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Matheus & os outros

quarta-feira, 28 de setembro de 2005 Texto de

Vi­rei tia-avó. Matheus nas­ceu em ju­nho, mas só fui conhecê-lo em me­a­dos de agosto, em sua terra na­tal, Cam­pi­nas. Coin­ci­diu de ser o dia em que ia ser va­ci­nado com uma da­que­las in­je­ções que pro­me­tem noite em claro para toda a fa­mí­lia, bum­bum ou perna du­ros e doí­dos, um pouco de fe­bre etc. Fi­quei cu­ri­osa quando soube que ele se­ria va­ci­nado numa clí­nica, já que os pos­tos pú­bli­cos de va­ci­na­ção ofe­re­ciam o mesmo ser­viço. Mi­nha so­bri­nha, mãe do Matheus, ex­pli­cou que ela sou­bera no posto de saúde que a va­cina de lá, gra­tuita, pro­vo­ca­ria mais re­a­ção e que, se ela pu­desse, de­ve­ria vaciná-lo numa clí­nica, pa­gando por uma va­cina que da­ria mui­tís­simo me­nos des­con­forto para seu fi­lhote. E fi­cou com­pro­vado: por uma quan­tia x, nada baixa, Matheus foi va­ci­nado, não fi­cou mar­cado, não pas­sou a noite em claro e não teve fe­bre. Que bom! Pena que nem to­das as cri­an­ças bra­si­lei­ras te­nham a mesma sorte do nosso Matheus.

Por­que con­ve­nha­mos: seja por ig­no­rân­cia mi­nha so­bre o as­sunto ou por um ra­ci­o­cí­nio tipo dois mais dois igual a qua­tro, fica a per­gunta que não quer ca­lar: por que a va­cina que as cri­an­ças não pa­gan­tes to­mam dói mais e pro­voca mais des­con­forto do que as va­ci­nas com­pra­das pe­las clí­ni­cas? Qual a di­fe­rença en­tre elas, além da de que uma é para cri­an­ças po­bres e a ou­tra para aque­las cu­jas fa­mí­lias po­dem pa­gar por um pro­duto di­fe­ren­ci­ado? A pro­ce­dên­cia é a mesma ou exis­tem dois for­ne­ce­do­res des­sas va­ci­nas da­das por in­je­ção? Por que o ser­viço pú­blico e as clí­ni­cas não po­dem ofe­re­cer o mesmo pro­duto? Se­ria por­que as clí­ni­cas fi­ca­riam às mos­cas? Não ne­ces­sa­ri­a­mente. Quem pre­fe­risse (e pu­desse) pa­gar para não en­fren­tar fila pro­cu­ra­ria as clí­ni­cas, mas pelo me­nos ha­ve­ria a boa no­tí­cia de que, pelo me­nos nesse se­tor da saúde, to­das as cri­an­ças bra­si­lei­ras, pa­gan­tes ou não pa­gan­tes, es­ta­riam re­ce­bendo o mesmo tra­ta­mento. Es­tou so­nhando?

Es­pero que al­gum pe­di­a­tra, al­gum di­re­tor de posto mé­dico, se­cre­tá­rio de saúde, pre­feito ou al­guém do ga­bi­nete do go­ver­na­dor es­teja lendo este meu co­men­tá­rio para dis­cor­dar de mi­nha de­du­ção. Que me diga que es­tou er­rada, que a pes­soa que deu essa in­for­ma­ção no posto de saúde es­tava mal in­for­mada (quem sabe era lo­bista das clí­ni­cas) ou me ex­pli­que que so­mente nessa re­messa de va­ci­nas houve um pro­blema qual­quer que não pôde ser re­me­di­ado pela saúde pú­blica (des­culpe o tro­ca­di­lho) etc e tal. Como eu gos­ta­ria de es­tar er­rada e que al­guém me dis­sesse por quê! Mas não com ex­pli­ca­ções e fi­ru­las como as que te­mos acom­pa­nhado nas CPIs em curso. Para usar uma pa­la­vra muito em voga, gos­ta­ria de uma ex­pli­ca­ção “trans­pa­rente” so­bre a di­fe­rença de va­ci­nas.

E haja noi­tes em claro. Por­que os bum­buns dos Matheus não pa­gan­tes con­ti­nuam a ser em nú­mero muito maior que os dos Matheus que po­dem pa­gar pe­los pe­que­nos con­for­tos. E ainda não vi­ram nada, coi­ta­dos. São ape­nas ca­lou­ros nessa guer­ri­nha par­ti­cu­lar.

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