O An­dré Ba­li­eiro lem­bra disso tudo e muito mais… 

Na­quele tempo…
Uma vez desdobrou-se e com­prou um ki­chute, o ca­derno de capa dura fi­cou para ou­tro mês. Se De­se­nho­cop era im­pen­sá­vel, pelo me­nos as fo­lhas de seda que­bra­vam o ga­lho. Ou­tra vez as­sis­tiu Per­di­dos no Es­paço e se in­tri­gou com o jeito do Dr. Smith. “Na­ti­o­naro Kido” era o he­rói. Mo­na­reta dava briga com o co­lega de co­bran­ças imo­bi­liá­rias, até che­ga­rem a um acordo para pe­da­lar nos fins de se­mana.

Ovo­mal­tine é que dava ener­gia e Light era pa­la­vra in­tra­du­zí­vel. Di­ta­dura lem­brava co­zi­nheira gran­dona, a “car­de­neta” fun­ci­o­nava no bar­zi­nho… De vez em quando ga­nhava um ex­tra re­ser­vando banco no trem que vi­nha de Garça, fu­mando Ari­zona (com­prado solto). Mais uma vez as­sis­tiu Terra dos Gi­gan­tes, fi­cou de­sa­tento e es­pa­lhou “mer­ti­o­late” pelo as­falto. Água oxi­ge­nada, mer­cú­rio cromo e “pó-patapataio” era a re­ceita. E fun­ci­o­nava.

A te­le­vi­são era Te­le­fun­ken RQ (vi­nha com re­serva de qua­li­dade), o sofá já ran­gia, guardava-se tudo (ou quase tudo?) na pe­çona, o be­li­che era “pros mano” e as san­dá­lias ha­vai­a­nas não ti­nham cheiro nem sol­ta­vam as ti­ras. Bom mesmo era gua­raná An­tarc­tica ca­çu­li­nha e san­duí­che de mor­ta­dela. Ha­via me­nos men­di­gos, a Lili era uma ca­dela bo­nita e circo, Or­lando Or­fei. Mato Grosso era o pa­raíso (On­ci­nha a pinga), lelé da cuca o de­sa­jus­tado, OVNI prato de louça e o Seu Ca­neca, o pro­fes­sor par­dal.

Qua­dri­nhos era gibi, gos­tosa a moça da Ca­pi­tão e es­ca­moso o fi­lho do den­tista. E os mi­li­cos chei­ra­vam as mãos dos sus­pei­tos, mas the best mesmo era o Pat­chuli.

Tur­vas fo­ram as Águas Cla­ras, grande era o quin­tal, a Ro­do­viá­ria na Ma­chado de Melo e a Vila In­de­pen­dên­cia uma aven­tura!

Alta era a es­cada de tro­car lâm­pa­das da Es­ta­ção Fer­ro­viá­ria. Pato fu­gia, porco en­gor­dava, ga­bi­roba ti­nha no ca­mi­nho do ae­ro­porto, quando se ia ver a Es­qua­dri­lha da Fu­maça no ani­ver­sá­rio da ci­dade.

Festa de ca­sa­mento só com chur­rasco, em­baixo de lona, e bolo da festa, no café da ma­nhã, só uma vez na vida. For­mi­gueiro era a zona. Ter­ror, o Zé do Cai­xão. E o Pon­ci­ano do Jui­zado de Me­no­res.

De noite, atra­ves­sar a pin­guela era pe­ri­goso. E a Mon­se­nhor ter­mi­nava num su­bi­dão, de terra, numa casa chi­que.

Quem ti­nha cara grande não cus­pia pra cima, brin­ca­deira era a dan­çante e a equipe, de som e luz. Gol era de placa, rá­dio de vál­vula, e pra se che­gar em Bo­ra­céia só de jipe, com o seu Adauto, pai do Dou­glas, que mo­ra­vam no único so­brado do quar­tei­rão.

DKV so­cor­ria, e pra ir ao Coun­try Clube só de Gor­dini. Fis­cal era pes­soa, Amé­rico o açou­gueiro e Sesi a es­cola.

Di­nheiro era ver­me­lho e todo la­drão pu­lava muro. Hino? O do Ins­ti­tuto, aula Ar­tes In­dus­tri­ais, leite o de sa­qui­nho e ar­te­sa­nato o de cro­chê.

Bar­nabé não era can­tor, Pau­lista não era lo­te­ria, pro­fes­sor não era tio, Ci­en­tí­fico não era curso e eco­lo­gia lem­brava acús­tica.

Nin­guém mo­rava na fi­lo­so­fia. Se Ma­omé não ia à mon­ta­nha, ia à praia, e quem dava aos po­bres (po­bres bis­ca­tes), pa­gava a conta da pen­são, ape­sar de ha­ver va­gas para mo­ças de fino trato. 

Ator só com voz de ouro, prata e bronze. A guerra do Pa­ra­guai foi san­grenta, mi­la­gre só com o papa e ge­ne­ral, mas peido mesmo era com o Tio Duí­lio. Preto era preto, branco era branco, loi­ras bo­ni­tas e não exis­tiam rui­vas.

Es­tu­pro era “es­trupo” e nin­guém sabe quem ma­tou Mara Lú­cia. As Lei­las já se sabe. Sor­vete era o de Itu e pro­pa­ganda era re­clame.

Pi­o­neiro era Ba­den Powell (sem­pre alerta) e bom mesmo era o da­ti­ló­grafo. He­rói mesmo era o bom­beiro, fi­lho da puta tam­bém era la­za­rento, a mãe era da rua, brin­ca­deira de mé­dico era par­ti­cu­lar e Ba­bel era a torre. 

Sete era conta de men­ti­roso, Bi­boca era bar e todo mundo era fe­liz pra sem­pre.
Al­guém se lem­bra?

(Texto ori­gi­nal gen­til­mente ce­dido por An­dré Ba­li­eiro, mo­ra­dor – e “lem­bra­dor” – em Bauru)

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