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pôquer – Texto de Thiago Roque

quarta-feira, 2 de maio de 2007 Texto de

en­tre fu­ma­ças, bi­ri­tas ba­ra­tas, al­guns pe­tis­cos e muito clima noir, jo­ga­vam pô­quer a dor, a so­li­dão, o amor e a an­gús­tia.

já era praxe: to­das as sex­tas, juntavam-se após o ex­pe­di­ente para ba­ter o car­te­ado. cada um tra­zia suas pre­fe­rên­cias, ro­la­vam al­gu­mas coi­sas de im­pre­vis­tos – se fosse o caso, pe­diam pizza. o im­por­tante era a jo­ga­tina.

as apos­tas eram al­tas. al­mas em jogo.

a di­fe­rença é que os jo­ga­do­res não se im­por­ta­vam em ga­nhar ou per­der. na­quela mesa re­donda com to­a­lha verde-musgo, o im­por­tante era se di­ver­tir.
ah, e eles se di­ver­tiam.

a dor, por exem­plo, ba­bava en­quanto gar­ga­lhava ao per­der 20 al­mas numa só jo­gada para a so­li­dão. “es­ses aí já se acos­tu­ma­ram co­migo. é me­lhor mesmo te­rem algo di­fe­rente para sen­tir”, fa­lava a bas­tarda, en­quanto a so­li­dão (ves­tida im­pe­ca­vel­mente com uma saia preta cur­tís­sima, um top ver­me­lho san­gue de de­cote ge­ne­roso e uma cruz pra­te­ada que mar­cava a fron­teira en­tre os enor­mes seios) sor­ria de lado e já re­co­lhia o prê­mio.

a an­gús­tia já era mais pru­dente (mas, nem por isso, me­nos aven­tu­reira): se ti­nha uma boa mão, apos­tava as al­mas mais ator­men­ta­das; se ble­fava, co­lo­cava na mesa um pos­sí­vel sui­cida – a dor, via de re­gra, se de­li­ci­ava com isso.

a so­li­dão gos­tava de nú­mero – iro­nia ou não, é ver­dade. mas, se per­desse, ca­gava qui­los: afi­nal, con­se­guir mo­eda de jogo não era ter que fa­zer em­prés­timo no banco a ju­ros al­tos – sem­pre en­con­trava gente para tra­zer para o seu lado.

o amor, não: único ma­cho na mesa, ele era mais vul­ne­rá­vel – e es­tú­pido. apos­tava sem dis­tin­ção: 30 al­mas por vez, 50, che­gou a co­lo­car 169 pes­soas num blefe – e se fo­deu.

ami­gos, via de re­gra, o amor to­mava no cu.

de­pois, quando per­dia, cho­ra­min­gava, exa­ge­rava na bi­rita, fu­mava des­con­tro­la­da­mente. ria como todo mundo – mas com um certo ner­vo­sismo. se ape­gava às al­mas, mas só per­ce­bia isso quando elas cru­za­vam a mesa verde-vusgo, di­zendo um tchau amargo.

justo pra ele, que ti­nha a des­pe­dida como vi­zi­nha – e aquela va­dia jo­gava o lixo no quin­tal dele.

com o tempo, o amor fi­cou vi­ci­ado no jogo. E tam­bém na be­bida. já não fa­zia mais a barba, os ter­nos eram cada vez mais ra­ros, apa­re­cia aos jo­gos amar­ro­tado, cheio de olhei­ras. mas es­tava lá, sem­pre dis­posto a apos­tar to­das aque­las al­mas, aque­las al­mas que ele tanto amava – mas que só des­co­bria isso de­pois de elas caí­rem no de­cote da so­li­dão (sim, a so­li­dão per­ce­bia quando o amor ble­fava, era sua maior ad­ver­sá­ria).

en­quanto isso, an­gús­tia e dor riam. ao amor, res­ta­vam as lá­gri­mas.

quem sabe na sexta que vem.

E-mail: roque.thiago@hotmail.com

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