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A outra face do homo sapiens

domingo, 9 de outubro de 2005 Texto de

Ca­chor­ros e ga­tos vira-latas são al­vos de ti­ros e mal­da­des va­ri­a­das pra­ti­ca­das por pes­soas con­si­de­ra­das nor­mais; ga­los e cães são ades­tra­dos por seus pro­pri­e­tá­rios para par­ti­ci­pa­rem de ri­nhas, vi­o­len­tís­si­mas e ile­gais, que mo­vi­men­tam for­tu­nas em apos­tas; no sul do Bra­sil, na tra­di­ci­o­nal Farra do Boi, du­rante a qual só os bois não fa­zem farra, um bando de bê­ba­dos e alu­ci­na­dos corre atrás dos ani­mais pe­las ruas, maltratando-os e espancando-os, ale­gando que a “brin­ca­deira” cor­res­ponde à ma­lha­ção de Ju­das, já que isso se dá na se­mana da Pás­coa. E, para co­roar, es­sas e ou­tras for­mas de cru­el­dade con­tra ani­mais in­de­fe­sos são ven­di­das como es­porte ou en­tre­te­ni­mento. Diz-se que o homo sa­pi­ens é o ní­vel mais alto da evo­lu­ção hu­mana. Se a An­tro­po­lo­gia afirma isso, deve ser ver­dade. Mas uma ver­dade di­fí­cil de en­go­lir di­ante de fa­tos como es­ses.

No que­sito en­tre­te­ni­mento, ro­deios são sem­pre apre­sen­ta­dos em seu as­pecto gla­mo­ri­zado, como se os peões fos­sem os he­róis, e os ani­mais, os vi­lões. O ou­tro lado da mo­eda em ne­nhum mo­mento é mos­trado, os estô­ma­gos não su­por­ta­riam de­pois de ser visto o que se passa an­tes de sol­ta­rem um ani­mal na arena, mon­tado por um peão. O ani­mal não cor­co­veia por es­tar sendo mon­tado, pois nesse caso ele pa­ra­ria os sal­tos ao der­ru­bar o ca­va­leiro. Con­ti­nua, por­que o que o faz sal­tar é um ar­te­fato de couro ou crina amar­rado ao re­dor de seu corpo, pas­sando pe­los tes­tí­cu­los, e pu­xado com força no mo­mento em que ele en­tra na arena. Os ou­tros re­cur­sos para ati­çar o ani­mal, tão ou mais cruéis que esse, po­dem ser com­pro­va­dos in loco. Tudo para o “show” sair per­feito e ani­mado.

Ma­tar ou ver mor­rer, hu­mi­lhar e mal­tra­tar os ani­mais por puro pra­zer ou por di­nheiro fa­zem parte do lado som­brio do ser hu­mano. Que sabe ser cri­a­tivo, in­te­li­gente e ge­ne­roso, mas sabe tam­bém co­me­ter atro­ci­da­des que nas­cem da idéia de que ele é su­pe­rior aos ani­mais e por isso tem carta branca para lhes fa­zer o que bem en­tende. Os peões de ro­deio arriscam-se vo­lun­ta­ri­a­mente, como ocorre em qual­quer ati­vi­dade pe­ri­gosa, mas os ani­mais usa­dos por eles não têm es­co­lha. Mui­tas ve­zes, os cir­cui­tos de ro­deio são um ata­lho na es­trada que leva aos ma­ta­dou­ros, tal o es­tado em que no­vi­lhos, ca­va­los e tou­ros são dei­xa­dos de­pois de um “es­pe­tá­culo”.

Se o ar­gu­mento con­trá­rio é a ale­ga­ção de que es­sas e ou­tras mo­da­li­da­des de bar­bá­rie são uma “tra­di­ção” e como tais de­vem ser man­ti­das, pro­po­nho li­be­rar ge­ral a prá­tica da cor­rup­ção e das mu­tre­tas na nossa Re­pú­blica. Afi­nal, tra­di­ção por tra­di­ção, isso tam­bém ocorre en­tre nós desde que os des­co­bri­do­res por aqui apor­ta­ram. Ou en­tão ar­ran­jem um ar­gu­mento mais só­lido para es­ti­mu­lar a con­ti­nu­a­ção des­sas prá­ti­cas he­di­on­das con­tra ani­mais, pois até prova em con­trá­rio, são ape­nas uma ma­ni­fes­ta­ção da cru­el­dade ir­ra­ci­o­nal do tal homo sa­pi­ens.

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