Geral

Leia entrevista com Luiz Malavolta

quinta-feira, 8 de julho de 2004 Texto de

Luiz Ma­la­volta, um dos mais com­pe­ten­tes jor­na­lis­tas da atu­a­li­dade, ex­plica as­sim o his­tó­rico de sua vida pro­fis­si­o­nal:

Co­me­cei muito jo­vem no jor­na­lismo, há quase 32 anos. O Jor­nal da Ci­dade (Bauru) ha­via aca­bado de se mu­dar para sua nova e mo­derna sede, na rua Xingu, 4-44, quando eu fui tra­ba­lhar na re­da­ção. Ini­ci­al­mente, aju­dava a equipe que pro­du­zia um su­ple­mento imo­bi­liá­rio, um ta­blóide que vi­nha en­car­tado den­tro do JC às quintas-feiras, com ar­ti­gos so­bre o se­tor de cons­tru­ção ci­vil, com­pras e ven­das de imó­veis e mui­tos anún­cios clas­si­fi­ca­dos. Era uma coisa ar­ro­jada para aquela época. O edi­tor era um jor­na­lista já fa­le­cido cha­mado Hél­der Bar­ros. Com o fim do su­ple­mento, o en­tão di­re­tor do JC, Nil­son Costa, me deu uma opor­tu­ni­dade na re­da­ção e lá fiz um pouco de tudo: fo­to­gra­fia, di­a­gra­ma­ção, re­por­ta­gem, re­vi­são.

Em 1976, houve uma greve que pa­ra­li­sou a Santa Casa de Bauru. Es­tá­va­mos em plena di­ta­dura mi­li­tar e greve era crime con­tra a se­gu­rança na­ci­o­nal. Essa greve foi or­ga­ni­zada por um grupo de mé­di­cos. O as­sunto cha­mou a aten­ção dos prin­ci­pais jor­nais do Bra­sil e foi a mi­nha opor­tu­ni­dade pro­fis­si­o­nal. Um jor­na­lista bau­ru­ense, que não vejo há mui­tos anos, cha­mado Ro­berto Pinto, que ha­via pas­sado pelo JC no co­meço de sua car­reira, es­tava tra­ba­lhando na su­cur­sal pau­lista do jor­nal O Globo, do Rio de Ja­neiro. Ele me li­gou e ofereceu-me a opor­tu­ni­dade de es­cre­ver as ma­té­rias so­bre a pa­ra­li­sa­ção na Santa Casa.

A crise no hos­pi­tal cres­ceu, houve uma in­ter­ven­ção mi­li­tar na Santa Casa, com a des­ti­tui­ção da di­re­ção e a in­di­ca­ção de um novo corpo di­re­tivo. Na época, isso ren­deu mui­tas ma­té­rias para O Globo. O chefe de re­da­ção da su­cur­sal de São Paulo gos­tou do meu de­sem­pe­nho, me con­vi­dou para ir até a ca­pi­tal e lá me deu a chance de con­ti­nuar es­cre­vendo como free-lancer de O Globo. Vi­rei en­tão cor­res­pon­dente de um im­por­tante jor­nal do Rio. Isso foi fun­da­men­tal para mim pro­fis­si­o­nal­mente.

Pa­ra­le­la­mente, aca­bei indo tra­ba­lhar como re­pór­ter da Rá­dio Jo­vem Auri Verde (Bauru), onde per­ma­neci de 1978 a 1980. Em 1980, a TV Bauru, en­tão da Rede Globo, me con­tra­tou como re­pór­ter e lá per­ma­neci até 1986, ocu­pando ou­tros car­gos, como edi­tor, chefe de re­por­ta­gem e co­or­de­na­dor de pauta. Saí da TV Bauru para aju­dar em pro­je­tos de im­plan­ta­ção de emis­so­ras re­gi­o­nais da Globo. Par­ti­ci­pei do pro­jeto Rede Globo No­ro­este Pau­lista, com sede em São José do Rio Preto, que foi ou­tra im­por­tante ex­pe­ri­ên­cia pro­fis­si­o­nal. Saí da Globo para ser re­pór­ter es­pe­cial de O Globo, com de­di­ca­ção ex­clu­siva e ba­se­ado em São Paulo.

Pas­sei de­pois pelo SBT, onde per­ma­neci pouco me­nos de um ano, par­ti­ci­pando da­quele pro­jeto de te­le­jor­na­lismo que o Sil­vio San­tos bo­lou e que le­vou à cri­a­ção de dois te­le­jor­nais, o TJ Bra­sil e o TJSP, que de­pois foi ti­rado do ar com a cri­a­ção do Aqui Agora. Saí do SBT an­tes da cri­a­ção do Aqui Agora, re­tor­nando a O Globo, por­que fui con­vi­dado pela che­fia da su­cur­sal para acom­pa­nhar como re­pór­ter a pri­meira elei­ção pre­si­den­cial em 30 anos.

