Meu de­sa­fio para 2005 não é na­dar três quilô­me­tros em 1 hora nem es­pe­rar a franja cres­cer para igua­lar o ca­belo – nada disso. O que eu mais quero é dei­xar de fa­zer parte da turma do meio-termo nos tes­tes de com­por­ta­mento. Sabe como é? Nes­ses tes­tes, em ge­ral, há três ti­pos de res­pos­tas: uma é over, ou­tra é sub-aproveitada e a ter­ceira é a mi­nha, ou seja, a morna, a in­sí­pida, a in­co­lor, a ino­dora. Na mai­o­ria das ve­zes, as pes­soas que ela­bo­ram es­ses tes­tes va­lo­ri­zam a co­luna do meio. Tal­vez por­que ima­gi­nem que quem fica em cima do muro é emo­ci­o­nal­mente es­tá­vel e, por­tanto, não tem mo­ti­vos para ins­ti­gar a cu­ri­o­si­dade de uns nem es­can­da­li­zar o dia-a-dia de ou­tros. Acon­tece que essa po­si­ção é, ge­o­grá­fica e psi­co­lo­gi­ca­mente, incô­moda. Mos­tra que você não é su­fi­ci­en­te­mente forte para com­prar uma briga nem de­li­be­ra­da­mente es­perto para es­ca­par dela – ou para se dei­xar ven­cer por ela. 

Fica mais fá­cil ilus­trar com um exem­plo. Ima­gine o teste: “Você é uma pes­soa sur­pre­en­dente?”. Aposto que meu pla­car fi­ca­ria na casa dos 20, caso o mí­nimo de pon­tos fosse 10 e o má­ximo, 30. Em ou­tras pa­la­vras: de acordo com esse teste, eu se­ria um tanto sur­pre­en­dente e um tanto pre­vi­sí­vel, isto é, nem oito nem 80. Existe coisa mais nor­mal e en­te­di­ante?

O mais cu­ri­oso é que, pes­so­al­mente, não creio que sou uma pes­soa tão ro­ta­ri­ana as­sim. Mui­tas ve­zes, te­nho von­tade de as­si­na­lar res­pos­tas ou­sa­das, mas não o faço por­que não se­ria de bom-tom (meu se­gundo de­sa­fio é abo­lir essa pa­la­vra do vo­ca­bu­lá­rio em 2005). Quer di­zer: eu boi­coto mi­nha vo­ca­ção over para pre­ser­var a con­duta de boa moça que acre­dito nunca ter sido, mas que su­po­nho apa­ren­tar. Por ou­tro lado, em ou­tros tes­tes, tam­bém me sinto com­pe­lida a mar­car as res­pos­tas mais so­li­tá­rias e im­po­pu­la­res. Me vejo den­tro de um quarto à meia-luz, ou­vindo uma mú­sica triste dos Smiths, com os olhos ma­re­ja­dos. E o mais ter­rí­vel é que tam­bém não dou va­zão a essa fa­ceta Mor­ri­sey para que nin­guém des­con­fie que a me­lan­co­lia passa aqui de vez em quando e deixa lem­bran­ças (e deixa mesmo!). Sem vo­ca­ção over nem fa­ceta Mor­ri­sey, o me so­bra, en­tão? A co­luna do meio. É claro que tudo isso é au­to­má­tico: nem dá tempo de ra­ci­o­ci­nar que mi­nhas res­pos­tas a um teste de com­por­ta­mento não in­te­res­sam nem ao meu ma­rido – o que dirá a um des­co­nhe­cido com quem eu com­par­ti­lha­ria, na sala de es­pera de um con­sul­tó­rio mé­dico, a tal re­vista com o teste fa­tí­dico.

Na ver­dade, quem se cha­teia com o ve­re­dito do meio-termo sou eu. Cada vez que cons­tato esse re­sul­tado, fico ima­gi­nando uma ma­neira de fu­gir da ob­vi­e­dade des­sas “sen­ten­ças de com­por­ta­mento”. Meu de­sejo é sur­pre­en­der, de­sa­fiar, im­pres­si­o­nar! Ou, no ou­tro ex­tremo, ins­ti­gar, des­pis­tar, co­mo­ver! Mas tudo que eu con­sigo é o di­ag­nós­tico de uma mu­lher pon­de­rada, con­tro­lada, con­ci­li­a­dora e de­fi­ni­ti­va­mente co­mum. Chata, sem rom­pan­tes nem mis­té­rios.

Mas eu juro que, em 2005, vou de­sen­ter­rar meu po­ten­cial e es­ca­par das ar­ma­di­lhas dos tes­tes de com­por­ta­mento. Não vou mais me im­por­tar com a opi­nião que os ou­tros te­riam a meu res­peito, até por­que os ou­tros têm mais o que fa­zer. Se meu es­forço for em vão, pro­meto ras­gar es­ses tes­tes, fa­zer uma fo­gueira em praça pú­blica e dan­çar na Ruy Bar­bosa como se es­ti­vesse em um sabá. Pelo me­nos uma nota o jor­nal vai dar. 

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