Impressões

O gato

sábado, 7 de outubro de 2006 Texto de

Ed­gar Al­lan Poe tem em seu O gato preto um dos mais fa­mo­sos con­tos de sua de­li­ci­osa e poé­tica li­te­ra­tura de ter­ror. Há um es­cri­tor no sul, no Rio Grande, que se diz apai­xo­nado, as­sim como sua mu­lher tam­bém o é, pe­los fe­li­nos; eles têm em casa uma si­a­mesa. Mas, você tal­vez me per­gunte bem agora: e daí? Pois, narro a se­guir uma coin­ci­dên­cia in­te­res­sante.

Es­tou por es­tes dias lendo um li­vro de con­tos de Poe, que traz in­clu­sive o do gato preto. Tam­bém por es­tes dias co­nheço o es­cri­tor gaú­cho – Le­o­nardo Bra­si­li­ense, o mesmo que gosta de ga­tos. E ainda ou­tra noite, re­tor­nando de uma vi­a­gem, a ro­do­via cer­cada de di­mi­nu­tas flo­res­tas, deparo-me com dois pe­que­nos fa­róis bri­lhan­tes na es­cu­ri­dão. Re­duzo a ve­lo­ci­dade, in­tri­gado e an­si­oso, e lá está, aden­trando a pista, como quem pas­seia em meio a tron­cos, ra­mos e raí­zes da selva, um certo gato do mato, muito grande o bi­cho.

Eu en­fio a mão na bu­zina, as­sus­tado com a pos­si­bi­li­dade de atropelá-lo, e ele, se­re­na­mente, sem so­bres­sal­tos, des­pido de ati­tu­des hu­mi­lhan­tes de po­bres ani­mais que se sa­co­dem di­ante do pe­rigo, re­tro­cede numa meia volta ce­ri­mo­ni­osa, de­sa­pa­re­cendo por en­tre os ar­bus­tos como um rei que se re­tira di­ante da corte abo­ba­lhada.

En­gra­çado. Ga­tos, pre­tos ou não, sem­pre es­ti­ve­ram en­vol­vi­dos em ne­bu­lo­sas at­mos­fe­ras su­pers­ti­ci­o­sas, ge­ral­mente dig­ni­tá­rios nos rei­nos ima­gi­ná­rios do azar, não é isso mesmo? Cu­ri­o­sa­mente, a mim, ver­te­ram far­tura de sorte. As­sim: ler Poe é es­ti­mu­lante; co­nhe­cer Le­o­nardo Bra­si­li­ense foi-me uma fe­li­ci­dade; e ver o gato do mato, li­vre e belo nes­tes tem­pos de sub­tra­ção, avivou-me a alma. 

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