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A grande reportagem - Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, 26 de abril de 2007 Texto de

O jo­vem jor­na­lis­ta Hél­bom Del­li­de sen­tou-se à sua me­sa, li­gou o com­pu­ta­dor e “fo­lhe­ou” os jor­nais ele­trô­ni­cos na in­ter­net à pro­cu­ra das no­vi­da­des. An­te­na­do com os no­vos tem­pos, não gos­ta­va de se le­van­tar de sua pol­tro­na e bus­car os jor­nais do dia, em­pi­lha­dos na me­sa do che­fe de re­da­ção. Pre­fe­ria ler os bo­le­tins on-li­ne na gran­de re­de da in­for­má­ti­ca. Era seu pri­mei­ro em­pre­go co­mo re­pór­ter de um gran­de jor­nal, um diá­rio se­cu­lar, de mui­tas his­tó­ri­as e trin­chei­ras, lu­tan­do ora no front da le­ga­li­da­de ora no da cons­pi­ra­ção.

Hél­bom es­ta­va fe­liz. Era tu­do que sem­pre so­nha­ra, des­de os tem­pos de fa­cul­da­de. No en­tan­to, em um mês de li­da, só re­ce­bia re­le­a­ses pa­ra dar uns “ta­pas”, no má­xi­mo es­quen­tá-los com en­tre­vis­tas li­gei­ras por te­le­fo­ne. De re­pen­te, ou­viu um for­te cha­ma­do do aquá­rio. Era Or­nes­to Jo­sé­ti­co o che­fe de re­da­ção. Não gos­ta­va de ser cha­ma­do de di­re­tor de re­da­ção. Di­zia que tal car­go era mais apro­pri­a­do a exe­cu­ti­vos.

- As­sus­tou-se com meu gri­to, ra­paz?- dis­se Or­nes­to.

- Sim, pen­sei que os re­pór­te­res eram cha­ma­dos por e-mail.

- Ora meu jo­vem, es­ta­mos a dez me­tros um do ou­tro e vo­cê me vem com es­ta? Sou an­ti­go. Quan­do co­me­cei, a gen­te se co­mu­ni­ca­va por fu­ma­ça. Mas de­pois in­ven­ta­ram o tam­bor e a si­tu­a­ção me­lho­rou pra ca­ram­ba.

Hél­bom riu da brin­ca­dei­ra, meio a con­tra­gos­to. Or­nes­to, o ve­lho lo­bo da im­pren­sa, não con­se­guia fa­lar cin­co mi­nu­tos sem sol­tar um tro­ca­di­lho ou fa­zer uma pi­a­di­nha com o mo­men­to. Sur­pre­so, o jo­vem re­pór­ter pres­tou a má­xi­ma aten­ção às ins­tru­ções do che­fe so­bre a pau­ta. Uma re­por­ta­gem das bo­as. Da­que­las de dei­xar de­fi­ni­ti­va­men­te a con­di­ção de fo­ca.

A ma­té­ria era so­bre im­pos­tos e ta­xas de ser­vi­ços que os ban­cos co­bram nas con­tas de seus cli­en­tes.

- Que­ro que en­tre em con­ta­to com qua­tro ban­cos pe­lo me­nos e a as­so­ci­a­ção que os con­gre­ga. Ou­ça cli­en­tes na fi­la, en­tre­vis­te al­guém da de­fe­sa do con­su­mi­dor, do Va­ti­ca­no, da ONU. Só não ten­te o mi­nis­tro da Eco­no­mia, por­que ele odeia nos­so jor­nal. En­fim, cer­que as in­for­ma­ções de to­dos os la­dos en­vol­vi­dos. Va­mos lá. Con­fio no seu ta­co - apos­tou o ve­lho lo­bo.

Hél­bom abriu um lar­go sor­ri­so, da­que­les que faz as ore­lhas se en­con­trar. Era sua pri­mei­ra gran­de re­por­ta­gem. Os ban­quei­ros que co­lo­cas­sem o di­nhei­ro, ou me­lhor, as bar­bas de mo­lho, ele iria aba­lar o ali­cer­ce das fi­nan­ças do país. Foi mais de uma se­ma­na de con­ta­tos in­ten­sos.

