Contos

A viúva de meu pai

terça-feira, 15 de maio de 2007 Texto de

Às se­nho­ras res­pei­tá­veis e às mo­ças pu­di­cas, aos ho­mens hi­pó­cri­tas e aos me­ni­nos san­tos, a quem pos­sam fe­rir as pa­la­vras chu­las e as vís­ce­ras de mi­nhas in­fâ­mias, a es­tes, e por es­tes, detenho-me a um passo do pre­ci­pí­cio: ha­verá ou­tras lei­tu­ras que cau­sem me­nor incô­modo. Aos ou­tros, nada digo, se­não os pró­prios ter­mos de mi­nha de­vas­si­dão.

Ainda aos de­zes­sete anos, chama-me Pa­pai de mo­le­que. – Ei, mo­le­que, faça isso e aquilo. Diz-me as­sim como se fosse aos sete. Na sua in­di­fe­rença ou entregando-se gra­tui­ta­mente à iro­nia, vem ter co­migo ape­nas quando é de seu in­te­resse. Ruge como um leão neste ins­tante para da­qui a pouco mal fazer-se ou­vir. Sou seu fi­lho, mas on­tem fui só um traste, e uma ou ou­tra coisa volto a ser numa hora des­sas. Não me no­tou a trans­for­ma­ção, a barba bem cer­rada, a voz grave, os pê­los que me ris­cam o torso, pois não me olha, não me ouve, vive dis­tante de mi­nha in­ti­mi­dade. As­sim, sem que ele saiba, tomo-a em meus bra­ços no co­meço da tarde e, no amar­fa­nhado de meus len­çóis úmi­dos, es­que­ce­mos da vida em meio aos re­ga­los. Em pro­fu­são, pe­ca­mos os dois jun­tos até des­cer a noite e com ela sur­gir Pa­pai, de­pois de um dia duro de tra­ba­lho. Bem, as­sim é que ele me diz. E ela a mim: – sou sua agora, e dele de­pois, você me al­moça e ele me janta. Nisso, afunda o rosto no tra­ves­seiro e afoga na ma­ciez seu riso rui­doso. Mas logo livra-se do sar­casmo. Lú­brica, roça em mim sua pele eri­çada e em meu ou­vido des­peja obs­ce­ni­da­des. Arrebata-me numa in­su­por­tá­vel ex­ci­ta­ção e eu afundo-me em sua fe­bre.

Nunca foi di­fe­rente, desde sua che­gada. Pa­pai a trouxe a ti­ra­colo, sem aviso pré­vio. Al­gu­mas se­ma­nas an­tes, ele ape­nas avi­sava so­bre uma certa moça que co­nhe­cera. De mi­nha parte, pouca im­por­tân­cia me­re­ceu o as­sunto. Ele sem­pre vi­vera dessa forma. Ma­mãe o dei­xou por isso mesmo. Não su­por­tava mais seu ím­peto ex­tra­con­ju­gal. Mas eis que sua de­ci­são foi mesmo juntar-se de pa­pel pas­sado. Ao en­trar com a nova mu­lher na nossa casa, Pa­pai sorriu-me des­con­cer­tado. Ocorreu-me ima­gi­nar que ao pla­ne­jar sua nova vida, ele esquecera-se de mi­nha exis­tên­cia. Pareceu-me que, abra­çado a Su­zana, to­mou um susto ao deparar-se com o fi­lho. A des­peito do breve cons­tran­gi­mento, con­tudo, ele logo se re­compôs, fazendo-me conhecê-la e, desde aquele ins­tante, perder-me em in­ten­ções in­con­fes­sá­veis. De­baixo de ca­be­los bem ne­gros, Su­zana es­ti­cou o braço e cumprimentou-me com ar in­di­fe­rente, preocupando-se mais em ob­ser­var a sala de es­tar que se abria es­pa­çosa e con­for­tá­vel ao seu re­dor. Pro­cu­rei afastar-me do tur­bi­lhão de pen­sa­men­tos ruins que ma­cu­la­vam desde cedo aquela re­la­ção, mas não me foi pos­sí­vel dei­xar a sur­presa de lado ao vê-la tão jo­vem perto de seu ma­rido, que já ti­nha ul­tra­pas­sado os cinqüenta anos fa­zia um bom tempo. Su­zana, por sua vez, não apa­ren­tava mais que vinte e cinco ou até me­nos. Tal­vez Pa­pai fi­zesse mesmo jus a to­dos os im­pro­pé­rios que saíam da boca de Ma­mãe na­que­les úl­ti­mos dias, an­tes de se se­pa­ra­rem.

