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Fôlego sertanejo - Texto de João Pedro Feza

segunda-feira, 17 de outubro de 2005 Texto de

Tra­ves­sia do tem­po

Im­por­ta di­zer: Di­no Fran­co, íco­ne da mú­si­ca ser­ta­ne­ja - con­si­de­ra­do por mui­tos o mai­or au­tor vi­vo do gê­ne­ro com 1.500 can­ções com­pos­tas e mais de 50 dis­cos lan­ça­dos - com­ple­tou 69 anos nes­te 8 de se­tem­bro de 2005. Ou, co­mo pre­fe­re di­zer, abriu con­ta­gem re­gres­si­va (e im­pla­cá­vel) ru­mo aos 70 anos - mais de 50 de car­rei­ra ar­tís­ti­ca. In­jus­to pas­sar em bran­co.

Nas­ci­do em 1936 em Pa­ra­na­pa­ne­ma, in­te­ri­or pau­lis­ta, Wal­ter (Di­no) Fran­co não de­mons­tra in­qui­e­ta­ção com o re­ló­gio da vi­da e os im­pre­vis­tos da saú­de: em Ran­cha­ria, on­de vi­ve após lon­ga e pro­du­ti­va jor­na­da em São Pau­lo, cha­ma a pró­pria di­a­be­tes de “be­ti­nha” e pre­pa­ra mais es­sa tra­ves­sia do tem­po com dis­cri­ção e se­re­ni­da­de. O au­tor de clás­si­cos co­mo “Chei­ro de Rel­va” (com Zé For­tu­na), “Amar­gu­ra­do” (com Tião Car­rei­ro) e “Tra­ves­sia do Ara­guaia” (com Zé Car­rei­ro) fa­lou ao si­te di­as atrás. Por te­le­fo­ne mes­mo: “Aqui fa­la o Di­no!”. Pro­sa boa - ora crí­ti­ca, ora re­sig­na­da, mas sem­pre lú­ci­da, in­te­li­gen­te e ins­pi­ra­do­ra.

É uma hon­ra fa­lar com o se­nhor... Obri­ga­do. É ver­da­de que o se­nhor tem mais de mil mú­si­cas com­pos­tas?

Umas mil e qui­nhen­tas. Com­po­nho des­de mo­le­que, des­de 1949. Mas meu pri­mei­ro dis­co só saiu em 1959, gra­va­do com o Ti­ba­gi em sis­te­ma de 78 ro­ta­ções. Tra­zia as can­ções “Peão de Mi­nas” e “Fal­sos Ca­ri­nhos”. Éra­mos Ti­ba­gi e Pi­ras­su­nun­ga. An­tes, já ha­via for­ma­do a dul­pa Os­val­di­nho (Di­no Fran­co) e Or­lan­di­nho...

Aliás, o se­nhor fez par­te de vá­ri­as du­plas. Fa­le de­las...
Ah, te­ve Ju­qui­nha e Jun­quei­ra - eu era o Jun­quei­ra. Tam­bém fiz du­pla com o Bel­mon­te, éra­mos Bel­mon­te e Pi­ras­su­nun­ga. Re­ce­bía­mos, à épo­ca, gran­de in­fluên­cia do trio me­xi­ca­no Los Pan­chos e do can­ci­o­nei­ro gaú­cho. Tam­bém exis­tiu a du­pla Di­no Fran­co e Zé For­tu­na, o gran­de Zé For­tu­na. Fiz mui­to cir­co, mui­to pal­co... De­pois vi­e­ram Biá e Di­no Fran­co e Di­no Fran­co e Mo­raí, que fo­ram as du­plas mais co­nhe­ci­das na car­rei­ra fo­no­grá­fi­ca.

Do seu vas­to re­per­tó­rio, qual a mú­si­ca fa­vo­ri­ta?
A que eu ain­da não fiz. (ri­sos) Mas de­ve ter alguma...São to­das mui­to que­ri­das. Tem al­gu­mas per­di­das no tem­po, que a gen­te fi­ca fe­liz de fa­zer, mas que nem che­ga ao gran­de pú­bli­co. Fi­ca mais pa­ra a fa­mí­lia e os ami­gos. E tem os su­ces­sos co­mo “Chei­ro de Rel­va” (par­ce­ria com Zé For­tu­na) e “Tra­ves­sia do Ara­guaia” (com Zé Car­rei­ro), “Amar­gu­ra­do” (com Tião Car­rei­ro), “Pom­bi­nha Bran­ca” (com Bel­mon­te), “A Se­men­ti­nha” (com Ita­puã), tam­bém gra­va­da por Liu e Léo.

