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Sinais do tempo – Texto de Otávio Nunes

quinta-feira, 29 de setembro de 2005 Texto de

Tudo es­tava pronto para a grande festa anual dos si­nais grá­fi­cos. A co­mis­são or­ga­ni­za­dora, for­mada pelo ci­frão ($), pelo e co­mer­cial (&) e pe­los dois pa­rên­te­ses (( )), ti­nha de­ci­dido que os pon­tos fi­nais não se­riam con­vi­da­dos e, se vi­es­sem, não en­tra­riam. “São muito cha­tos, a todo mo­mento en­tram na con­versa dos ou­tros pa­ra­li­sando as fra­ses, que fi­cam cor­ta­das, sem sen­tido”, jus­ti­fi­cou o ci­frão.

Du­rante a festa, os si­nais for­ma­vam ro­di­nhas de bate-papo. Al­guns ale­gres, ou­tros tris­tes. A ar­roba (@), por exem­plo, era de longe a mais fe­liz en­tre os con­vi­vas. Com a In­ter­net, es­tava sendo uti­li­zada em todo o mundo. “Eu que che­guei a pen­sar que não mais se­ria usada para al­guma coisa, além do preço do boi na bolsa, eis que a In­ter­net me re­ju­ve­nes­ceu.”

O trema (¨), coi­tado, era só tris­teza. Usando sua lin­gua­gem eru­dita, la­men­tava para a crase. “Es­tou fe­ne­cendo a cada dia, so­lerte amiga. Pou­cos me uti­li­zam. Os jor­nais, en­tão, quase to­dos aboliram-me. E o pior. Às ve­zes usam-me em cima de ou­tras le­tras que não o U, em pa­la­vras de lín­guas es­tran­gei­ras, prin­ci­pal­mente as bár­ba­ras eu­ro­péias, que não pro­vêm do nosso sau­doso la­tim.” A crase, que tam­bém ti­nha seus pro­ble­mas, res­pon­deu: “E eu, que quase nin­guém sabe usar cor­re­ta­mente.”

A vír­gula, tra­jando ves­tido roxo e longo, re­al­çando suas for­mas cur­vi­lí­neas, co­men­tava com o dois pon­tos. “Caro co­lega, é im­pres­si­o­nante como tem gente que me usa em ex­cesso, me co­lo­cam até en­tre o su­jeito e o verbo. Ima­gine você, fi­quei sa­bendo de um lei­tor que fi­cou as­má­tico de­pois de ler o li­vro de um es­cri­tor que me usava em pro­fu­são.”

A festa con­ti­nu­ava. A or­ques­tra ti­rava de le­tra as mú­si­cas, os con­vi­da­dos dan­ça­vam e be­biam. O ponto de ex­cla­ma­ção (!), um dos mais es­bel­tos e ele­gan­tes, com seu smo­king preto, disse à ce­di­lha: “Pa­ra­béns por ter vindo de­sa­com­pa­nhada do C.” Ela res­pon­deu: “Você con­ti­nua o mesmo ga­lante de sem­pre e esta festa é o único lu­gar em que eu te­nho sen­tido so­zi­nha.”

De re­pente, na por­ta­ria do sa­lão, veio o ba­ru­lho de um en­tre­vero en­tre um con­vi­dado e o ponto de in­ter­ro­ga­ção (?), res­pon­sá­vel pela se­gu­rança. “Ponto fi­nal não foi con­vi­dado, não pode en­trar.”, bra­dou o in­ter­ro­ga­ção, curvando-se ao bai­xi­nho bravo. “Meu amigo, pro­cure en­ten­der, eu não sou ponto fi­nal. Sou as­te­risco (*). É que tive a hor­rí­vel idéia de pas­sar gel nos ca­be­los.”

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