Contos

A menina e o calango

sábado, 14 de abril de 2007 Texto de

As cas­cas de uma ou­tra hora ainda ar­rui­na­vam, via-se bem as­sim nos jo­e­lhos des­car­na­dos, quando a me­nina, muito mir­ra­di­nha, es­cor­re­gou pe­los dois de­graus da porta da frente, arrancando-as de novo e fa­zendo va­zar o san­gue que sem­pre man­chava os ti­jo­los gas­tos. Es­fre­gou as mãos com uma ca­reta en­fe­zada e guar­dou a dor para cho­rar mais tarde. Agora, não. 

Es­piou, cu­ri­osa, o bi­cho. Deu dois ou três pas­sos adi­ante e, de pronto, um para trás. O bi­cho olhou para ela, num ins­tante pa­rou de bis­bi­lho­tar nas bor­das do chi­queiro va­zio, onde só um barro seco fe­dia. Sus­ta­ram os dois as­sim um tempo an­tes de vol­ta­rem às suas ta­re­fas, ele à bis­bi­lho­tice e ela à ad­mi­ra­ção.

A ve­lha cha­mava a cada pouco lá de den­tro, não sa­bia a me­nina a quê. Nem tor­nava. Esticou-se com a bar­riga no chão duro e se­gu­rou o queixo com as mãos, só vendo. O bi­cho fu­çava. De­va­gar, ajeitou-se mais para perto dele, dava mesmo para ver o couro verde e mar­rom, até um certo cheiro achou que era seu. O bi­cho fu­çava. No co­meço, ele ainda voltava-se, des­con­fi­ado, na di­re­ção da­quela cri­a­tura es­qui­sita, re­me­lenta e tudo. Aí, vai ver, habituou-se. Deu o rabo. 

Por aí es­ta­vam a me­nina e o ca­lango, quando num re­pente ela des­pis­tou, sacudindo-se nos tra­pos. O bi­cho, que fu­çava, chis­pou para os la­dos do barro seco e mal­chei­roso. Enfiou-se num bu­raco qual­quer e de lá ou­viu as mi­sé­rias do bruto ro­ceiro.

O su­jeito bra­miu feiú­ras, ao passo que a me­nina pro­cu­rou se apar­tar do des­me­re­cido, mas não deu. Todo o quase nada dali era dele, devia-se a ele, vi­nha dele feito ela, não in­te­res­sava nem que fosse de­baixo de pi­cumã, dele era, e só. 

Na­quele dia, pouco ha­via na tar­de­zi­nha para se co­mer. O min­gau ra­re­ava, di­zia a ve­lha. De­certo, não se ti­nha de onde. O tal se me­lin­drou, aban­do­nando à mesa a va­si­lha suja. A me­nina, en­tão, aproveitou-se, le­vando o dedo até lá, para de­pois lam­ber com gosto a por­ção a mais. 

De saída a esmo, o pai es­can­ca­rava ou­tras mi­sé­rias, que isso que aquilo, ia achar uma caça, fosse mesmo um ca­lango. Lam­bu­zada, ela ar­re­ga­lou os olhi­nhos aba­ti­dos. No leito, aten­tou de noite, com­prida que foi, à cla­ri­dade duma da­que­las luas. 

Qui­eta, pen­sou no bi­cho. De­pois, lem­brou tam­bém do pai. Teve medo. Se pu­desse, aqui­e­tava ainda mais, nem res­pi­rava, para não ma­goar o pai, para ele não pen­sar mais em coi­sas ruins. 

De ma­nhã, e tam­bém de tarde, a avó cha­mava, mas ela não vi­nha. Fi­cava lá, vendo o bi­cho, aquela cor bo­nita, uns olhos ace­sos. Sem­pre fu­çando. Ela ria en­quanto a bei­ri­nha do um­bigo se de­se­nhava na areia. 

Nou­tros dias, o su­jeito se pôs muito mais in­ju­ri­ado, cheio de bru­te­zas, sa­cando da boca azeda a mu­ni­ção de tan­tas des­di­tas. A ve­lha co­chi­chava para ela pró­pria, dia após dia re­pi­sava os mes­mos ter­mos sem sen­tido. Até que não se ti­nha quase nada para a janta, e o pai se re­be­lou con­tra o mundo, des­di­zendo re­zas e cla­mando pelo di­abo, que pou­cas in­ten­ções te­ria de se me­ter ali. A lua es­ma­e­ceu de­va­gar, só vi­nha agora a es­cu­ri­dão.

Nesta ma­nhã de on­tem, a me­nina foi para os ar­ra­bal­des do chi­queiro e es­prei­tou. Es­pe­rou mesmo mais de qua­tro ho­ras pelo bi­cho, sem su­cesso. Lembrou-se dele fu­çando no barro seco e fe­do­rento, o couro mar­rom e verde, aquela bo­ni­teza. Avis­tou os qua­tro can­tos do chi­queiro, toda es­pe­ran­çosa, mas ele não veio de jeito ne­nhum. De­pressa, tam­bém so­bre­veio à au­sên­cia da com­pa­nhia a ima­gem bruta do pai. Ma­tu­tou. Ma­tu­tou. O tempo cor­reu, ela jun­tou o pouco que ti­nha nas idéias e logo se alar­mou: avizinhou-se de seu co­ra­ção em de­ses­pero a cer­teza de que ha­ve­ria janta mais tarde. 

So­zi­nha na terra quente, zangou-se con­tra tudo. Que­ria ma­tar os dois de casa, bem dum golpe só, a en­xada. Não te­ria sido as­sim o jeito do pai com o ca­lango? Mas logo, des­vi­go­rada, dei­xou mur­char a fú­ria e vir no lu­gar a me­lan­co­lia, uma so­li­dão des­me­dida.

Nisso, a ve­lha cha­mava. Dum salto, a me­nina ergueu-se e de­sa­ba­lou no rumo da casa. Olhou para a avó e para o pai, para o fogo e para a mesa. Só ha­via um pouco de fa­ri­nha, mais nada. En­tão, ela se pôs a rir – com o maior amor pelo mundo. 

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