vivo – Texto de Thiago Roque

corta, enfia o dedo, rasga a pele, deixa sangrar.
esfrega no asfalto, fura com pregos, lixa com arame farpado, bate na madeira – mas três vezes, por favor, que é pra afastar o azar…
dilacera a carne, quebra o osso, espalha o músculo, faz o corpo cuspir dor.
acrescente 2 xícaras (chá) de querosene, deixe de molho por 12 horas e leve ao fogo por 2 minutos, o tempo pra flambar.
deixa infeccionar. deixa apodrecer. oferece ao urubu de banquete – mas com classe, brinda com mercúrio-cromo.
sai do pé, ganha canela, joelho e coxa, embrulha o estômago com fita cor azia, espalha pelo peito, trava braços, torce pescoço, aperta a cabeça.
mas não mata.
porque carne e osso é subproduto, sobra de ilusões e tentativas frustradas de uma criação dita divina.
sonho é maior. é sopro transcendental, matéria-prima que se renova, cresce, amadurece, envelhece… e vive. onipresente e divino – sim, o sonho é. simplesmente é.
sonho dá diarréia em urubu.
você não escolhe ser feito de carne e osso.
mas escolhe morrer apenas como carne e osso.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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