Crônicas

As duas faces da morte

segunda-feira, 15 de agosto de 2005 Texto de

Um pro­ve­dor de in­ter­net, se não me en­gano o UOL, fez um anún­cio por es­tes dias para di­vul­gar seu ser­viço de e-mail e lan­çou mão de um ve­lho e efi­ci­ente re­curso, que di­fi­cil­mente deixa de cha­mar a aten­ção das pes­soas: a pi­ada que usa a morte. O ra­paz chega todo brin­ca­lhão a um certo lu­gar e, não tendo re­ce­bido a tempo uma men­sa­gem ele­trô­nica, des­co­nhece que ali há o ve­ló­rio de al­guém. Ao per­ce­ber o fora, ele fica en­ca­bu­lado, e os de­mais, cons­tran­gi­dos.

É cu­ri­osa a re­la­ção do ser hu­mano com a ve­lha se­nhora que, ves­tida de preto, anda por aí, ar­ro­gante, com a foice à mão. Tão cu­ri­osa que, às ve­zes, vira mo­tivo de cha­cota, como trata o co­mer­cial feito para a te­le­vi­são.

Na ci­dade em que eu nasci, por exem­plo, um ve­lhi­nho muito co­nhe­cido ado­rava es­tar em meio a ro­di­nhas de co­nhe­ci­dos, ou des­co­nhe­ci­dos, na maior parte do tempo to­cando seu pan­deiro, sem­pre le­vado a ti­ra­colo. Numa noite, vol­tando do bar, de onde a fre­gue­sia já ti­nha se man­dado, avis­tou do ou­tro lado da rua uma pe­quena reu­nião. Em­ba­lado pe­los bons flui­dos do samba e da noite en­lu­a­rada, não teve dú­vi­das: che­gou ba­tu­cando para ani­mar a con­versa. Só den­tro da sala é que foi per­ce­ber que se tra­tava de um ve­ló­rio. Os pa­ren­tes do de­funto saí­ram com ele nas cos­tas.

Numa ou­tra oca­sião, o su­jeito mor­reu e a fa­mí­lia, como era cos­tume até há um certo tempo, de­ci­diu fa­zer o ve­ló­rio em casa. Tudo cor­reu den­tro dos con­for­mes. Pas­sou a noite, che­gou a ma­nhã e logo deu a hora do en­terro. Fez-se a reza e os pa­ren­tes se des­pe­di­ram. Era che­gado o di­fí­cil mo­mento em que se fe­cha o cai­xão. O agente fu­ne­rá­rio, en­tão, foi bus­car a tampa, que ge­ral­mente fi­cava es­con­dida atrás da porta. Mas qual! Que tampa, que nada, ora essa! Formou-se um pe­queno tu­multo, até que al­guém trouxe a in­for­ma­ção: a tampa do cai­xão ti­nha vi­rado car­ri­nho de ro­lemã – o pre­cur­sor ju­rás­sico do skate – e a mo­le­cada es­tava num in­can­sá­vel sobe-e-desce na rua ín­greme que pas­sava ao lado.

Tam­bém já houve de, no meio da tris­teza do ve­ló­rio, al­guém se atra­pa­lhar na hora de dar os pê­sa­mes e cum­pri­men­tar a viúva com um inu­si­tado “pa­ra­béns”. Ou­tra: na porta do ce­mi­té­rio, após acom­pa­nha­rem um en­terro, o amigo novo diz para o mais ve­lho: “Ei, Fu­lano, logo é você, hein?” Tudo isso é fato, não existe in­ven­ção aqui, em­bora possa ha­ver um ou ou­tro ajuste ne­ces­sá­rio.

No co­meço do sé­culo pas­sado, época em que, nos en­ter­ros dis­tan­tes da zona ru­ral, era co­mum o de­funto ser le­vado ao tú­mulo ape­nas por um car­ro­ceiro con­tra­tado para o ser­viço, um pa­rente de mi­nha fa­mí­lia che­gou com sua car­roça ao ce­mi­té­rio e quando se deu conta, ti­nha per­dido o corpo pelo ca­mi­nho. Ló­gico, ele vol­tou, re­co­lheu os res­tos mor­tais da ví­tima e levou-os para o co­veiro dar conta de fi­nal­mente enterrá-los.

Para ter­mi­nar, uma es­ca­to­ló­gica. Eu era re­pór­ter numa ci­dade do in­te­rior de São Paulo e um dia re­cebi a su­ges­tão para a ma­té­ria. A ve­lhi­nha mor­reu de re­pente. Feito o ve­ló­rio, an­tes que fe­chas­sem o cai­xão, o ve­lhi­nho ma­rido pe­diu li­cença e, com ex­tremo zelo, abriu a boca da com­pa­nheira e retirou-lhe a den­ta­dura da ar­cada in­fe­rior. Na ver­dade, os den­tes eram dele. Fi­zera o em­prés­timo ape­nas por uma ques­tão de es­té­tica pós­tuma.

Bom, se você está es­pe­rando al­gum des­fe­cho para este texto, do tipo que ana­lisa nossa re­la­ção com a morte, ou, tal­vez, uma es­pé­cie de mo­ral da his­tó­ria, de­sista. Não digo nada que não seja ape­nas isto: não vejo graça ne­nhuma nessa tal.

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