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O relógio – Texto de Otávio Nunes

terça-feira, 30 de agosto de 2005 Texto de

Do­ri­vál­ter olhou para o ca­len­dá­rio e no­tou que seu fi­lho fa­ria de­zoito anos na se­mana se­guinte e sen­tiu a sau­dade cor­tar suas veias e pe­ne­trar no co­ra­ção. Não via o ga­roto desde que este ti­nha cinco anos. Na época, Dori foi obri­gado a fu­gir de São Paulo, dei­xando a es­posa Me­ri­leide e o me­nino Pau­li­nho.

Na­quela época, Dori e dois ami­gos pla­ne­ja­ram as­salto a uma re­si­dên­cia em Hi­gi­e­nó­po­lis. Eles sa­biam tudo so­bre o co­ti­di­ano da casa e a hora em que ncon­tra­riam ape­nas a em­pre­gada. Deu quase tudo certo. No mo­mento em que dei­xa­vam o lo­cal, com vá­rios dó­la­res e jóias, apa­re­ceu a po­lí­cia. Só ele con­se­guiu fu­gir, pu­lando um muro alto e caindo den­tro do Hos­pi­tal da Santa
Casa, escondendo-se en­tre as mi­lha­res de pes­soas que por ali pas­sam to­dos os dias. Na queda, ma­chu­cou dois de­dos do pé, mas con­se­guiu cu­rar o fe­ri­mento o pró­prio hos­pi­tal.

Fi­cou uma se­mana es­con­dido e soube que sua casa e sua fa­mí­lia es­ta­vam sendo vi­gi­a­das cons­tan­te­mente por po­li­ci­ais. En­tão, re­sol­veu fu­gir para o Norte. 

As­sal­tou, so­zi­nho, uma pa­da­ria e uma far­má­cia. Jun­tou di­nheiro e par­tiu para uma ci­dade dis­tante que nem ele mesmo co­nhe­cia, dei­xando Me­ri­leide e Pau­li­nho. Abriu um bo­teco na ci­da­de­zi­nha e por lá fi­cou, ado­tando ou­tro nome. Co­nhe­ceu Nan­cí­lia e pas­sou a vi­ver com ela. Po­rém, não ti­ve­ram fi­lhos, ape­nas a me­nina que a mu­lher trou­xera do ca­sa­mento an­te­rior.

Por anos e anos, a fi­gura de Pau­li­nho nunca saiu de sua ca­beça. Pre­ci­sava ver o ga­roto no­va­mente. Com Me­ri­leide não se im­por­tava. Ela, como ele, já es­tava ar­ru­mada com ou­tro. Sa­bia por­que li­gava para a ex-mulher duas a três ve­zes por ano. 

Para Dori, era su­fo­cante por de­mais ima­gi­nar o fi­lho sendo cri­ado pelo pa­drasto. Pen­sou. Pen­sou. E de­ci­diu vol­tar a São Paulo. De­pois de tanto tempo, não pre­ci­sava mais te­mer a po­lí­cia. Te­le­fo­nou para a Me­ri­leide e deu a no­tí­cia de seu re­torno mo­men­tâ­neo. Le­va­ria um pre­sente de ani­ver­sá­rio para
Pau­li­nho.

Em São Paulo, des­ceu do ôni­bus à noite e pro­cu­rou pela rua. Quando ali vi­via, era um lo­cal de­serto. Agora, a fa­vela enorme cres­cia pelo des­cam­pado. A rua onde mo­rou tro­cou o an­tigo nú­mero por um nome im­po­nente que ele mal con­se­guiu pro­nun­ciar.

Con­tudo, para che­gar até lá, ti­nha de atra­ves­sar ru­e­las es­cu­ras da fa­vela. De re­pente, um ra­paz com gorro na ca­beça, ócu­los es­cu­ros, ape­sar da noite, e uma ca­mi­seta da se­le­ção bra­si­leira apontou-lhe o re­vól­ver. O la­drão le­vou seu di­nheiro, a sa­cola com a ca­misa que da­ria ao fi­lho e o re­ló­gio, o mesmo que Do­ri­vál­ter ti­nha fur­tado na man­são de Hi­gi­e­nó­po­lis, ha­via tan­tos anos. 

Che­gou à casa can­sado e triste. Me­ri­leide nem o abra­çou. Ape­nas abriu o por­tão e o con­vi­dou para en­trar. Disse que Pau­li­nho vol­ta­ria logo e seu ma­rido es­tava no bo­teco jo­gando bi­lhar. Dori sentou-se no sofá e per­gun­tou tudo que po­dia so­bre o fi­lho. In­fe­liz­mente, o ra­paz ti­nha aban­do­nado a es­cola e fi­cava fora o dia todo sem di­zer onde ti­nha ido. Dori pen­sou que a ex-companheira, após ter mais dois fi­lhos com o novo ma­rido, re­la­xara na edu­ca­ção de Pau­li­nho.

”Logu que ficô sa­benu que ocê ia vortá, disse que ia fazê um bico, en­chê uma laji, pra ga­nhá di­nheru e com­prá um pre­senti procê”, disse Me­ri­leide ao ex-marido. 

En­quanto os dois con­ver­sa­vam na sala, um ga­roto en­trou su­til­mente na co­zi­nha, re­ti­rou o gorro da ca­beça e os ócu­los es­cu­ros. De­pois, pe­gou o re­ló­gio e pas­sou sua ca­mi­seta ama­rela so­bre o vi­dro, para lim­par. Pau­li­nho achou que seu pai gos­ta­ria da­quele pre­sente.

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