Sen­te sau­da­des do que cha­mam “fa­se áu­rea”?
Não li­go pa­ra es­se ne­gó­cio de au­ge na car­rei­ra. Não li­go, não. Ti­ve óti­mos par­cei­ros e con­se­gui al­gum des­ta­que, é ver­da­de. Nos anos 60, um pro­gra­ma na Rá­dio Tu­pi que che­guei a apre­sen­tar re­ce­bia mi­lha­res de car­tas por dia. Era uma lou­cu­ra. Ti­nha um me­ni­no, ti­po um boy, que vi­via da rá­dio pa­ra o cor­reio, do cor­reio pa­ra a rá­dio. Mas é bom fi­car tranqüi­lo tam­bém. Afi­nal, vi­vi a cor­re­ria de São Pau­lo en­tre as dé­ca­das de 50 e 90 (1956 a 92). Ago­ra, es­tou com a mi­nha vi­di­nha aqui em Ran­cha­ria e já faz um bom tem­po is­so.

Co­mo o se­nhor ava­lia a atu­al mú­si­ca ser­ta­ne­ja?
Olha, ca­da um faz o seu e na sua épo­ca. Na mi­nha, além das mo­das de vi­o­la, a gen­te ti­nha for­te in­fluên­cia da mú­si­ca pa­ra­guaia, da mú­si­ca me­xi­ca­na, co­mo eu já dis­se. E ti­nha o bo­le­ro... Mas a gen­te nun­ca dei­xou de fa­zer mú­si­ca ser­ta­ne­ja e com mui­to res­pei­to, or­gu­lho e ale­gria. Só acho que is­so, quer di­zer, es­sas mú­si­cas, es­sas du­plas, al­gu­mas du­plas, que são tão fa­mo­sas que nem pre­ci­so ci­tar no­mes, fa­zem ou­tra coi­sa, ou­tro gê­ne­ro. Ra­paz, é só amor, amor, amor... Vo­cê pe­ga o dis­co, ou­ve uma mú­si­ca e nem pre­ci­sa ou­vir as ou­tras. É tu­do igual!

O se­nhor di­ria que a no­va ge­ra­ção se apro­pri­ou in­de­vi­da­men­te do tí­tu­lo “ser­ta­ne­jo”?
O que fa­zem é ou­tra mú­si­ca, pre­ci­sa dar ou­tro no­me. Não é mú­si­ca ser­ta­ne­ja. Fa­zem mú­si­ca bre­ga. Ba­si­ca­men­te, bre­ga. Mas tu­do bem, não te­nho na­da con­tra nin­guém. O tem­po pas­sa e tu­do se mo­di­fi­ca, não é mes­mo? Só acho que foi uma mu­dan­ça mui­to ra­di­cal. Pas­sou da con­ta.

O que achou do re­tor­no de Ro­lan­do Bol­drin à te­vê?
Ra­paz, nem vi o pro­gra­ma ain­da. Aliás, na te­le­vi­são, só as­sis­to ao jor­na­lis­mo e ao fu­te­bol.

Mas nem “Vi­o­la Mi­nha Vi­o­la”?
Fui ho­me­na­ge­a­do lá es­ses di­as. Aca­bei nem ven­do o pro­gra­ma.

O se­nhor fa­lou de fu­te­bol. Tor­ce pa­ra quem?
Sou co-rin-ti-ano!

E a saú­de, co­mo vai?
Tu­do bem, tu­do bem. Te­nho uma di­a­be­tes que cha­mo de “be­ti­nha”, mas es­tá tu­do bem.

Meu pai, lá de Ou­ri­nhos, é seu fã...
Man­da um abra­ço pra ele, viu? Fa­la que man­dei um abra­ção.

Re­cla­me
O CD “Di­no Fran­co - 50 Anos de Car­rei­ra” po­de ser en­co­men­da­do pe­lo si­te da gra­va­do­ra Atra­ção: www.atracao.com.br. Ou nos ar­ma­zéns de Ran­cha­ria, on­de o pes­so­al cos­tu­ma ou­vir mú­si­ca boa.

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