Passaram-se vá­rias se­ma­nas em que Su­zana mal dirigia-me a pa­la­vra, sem­pre ocupando-se com mu­dan­ças den­tro de casa. De ma­nhã, vi­nham vi­dra­cei­ros, à tarde, os mar­ce­nei­ros, no ou­tro dia, uma flo­rista, dali a pouco, um ele­tri­cista. Eu saía para o co­lé­gio e, ao re­tor­nar, algo ha­via sido al­te­rado. Se eu ti­vesse vi­a­jado du­rante um mês, não re­co­nhe­ce­ria mi­nha pró­pria casa quando vol­tasse. Tudo foi mo­di­fi­cado, me­nos meu quarto. E ao deter-me nessa ver­dade, intriguei-me. A mu­lher de meu pai pa­re­cia não se sen­tir à von­tade co­migo. Com essa pos­si­bi­li­dade tu­mul­tu­ando mi­nhas idéias, no­va­mente des­pen­cou so­bre mim a sen­sa­ção afli­tiva de quando a vi pela pri­meira vez. Uma mis­tura de de­sejo e culpa con­su­mia mi­nhas for­ças e já pre­ju­di­cava até mesmo meus es­tu­dos. A cada dia, tornava-se mais di­fí­cil pe­gar no sono. Su­zana pre­en­chia mi­nha mente de ma­neira do­en­tia. Por dias se­gui­dos, ten­tei livrar-me desse re­de­moi­nho que me tra­gava sem dó. Mar­cava pro­gra­mas com meus ami­gos, ten­tava na­mo­rar com freqüên­cia, tra­zia li­vros ex­tras para to­mar meu tempo. O caso, po­rém, era que nada disso fun­ci­o­nava. Nas ro­das de con­ver­sas, eu quase nem mesmo ou­via o que di­ziam os ou­tros, a ponto de co­me­ça­rem a des­con­fiar que algo de er­rado acon­te­cia co­migo. Quando me en­con­trava com uma ga­rota, era Su­zana quem me apa­re­cia di­ante dos olhos. Os li­vros eu nem os abria. Su­por­tei essa mi­sé­ria por dois ou três me­ses, à beira de um co­lapso ner­voso, até que um dia houve o ines­pe­rado.

