­pí­tulo 32 (Epí­logo)

– Ei, ca­pi­tão! Dê uma mão aqui, ajude-me a su­bir…

– …

– Ca­pi­tão, foi bom ter ido aos ca­dá­ve­res… Lá, muito perto de­les, algo me ocor­reu! Como já sa­be­mos, se­ria tão im­pro­vá­vel e ab­surdo em cir­cuns­tân­cias nor­mais que nin­guém di­ria, mas aqui me pa­rece per­fei­ta­mente acei­tá­vel. Veja se es­tou certo, ca­pi­tão… Mas o que está ha­vendo, ca­pi­tão? Que cara é essa? Ei, onde es­tão os ou­tros? Onde es­tão to­dos? Ca­pi­tão, onde es­tão to­dos? Ei, ami­gos! Ei, vo­cês to­dos! Onde es­tão?

– Não há mais nin­guém, meu caro…

– …

– Eles tam­bém se fo­ram…

– Como o se­nhor disse, ca­pi­tão?

– Mor­re­ram. To­dos mor­re­ram…

– Não, isso é im­pos­sí­vel! Há al­guns mi­nu­tos, es­ta­vam to­dos aqui no con­vés… Ca­pi­tão, não diga uma coisa dessa, vo­cês es­ta­vam em treze pes­soas aqui… Como doze de vo­cês po­dem ter mor­rido, ca­pi­tão? Não brin­que desse modo, ca­pi­tão, não agora!

– …

– O se­nhor tem cer­teza? Mas como isso se­ria pos­sí­vel, meu Deus?

– Eles di­ziam que ha­via um na­vio, um grande na­vio… Fo­ram sal­tando a bordo, um atrás do ou­tro, mas caíam na água, ló­gico…

– E o se­nhor, ca­pi­tão? Não houve como segurá-los? O se­nhor não os aler­tou? Nin­guém ou­viu suas or­dens, ca­pi­tão?

– Es­cute, ra­paz, não grite co­migo, por fa­vor! Ape­nas ouça: você já en­fren­tou doze pes­soas in­sa­nas?

– …

– En­lou­que­ce­ram! Já ti­nham tido ou­tras vi­sões, você se lem­bra? Acha­vam que ha­via uma sal­va­ção…

– Uma sal­va­ção…

– Sim, uma sal­va­ção… O barco, o grande barco que eles viam…

– Ca­pi­tão, perto da­que­les cor­pos, eu ima­gi­nei algo…

– Sim?

– O que pode es­tar nos ma­tando desse jeito se­não algo que des­co­nhe­ce­mos com­ple­ta­mente? Nós ten­ta­mos até aqui bus­car nossa sal­va­ção por meio de mé­to­dos usa­dos em pro­te­ção con­ven­ci­o­nal, o se­nhor en­tende? Fi­car­mos jun­tos, fi­car­mos aten­tos, de olhos bem aber­tos… Bo­ba­gens, ca­pi­tão… Bo­ba­gens de nossa co­ti­di­ano mo­derno…

– O que você quer di­zer?

– O se­nhor quer prova maior do que esta? Doze mor­tes de uma só vez? Doze pes­soas des­con­tro­la­das, do­mi­na­das pelo nosso ini­migo in­vi­sí­vel? Po­de­ria ha­ver aqui, meu caro ca­pi­tão, to­dos os exér­ci­tos do mundo, e mesmo as­sim eles não se­riam ca­pa­zes de de­ter essa força que nos está con­su­mindo. Essa coisa está gri­tando a ple­nos pul­mões que não so­mos nada, ca­pi­tão!

– Es­pere aí, você diz que de­ve­mos nos en­tre­gar, é isso? E essa agora? Você ainda se di­verte às cus­tas disto? Es­cute sua gar­ga­lhada!

– Perdoe-me, po­bre ca­pi­tão, perdoe-me. O se­nhor não com­pre­en­deu, re­al­mente o se­nhor não com­pre­en­deu…

– Não, e você quer fa­zer o fa­vor de me ex­pli­car?

– Ca­pi­tão, não há como fu­gir…

– Es­cute, você está mu­dado… Algo acon­te­ceu lá en­tre os ca­dá­ve­res, algo o in­fec­tou?

– Ora, ca­pi­tão, não seja es­tú­pido…

– Es­tú­pido?

– Desculpe-me, ca­pi­tão…

– Você ri no­va­mente? Olhe para você mesmo! Olhe como está trans­tor­nado!