En­tre­vis­tou pes­so­al­men­te, por te­le­fo­ne, por e-mail. Só não usou fu­ma­ça e tam­bor. Pes­qui­sou os ti­pos de ta­xas, le­gis­la­ção, di­fe­ren­ça de va­lo­res en­tre um ban­co e ou­tro, qual a fai­xa de va­lo­res má­xi­mos es­ti­pu­la­da pe­la le­gis­la­ção ban­cá­ria, quan­to a ins­ti­tui­ção fa­tu­ra­va com a co­bran­ça em con­ta dos cor­ren­tis­tas e mui­to mais.

Des­co­briu até que dois dos ban­cos ou­vi­dos sal­da­vam a fo­lha de pa­ga­men­to de seus fun­ci­o­ná­ri­os so­men­te com o di­nhei­ro ar­re­ca­da­do por meio de ta­xas de seus in­fe­li­zes cor­ren­tis­tas. Por in­ter­mé­dio de uma fon­te do Ban­co Cen­tral, sou­be ain­da que uma boa por­cen­ta­gem do fa­tu­ra­men­to dos ban­cos no ano an­te­ri­or fo­ra pro­ve­ni­en­te das ta­ri­fas. Du­as in­for­ma­ções va­li­o­sas e im­pac­tan­tes. Abri­ria a ma­té­ria por aí.

No dia se­guin­te, che­gou mais ce­do à re­da­ção. O am­bi­en­te es­ta­va qua­se va­zio. Hél­bom cum­pri­men­tou ape­nas al­guns plan­to­nis­tas, que va­ra­ram a noi­te, fo­tó­gra­fos e fa­xi­nei­ros fa­zen­do seu tra­ba­lho an­tes que o lo­cal se en­ches­se à tar­de. Sen­tou-se ao mi­cro e nem “fo­lhe­ou” a In­ter­net. Abriu um no­vo ar­qui­vo no Word e co­me­çou a gran­de re­por­ta­gem. Não fa­lou com nin­guém, não to­mou ca­fé, só al­guns co­pos de água, tam­pou­co pa­que­rou a be­la re­pór­ter da edi­to­ria de va­ri­e­da­des.

Eram dez ho­ras da noi­te, a re­da­ção fer­via pa­ra fe­char a edi­ção do dia e Hél­bom da­va os úl­ti­mos re­to­ques ao seu tra­ba­lho: tí­tu­lo, olho, en­tre­tí­tu­los, bo­xes. Usan­do seu co­nhe­ci­men­to de in­for­má­ti­ca, ela­bo­rou grá­fi­cos e ta­be­las com­pa­ra­ti­vas das ta­xa e res­pec­ti­vos ban­cos. Ve­ri­fi­cou so­ma de nú­me­ros, por­cen­ta­gens, eli­mi­nou pa­la­vras re­pe­ti­das, le­vou pa­rá­gra­fos de bai­xo pa­ra ci­ma e vi­ce-ver­sa.

Fi­cou pen­san­do, se não fos­se o com­pu­ta­dor, co­mo fa­ria aque­le tra­ba­lho de co­la­gem de blo­cos in­tei­ros de tex­to? Não ha­via co­nhe­ci­do a má­qui­na de es­cre­ver. Ter­mi­nou a em­prei­ta­da, res­pi­rou vá­ri­as mo­lé­cu­las de oxi­gê­nio e dis­se pa­ra si mes­mo: ufa, aca­bei! Pas­sou a ma­té­ria pa­ra seu pri­mei­ro edi­tor, por e-mail, com có­pia pa­ra Or­nes­to e fi­cou es­pe­ran­do os pa­ra­béns. Foi pa­ra ca­sa fe­liz co­mo um ga­ro­to que ga­nhou sua pri­mei­ra bi­ci­cle­ta.

No dia se­guin­te, pe­la ma­nhã, cor­reu à ban­ca de jor­nais pa­ra ver se sua re­por­ta­gem es­ta­va na edi­ção do dia. Na­da. Pen­sou, en­tão, que seus che­fes es­ta­vam guar­dan­do a pé­ro­la pa­ra a edi­ção de fim de se­ma­na. Era o ti­po de ma­té­ria pa­ra ser de­gus­ta­da na pol­tro­na, nu­ma ma­nhã de sá­ba­do ou de do­min­go.