Foi no dia 22 de se­tem­bro, eu ja­mais po­de­rei me es­que­cer, não por­que fosse meu ani­ver­sá­rio, mas pe­los con­tor­nos do epi­só­dio. De­pois de co­me­mo­rar até al­tas ho­ras da noite com meu pes­soal de es­cola, che­guei em casa pi­sando muito leve. Em­bora Pa­pai nem mesmo ti­vesse se lem­brado de mim na­quele dia, as coi­sas po­de­riam complicar-se caso ele me sur­pre­en­desse num es­tado pouco re­co­men­dá­vel para mi­nha idade, se é que uma si­tu­a­ção as­sim, de certa em­bri­a­guez, possa ser ade­quada a qual­quer idade. En­tão, abri o por­tão da rua como quem tira uma taça de cris­tal do ar­má­rio, e em se­guida equilibrei-me o mais que pude para gi­rar sem ruí­dos a chave da porta da frente. Tudo trans­cor­reu como eu pre­ci­sava. Atra­ves­sei a sala em si­lên­cio, aproveitando-me da luz que pe­ne­trava da rua, e, ou­vindo ni­ti­da­mente Pa­pai guin­char num ronco con­tí­nuo, che­guei são e salvo em meu quarto. Mais sos­se­gado por sa­ber de Pa­pai tão pro­fun­da­mente ador­me­cido, despi-me e, como sem­pre o fa­zia, enfiei-me nu sob as co­ber­tas. Le­ve­mente en­tor­pe­cido pelo ál­cool, es­tava quase dor­mindo quando senti a ma­ça­neta da porta gi­rar. Pro­cu­rei per­ma­ne­cer imó­vel. Cer­ta­mente, se­ria Pa­pai con­fe­rindo se eu ti­nha che­gado. Vendo-me apa­ren­te­mente em al­tos so­nos, não ha­ve­ria mo­tivo para quei­xas even­tu­ais. Com os olhos fe­cha­dos, retive-me no mo­vi­mento da porta, que logo pa­re­ceu ter sido fe­chada ou­tra vez. An­tes, po­rém, que eu me cer­ti­fi­casse de que Pa­pai já ti­vesse ido em­bora, ouvi ní­ti­dos pas­sos so­bre o ta­pete do quarto. Eram pas­sos muito le­ves, e eles fi­ze­ram meu co­ra­ção dis­pa­rar até que eu me sen­tisse ainda mais tonto, te­mendo tan­tas coi­sas. Su­zana escorou-se à beira da cama, en­quanto, num ím­peto in­con­tro­lá­vel, eu sentei-me so­bres­sal­tado junto à ca­be­ceira. De­va­gar, ela le­vou uma das mãos à mi­nha boca, en­quanto a ou­tra enlaçava-me pela cin­tura. Num se­gundo, o rosto dela es­tava co­lado ao meu, eu po­dia ver o de­se­nho de seus lá­bios na pe­num­bra. Ela ape­nas ro­çou a boca na mi­nha, mo­vi­men­tando todo o corpo adi­ante, até en­cos­tar os seios ri­jos em meu peito. Nisso, abraçou-me com mais força, a boca co­lada ao meu ou­vido. Eu não me me­xia, os ner­vos tra­va­dos. – Eu sei o que você quer. Sussurrando-me isso, afrou­xou o abraço e des­li­zou a mão até mi­nha coxa, fazendo-me tre­mer. Com um leve to­que, afas­tou o len­çol que me co­bria da cin­tura para baixo. En­tão, che­gou onde de­certo juntava-se todo o san­gue que me fal­tava ao or­ga­nismo. E as­sim, sentindo-me la­te­jar na pele ma­cia de sua mão, subjugou-me às suas von­ta­des. Uma onda de imo­bi­li­dade invadiu-me os ner­vos. Tal­vez por um sen­ti­mento an­te­ci­pado de culpa e o hor­ror de es­tar na cama com a mu­lher de Pa­pai. Ou quem sabe por­que ela con­tro­lava a si­tu­a­ção de um jeito em que eu po­de­ria ima­gi­nar as co­res do pa­raíso. E as­sim eu as ima­gi­nei, go­zando o pas­seio da­que­las ca­rí­cias até inundar-me de pra­zer, e ainda por cima sob aque­las pa­la­vras re­pe­ti­das: – Eu sei o que você quer.

Eu a que­ria, ela sa­bia. Mas não foi nessa noite que eu a tive de ma­neira com­pleta. Só no dia se­guinte é que, já ín­ti­mos, des­fru­ta­mos de nosso vi­gor ju­ve­nil tão logo che­guei do co­lé­gio. Pa­pai al­mo­ça­ria fora e nós dois nem pen­sa­mos nesse tipo de fome na­quela hora. Eu mal ha­via en­trado em casa quando ela sur­giu de­trás de uma porta qual­quer. A vi­são da­que­les tra­jes tão mi­nús­cu­los deixou-me bo­qui­a­berto. Eu não a ti­nha visto as­sim an­tes. Es­ti­ve­mos ape­nas no es­curo. Meu Deus, eu a que­ria ali mesmo, nem me im­por­tei sa­ber se Pa­pai al­mo­ça­ria fora ou não, eu a que­ria agora. Su­zana per­ce­beu meu de­sejo de­ses­pe­rado e, para judiar-me, pôs-se a cor­rer pela casa, dando gri­ti­nhos, fu­gindo de mi­nha von­tade. Fui me des­pindo en­quanto ten­tava agarrá-la, e ela sor­ria, de­pois gar­ga­lhava. – Que en­gra­çado é ver você cor­rendo nu. Ela dizia-me isso e ria sem pa­rar. Enlacei-a num canto e, debatendo-me com pés de mesa e ca­dei­ras, pude dominá-la com força, ao passo que ela ge­mia des­fe­rindo pal­ma­das con­tra meu corpo. A cada novo tapa, meu vi­gor cres­cia. – Me al­moça, ben­zi­nho, me al­moça! Su­zana cochichava-me es­sas pa­la­vras. – Você me al­moça e ele me janta! E es­sas tam­bém.

