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Helião – Texto de João Pedro Feza

segunda-feira, 14 de maio de 2007 Texto de

Com a raiva tur­bi­nada pela be­bida, de­ci­diu bo­tar tudo abaixo. En­trou rá­pido no ca­mi­nhão recém-descarregado. Na mão di­reita, um pe­daço de pau com sete pre­gos. Em oito mi­nu­tos cra­va­dos en­cos­tou o pos­sante em frente à igreja. Su­ava na testa e fa­lava so­zi­nho. Pra­gue­java aquela fé das mas­sas ar­do­ro­sas.

Pé na porta, He­lião in­ter­rom­peu o culto com se­cas ma­dei­ra­das nos ban­cos dos fiéis. Saldo: 14 pes­soas fe­ri­das, in­clu­sive o pas­tor. E o fi­lho dele, de ter­ni­nho claro. Fora os pa­la­vrões com ecos.

Tudo por­que a mu­lher vi­rou irmã. 

A gota d´água para He­lião foi a do­a­ção: R$ 22 mil para aju­dar na cons­tru­ção do tem­plo que ele aju­dou a des­truir. Ca­tó­lico não-praticante, o so­gro per­doou o exa­gero. Ela, não.

No mesmo dia, He­lião su­miu de Campo Grande. Foi em busca da asa da mãe na cidade-natal. De­sa­pa­re­ceu por uns tem­pos.

Se­ria só o pri­meiro de três ca­sa­men­tos des­fei­tos por seu gê­nio torto. Para trás fi­cou um fu­turo pro­mis­sor na fa­zenda do ca­sal.

Hoje, He­lião luta para pa­gar pen­sões e for­ne­ce­do­res.

Diz que não to­lera gente falsa e banca cer­veja no bar ao lado da ofi­cina. Ca­be­los bran­cos e den­tes por res­tau­rar, ainda é che­gado numa gan­daia. Mas ad­mite: com 45 anos de ex­ces­sos diá­rios, já não é as­sim tão vi­ril. Meia bomba.

Pe­gou bronca de gente re­li­gi­osa de­mais e acha que não tem con­serto. Ajuda um tio po­bre com em­bru­lhos de carne para fa­zer como bife. Às ve­zes, com­pra carne de pa­nela. Faz sua parte.

Des­ca­be­çado, tem bom co­ra­ção – que, aliás, abriga algo en­tu­pido à es­pera de de­sobs­tru­ção. O mé­dico fa­lou para lar­gar o ál­cool. Até pa­rece: He­lião vive “car­cado”, mas tra­ba­lha firme, sem pre­guiça e com pla­nos de tro­car o carro. 

Che­gou a ter um Ka­dett com teto so­lar, mas era du­blê. Um primo in­ves­ti­ga­dor o li­vrou da gai­ola certa, mas fi­cou sem o veí­culo. E o som e o es­tepe.

Chame He­lião para um bate-papo e rirá de suas tos­cas tra­gé­dias. Só não o con­vide para re­zar: ele der­ruba gar­ra­fas e vira o di­abo com atre­vi­das pro­vo­ca­ções.

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