São Paulo, ju­nho de 1942

Os três ho­mens vol­ta­vam para casa de­pois de um dia de tra­ba­lho. A vila fi­cava afas­tada da ci­dade e era emol­du­rada pela farta na­tu­reza das his­tó­rias an­ti­gas: a es­trada de terra, o céu muito azul, as ár­vo­res fron­do­sas, tal­vez um ri­a­cho de águas cris­ta­li­nas (a des­cri­ção é um cli­chê, mas a re­a­li­dade não). 

Os três ho­mens vol­ta­vam para casa de­pois de um dia de tra­ba­lho, quando um ca­chorro sur­giu na es­trada lá adi­ante, do­brando a curva. Era um tipo co­mum – de porte mé­dio e pêlo curto. Só a ex­pres­são do seu olhar não era vul­gar: como um ex­pa­tri­ado, o ca­chorro ob­ser­vava o grupo com uma per­tur­ba­dora cu­ri­o­si­dade. E com um las­tro de des­te­mor. Por isso mesmo, a três me­tros dos ho­mens, não des­viou sua rota, pas­sando por eles como se não exis­tis­sem.

Im­pres­si­o­nado, o trio es­tan­cou e fez a meia-volta: aquele era um ca­chorro in­co­mum! Por que não sen­tia pa­vor dos ho­mens? Por que não os cir­cun­dara, hu­milde e re­sig­nado, como um ou­tro de sua es­pé­cie? Es­ta­ria louco? No mesmo mo­mento, o ca­chorro tam­bém pa­rou. E se vi­rou. Fi­ca­ram frente a frente, os três ho­mens e o ani­mal, como num en­saio de du­elo. En­tão, acon­te­ceu: len­ta­mente, o ca­chorro co­me­çou a de­sa­pa­re­cer. Foi se es­vaindo sem pressa, per­dendo o con­torno e a con­sis­tên­cia, até so­brar só a cara, de­pois os olhos, de­pois mais nada. 

Os três ho­mens que vol­ta­vam para casa de­pois de um dia de tra­ba­lho não co­men­ta­ram o as­sunto. Nem mesmo en­tre eles, pois se di­zia de mau agouro pro­fa­nar as apa­ri­ções. O ca­chorro vol­tou ao seu mundo, um mundo pa­ra­lelo, e nunca en­ten­deu por que os ho­mens não ha­viam feito o mesmo. Pa­rece até que che­gou a pen­sar: – será que va­lia a pena vi­ver cer­cado de ilu­sões?

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