Eis o tempo avan­çando, e Su­zana pontificando-se so­bre meu ser. Às ve­zes, sento-me com Pa­pai e sua mu­lher para o des­je­jum, nou­tras, para o jan­tar. Mas an­tes que a fe­bre de meu ciúme torne-se mi­nha as­fi­xia, retiro-me sob uma des­culpa qual­quer. Ferra-me nes­sas ho­ras a mais ter­rí­vel das ân­sias, de­sejo uma paz cuja dis­tân­cia de mi­nha vida pro­gride a cada dia. Toma-me a amál­gama som­bria, pre­nún­cio da ruína. Penso em desviar-me da hip­nose que me atrai ir­re­sis­ti­vel­mente para a per­di­ção. Esta des­dita compara-se à fome que, morta com o ali­mento, parece-nos per­fei­ta­mente con­tro­lá­vel, mas só até que ve­nha ou­tra vez o po­der in­sa­ciá­vel de sua voz si­len­ci­osa e au­to­ri­tá­ria. Sinto-me as­sim, como um glu­tão que se com­praz du­rante o sa­bo­reio dos man­ja­res e cuja cons­ci­ên­cia res­surge a cada in­ter­valo de seus ban­que­tes para acusá-lo, para fazê-lo so­frer, lembrando-o a todo ins­tante so­bre o pe­cado que co­me­teu. Tão logo Su­zana afasta-se, meus ner­vos to­dos integram-se à tor­rente de culpa. Mi­nha sú­plica não se en­trega à he­si­ta­ção. De­sejo apa­gar tudo que se pas­sou en­tre nós, olhá-la ape­nas como a mu­lher de Pa­pai, voltar-me à mi­nha vida, aos meus es­tu­dos, a tan­tas coi­sas que me es­pe­ram lá fora. Decido-me a par­tir. Numa tarde em que não há alma viva em casa, te­le­fono para Ma­mãe. Vou mo­rar com ela, pro­po­nho. Ela mal con­tém a sa­tis­fa­ção, diz que pre­para meu quarto em uma hora, arranja-me có­pias das cha­ves, pergunta-me do que pre­ciso. Nada, eu res­pondo. Só pre­ciso de paz. Faço mi­nhas ma­las com a força de um ar­re­ba­ta­mento inex­pli­cá­vel, deixo para ou­tra hora o aviso a Pa­pai, a quem uma jus­ti­fi­ca­tiva qual­quer cer­ta­mente agra­dará. Tal­vez só ama­nhã ou mesmo da­qui a dois ou três dias é que ele dê pela mi­nha falta. Num lapso, vem-me à me­mó­ria a única brin­ca­deira da qual Pa­pai par­ti­ci­pou em toda mi­nha vida: quando cri­ança, eu ti­nha um ca­der­ni­nho onde ano­tava quan­tos dias ele fi­cava sem beijar-me, sem falar-me, sem ver-me. De mês em mês, eu es­pe­rava pe­los no­vos re­cor­des, como numa gin­cana, como numa triste com­pe­ti­ção. Brin­ca­mos muito disso, mas ele nunca soube. Agarro as ma­las com mãos de­ci­di­das, desço as es­ca­das que le­vam à sala de es­tar, abro a porta da rua e, tão de­pressa como vou saindo, pre­ciso no­va­mente en­trar, em­pur­rado, do­mi­nado, de­se­jado por ela. Su­zana, por coin­ci­dên­cia ou des­tino, re­torna da rua. An­tes de com­pre­en­der a cena, arranca-me a ca­mi­seta e seus lá­bios úmi­dos percorrem-me o corpo. A porta fecha-se atrás de seus ca­be­los cu­jos fios já en­chem mi­nha boca ávida por colar-se à dela. – Eu sei que você me quer. Su­zana arfa em meu ou­vido. – Você não ia em­bora, ia? Você não ia em­bora, ia? Sua per­gunta, em tom quei­xoso, faz entregar-me àque­les bra­ços quen­tes. Em se­gun­dos, dissipam-se mi­nhas in­ten­ções de fuga. So­bre as ma­las de­pos­tas, ma­ta­mos a fome um do ou­tro.

