Crônicas

A dignidade persiste

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005 Texto de

Um alento que vem das ruas, onde pisa o povo, onde há mil mo­ti­vos para de­sa­ni­mar di­ante dos re­ve­ses do co­ti­di­ano, onde a frá­gil de­cên­cia que nos en­volve abre-se em fra­tu­ras ex­pos­tas à in­di­fe­rença das chu­vas e dos sóis. Eis o alento: a dig­ni­dade so­bre­vive em meio ao salve-se-quem-puder. De mi­nha parte, deparei-me com esse alento quando che­guei ao topo da hu­mi­lha­ção.

Vou di­reto à his­tó­ria. Há cerca de um ano, en­quanto per­cor­ria uma ave­nida pró­xima de casa, per­cebi a pre­sença de um ven­de­dor de cata-ventos. Re­gu­lar­mente, eu o via de ma­nhã se­guindo a di­re­ção bairro-centro e à tarde fa­zendo o ca­mi­nho in­verso.

Chamou-me a aten­ção, além, é claro, dos di­ver­ti­dos ob­je­tos que gi­ram ao sa­bor do vento, uma ca­rac­te­rís­tica cu­ri­osa do ven­de­dor: eu ju­ra­ria que ele é me­xi­cano. Sabe aque­les su­jei­tos sim­pá­ti­cos que nos fil­mes pe­ram­bu­lam pe­las pe­que­nas vi­las po­ei­ren­tas do Mé­xico? Pois é. Sem­pre que o via, vinha-me essa ima­gem à ca­beça.

Num fim de tarde qual­quer, eu ca­mi­nhava pela ave­nida quando ob­ser­vei o “me­xi­cano” do ou­tro lado da rua. Ele vol­tava de seu co­ti­di­ano co­mer­cial. Por uma des­sas coin­ci­dên­cias, o ven­de­dor atra­ves­sou a pista e veio em mi­nha di­re­ção. Ofereceu-me um cata-vento, que com­prei e le­vei para casa. No rá­pido diá­logo que tra­va­mos en­quanto se­guía­mos nos­sos ru­mos, fi­quei sa­bendo de al­gu­mas pas­sa­gens de sua vida. 

Bra­si­leiro, tra­ba­lhava como ope­rá­rio numa cons­tru­tora no Mato Grosso na época em que a em­presa fe­chou suas por­tas. Quando con­ver­sei com ele, há pouco mais de um ano, já fa­zia qua­tro anos que ele não con­se­guia em­prego. Com vá­rios fi­lhos para criar, veio mo­rar em Bauru, nos fun­dos da casa de um ir­mão, que pas­sou a ajudá-lo. “Para não fi­car pa­rado, in­ven­tei essa his­tó­ria dos cata-ventos”, explicou-me. “Dá para ir que­brando o ga­lho”.

Dali a pouco, ele se­guiu para sua casa, e eu para a mi­nha. Fi­quei pen­sando al­gum tempo na­quele ho­mem que per­deu o em­prego e ja­mais con­se­guira ou­tro. Mas nós, prín­ci­pes da com­pai­xão e her­dei­ros fu­ga­zes da so­li­da­ri­e­dade, cos­tu­ma­mos tam­bém ser os reis da hi­po­cri­sia. Um dia de­pois, aquele ho­mem já se dis­si­para do lu­gar onde guardo mi­nhas pre­o­cu­pa­ções não ime­di­a­tas.

O tempo passa. Um dia des­ses, tam­bém à tar­de­zi­nha, vou à lo­ca­dora. En­tro, alugo o filme de­se­jado e saio rá­pido para cum­prir ou­tras des­sas ta­re­fas ba­nais que nos fa­zem sem­pre ho­mens ocu­pa­dos e apres­sa­dos. Quando es­tou para en­trar no carro, lá vem ele – o ven­de­dor de cata-ventos.

Fa­zia já um bom tempo que eu não o via, tal­vez por­que não cos­tumo mais fa­zer com tanta freqüên­cia o tra­jeto de an­tes. O caso é que, como na­quela vez, ele atra­ves­sou a rua e veio em mi­nha di­re­ção. Cumprimentou-me e ofereceu-me um da­que­les ob­je­tos co­lo­ri­dos que pa­re­cem vi­ver sor­rindo para o mundo. Mas, di­fe­ren­te­mente da ou­tra oca­sião, agora eu ti­nha pressa: as ta­re­fas ba­nais, lembra-se? 

Por que não con­fes­sar? Che­guei a pen­sar isto: “putz, logo agora?” Como o ven­de­dor de cata-vento não lê pen­sa­men­tos, as­sim mesmo ele ha­via se apro­xi­mado e me ofe­re­cido o brin­quedo. Mesmo apres­sado, e guar­dando no carro a sa­cola com o filme, ainda tive tempo de con­je­tu­rar com meus bo­tões: “acho que mi­nha fi­lha nem liga mais para es­sas coi­sas.”

Ajeitando-me no banco, perguntei-lhe quanto cus­tava. Isto é sin­cero: eu es­tava sem di­nheiro ali. A res­posta veio em tom de afago: “o se­nhor é que faz o preço, paga quanto qui­ser.” En­quanto tro­cá­va­mos es­sas bre­ves pa­la­vras, avis­tei umas mo­e­das de­baixo do rá­dio. Pronto, o pro­blema es­tava re­sol­vido. Ra­pi­da­mente, eu as con­tei: cinqüenta cen­ta­vos. Cer­ta­mente, um cata-vento vale mais. Tomei-as e es­tendi o braço pela ja­nela: “olha, agora só te­nho isto; pode fi­car, nem pre­cisa me dar o cata-vento”. 

O ven­de­dor, en­tão, sem de­mons­trar re­volta nem má­goa, passou-me o pito: “não, moço, isso não; se o se­nhor não leva o ca­ta­vento, tam­bém não me dá o tra­ba­lho, e o que eu quero é o tra­ba­lho e não a es­mola”. Um ar­re­pen­di­mento abrupto an­te­ce­deu a hu­mi­lha­ção que, feito for­mi­ga­mento, invadiu-me a alma. “O se­nhor pode es­co­lher”. Le­vei um verde-amarelo. Mi­nha fi­lha ado­rou o pre­sente. Até me bei­jou por isso. Ins­ta­lado na ja­nela da co­zi­nha, ele gira pra lá e pra cá, fa­zendo um leve ruído, como se qui­sesse me lem­brar da dig­ni­dade da qual ele é fruto. 

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