Crônicas

Nossos dramas

sábado, 12 de fevereiro de 2005 Texto de

Um dos meus con­tos pre­fe­ri­dos de um dos meus au­to­res pre­fe­ri­dos é aquele em que An­ton Tche­kov narra as frus­tra­das ten­ta­ti­vas de um co­cheiro que de­seja de­ses­pe­ra­da­mente con­tar a al­guém o drama da morte de um fi­lho, mas não con­se­gue, até que… Bem, se você ainda não leu “An­gús­tia – a quem di­rei mi­nha dor?”, fica aqui a re­co­men­da­ção. Pois bem. As­sim como Iona, que é o nome do pro­ta­go­nista do conto, é que me sinto nes­ses dias em que ine­vi­ta­vel­mente nos for­ça­mos a re­fle­xões.

Quero con­tar meus dra­mas, mas não há quem es­teja dis­posto a ouvi-los. As pes­soas es­tão ocu­pa­das com as com­pras de pre­sen­tes e de co­mi­das, com as rou­pas que pre­ten­dem ves­tir nas reu­niões fa­mi­li­a­res ou de ou­tra or­dem. Cor­rem feito lou­cas para cum­prir seus ho­rá­rios cujo dono nin­guém se­quer sabe quem pode ser. Fa­zem pla­nos que irão es­que­cer da­qui a uma se­mana.

Meus dra­mas não são mui­tos, mas como ven­cer a con­cor­rên­cia dos pro­gra­mas es­pe­ci­ais de fim de ano na te­le­vi­são? To­dos os ar­tis­tas es­tão lá, em­bora di­zendo as mes­mas coi­sas de sem­pre. E não é ape­nas uma emis­sora. São vá­rias. To­das elas engalfinham-se em busca de au­di­ên­cia, le­vando ao ar o que acham ter de me­lhor, en­quanto do lado de cá as pes­soas deixam-se le­var por­que ima­gi­nam que aquilo que es­tão vendo trata-se do que há de me­lhor.

Não, não há tempo para meus dra­mas. É pre­ciso abrir os pre­sen­tes, de­ci­dir se de­les gos­ta­mos. Se sim, in­ten­si­fi­car­mos ao li­mite nosso con­ten­ta­mento; se não, fin­gir­mos no rosto uma efê­mera sa­tis­fa­ção. Tam­bém é hora de cum­pri­men­tar­mos aque­les que mal ve­mos ou nos lem­bra­mos du­rante o ano todo, tro­car afa­gos e pa­la­vras va­zias.

Meus dra­mas são ini­ma­gi­ná­veis. Os ou­tros acham que só eles os têm. Às ve­zes, olham-me em busca de co­mi­se­ra­ção e põem-se a revelá-los de um jeito que pa­rece ser im­pos­sí­vel que eu os ti­vesse pen­sado, pois só eles po­dem tê-los e por eles la­men­tar.

E, as­sim, o que são meus dra­mas perto de tan­tos ou­tros? Dra­mas de vi­zi­nhos, de ve­lhos co­nhe­ci­dos, de fa­mi­li­a­res, de gente de quem nunca ou­vi­mos fa­lar, eles nos caem aos mon­tes, acu­mu­la­dos por um ano de in­di­fe­ren­ças e dis­tân­cias. Nos jor­nais que abri­mos logo cedo, juntam-se ou­tros, mais in­ten­sos, mais nu­me­ro­sos, mais abran­gen­tes. A cada ins­tante, os meus encolhem-se den­tro de meu cons­tran­gi­mento in­certo.

Ainda en­saio uma re­a­ção, mas já é hora. De quê? Guardo meus dra­mas. Quem sabe numa ou­tra oca­sião…

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