Às pres­sas, an­tes que seja a hora de Pa­pai che­gar, dei­xa­mos a casa em or­dem. Ela mesma, como mãe ze­losa, de­volve mi­nhas rou­pas e a mala ao ar­má­rio. Despede-se com um beijo e, di­ver­tida, sem que eu possa ter tempo de defender-me, empurra-me com força e joga-me à cama. Lá eu fico, ca­lado. Nada disso, con­tudo, é ca­paz de subtrair-me o im­pi­e­doso sen­ti­mento que se su­cede aos nos­sos en­con­tros. Ou­tra vez, den­tro de mi­nhas veias, corre um san­gue en­ve­ne­nado. Penso que ama­nhã te­rei co­ra­gem de le­var a cabo o plano ma­lo­grado agora há pouco. Mesmo di­ante de Su­zana, dessa vez não ha­verá cir­cuns­tân­cia a me de­ter, nem olhos su­pli­can­tes ou pa­la­vras ar­re­ba­ta­do­ras. Dei­xa­rei para trás o mo­tivo de mi­nha dor, mas tam­bém o de meus mais fe­li­zes pra­ze­res. Esse as­pecto, en­tre­tanto, não me faz he­si­tar: o preço de meus fe­li­zes pra­ze­res é alto de­mais para mi­nhas pos­si­bi­li­da­des. Desço para o jan­tar, Pa­pai já está à mesa. Jor­nal à mão, concede-me um breve sor­riso, que só eu posso per­ce­ber. Su­zana traz, do mi­cro­on­das, a co­mida dei­xada pela em­pre­gada. À ca­be­ceira, Pa­pai aban­dona a fo­lha para co­mer. An­tes, sorve de uma só vez uma taça de vi­nho. Sentamo-nos, eu e Su­zana, um de cada lado, frente a frente. Eles fa­lam so­bre fri­vo­li­da­des, mi­nha ca­beça pesa um pouco. Levo duas ou três por­ções à boca, tomo um copo d’água e de­pressa digo que pre­ciso es­tu­dar. Mas, para mi­nha sur­presa, Pa­pai pede-me que fi­que um pouco mais, há algo que ele quer me di­zer. En­tão, na boca de meu estô­mago, uma pe­dra de gelo pa­rece em­pur­rar as pa­re­des para os la­dos, imprimindo-me uma sen­sa­ção de­sa­gra­dá­vel de medo, aliás, de ter­ror. Não me lem­bro de algo pa­re­cido em meus de­zes­sete anos. Nunca Pa­pai se im­por­tou se eu es­ti­vesse ou não à mesa. Nunca houve o que me di­zer. Um mundo de con­je­tu­ras invade-me a alma, en­quanto ele ter­mina tranqüi­la­mente seu prato. Su­zana abaixa a ca­beça, sem me dar a me­nor aten­ção, sem ter a pre­o­cu­pa­ção de me di­ri­gir se­quer um olhar de sos­sego. In­vo­lun­ta­ri­a­mente, com­primo tanto mi­nhas per­nas que elas ini­ciam um pro­cesso de dor­mên­cia. Pa­pai larga os ta­lhe­res, acaba de mas­ti­gar o úl­timo pe­daço de torta e an­tes de olhar-me, ainda detém-se a um largo gole de vi­nho. Só en­tão re­solve falar-me. Sinto como se meu estô­mago es­ti­vesse to­mado por la­ba­re­das, e mi­nhas per­nas es­tão mesmo dor­mindo. Pa­pai co­meça as­sim: – Mo­le­que, faz quase um ano que Su­zana che­gou. Quando es­sas pa­la­vras saem da boca dele, eu posso ver sua lín­gua ru­bra tin­gida pelo vi­nho ro­çando nos gros­sos pê­los de seu bi­gode. Fixo-me nesse de­ta­lhe por puro pa­vor. Ele te­ria des­co­berto tudo? An­tes que eu possa aprofundar-me nesse so­fri­mento, en­tre­tanto, ele ex­plica a fi­na­li­dade da con­versa. Ele quer que eu me torne ins­tru­tor de na­ta­ção de sua mu­lher. Ape­nas isso. Pri­meiro, uma onda de alí­vio tão grande percorre-me o corpo que eu te­nho a sen­sa­ção de le­vi­tar. Se não me con­te­nho a tempo, levo as mãos ao as­sento da ca­deira para segurar-me. Nisso, vejo nos lá­bios de Su­zana um sor­riso de ma­lí­cia, e de­pressa recordo-me de ter-lhe dito, en­quanto nos con­su­mía­mos num de nos­sos pe­ca­dos da­que­les dias, que meu fô­lego deve-se ao es­porte que mais gosto e mais pra­tico: a na­ta­ção. Neste mo­mento, mi­nhas per­nas já for­mi­gam e, junto com a evo­lu­ção de meu alí­vio, vão acor­dando aos pou­cos. En­tão, sinto ni­ti­da­mente que, por en­tre mi­nhas co­xas, um dos pés de Su­zana vem pressionar-me o sexo. O sor­riso amplia-se em seus lá­bios, o ru­bor de­certo enfeixa-se em mi­nha face, mas Pa­pai já se le­vanta e o pé num se­gundo tam­bém já se foi. Detenho-me ainda por al­guns se­gun­dos, até que o re­sul­tado da ca­rí­cia de Su­zana de­sa­pa­reça sob mi­nha ber­muda. Quando vou me le­van­tar, ela dis­farça ao meu ou­vido: – Já pen­sou em nós dois na pis­cina?

