Contos

Abraços e santinhos

quarta-feira, 16 de março de 2005 Texto de

Aqui, quase to­dos se di­zem ino­cen­tes. Mesmo quando ad­mi­tem o crime, ale­gam, den­tro de sua vi­são par­ti­cu­lar dos acon­te­ci­men­tos, cir­cuns­tân­cias que, ao fi­nal, são ca­pa­zes de jus­ti­fi­car quais­quer atos pra­ti­ca­dos. O su­jeito ti­rou a vida da mu­lher, mas na ver­dade não que­ria fazê-lo. Ou­tro rou­bou o banco e no corre-corre ma­tou um cli­ente alheio às suas in­ten­ções, mas por culpa do re­vól­ver, que dis­pa­rou. Co­nheço al­guns que nada fi­ze­ram de grave para me­re­cer o cár­cere: es­tão cum­prindo pena por en­gano. Tam­bém ouço in­si­nu­a­ções so­bre tra­mas ma­qui­a­vé­li­cas le­va­das a cabo em de­tri­mento de ino­cen­tes.

Quem sabe onde está me­tida a ver­dade em meio a tan­tas bo­cas que a pro­nun­ciam com in­sis­tên­cia? Quem pode des­co­brir a men­tira? Um ve­lho co­nhe­cido, ad­vo­gado, disse-me uma vez que por mais que ti­vesse ten­tado du­rante toda sua vida colocar-se no lu­gar de um cli­ente na busca por uma me­lhor com­pre­en­são do caso, ja­mais em­pre­en­dera êxito em tal ini­ci­a­tiva. E as­sim tam­bém é numa pri­são: quem po­derá um dia en­ten­der na ple­ni­tude de suas ações um des­ses ho­mens, se to­mar sua mente e to­dos os efei­tos dela nas­ci­dos torna-se, mesmo por um ins­tante, algo im­pos­sí­vel?

De­fi­ni­ções a res­peito de um ou de ou­tro, ava­li­a­ções so­bre seus com­por­ta­men­tos, con­clu­sões e tudo mais só po­de­rão che­gar até a certa al­tura de um in­trin­cado tra­jeto, só te­rão gua­rida nas con­je­tu­ras va­zias e nas hi­pó­te­ses ba­se­a­das em te­o­rias das mais di­ver­sas. Nunca ha­verá exa­ti­dão, nunca se po­derá dei­tar a ca­beça no tra­ves­seiro com a cer­teza de que ne­nhuma in­jus­tiça foi co­me­tida. En­tre­tanto, tal é a com­ple­xi­dade do tema que nem mesmo o con­trá­rio se po­derá pen­sar. A culpa e a ino­cên­cia são com­pa­nhei­ras muito pró­xi­mas, cu­jas mãos não houve ainda quem as ti­vesse to­mado por pura con­vic­ção. E nem ha­verá.

O crime em ques­tão tem por pro­ta­go­nista um certo pre­feito. Lá com seu pouco caso para a coisa pú­blica, deu de om­bros para as leis vi­gen­tes e tra­tou de im­por suas pró­prias re­gras na con­du­ção ad­mi­nis­tra­tiva. – Bu­ro­cra­cia, bu­ro­cra­cia, uma ba­nana para a bu­ro­cra­cia – ele cos­tu­mava bra­dar pe­los cor­re­do­res do paço. Que ele um dia ti­vesse se apro­pri­ado do erá­rio ou feito parte das cor­jas cujo prin­ci­pal alvo são as fa­mi­ge­ra­das co­mis­sões, eu não me ar­risco a di­zer. Algo as­sim foge ao meu co­nhe­ci­mento. Mas du­rante sua ges­tão não fo­ram pou­cas as oca­siões em que des­viou ver­bas de suas fi­na­li­da­des, apli­cando os re­cur­sos onde lhe desse na te­lha ou nas áreas em que me­lhor lhe aprou­vesse elei­to­ral­mente. Eu tam­pouco sa­be­ria ex­por com cla­reza os mo­ti­vos que o li­vra­ram dos maus len­çóis nos quase oito anos de pre­fei­tura.

Em mi­nha ca­beça, des­fi­lam ape­nas con­je­tu­ras, mas pre­firo guardá-las só mesmo para mim, em­bora es­sas hi­pó­te­ses de­vam es­tar in­cluí­das nas idéias de qual­quer ci­da­dão me­nos de­sin­for­mado que se pre­o­cupe com os me­an­dros da po­lí­tica. Posso di­zer ape­nas que um dia as cir­cuns­tân­cias mostraram-se di­fe­ren­tes. Tal­vez a sorte o ti­vesse aban­do­nado ou suas ati­tu­des ul­tra­pas­sa­ram li­mi­tes to­le­rá­veis ou ainda, quem sabe, cer­tos acor­dos su­cum­bi­ram. A ver­dade é que o ca­mi­nho al­te­rado das ver­bas que de­ve­riam ter sido in­ves­ti­das em saúde, edu­ca­ção e sa­ne­a­mento bá­sico foi des­co­berto. As­sim, co­me­ça­ram as in­ves­ti­ga­ções.

