Crônicas

Acaso de 25 anos

quinta-feira, 15 de setembro de 2005 Texto de

Num prazo de 25 anos de vida, tan­tas coi­sas são pos­sí­veis! E tan­tas ou­tras, im­pos­sí­veis! Dá tempo de cres­cer e man­dar no pró­prio na­riz. Ter um fi­lho. Ter dois fi­lhos. E mais até. Amar e odiar mui­tas ve­zes. Con­cre­ti­zar mil so­nhos de épo­cas pas­sa­das. Frustrar-se com mais mil. Formar-se pro­fis­si­o­nal. Com­prar um carro. Trocá-lo por ou­tro. Quem sabe, dois ou três. Tra­ba­lhar e per­der o em­prego, de­pois con­se­guir nova vaga, perdê-la tam­bém e recuperá-la um dia é coisa que acon­tece em 25 anos. 

Tam­bém ocorre de se so­frer com per­das. Desesperar-se. Resignar-se. Achar que está pronto para o que der e vier. Des­co­brir que sem­pre falta algo. Fa­zer pro­mes­sas. Cumpri-las e descumpri-las. Jo­gar tudo para o alto. Sair re­co­lhendo os ca­cos dá para fa­zer den­tro desse prazo.

Vinte e cinco são anos su­fi­ci­en­tes para ser amigo. Co­me­ter trai­ções. Dar ba­nho em dois ou três ca­chor­ros de muita es­ti­ma­ção. Dar ba­nho em duas ou três mu­lhe­res de muita es­ti­ma­ção. Dar ba­nho em mui­tas mu­lhe­res de pouca es­ti­ma­ção. Isso tam­bém é pos­sí­vel nesse tempo todo.

De­se­jar, de­baixo da mais pura con­vic­ção, sair de casa e, de­pois, mor­rer de sau­da­des. Quan­tos não vi­vem essa ex­pe­ri­ên­cia em 25 anos? E bri­gar com o pai? Remoer-se com as bes­tei­ras que se avo­lu­mam nas cos­tas? Es­cre­ver car­tas ou e-mails que nunca de­ve­riam ter che­gado ao des­ti­na­tá­rio? Dis­cri­mi­nar? Ser dis­cri­mi­nado? Es­pe­rar que a vida me­lhore, de­sis­tir e re­no­var a es­pe­rança?

E mais: vo­tar em três ou qua­tro pre­si­den­tes que sem­pre se tor­nam de­cep­ções. Xingá-los. Acre­di­tar que na pró­xima vez ha­verá um me­lhor. Lembrar-se do co­lega que não vê há uma dé­cada e esquecê-lo no mi­nuto se­guinte. Tro­car o ce­lu­lar pelo me­nos umas dez ve­zes. Res­pon­der a uma das mi­lha­res de pes­qui­sas de opi­nião pú­blica. Achar que elas são for­ja­das. Ga­nhar na lo­te­ria, mesmo que uma ni­nha­ria qual­quer. Animar-se com o au­mento sa­la­rial pre­visto e gas­tar tudo an­tes de re­ce­ber.

Bom, acho que esta lista pode se­guir in­fi­ni­ta­mente. De todo modo, deu para se ter uma idéia. Quem nas­ceu há 25 anos cer­ta­mente já pas­sou por tudo isso, tal­vez mais, tal­vez me­nos, mas há de identificar-se com mui­tas das si­tu­a­ções lem­bra­das.

O caso é que há 25 anos (pasme: um quarto de sé­culo!) car­rego algo que em­pres­tei e não de­volvi. Em 1980, uma pro­fes­sora de co­lé­gio emprestou-me o ma­ra­vi­lhoso li­vro “Ca­pi­tães da Areia”, de Jorge Amado. Eu o li, guardei-o para mais tarde ler de novo e ele foi fi­cando co­migo. An­dei pu­xando o fio da me­mó­ria e cal­culo que ele já te­nha mo­rado em nove ou dez ca­sas, vi­a­jado para cima e para baixo nuns treze car­ros, en­trado e saído de di­ver­sas ma­las e mo­chi­las, su­bido e des­cido de di­fe­ren­tes es­tan­tes e pra­te­lei­ras, sem­pre me acom­pa­nhando fi­el­mente.

Nesse tempo todo, eu o reli em uma oca­sião e o abri em vá­rias ou­tras para sim­ples­mente re­lem­brar tre­chos. Con­fesso que não me lem­bro quando dei­xei de con­si­de­rar a pos­si­bi­li­dade de devolvê-lo ao ver­da­deiro dono. Lembro-me ape­nas que, nos pri­mei­ros me­ses, ha­via um certo peso a incomodar-me a cons­ci­ên­cia. Recordo-me tam­bém de, mais tarde um pouco, pen­sar coi­sas do tipo: “puxa, mas já faz um bom tempo; com que cara vou devolvê-lo agora?” 