Em mi­nhas noi­tes, sucedem-se ho­ras de an­gús­tia. Os dias cor­rem sem que a he­si­ta­ção aban­done mi­nha mente. Du­rante o tempo es­casso em que re­co­bro o juízo, invade-me a cer­teza de que mi­nhas for­ças diluem-se em meio à nossa in­fâ­mia. En­ver­go­nhado, creio ter-me aco­mo­dado a es­ses pra­ze­res ino­mi­ná­veis. Se um dia, ape­nas um dia, ela me dei­xasse, tal­vez eu pu­desse re­a­gir, mas suas von­ta­des são ines­go­tá­veis. Agora, ela espera-me à porta. Mi­nhas fé­rias co­me­çam e junto com elas, o “curso” de na­ta­ção. En­quanto a pe­quena pis­cina de casa é re­for­mada, usa­mos o clube. Ela di­rige o carro. Vou ao seu lado, como um me­nino com­por­tado. Tão logo che­ga­mos, uns co­nhe­ci­dos dis­pen­sam olha­res cu­ri­o­sos, mas logo distraem-se ao sa­ber que se trata de mi­nha ma­drasta. Em se­guida, o ir­mão de Pa­pai, que já goza de sua apo­sen­ta­do­ria, vem ao nosso en­con­tro. Os dois ir­mãos não se bi­cam, mas ele nunca me des­pre­zou. Como faz sem­pre que nos ve­mos, põe um beijo em meu rosto e justifica-se pe­rante o ócio. – De­pois que sua tia se foi, vivo por aqui… Apresento-lhe Su­zana. De iní­cio, ele faz cara de sur­presa, mas logo percebo-lhe a dis­si­mu­la­ção. De­certo, acom­pa­nha por ter­cei­ros a mais re­cente aven­tura de Pa­pai. De qual­quer ma­neira, trata-nos com gen­ti­le­zas. Tes­te­mu­nho tam­bém que Ti­tio ob­serva aten­ta­mente a nova cu­nhada, en­quanto ela ape­nas sorri. Va­mos para a pis­cina e co­meço a orientá-la, mas logo escapam-lhe de­ta­lhes que me fa­zem sus­pei­tar de suas men­ti­ras. Prego-lhe uma peça e fico com a cer­teza de que ela sabe na­dar. Sou ape­nas um jo­guete em suas mãos. Ela quer ape­nas ali­men­tar suas fan­ta­sias. En­tão, quando há pouca gente pró­ximo à pis­cina, de­cido vingar-me. Sem que ela per­ceba, livro-me do cal­ção de ba­nho e ali mesmo, en­quanto es­ta­mos es­con­di­dos pela água, tomo-a a força, ocupando-me de machucá-la por trás, violentando-a de ma­neira a não cha­mar aten­ção, mas as­sim mesmo invadindo-a abrup­ta­mente, e quando a viro para mim, seu rosto ex­pressa ape­nas um ar las­civo. – Quero mais. Diz es­sas duas pa­la­vras e ca­mi­nha rumo aos ves­tiá­rios, para onde tam­bém mar­cho em se­guida, como um sol­dado que cum­pre seu de­ver.

