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Napoleão – Texto de Otávio Nunes

segunda-feira, 27 de junho de 2005 Texto de

O ma­rido en­trou em casa e es­cu­tou o re­clamo da mu­lher. “Até que en­fim você che­gou. Es­tava com medo de fi­car so­zi­nha com nosso fi­lho pe­queno.” Ele de­sa­bou o corpo no sofá e per­gun­tou. “O que acon­te­ceu, que­rida?” Ner­vosa e ges­ti­cu­lando, ela con­tou que a casa do vi­zi­nho da es­quina ti­nha sido rou­bada por dois la­drões, que le­va­ram ele­tro­do­més­ti­cos, di­nheiro e jóias. 

“Há tem­pos que ve­nho pe­dindo a você para com­prar um ca­chorro, da­quele bem fe­roz, para pro­te­ger nossa casa. O vi­zi­nho da es­quina não ti­nha um e veja só o que acon­te­ceu”, jus­ti­fi­cou a mu­lher, e as­sim co­me­ça­ram mais uma dis­cus­são. O as­sunto da que­rela pas­sou a ser o ca­chorro. “Você pre­cisa com­prar um”, es­bra­ve­jou a mu­lher.

Ele não gos­tava de bi­cho em casa. In­ven­tava mil coi­sas para mos­trar a ine­fi­cá­cia de um ca­chorro no quin­tal. “Faz ba­ru­lho, cocô, come ra­ção cara, ar­ra­nha o carro. En­fim, é um trans­torno.” Mas não teve jeito. Seus ar­gu­men­tos ca­pi­tu­la­ram frente à in­sis­tên­cia da es­posa. No sá­bado se­guinte, es­ta­vam os dois num ca­nil es­co­lhendo o bi­cho mais bravo dali. 

“Gos­tei da­quele ne­gro. Tem cara de ruim”, disse a mu­lher ao dono do ca­nil. O ho­mem ex­pli­cou a ela que era um do­ber­mann cha­mado Na­po­leão e se tra­tava de um cão com­pli­cado, que nin­guém que­ria. “É por isso que eu quero”, res­pon­deu a mu­lher, re­so­luta. A con­tra­gosto, o ma­rido le­vou Na­po­leão para casa, mas pe­diu que o dono do es­ta­be­le­ci­mento o acom­pa­nhasse. Sen­tia medo do ani­mal.

No do­mingo, nin­guém saiu de casa. Nem para com­prar pão quente na pa­da­ria. Co­me­ram pão mur­cho do dia an­te­rior. Cada vez que al­guém pu­nha o pé para fora, no quin­tal, Na­po­leão ros­nava, mos­trava seus den­tes pon­ti­a­gu­dos e ba­bava feito qui­abo cor­tado.

Na segunda-feira, a mesma coisa. O ma­rido não foi tra­ba­lhar. Li­gou para o chefe e deu uma des­culpa qual­quer. Não agüen­ta­vam mais fi­car en­clau­su­ra­dos em casa por causa de Na­po­leão.

“Vou dar um tiro neste mal­dito ca­chorro”, gri­tou o ho­mem. “Você não tem arma em casa. E mesmo se ti­vesse, du­vido que fa­ria isto. Você não tem co­ra­gem de ma­tar nem o pul­gão que está in­fes­tando nossa horta de couve, que a esta hora o Na­po­leão já deve ter des­truído”, disse a mu­lher.

“O que fa­re­mos?”, per­gun­tou o ma­rido. “Nada”, res­pon­deu a es­posa. “Não vê que agora es­ta­mos se­gu­ros? Com o Na­po­leão aí fora, ne­nhum la­drão en­tra em casa.” 

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