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Reciclagem neles

segunda-feira, 18 de julho de 2005 Texto de

Ao me­nor si­nal de es­cân­dalo, apela-se logo para uma CPI. Muita in­dig­na­ção, acu­sa­ções pela mí­dia, la­va­gem de honra, de di­nheiro e de roupa suja. Mas quando se vai con­fe­rir o re­sul­tado, lá se fo­ram tempo, es­pe­rança e di­nheiro pú­blico em vão. Quase tudo fogo de pa­lha. No apa­gar das lu­zes, ape­nas a as­si­na­tura do di­abo e, no ar, um chei­ri­nho de en­xo­fre, quer di­zer, de mus­sa­rela e oré­gano.

Cogita-se, en­tão, de pri­va­ti­zar os tais ele­men­tos, com lei­lão e tudo. “Quem dá mais? Um se­na­dor en­vol­vido com nar­co­tra­fi­can­tes” ou “Um juiz com pou­pança clan­des­tina na Suíça” e ou­tros mi­mos se­me­lhan­tes. Dis­tri­bui­ção de ca­tá­lo­gos com fo­tos dos lei­loá­veis, frente e per­fil, além de fo­lha cor­rida e an­te­ce­den­tes. Cu­nha­dos, ma­ri­dos, ir­mãos e só­cios, ofe­re­ci­dos como brin­des. Mas a idéia tam­bém não fun­ci­ona. Nin­guém quer in­ves­tir em pe­ças tão pouco no­bres.

Tenta-se, ainda, a Bolsa de Va­lo­res: to­dos os mu­tre­tei­ros trans­for­ma­dos em ações ao por­ta­dor. Mas quem quer ser por­ta­dor de ações já tão des­va­lo­ri­za­das, sem ne­nhuma li­qui­dez no mer­cado? Ri­fas, pro­mo­ções do tipo leve-5-e-pague-3, ações en­tre muy ami­gos, mas nada dá va­zão ao nú­mero de pa­péis po­dres jo­ga­dos no mer­cado.

Resta, en­tão, a úl­tima car­tada, mo­derna e eco­lo­gi­ca­mente cor­reta: re­ci­cla­gem ne­les! Para a enorme de­manda, vá­rias usi­nas de re­ci­cla­gem e com­pos­ta­gem es­pa­lha­das pelo país es­pe­ram pela matéria-prima. Fa­min­tas por um li­xi­nho novo, as usi­nas es­tre­me­ce­riam de pra­zer ao re­ce­be­rem em suas en­tra­nhas a fina flor da mo­ral na­ci­o­nal. E no fi­nal do pro­cesso, a po­pu­la­ção te­ria acesso a pro­du­tos re­ci­cla­dos, bem mais úteis e ba­ra­tos aos co­fres pú­bli­cos e ao bolso da ga­lera pa­gante do que fun­ci­o­ná­rios ca­rís­si­mos, ino­pe­ran­tes e de fo­lha cor­rida tão limpa quanto um pau de ga­li­nheiro. To­dos te­riam acesso a pa­péis de múl­ti­plos usos, ob­je­tos de co­zi­nha, vi­dros e adu­bos, o que fosse ne­ces­sá­rio. Tirando-se a es­có­ria de cir­cu­la­ção, o país sai­ria ga­nhando e o usuá­rio te­ria em mãos pro­vas vi­vas de que a Jus­tiça não tarda nem fa­lha.

E numa mesa de bar, por exem­plo, en­tre um chope e ou­tro, se ou­vi­riam co­men­tá­rios do tipo: “Essa tu­lipa na sua mão era o Mi­nis­tro Tal, con­de­nado por su­per­fa­tu­ra­mento” ou “Tá vendo aquele guar­da­napo co­lo­rido? Era aquele se­na­dor que dei­tou e ro­lou no trá­fico de in­fluên­cia” ou ainda “Esse pa­lito de chur­ras­qui­nho era aquele ve­re­a­dor que usou a verba da me­renda es­co­lar pra com­prar um ja­ti­nho pra fa­mí­lia” e as­sim por di­ante. Nas es­co­las e uni­ver­si­da­des, a Mo­ral e a Ética sai­riam da te­o­ria e pas­sa­riam a ser ilus­tra­das com exem­plos con­cre­tos. E a im­pu­ni­dade – aquela, lem­bra? – fi­ca­ria re­le­gada a uma pá­gina re­ci­clada no Mu­seu His­tó­rico Na­ci­o­nal.

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