Numa noite des­sas, a con­vite de Su­zana, saí­mos para as com­pras de Na­tal. Pa­pai diz es­tar can­sado e fica em casa. Ao vol­tar­mos, já está dor­mindo, mas, con­tra to­dos os meus an­seios desta noite, ela deixa-me so­zi­nho e tam­bém vai deitar-se. De­moro a pe­gar no sono, o de­sejo queimando-me as en­tra­nhas, a ne­ces­si­dade de sa­ciar meu ví­cio põe-me à beira da lou­cura. Nem sei quanto tempo rolo para lá e para cá, até que ador­meço em meio a so­nhos tur­bu­len­tos. Es­tou numa pis­cina tão ex­tensa que não se en­xer­gam as bor­das, tento che­gar à mar­gem, mas não a al­canço, debato-me de­ses­pe­ra­da­mente, aos pou­cos falta-me o ar, nado sem di­re­ção, e quando me­nos es­pero, uma mão vem ao meu so­corro, erguendo-me da água e permitindo-me res­pi­rar. Nisso, acordo e Su­zana está ali, em mi­nha cama, salvando-me do pe­sa­delo. Agito-me numa sen­sa­ção de sur­presa e ex­ci­ta­ção, ela me aca­ri­cia. – Você me pro­tege? Você fica co­migo? Es­sas pa­la­vras saem pe­sa­das na­quela voz rouca, e eu as in­ter­preto como mais uma de suas mi­lon­gas. Fa­minto, puxo-a para mim, enlaçando-a sob meu corpo. E ela re­pete: – Diz que me pro­tege, que fica co­migo? Eu a pro­tejo, eu fico com ela, mas an­tes quero ou­tra coisa, an­tes quero ma­tar mi­nha fome in­con­tro­lá­vel. Com vi­o­lên­cia, rasgo-lhe a ca­mi­sola, seus pei­tos sal­tam ma­cios para den­tro de mi­nha boca, de­baixo de mi­nhas co­xas as dela se fe­cham, ela pa­rece que­rer desvencilhar-se: – Não, es­pera! Agora não! Mas eu não te­nho tempo para nada, forço que me aceite e num ins­tante pe­ne­tro de­pressa em sua he­si­ta­ção in­fan­til, o que me torna ainda mais vo­raz. – Vem, en­tão, se você quer! Toma o que é só seu agora! Em meu ape­tite, já sen­tindo o tre­mor do pra­zer apossar-se de todo meu ser, mal posso ouvi-la, mas esta úl­tima frase ecoa em meu pen­sa­mento. Sem po­der compreendê-la me­lhor quando to­das as mi­nhas for­ças vão jor­rar den­tro dela, ape­nas re­pito: – Só mi­nha, só mi­nha, agora é só mi­nha! Nisso, à pe­num­bra da frá­gil luz que vem de fora, e sus­pen­dendo o torso numa con­tra­ção na­tu­ral des­sas ho­ras, di­viso seus olhos cheios de lá­gri­mas. Ela me en­cara: – Sou só sua agora, Pa­pai está morto! Não posso mais es­tan­car a onda que re­benta em mim. En­tro tanto em seu ín­timo que a faço ge­mer forte e até mesmo gri­tar. Num ins­tante, meus sen­ti­dos cobram-me a ex­pli­ca­ção, e Su­zana não se furta: – Não sei o que acon­te­ceu. Acho que ele mor­reu dor­mindo. Num salto, ponho-me fora dela. Vôo para o quarto de Pa­pai. Sim, lá está ele en­ri­je­cido pela morte. Levo as duas mãos à ca­beça, en­quanto seus olhos ainda aber­tos pa­re­cem mi­rar mi­nha nu­dez. Meu Deus, penso, es­tou pe­lado, ainda mo­lhado pela trai­ção a Pa­pai, di­ante de seu corpo que jaz ino­cente de mi­nha de­sonra. Su­zana vem abraçar-me por trás. Ela tam­bém está nua. Es­ta­mos nus os dois; nos­sos cor­pos, as­sim como nos­sas al­mas, de­vas­sa­dos.

