Os Al­coó­li­cos Anô­ni­mos, a ir­man­dade pi­o­neira dos gru­pos de ajuda mú­tua, di­fun­dem uma frase la­pi­dar en­tre seus freqüen­ta­do­res: “viva um dia de cada vez”. A frase não serve ape­nas para quem tenta se li­vrar de uma com­pul­são, mas para to­das as pes­soas que pre­ci­sam en­fren­tar ad­ver­si­da­des, de­sen­con­tros ou abis­mos in­ter­nos pelo me­nos uma vez na vida. Ou seja, qual­quer um de nós. 

Vi­ver um dia de cada vez tam­bém é um con­ceito ade­quado para um mundo im­per­feito como o nosso. Um mundo onde im­pe­ram a in­jus­tiça so­cial, as dis­pu­tas in­ter­pes­so­ais, as ilu­sões, os en­ga­nos e as más no­tí­cias. Por isso, aquela an­tiga fi­lo­so­fia de bolso – a fe­li­ci­dade é feita de mo­men­tos – tem uma base in­cons­tes­tá­vel de ver­dade e efi­ci­ên­cia.

A fe­li­ci­dade, de fato, é uma obra em cons­tru­ção per­ma­nente. O que a com­pleta é o em­pe­nho diá­rio de quem se in­te­ressa por ela. Daí, a frase dos al­coó­li­cos: “viva um dia de cada vez”, isto é, “cons­trua sua fe­li­ci­dade to­dos os dias”, ape­sar dos ven­tos con­trá­rios.

Os de­pen­den­tes em pro­cesso de re­cu­pe­ra­ção pre­ci­sam acre­di­tar que a abs­ti­nên­cia é uma con­quista diá­ria. É como a vida: vi­ver tam­bém é uma con­quista diá­ria. En­tão, já que o fu­turo é in­certo e os ven­tos não pa­ram de so­prar, o me­lhor é ten­tar en­con­trar uma brisa na luta con­tra a maré. O re­sul­tado é bas­tante equi­li­brado: quanto maior o es­forço, maior o pra­zer da vi­tó­ria.

Num mundo do­mi­nado pe­las apa­rên­cias, o re­quinte da tal fe­li­ci­dade real pode ser com­pre­en­dido ape­nas em mo­men­tos de tur­bu­lên­cia. Nes­sas ho­ras, as pes­soas cos­tu­mam re­con­ce­ber va­lo­res e pon­tuar os di­fe­ren­tes as­pec­tos da vida numa es­cala de pri­o­ri­da­des. O cu­ri­oso é que es­sas es­ca­las são pa­re­ci­das. Em pri­meiro lu­gar, so­bres­saem o amor, a ami­zade, a ter­nura e a
so­li­da­ri­e­dade. Ou seja, va­lo­res que de­pen­dem ex­clu­si­va­mente dos con­ta­tos hu­ma­nos. Por isso, quase nunca são mi­ra­gens. Po­dem ser to­ca­dos, chei­ra­dos, lam­bi­dos e de­gus­ta­dos.

Ape­sar das ar­ma­di­lhas do con­sumo, da tec­no­lo­gia e da mo­der­ni­dade, é me­lhor não ser fis­gado pela pro­pa­ganda en­ga­nosa: es­ta­ci­o­nar um Audi na ga­ra­gem e ves­tir Ar­mani para ir ao shop­ping pode re­pre­sen­tar muito pouco se a so­li­dão e o de­sa­mor in­va­di­rem a alma. 

As be­nes­ses con­cre­tas não têm preço, es­tilo nem sta­tus. Va­lem in­di­vi­du­al­mente e po­dem ser en­con­tra­das em lu­ga­res tão tri­vi­ais como a sua casa ou aquela festa en­tre ami­gos. A pas­sa­gem im­pe­ri­osa do tempo nos for­nece só um le­ni­tivo: a me­mó­ria afe­tiva. Como é ilu­só­rio amar um tu­bi­nho preto ou um carro im­por­tado, essa me­mó­ria só pode ser pro­ta­go­ni­zada pe­las pes­soas que ama­mos ou en­si­na­mos a amar. 

Fer­reira Gul­lar é au­tor de uns ver­sos con­tem­po­râ­neos, su­pe­ro­por­tu­nos para esta época de in­cer­te­zas: “Como dois e dois são quatro/sei que a vida vale a pena/embora o pão seja caro/e a li­ber­dade pe­quena”. Quem os re­cita com freqüên­cia é a mi­nha irmã. É um po­ema ur­bano, ín­timo da crô­nica e ab­so­lu­ta­mente au­tên­tico: a vida real so­bre­vive, sim, ao pão caro e à li­ber­dade pe­quena. Por­que a fome e a pressa pas­sam, mas a po­e­sia per­ma­nece, as­sim como as nos­sas me­lho­res lem­bran­ças.

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