Crônicas

Gosto mesmo é daqui

sexta-feira, 22 de julho de 2005 Texto de

De onde eu ve­nho, e tal­vez nou­tros can­tos, há um cos­tume cu­ri­oso e pas­si­o­nal. Os ha­bi­tan­tes do lu­gar vi­vem mal­tra­tando a ter­ri­nha, di­zendo isso e aquilo, de­san­cam até a pró­pria sorte, mas se uma pes­soa de fora faz o mesmo, alto lá: o ar cheira a pól­vora. Tal pro­ce­di­mento in­cauto do fo­ras­teiro pode ser até mo­tivo de briga, e de briga feia, pois um acinte desse não é brin­ca­deira.

An­dei me lem­brando desse com­por­ta­mento es­tra­nho, mas ver­da­deiro, por es­tes úl­ti­mos dias. Em casa mesmo, nas ho­ras de in­su­cesso, há quem pro­clame o Acre um ótimo lu­gar para se vi­ver. Em ou­tras oca­siões, é Ro­raima ou o Ma­ra­nhão. Não digo que se­jam nem que não se­jam, mas es­tão longe pra burro, eis o que pri­meiro me passa pela ca­beça.

Ainda na se­mana que pas­sou, por uma des­sas coin­ci­dên­cias, uns ami­gos con­fes­sa­vam o de­sejo de um dia mo­rar no Nor­deste, tal­vez quando se apo­sen­ta­rem, sei lá. Um ou­tro dis­cor­dava. Para ele, o me­lhor é ar­ru­mar as ma­las e ir vi­ver no sul, em Santa Ca­ta­rina ou no Rio Grande.

De mi­nha parte, agra­deço gen­til­mente. Sul e Nor­deste têm ma­ra­vi­lhas que pa­re­cem so­nho. No en­tanto, tam­bém reú­nem suas des­gra­ças como qual­quer ou­tra re­gião bra­si­leira. Perdoe-me, mas, para mo­rar, eu gosto mesmo é da­qui, do in­te­rior de São Paulo, sem ne­nhuma ofensa a tan­tos pe­da­ços fa­bu­lo­sos da pá­tria mãe, as­sim como eu, gen­til.

Não me com­pre­enda mal. Faço ques­tão de ex­pli­car: não cuspo no prato que um dia po­de­rei co­mer. En­tre­tanto, o que eu posso fa­zer se gosto mesmo é da­qui, de fin­car pé aqui?

Eu gosto do cer­rado que se perde das vis­tas ainda em mui­tos tre­chos da nossa ge­o­gra­fia. Gosto dos bois bran­cos e dos ca­va­los ver­me­lhos pas­tando na beira das ro­do­vias e mesmo dos pa­chor­ren­tos ca­na­vi­ais que se di­la­tam mundo afora. Tam­bém me en­leva o cheiro doce das flo­ra­das vi­go­ro­sas das la­ran­jei­ras quando a tarde cai.

Pe­las ár­vo­res so­li­tá­rias que res­tam da de­vas­ta­ção, morro de amo­res. E do que di­zer das flo­res miú­das de São João que en­fei­tam dum ver­me­lho vivo o mato verde no in­verno? Eu po­de­ria aban­do­nar mi­nha planta pre­di­leta?

O tatu afoito que atra­vessa, in­sen­sato, a ro­do­via, ex­pulso pela in­va­são es­nobe do ho­mem me­do­nho, cos­tuma le­var meu co­ra­ção do trote ao ga­lope. Gosto dele, sim. O ga­vião ca­ça­dor, por sua vez, é algo que me en­tu­si­asma e a le­bre me co­move, não me per­gunte o porquê. O la­garto me aflige e a co­dorna me cons­terna, desculpe-me se não jus­ti­fico.

Paro nos pon­ti­lhões ou num monte qual­quer para ver o trem pas­sar. Mesmo su­ca­te­ado, ele é char­moso. Em seus tri­lhos trê­mu­los, per­siste a es­pe­rança do re­torno.

O céu claro de todo dia, con­fesso, às ve­zes me en­joa. Sou, por na­tu­reza, meio acin­zen­tado. Ao con­trá­rio dos ca­ri­o­cas, adoro os dias nu­bla­dos, mas, se presto aten­ção, es­tes tam­bém exis­tem por aqui.

Gosto das ci­da­des pe­que­nas com uma igreja no meio e do jeito bom dessa gente toda. De seus ve­lhos nos ban­cos das pra­ças e de seus no­vos nas pra­ças dos ban­cos. Não me lem­bro quando sen­tei pela úl­tima vez num des­ses. Ama­nhã fa­rei isso.

Gosto dos ri­a­chos que se põem es­trei­tos a cada bai­xada e dos bam­bu­zais que se ba­lan­çam mei­gos a cada vento. Dos eu­ca­lip­tos chei­ro­sos e dos lei­tei­ros in­tru­sos. Dos la­gos e das la­goas.

Tam­bém gosto dos uru­bus que pla­nam lá em cima com a aten­ção nas car­ca­ças aqui em­baixo.

Es­sas bor­ra­cha­rias de beira de es­trada cujo bor­ra­cheiro nunca está lá são va­li­o­sas nem que só mesmo pe­las le­tras que vão caindo da pa­rede. Eu as na­moro, e penso um dia ter uma. Tam­bém nunca vou es­tar lá.

O resto dos ca­fe­zais me deixa de vez ena­mo­rado.

A agi­ta­ção da noite pouco me con­vida. Sou qui­eto, no meu canto. Mas eu gosto dela tam­bém. As lu­zes que pis­cam dis­tan­tes na ma­dru­gada ador­nam meus de­va­neios. De­pois de ver a roça, nada como dor­mir na ci­dade.

Mas o que eu gosto mesmo é do ca­pim gor­dura ar­ro­xe­ado que co­lore os cam­pos e não se vê de noite. Aque­las pri­ma­ve­ras que, si­nu­o­sas e des­ca­ra­das, vão to­mando para si o arame das cer­cas, está aí ou­tra coisa que eu gosto. Dos ipês e de tudo quanto é planta por aí, do mesmo modo.

Gosto do vi­veiro e da ra­posa, do ou­riço e dos ca­chor­ros, do co­qui­nho em ca­cho e dos pe­ri­qui­tos, dos ca­quis e do sa­nhaço, da plan­ta­ção e do es­pan­ta­lho. Gosto do pás­saro preto e do chu­pim, do mi­lho e das ga­li­nhas, da pa­lha e dos pom­bos, do barro e do João. O vira-lata sou eu, muito pra­zer.

Gosto da ca­cho­eira e das pe­dras, da ponte e das tá­buas, da égua e do arado, da porta e da por­teira, do tra­tor e da terra, do carro e do as­falto, do peão e do ope­rá­rio. Gosto do on­tem e do hoje, da sau­dade e da es­pe­rança.

Já fa­lei de muito que eu gosto, mas muito mais ainda há. Do que eu não gosto, não digo. Os fo­ras­tei­ros que fi­quem com a atri­bui­ção. Não, de ma­neira ne­nhuma pre­tendo bri­gar com eles. Sou con­victo de mi­nhas pai­xões. Gosto da­qui e pronto. Só uma ver­dade é que posso re­ve­lar e dela de­ci­di­da­mente não gosto nem um pouco. É que gosto tanto da­qui e ao mesmo tempo pre­ciso acei­tar que ja­mais, nunca da silva, sa­be­rei se da­qui gosta de mim.

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