Eu adoro e co­nheço muita gente que de­testa. Ou me­lhor: nunca pres­tou tanta aten­ção, mas pre­fere des­gos­tar de cara para abre­viar o tra­ba­lho de con­fe­rir. A pu­bli­ci­dade tam­bém ajuda a im­po­pu­la­ri­zar esse gê­nero. No ve­rão, a Skol, em guerra con­tra a Nova Schin, lan­çou a pro­pa­ganda da “ilha qua­drada”. Em con­tra­po­si­ção à “ilha re­donda”, a qua­drada ti­nha um bando de pas­pa­lhos com Q.I. de pa­qui­derme. O som que ro­lava na ilha? Mú­sica eru­dita! Na ilha re­donda, é claro, rock and roll.

O fato é o se­guinte: para quem não cos­tuma ou­vir mú­sica eru­dita, esse gê­nero pode pa­re­cer, à pri­meira vista, da­tado, de­pres­sivo ou res­trito a mo­men­tos es­pe­ci­ais como ca­sa­mento, so­le­ni­dade de for­ma­tura ou chá be­ne­fi­cente. É um erro. Como pou­cos gê­ne­ros, o eru­dito, su­pe­re­la­bo­rado, foi com­posto sob to­das as ins­pi­ra­ções hu­ma­nas e, por isso mesmo, é ca­paz de pro­vo­car emo­ções em to­das as fai­xas de sin­to­nia. Quer ale­gria ge­nuína? Ouça Bach. Pre­fere ro­man­tismo? Tente Liszt. Algo mais ele­tri­zante? A dica é Wag­ner. Mo­zart é es­pe­cial para se pen­sar em tudo aquilo que trans­cende a re­a­li­dade con­creta.

Al­gu­mas mú­si­cas eru­di­tas tam­bém con­se­guem trans­por­tar o ou­vinte para re­giões inex­plo­ra­das do in­cons­ci­ente e ex­trair des­sas re­giões for­ças des­co­nhe­ci­das. Bo­lero é uma de­las. O com­po­si­tor Mau­rice Ra­vel di­zia que Bo­lero po­dia ser re­su­mido em “17 mi­nu­tos de or­ques­tra sem mú­sica ne­nhuma”. Isso por­que a com­po­si­ção se li­mita a um tema de oito com­pas­sos, que se re­pe­tem ao longo dos 17 mi­nu­tos com di­fe­ren­tes acom­pa­nha­men­tos de or­ques­tra. Acon­tece que o tema é tão gran­di­oso, que ul­tra­passa essa re­pe­ti­ção pe­las ima­gens men­tais que con­se­gue pro­du­zir.

Ou­tra com­po­si­ção im­pres­si­o­nante é a Nona Sin­fo­nia, uma das mais co­nhe­ci­das de Be­etho­ven. Ela foi com­posta quando o au­tor já es­tava com­ple­ta­mente surdo. Be­etho­ven ela­bo­rou men­tal­mente as har­mo­nias an­tes de trans­fe­rir a peça para a par­ti­tura. O jor­na­lista Paulo Fran­cis, um grande ou­vinte de mú­sica eru­dita, achava a Nona Sin­fo­nia exa­ge­rada. Para ele, Be­etho­ven per­deu o senso da “justa me­dida” com o agra­va­mento do pro­blema au­di­tivo e aca­bou des­to­ando essa sin­fo­nia do con­junto de sua obra. É um co­men­tá­rio, no mí­nimo, dis­cu­tí­vel.

Be­etho­ven tem pas­sa­gens in­te­res­san­tes em sua vida. Consta que no seu único en­con­tro com o com­po­si­tor Franz Schu­bert ne­nhuma pa­la­vra foi dita. Certa vez, Schu­bert, um tí­mido in­cor­ri­gí­vel, compôs uma sé­rie de va­ri­a­ções so­bre uma co­nhe­cida mú­sica fran­cesa e de­ci­diu pre­sen­tear Be­etho­ven com a obra. Quando che­gou à casa dele, Schu­bert re­ce­beu do com­po­si­tor, já bem com­pro­me­tido pela sur­dez, um pe­daço de pa­pel e um lá­pis. Be­etho­ven que­ria que Schu­bert lhe ex­pli­casse um tre­cho da tal obra. Acon­tece que ele fi­cou tão ner­voso que saiu da casa do com­po­si­tor sem dar qual­quer jus­ti­fi­ca­tiva. Claro que os dois nunca mais se vi­ram, es­pe­ci­al­mente por­que Be­etho­ven era um tem­pe­ra­men­tal nato. 

Cho­pin, quem di­ria, tam­bém foi per­so­na­gem de uma his­tó­ria bi­zarra ocor­rida aqui mesmo no Bra­sil. Meu pai, tes­te­mu­nha ocu­lar, é quem con­tava. Ima­gine a cena: As­sis, dé­cada de trinta. Na ci­da­de­zi­nha, ha­via uma pe­quena li­vra­ria e um li­vreiro pro­sa­dor e me­tido a bom co­nhe­ce­dor. Um dia, ele mos­trou ao meu avô um li­vro de um au­tor ale­mão com o se­guinte co­men­tá­rio: “veja o se­nhor como es­ses ale­mães são da­na­dos. Por causa de um pas­sa­ri­nho desse “ta­ma­ni­nho”, fa­zem um li­vro dessa gros­sura!”. E exi­biu, or­gu­lhoso, o li­vro, com le­tra gó­tica na capa dura e tre­zen­tas e tan­tas pá­gi­nas. Era uma bi­o­gra­fia de Cho­pin. Mas para o li­vreiro, era mesmo um tra­tado so­bre o chu­pim, o pas­sa­ri­nho or­di­ná­rio que aco­moda seus fi­lho­tes no ni­nho do tico-tico. 

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