Crônicas

Cadê o jeito de fazer?

domingo, 16 de janeiro de 2005 Texto de

A ne­gli­gên­cia ou o sim­ples des­cuido com cer­tas do­en­ças pode transformá-las em ter­rí­veis epi­de­mias. O mundo in­teiro sabe disso e em épo­cas dis­tin­tas tes­te­mu­nhou as trá­gi­cas con­seqüên­cias dessa re­a­li­dade. Neste iní­cio de 2005, um dos ma­les que se alas­tra pe­ri­go­sa­mente tem seu foco con­ta­gi­oso fin­cado no meio po­lí­tico.

Sim, é ver­dade! Não se trata de tro­ca­di­lho ou de com­pa­ra­ção exó­tica fa­bri­cada para in­tro­du­zir a qual­quer tipo de aná­lise. Mui­tos pre­fei­tos e mesmo mem­bros de pri­meiro es­ca­lão das no­vas ad­mi­nis­tra­ções mu­ni­ci­pais, cuja posse ocor­reu no úl­timo dia 1º, fo­ram in­fec­ta­dos pela ati­tude de al­gum co­lega que num pas­sado não muito re­cente de­ci­diu jo­gar em seus pre­de­ces­so­res toda e qual­quer culpa pe­las di­fi­cul­da­des en­fren­ta­das para to­car sua ges­tão.

Está certo que a do­ença não é nova. Por isso mesmo é que ado­tei o termo “epi­de­mia”. Parece-me que, di­ante das pés­si­mas no­tí­cias ob­ti­das a res­peito da atual si­tu­a­ção das con­tas pú­bli­cas, dos ma­qui­ná­rios e de­mais itens es­tru­tu­rais da ad­mi­nis­tra­ção mu­ni­ci­pal, um bom nú­mero de no­vos pre­fei­tos re­sol­veu isentar-se de res­pon­sa­bi­li­da­des pe­rante a opi­nião pú­blica. Volta e meia, ouve-se um se­cre­tá­rio di­zer que não é pos­sí­vel so­lu­ci­o­nar de uma hora para ou­tra um pro­blema que vem cres­cendo há muito tempo, como, por exem­plo, o de­plo­rá­vel es­tado da ma­lha viá­ria de quase to­das as ci­da­des.

Da mesma ma­neira, há uma sé­rie de ou­tras ques­tões que in­fer­ni­zam o co­ti­di­ano das po­pu­la­ções ur­ba­nas e cuja so­lu­ção mostra-se a cada dia mais dis­tante. En­tra pre­feito, sai pre­feito e os dis­cur­sos se­guem o mesmo ritmo: “não é pos­sí­vel re­sol­ver tudo agora”; “en­con­tra­mos a má­quina em­per­rada”; “as dí­vi­das im­pe­dem gran­des in­ves­ti­men­tos”; “é pre­ciso ter pa­ci­ên­cia”; e por aí vai. 

Cla­ra­mente, os pre­fei­tos e seus com­pa­nhei­ros de ad­mi­nis­tra­ção têm certa ra­zão ao bus­ca­rem no pas­sado ex­pli­ca­ções para tan­tos pro­ble­mas. Se cada um ti­vesse feito sua parte no de­cor­rer do man­dato, a si­tu­a­ção se­ria ou­tra. Não é pos­sí­vel olhar­mos para trás e isen­tar­mos as ad­mi­nis­tra­ções an­te­ri­o­res. A grande mai­o­ria de­las sim­ples­mente pas­sou o aba­caxi para frente. 

No en­tanto, acho di­fí­cil en­con­trar en­tre os atu­ais ad­mi­nis­tra­do­res al­guém que te­nha sido in­gê­nuo a ponto de acre­di­tar que en­con­tra­ria uma si­tu­a­ção di­fe­rente na pre­fei­tura que vi­ria a as­su­mir. Ge­ral­mente, os can­di­da­tos e seus par­ti­dos ob­têm to­dos os ti­pos de da­dos a res­peito das ges­tões ces­san­tes. Es­sas in­for­ma­ções são, in­clu­sive, uti­li­za­das em cam­pa­nha, quase sem­pre para de­san­car os ad­ver­sá­rios li­ga­dos ao pre­feito em exer­cí­cio.

Nin­guém, por­tanto, pode po­sar de ma­rido traído nessa his­tó­ria. Os pre­fei­tos sa­biam exa­ta­mente com quem iam “se ca­sar” em 1º de ja­neiro. Ló­gico que a so­ci­e­dade deve e tem o di­reito de to­mar co­nhe­ci­mento dos pos­sí­veis des­man­dos ad­mi­nis­tra­ti­vos co­me­ti­dos por po­lí­ti­cos an­te­ri­o­res aos atu­ais, mas as bes­tei­ras even­tu­al­mente pra­ti­ca­das pe­las ad­mi­nis­tra­ções pas­sa­das não de­vem ser­vir como mo­eda para ne­go­ciar po­pu­la­ri­dade ou para jus­ti­fi­car a in­com­pe­tên­cia das atu­ais ges­tões na re­so­lu­ção dos pro­ble­mas mais gra­ves de cada mu­ni­cí­pio.

O dis­curso va­zio ado­tado por po­lí­ti­cos como ata­lho para des­vi­a­rem de ine­vi­tá­veis res­pon­sa­bi­li­da­des não pode ser aceito pela so­ci­e­dade. Essa epi­de­mia ame­aça di­zi­mar as es­tru­tu­ras cada vez mais frá­geis dos mu­ni­cí­pios. Como di­zia o ve­lho e sem­pre atual Raul Sei­xas, não im­porta o so­ta­que, e sim o jeito de fa­zer. Quem não sabe fa­zer, que ti­vesse fi­cado em casa. 

Compartilhe