É cu­ri­osa a con­jun­tura da po­lí­tica. Por uma sim­ples arenga mal re­sol­vida, um ve­re­a­dor meteu-se o traje em­po­ei­rado da re­ti­dão e tas­cou a de­nún­cia em alto e bom som. Se al­guém fa­zia vis­tas gros­sas para as ati­tu­des pouco re­co­men­dá­veis do pre­feito, a par­tir do pro­nun­ci­a­mento do par­la­men­tar, nin­guém mais po­de­ria se man­ter alheio ao as­sunto. Ló­gico que to­dos os im­pro­pé­rios di­tos no ga­bi­nete pelo pa­trão do exe­cu­tivo, ainda ao sa­bor dos ner­vos à flor da pele, ti­nham ra­zoá­vel fun­da­mento. Den­tre to­dos os ve­re­a­do­res, o de­nun­ci­ante tal­vez fosse o me­nos in­di­cado para co­brar mo­ra­li­dade e coi­sas do tipo. – Pas­sou a vida in­teira de­baixo de tra­pa­ças – queixava-se o pre­feito.

Sua ira, en­tre­tanto, não mais po­de­ria salvá-lo de um pro­cesso in­ves­ti­ga­tivo nem dos ris­cos de so­frer uma cas­sa­ção e de res­pon­der cri­mi­nal­mente por seus atos. Cinco me­ses passaram-se em meio às tur­bu­lên­cias tí­pi­cas cau­sa­das pelo tra­ba­lho de uma co­mis­são par­la­men­tar de inqué­rito. A apro­xi­ma­ção da aná­lise do pro­cesso em ple­ná­rio tor­nou in­su­por­tá­vel o ser­viço na área ad­mi­nis­tra­tiva da pre­fei­tura. Nes­sas oca­siões, as pes­soas olham-se des­con­fi­a­das, ame­dron­ta­das, como se car­re­gas­sem nos om­bros parte da culpa – e não se­ria isso mesmo? 

Até que che­gou o dia da ses­são. Eco­a­ram na tri­buna da câ­mara mu­ni­ci­pal os pro­nun­ci­a­men­tos in­dig­na­dos de ve­re­a­do­res. Os mes­mos par­la­men­ta­res que ha­via tem­pos as­sis­tiam ao so­fri­mento de pa­ci­en­tes nas fi­las dos nú­cleos de saúde, a de­te­ri­o­ra­ção do en­sino pú­blico mu­ni­ci­pal e as do­en­ças que se alas­tra­vam por causa dos cór­re­gos de es­goto que cor­riam a céu aberto, es­ses mes­mos re­pre­sen­tan­tes do povo, que já sa­biam de tudo nos bas­ti­do­res su­jos de uma po­lí­tica torpe, agora inflamavam-se di­ante de um mi­cro­fone e das ga­le­rias lo­ta­das de mu­ní­ci­pes cla­mando por jus­tiça. Num tapa, o pre­feito teve seus di­rei­tos po­lí­ti­cos cas­sa­dos e o nome le­vado à jus­tiça cri­mi­nal.

Mais al­gum tempo e a de­ci­são ju­di­cial in­cri­mi­nou o pre­feito e di­ver­sos de seus as­ses­so­res di­re­tos, en­tre os quais fui in­cluído. Para re­su­mir a su­jeira toda, es­tou cum­prindo pena em re­gime fe­chado. As no­tí­cias que me che­ga­ram nes­tes dois anos e pouco são de que ou­tros co­le­gas tam­bém fo­ram pre­sos, mas já con­se­gui­ram a li­ber­dade. Es­tou, sem dú­vida, na pior si­tu­a­ção de to­das. Mi­nha as­si­na­tura en­fei­tou mui­tos da­que­les pa­péis le­va­dos à jus­tiça. De mi­nha parte, re­fe­rendo cons­ci­en­te­mente esta culpa. Sim, não sou ino­cente. Me­reço pa­gar pelo meu crime. Quem co­la­bora ou sim­ples­mente toma co­nhe­ci­mento de um crime tam­bém torna-se cri­mi­noso se não o de­nun­ciar, eis uma ter­rí­vel ver­dade que des­co­bri tarde de­mais, não por­que a des­co­berta pu­desse evi­tar mi­nha pri­são, mas muito mais pelo fato de que, cons­ci­ente desse erro fa­tal, uma nó­doa de po­dri­dão que agora se ins­tala para sem­pre em mi­nha cons­ci­ên­cia po­de­ria ser evi­tada.

De­certo que muito mais gente de­ve­ria es­tar en­fi­ada a fer­ros por si­tu­a­ções se­me­lhan­tes, mas não me cabe re­cri­mi­nar a jus­tiça, a po­lí­cia ou ou­tra ins­ti­tui­ção. Como é cos­tume di­zer dos ou­tros, refiro-me a mim mesmo: que mo­ral eu te­nho para um pro­ce­di­mento desse tipo? Ouço à noite os trin­cos cor­rendo nas por­tas das ce­las e isso me faz pa­re­cer tão imundo que não te­nho for­ças para me quei­xar deste so­fri­mento. Mi­nha queixa só atinge a mim, ao meu com­por­ta­mento, ao ca­mi­nho que es­co­lhi.

Em pou­cos me­ses, es­ta­rei fora, mas mi­nha vida já se trans­for­mou. Quan­tas ve­zes não la­men­ta­mos por ape­nas uma hora per­dida no trân­sito a ca­mi­nho de um fim-de-semana na praia? Eu não perdi ho­ras. Fo­ram anos. Pago aqui, como tan­tos ou­tros de­ve­riam pa­gar do mesmo modo, o alto preço da omis­são. En­quanto isso, lá fora, cer­cado de no­vos as­ses­so­res e mesmo de uns pou­cos ve­re­a­do­res que há al­guns anos o de­san­ca­ram e cas­sa­ram seu man­dato, o pre­feito ca­mi­nha em meio à mul­ti­dão, dis­tri­buindo sor­ri­sos, abra­ços e san­ti­nhos.

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