Pas­sou a pri­mei­ra se­ma­na e veio a se­gun­da. Mais de dez di­as de re­le­a­ses e na­da de sua ma­té­ria pu­bli­ca­da. Seu edi­tor elo­gi­ou o tra­ba­lho e dis­se que ti­nha pas­sa­do o tex­to pa­ra fren­te, mas não sa­bia por­que ain­da não ti­nha si­do saí­do.

Hél­bom to­mou co­ra­gem e foi con­ver­sar com o che­fe de re­da­ção. O lo­bo sor­riu, fez uma pi­a­da so­bre a gra­va­ta do re­pór­ter (ra­paz, se eu usar uma des­tas, o New York Ti­mes me con­vi­da) e li­gou pa­ra o de­par­ta­men­to co­mer­ci­al do jor­nal. Al­guns mi­nu­tos de­pois, o ge­ren­te do se­tor en­trou no aquá­rio de Or­nes­to, sen­tou-se ao la­do do re­pór­ter e dis­se que a ma­té­ria, em­bo­ra mui­to bem-fei­ta, não po­de­ria sair nas pá­gi­nas do jor­nal.

- Es­ta­mos atra­ves­san­do um mo­men­to fi­nan­cei­ro di­fí­cil em nos­so jor­nal. Não po­de­mos per­der uma só pu­bli­ci­da­de e dos qua­tro ban­cos que vo­cê ci­ta na ma­té­ria três são nos­sos anun­ci­an­tes.

O de­sâ­ni­mo to­mou con­ta de Hél­bom. On­de es­ta­va a li­ber­da­de de ex­pres­são, a bus­ca pe­la ver­da­de, o jor­na­lis­mo de­mo­crá­ti­co, a in­for­ma­ção trans­pa­ren­te.

O ge­ren­te co­mer­ci­al per­gun­tou se o re­pór­ter po­de­ria re­du­zir a ma­té­ria e ti­rar os três ban­cos do tex­to e ou­viu um não en­fá­ti­co do jo­vem ide­a­lis­ta. Or­nes­to pen­sou em su­ge­rir o mes­mo, mas ca­lou-se. En­tão, con­tou mais uma pi­a­da (co­nhe­ci um jor­na­lis­ta tão bom, tão bom, que mes­mo in­ven­tan­do no­tí­ci­as, acer­ta­va sem­pre) e ar­re­ma­tou sé­rio:

- Va­mos ter­mi­nar es­ta his­tó­ria com o mí­ni­mo de dig­ni­da­de pos­sí­vel. Ma­té­ria des­pe­da­ça­da, ja­mais. É me­lhor não sair na­da. Se­ma­nas de­pois, o jor­nal fa­liu. Que­brou co­mo cas­ca de ovo, após fi­car três di­as sem ir às ban­cas. No quar­to dia, os fun­ci­o­ná­ri­os da área grá­fi­ca che­ga­ram e não en­con­tra­ram a mai­o­ria das má­qui­nas e equi­pa­men­tos. Na re­da­ção e no es­cri­tó­rio, pouquís­si­mos mó­veis e com­pu­ta­do­res ain­da res­ta­vam. Tu­do fo­ra ven­di­do pe­los pro­pri­e­tá­ri­os, cu­jos pa­ra­dei­ros nin­guém sa­bia. Qua­se na­da ha­via pa­ra pa­gar os em­pre­ga­dos. O imó­vel era alu­ga­do e o se­nho­rio tam­bém não ti­nha re­ce­bi­do seus ha­ve­res atra­sa­dos.

Du­ran­te me­ses Hél­bom pe­re­gri­nou por di­ver­sas re­da­ções de jor­nais e re­vis­tas pa­ra ven­der sua re­por­ta­gem e tam­bém pro­cu­rar fri­las. Es­ca­ra­fun­chou aqui e ali até que fi­nal­men­te en­con­trou uma re­vis­ta de eco­no­mia dis­pos­ta a pu­bli­car sua ma­té­ria e a pers­pec­ti­va de um fri­la por mês. To­pou.

À noi­te, re­sol­veu as­sis­tir pe­la ené­si­ma vez ao fil­me To­dos os ho­mens do pre­si­den­te, seu pre­fe­ri­do, o mes­mo que o ha­via in­du­zi­do a ser jor­na­lis­ta. Gos­ta­va imen­sa­men­te da his­tó­ria dos dois re­pór­te­res ame­ri­ca­nos que, com su­as ma­té­ri­as, ti­nham der­ru­ba­do o pre­si­den­te de seu país, o ho­mem mais po­de­ro­so do mun­do. O ca­so fi­cou co­nhe­ci­do co­mo Wa­ter­ga­te e o pre­si­den­te era Ri­chard Ni­xon.