Em meio às pa­la­vras di­tas de forma lenta e sob aquela ir­ri­tante to­na­li­dade do res­peito fu­gaz, corre o ve­ló­rio. Num canto, re­cebo os pê­sa­mes de ami­gos e co­nhe­ci­dos. Só uma coisa, en­tre­tanto, retém-me a aten­ção, e trata-se de Su­zana. À beira do cai­xão, ves­tida de preto, suas mãos per­cor­rem as de Pa­pai. Te­nho nojo da cena, des­vio o olhar para as pes­soas que vêm falar-me, mas logo, como num mo­vi­mento es­pas­mó­dico, pego-me no­va­mente preso à sua ima­gem, aos seus ca­be­los muito pre­tos e aos seus olhos in­can­des­cen­tes. Em in­ter­va­los re­gu­la­res, ela procura-me pelo sa­lão. Não con­sigo encará-la aqui. Uma lâ­mina de fio cor­tante desloca-se den­tro de mim lembrando-me in­sis­ten­te­mente de meu im­per­doá­vel de­lito. Ma­mãe chega e concede-me um abraço forte. Neste mo­mento, sou ca­paz de cho­rar e contar-lhe tudo, só a ela, di­vi­dindo as­sim o peso do fardo que car­rego so­zi­nho. En­quanto a abraço, cresce den­tro de mim a aver­são por Su­zana. Retorna-me à mente sua face mo­lhada em mi­nha cama, sua ex­pres­são do­en­tia ao dizer-me da morte de Pa­pai en­quanto nos con­su­mía­mos em nossa tra­gé­dia. Agarro-me ainda mais a Ma­mãe, ela deixa-se en­tre­gar ao meu so­fri­mento. Sou tão forte agora que se­ria ca­paz de re­jei­tar Su­zana nua numa hora do mais po­de­roso de­sejo. Aos pou­cos, Ma­mãe afrouxa seus bra­ços, sentamo-nos os dois para ve­lar Pa­pai. As duas não se fa­lam du­rante o tempo todo. Quando o en­terro sai, Su­zana procura-me com os olhos, eu lhe nego os meus. Sigo junto com Ma­mãe. No ce­mi­té­rio, não posso mais fu­gir. Ela aproxima-se e queixa-se de mi­nha in­di­fe­rença. Digo qual­quer coisa e logo to­dos nos re­ti­ra­mos. À noite, em casa, há al­guns pa­ren­tes de Su­zana, o que na­tu­ral­mente im­pede qual­quer in­ves­tida da parte dela. De meu lado, a re­pulsa só faz cres­cer. Penso mesmo como pude deixar-me le­var por tal ig­no­mí­nia. Uma onda de pa­vor trespassa-me a alma quando penso na­que­las úl­ti­mas ju­ras: – Sou só sua agora! A sim­ples idéia de juntar-me a ela causa-me um de­ses­pero tal que busco re­fú­gio ao te­le­fone. Ligo para Ma­mãe e aviso que me mudo agora mesmo. As­sim, sem que Su­zana e seus pa­ren­tes per­ce­bam, faço mi­nhas ma­las no meio da noite e vou-me em­bora. Re­tomo mi­nhas ami­za­des, saio com uma ou ou­tra na­mo­rada, deixo Su­zana para trás, recuso-me a aten­der seus te­le­fo­ne­mas ci­fra­dos, evito-a o mais que posso, em­bora no fundo de mi­nha mente ela ainda es­per­neie.

Faz seis me­ses que Pa­pai mor­reu. Ma­mãe chama-me ao es­cri­tó­rio: – Você viu que pouca ver­go­nha? Diz isso e entrega-me um en­ve­lope, mais pre­ci­sa­mente um con­vite de ca­sa­mento. Su­zana vai se ca­sar com nada me­nos do que Ti­tio, o ir­mão de Pa­pai. Surpreendo-me com mi­nha pró­pria re­a­ção: re­cebo a no­tí­cia com in­di­fe­rença. Para não cau­sar sus­pei­tas so­bre meu pas­sado, que pro­curo en­ter­rar um pouco a cada dia, acom­pa­nho Ma­mãe à igreja, onde Ti­tio faz ques­tão de casar-se. Aguar­da­mos pela noiva, que logo en­tra tra­jando um ves­tido bas­tante dis­creto, como pede o bom senso. Es­ta­mos pela me­tade das fi­lei­ras de ban­cos e con­forme ela avança a pas­sos len­tos rumo ao al­tar, meu co­ra­ção ace­lera o ritmo das ba­ti­das. Pro­curo des­viar o olhar de sua ima­gem, mas uma força maior pa­rece fazer-me avistá-la a todo custo. Ni­ti­da­mente, ela esforça-se por encontrar-me en­tre os con­vi­da­dos e quando o faz, es­boça aquele sor­riso onde a ma­lí­cia e a ino­cên­cia são ca­pa­zes de misturar-se pa­ci­fi­ca­mente. A essa al­tura, não posso mais dis­tin­guir se meu co­ra­ção bate ou se está em sus­penso. Um sú­bito tre­mor arrebata-me e eu pre­ciso apoiar-me à ma­deira dos ban­cos. E isso pa­rece fazer-me re­cu­pe­rar a no­ção das coi­sas. Em­bora, quem sabe por res­peito ao morto, eu te­nha me re­cu­sado a se­guir em mi­nha lú­brica re­la­ção com a viu­vi­nha de Pa­pai, se­ria a mais pura in­ver­dade se eu dis­sesse que não vou me en­con­trar no­va­mente com a mu­lher­zi­nha de Ti­tio.

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