Tudo bem, te­nho a im­pres­são de que uma idéia as­sim fa­zia parte des­sas des­cul­pas que, in­vo­lun­ta­ri­a­mente, cri­a­mos para não fa­zer o que não que­re­mos. Essa crise de cons­ci­ên­cia, con­tudo, de­sa­pa­re­ceu um dia. E é desse dia que eu não me lem­bro. Quando terá sido o mo­mento em que eu de­cidi fi­car com o li­vro para mim? Acre­dito que ja­mais sa­be­rei a res­posta.

Agora, en­tre­tanto, 25 anos de­pois, ca­lhou de o li­vro chamar-me a aten­ção, desde a pra­te­leira dos ro­man­ces na­ci­o­nais, que fica bem di­ante de mim en­quanto es­crevo es­tas li­nhas. Sim, acre­dite: um li­vro tem per­so­na­li­dade su­fi­ci­ente para, de onde es­ti­ver, chamá-lo às fa­las, se isso for ne­ces­sá­rio. E as­sim o fez este ir­re­qui­eto “Ca­pi­tães da Areia”, tal­vez por­que eu não lhe dê a de­vida aten­ção há um bom tempo, tal­vez por­que, vai ver, bateu-lhe uma sau­dade in­con­tida de seu an­tigo dono, mi­nha pro­fes­sora de por­tu­guês.

De todo modo, o fato é que ao abri-lo hoje na pá­gina de rosto e ver, im­presso, bem no alto da pá­gina, com tinta de ca­rimbo, o nome dessa pro­fes­sora, tive a cer­teza de que muita coisa mu­dou em nossa re­la­ção, digo na mi­nha re­la­ção com o li­vro. Acho que nosso ca­sa­mento tornou-se mo­nó­tono nes­tes úl­ti­mos anos. Ele fechou-se para mim, eu quase não mais olhei para sua le­tri­nha gos­tosa.

Essa triste cons­ta­ta­ção enfiou-me num di­lema do qual julgo-me in­ca­paz de livrar-me tão cedo. E não é ou­tro se­não este: de­volvo o li­vro 25 anos de­pois? Eu po­de­ria enviá-lo pelo Cor­reio, en­vol­vido num bo­nito pa­pel de pre­sente, com la­ços ele­gan­tes. A an­tiga man­te­ne­dora da obra de­sem­bru­lha­ria o pa­cote sem com­pre­en­der di­reito do que se trata, de onde vi­ria um pre­sente as­sim ines­pe­rado. Mil con­je­tu­ras pas­sa­riam por sua ca­beça. Nes­tes tem­pos ma­lu­cos, ela po­de­ria pen­sar até numa carta-bomba de al­gum ex-aluno in­con­for­mado com um zero na prova de con­ju­ga­ção ver­bal. Ou, quem sabe, ela ima­gi­nasse a re­ve­la­ção de um amor platô­nico. Mas o certo é que ao fi­nal, so­bra­ria a sa­bo­rosa emo­ção de um re­en­con­tro com­ple­ta­mente inu­si­tado. Acho que ela o en­cos­ta­ria ao peito e o sen­ti­ria pul­sar de fe­li­ci­dade. Tam­bém acho que ela fi­ca­ria fe­liz. En­tão, ela ten­ta­ria des­co­brir onde ti­nha ido pa­rar aquele li­vro per­dido há tan­tos anos. E o car­tão, breve, co­me­ça­ria as­sim: “Cara pro­fes­sora, devolvo-lhe o li­vro que to­mei em­pres­tado ou­tro dia. Ado­rei a lei­tura. Pode emprestar-me ou­tro?”

Bem, até que um fi­nal as­sim se­ria bas­tante justo. Mas, te­nho de ad­mi­tir, a de­ci­são so­bre tal des­fe­cho terá de fi­car para de­pois. An­tes, ainda hoje mesmo, quero to­mar essa bel­dade em meus bra­ços e levá-la para cama. Deito-me por baixo e a co­loco por cima. An­tes de tudo, quero cheirá-la. De­pois, com o de­sejo me con­su­mindo, devo abri-la de­li­ca­da­mente, fazendo-a de­sa­bro­char no­va­mente para mim. A cada ins­tante, um pra­zer que não se ex­plica será ca­paz de levar-me a um êx­tase que du­rará noi­tes se­gui­das. Só de­pois de possuí-la uma vez mais, am­bos sa­ci­a­dos em nos­sas se­cre­tas fan­ta­sias, é que tor­na­rei a pen­sar no as­sunto da de­vo­lu­ção. O que eu posso fa­zer? Nós, aman­tes in­cor­ri­gí­veis, so­mos egoís­tas. Quando nos afun­da­mos em pá­gi­nas as­sim, não pen­sa­mos em mais nada.

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