No meio do fil­me, to­cou o te­le­fo­ne. Era Or­nes­to, seu an­ti­go che­fe.

- Tu­do bem com vo­cê?

- Cla­ro que não, es­tou de­sem­pre­ga­do e na­da re­ce­bi da­que­le jor­nal.

- Eu tam­bém, não - dis­se o ex-che­fe de re­da­ção.

Or­nes­to fez uma brin­ca­dei­ra (co­nhe­ci um jor­na­lis­ta que fi­cou tan­to tem­po de­sem­pre­ga­do que re­sol­veu ven­der a te­le­vi­são, de­pois o car­ro, o apar­ta­men­to. Até que des­co­briu que sua vo­ca­ção era mes­mo ser ven­de­dor. Tá bem de vi­da, o sa­fa­do. Só fal­ta pa­gar o que me de­ve) e dis­se a seu ex-re­pór­ter que es­ta­va as­ses­so­ran­do um de­pu­ta­do e pre­ci­sa­va de um au­xi­li­ar.

- Acei­ta me aju­dar nes­ta? - propôs o ve­lho lo­bo.

- Quem é o de­pu­ta­do?

Or­nes­to dis­se o no­me do po­lí­ti­co e Hél­bom se as­sus­tou.

- Mas...justamente es­te? Ele é o do­no de um dos ban­cos que ci­to na mi­nha re­por­ta­gem...

- Eu sei. Mas foi o que con­se­gui ar­ru­mar e ca­va­lo den­te não se olha os da­dos - tro­ca­di­lhou. E emen­dou: - O ho­mem não va­le um grão de fei­jão ca­run­cha­do e ca­da vez que eu aper­to a mão de­le con­to se ain­da con­ti­nuo com cin­co de­dos. Mas o sa­lá­rio é bom. É pe­gar ou pe­gar.

- Não pos­so, Or­nes­to. Se­ma­na que vem mi­nha re­por­ta­gem so­bre as ta­ri­fas ban­cá­ri­as sai­rá na re­vis­ta Mun­do Econô­mi­co.

- As­si­na­da?

- Cla­ro. É mi­nha pri­mei­ra re­por­ta­gem com cré­di­to e num gran­de veí­cu­lo. No jor­nal, vo­cê en­chia os fo­cas de re­le­a­ses. E, quan­do ti­ve a gran­de chan­ce, vo­cês não pu­bli­ca­ram meu tex­to com me­do de per­der anun­ci­an­tes.

- Vão pa­gar bem pe­lo tra­ba­lho? - ques­ti­o­nou Or­nes­to.

- A me­ta­de do que de­ter­mi­na o sin­di­ca­to - res­pon­deu o jo­vem.

- Meu Deus!! (Ti­ve um re­pór­ter que era tão po­bre, tão po­bre, que eco­no­mi­za­va até nas pa­la­vras. Por is­so, só da­va ma­té­ria de uma lau­da pra ele). Meu ca­ro e ba­ra­to jo­vem, co­nhe­ço o edi­tor des­ta re­vis­ta. Pos­so li­gar pa­ra ele pe­din­do pa­ra não pu­bli­car a ma­té­ria. Se sair mes­mo, vo­cê não po­de­rá tra­ba­lhar co­mi­go aqui no ga­bi­ne­te do de­pu­ta­do. Além do mais, es­ta re­por­ta­gem vo­cê fez pa­ra o jor­nal.

- Que não quis pu­bli­car. Es­que­ceu-se, che­fe? Es­ta ma­té­ria é mi­nha. Sem­pre foi. E vo­cê não irá im­pe­di-la no­va­men­te. Tra­ba­lhei co­mo bur­ro de car­ga pa­ra le­van­tar in­for­ma­ções e es­cre­ver o tex­to. Es­ta re­por­ta­gem é mi­nha. A me­lhor que fiz na vi­da e ago­ra me­re­ço vê-la no pa­pel - dis­se o re­pór­ter.

Des­li­gou o te­le­fo­ne e con­ti­nu­ou a ver o fil­me.

E-mail: otanunes@gmail.com

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