– Ca­pi­tão, meu po­bre ca­pi­tão, por um mo­mento, lá en­tre os ca­dá­ve­res, e en­quanto pen­sava nisto tudo, ima­gi­nei que o se­nhor a esta al­tura de nossa con­versa es­ta­ria com um leve sor­riso pro­fes­so­ral es­tam­pado na face… 

– Você pi­rou mesmo, ho­mem… Não o com­pre­endo, es­tava tão bem! 

– Não, ca­pi­tão, agora é que es­tou bem… Essa coisa não pode mais me atin­gir, saiba disso…

– O que você diz, ho­mem?

– O se­nhor não ima­gina, mesmo, ca­pi­tão? E eu es­pe­rando que essa fi­gura al­tiva e im­pá­vida se re­ve­lasse meu bar­queiro…

– …

– Ca­pi­tão, acorde, meu caro… Acorde para a morte, ca­pi­tão… Olhe para o azul que vem se fe­chando so­bre nos­sas ca­be­ças, olhe como agora o céu se tinge mais de­pressa… Veja, ca­pi­tão, ali adi­ante: não há mais mar, meu amigo. Acabou-se… Ali está o fim deste so­nho que se es­vai… Es­ta­mos mor­tos, ca­pi­tão… Olhe para nós, meu po­bre amigo, eram só os ecos de nossa morte que nos ator­men­ta­vam, ape­nas isso, en­tende?

– Não, não pode ser… Você está en­ga­nado…

– Es­tou certo, ca­pi­tão, o se­nhor des­co­brirá logo… Eu já des­co­bri… Aque­les mor­tos, agora en­tendo, agora me lem­bro, to­dos eles, eu me lem­bro…

– Você en­lou­que­ceu… Va­mos nos pro­te­ger… Veja, amigo, veja: a lu­neta nos mos­tra uma grande onda vindo em nossa di­re­ção. Olhe você mesmo…

– Não há onda, ca­pi­tão…

– Olhe você mesmo, olhe, olhe… Eu já posso vê-la a olho nu… 

– Não há onda, ca­pi­tão…

– Você não quer vê-la, não é? O medo de ma­rujo no­vato… Não te­nha medo, meu ra­paz. Aqui há um bravo ca­pi­tão…

– Bem, ca­pi­tão, cada um a vê de um jeito… Está certo, está certo…

– Era isso, al­gum dos ho­mens ma­tou a cha­rada. Houve um aci­dente nu­clear ou coisa pa­re­cida, um me­te­oro, sei lá. A cal­ma­ria pre­nun­ci­ava a tor­menta… Uma grande onda vindo em nossa di­re­ção. Olhe para ela, amigo, não é linda? Será que po­de­re­mos atravessá-la neste barco? Olhe para ela, meu caro, não é ex­tra­or­di­ná­ria? E não a tí­nha­mos ima­gi­nado à dis­tân­cia! Uma grande onda! O mar se re­volta! Você não quer que seja um aci­dente nu­clear? Não aceita a queda de um corpo ce­leste? Não? En­tão, ra­paz, contente-se com isto: o mar se re­vol­tou com tanta pi­lha­gem! Ahahahahahahahahahah… A fú­ria do mar con­tra seus al­go­zes… Você sabe, que­rido amigo, há sé­cu­los e sé­cu­los pi­lham o mar, sabe disso? Isso mesmo! Di­la­pi­dam seu pa­trimô­nio sa­grado, tudo é le­vado em nome do lu­cro. É isso, meu caro. Eu mesmo já o fiz. Pa­ga­rei agora, pa­ga­rei pela pi­lha­gem. A re­volta do mar! Quer mais, amigo? Quer mais? Até as his­tó­rias, até as his­tó­rias vão de volta. Vo­cês mes­mos tes­te­mu­nha­ram: os ru­mo­res, lembra-se, meu ra­paz, os ru­mo­res que saíam das bo­cas dos ca­dá­ve­res? É isto, ho­mem: o mar re­to­mando para si as his­tó­rias a nós con­fi­a­das. Não se lem­bra como ha­via uma tré­gua quando as con­tá­va­mos? Lembra-se disso? Con­tá­va­mos nos­sas his­tó­rias e ele se acal­mava. Pa­rá­va­mos e ele nos pe­gava. A vin­gança do mar numa ter­rí­vel onda… Uma nova onda ca­paz de intrometer-se no tempo, su­fi­ci­ente para mu­dar o rumo de tudo, uma ou­tra onda, mais uma onda…Olhe para ela, meu que­rido amigo, olhe para essa be­leza imen­su­rá­vel, um arranha-céu lí­quido, a vin­gança, mas as­sim mesmo tão bela…

– Pois que seja, meu amigo ca­pi­tão, que seja… Va­mos abra­ça­dos… Va­mos jun­tos para ela… Va­mos como ir­mãos para ela…

*** FIM ***

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