Em 1991, dei­xei O Globo para ser edi­tor na Fo­lha de S. Paulo, pas­sei por vá­rios ca­der­nos. Dei­xei a Fo­lha em 1993 para co­or­de­nar um pro­jeto de TV em Bauru, que re­sul­tou na cri­a­ção da ex­tinta TV SP­Cen­tro, afi­li­ada da TV Ban­dei­ran­tes. Ali pude fa­zer um pro­jeto de jor­na­lismo co­mu­ni­tá­rio muito in­te­res­sante, por­que pos­suía to­tal li­ber­dade para criar qua­dros e de­sen­vol­ver no­vas for­mas de fa­zer re­por­ta­gens. Saí da emis­sora no iní­cio de 1994, de volta à Fo­lha, agora como re­pór­ter, onde per­ma­neci até 1996, quando o jor­na­lista bau­ru­ense Amauri So­a­res me con­vi­dou para ser chefe de re­por­ta­gem da TV Globo de São Paulo, que se cons­ti­tuiu o maior de­sa­fio pro­fis­si­o­nal de mi­nha vida. Per­ma­neço na em­presa e no mesmo cargo desde en­tão.

A se­guir, a en­tre­vista con­ce­dida por Ma­la­volta.

Você é um pro­fis­si­o­nal que está há um bom tempo no meio te­le­vi­sivo, mas tam­bém tem uma am­pla his­tó­ria no jor­na­lismo im­presso. O que di­fere um meio do ou­tro?

O jor­nal im­presso me deu toda a base pro­fis­si­o­nal que me le­vou aos de­sa­fios que tive desde que ini­ciei. Foi no jor­na­lismo im­presso que aprendi a es­cre­ver, que aprendi a apu­rar uma no­tí­cia, a ques­ti­o­nar to­dos os la­dos. O rá­dio me deu a opor­tu­ni­dade de apren­der a ser ágil, por­que a no­tí­cia im­por­tante tem de ser con­tada no exato mo­mento que acon­tece. A TV é um ins­tru­mento so­fis­ti­cado, que exige uma qua­li­dade pro­fis­si­o­nal enorme de quem se de­dica a esse meio de co­mu­ni­ca­ção. A TV é hoje o ins­tru­mento de co­mu­ni­ca­ção mais im­por­tante do país, por­que é ca­paz de atin­gir pra­ti­ca­mente 100% da po­pu­la­ção. Por isso, tra­ba­lhar numa TV exige não ape­nas a ex­pe­ri­ên­cia jor­na­lís­tica, mas tam­bém a sen­si­bi­li­dade para en­ten­der o que o te­les­pec­ta­dor quer ver no te­le­jor­nal que as­siste. O bom jor­na­lismo de TV pre­cisa re­fle­tir as ne­ces­si­da­des da co­mu­ni­dade, do país, sem­pre do ponto de vista de quem está na frente do apa­re­lho e quer ver suas re­cla­ma­ções e sua opi­nião re­fle­ti­das no no­ti­ciá­rio! Quem se der ao tra­ba­lho de pes­qui­sar os ar­qui­vos de te­le­jor­na­lismo ve­ri­fi­cará a tre­menda evo­lu­ção que ti­ve­mos no meio, não só por cau­sas tec­no­ló­gi­cas, mas tam­bém pelo aper­fei­ço­a­mento da lin­gua­gem, das téc­ni­cas e da forma que cri­a­mos no país para re­la­tar ao pú­blico as no­tí­cias mais im­por­tan­tes e que lhe in­te­res­sam. Só para exem­pli­fi­car, quero lem­brar que foi a TV que de­nun­ciou os po­li­ci­ais de Di­a­dema, cau­sando uma in­dig­na­ção na­ci­o­nal con­tra os PMs; foi a TV que de­nun­ciou a exis­tên­cia de cor­rup­ção nas ad­mi­nis­tra­ções re­gi­o­nais da pre­fei­tura da ca­pi­tal pau­lista, le­vando à pri­são mais de 400 pes­soas, en­tre elas um ve­re­a­dor e um de­pu­tado es­ta­dual. Não se pode fa­lar de im­prensa, sem des­ta­car a im­por­tân­cia do jor­na­lismo de TV no Bra­sil.

Você tem pre­fe­rên­cia por um ou ou­tro?

Não ne­ces­sa­ri­a­mente. Gosto de es­cre­ver; aprendi a téc­nica da re­por­ta­gem que hoje pouco se pra­tica. A re­por­ta­gem é uma coisa muito cara. Hoje, te­nho uma fun­ção na em­presa que tra­ba­lho jor­na­lismo, que não é a de re­pór­ter. Mas ja­mais dei­xei de ter aquele olho clí­nico de re­pór­ter, fun­da­men­tal para quem é da área. Meu de­sa­fio é enorme e não saio da re­da­ção com me­nos de 12 ho­ras de jor­nada diá­ria; co­or­deno uma equipe for­mada por re­pór­te­res do me­lhor ní­vel e cre­di­bi­li­dade. É uma imensa res­pon­sa­bi­li­dade. Mas con­si­dero que te­nho muito ainda a apren­der em TV. Aliás, todo dia aprendo al­guma coisa nova em TV. 

Aliás, com tan­tos avan­ços tec­no­ló­gi­cos e com o pró­prio ad­vento da in­ter­net, fa­tos que tor­nam a in­for­ma­ção cada vez mais ágil, como você ob­serva o pa­pel do im­presso? Você acha que os jor­nais te­rão que se adap­tar a um novo for­mato, tal­vez com mais aná­lise, opi­nião e in­ter­pre­ta­ção, ou sem­pre ha­verá um pú­blico dis­posto a ler no­tí­cias que já fo­ram tra­ta­das nos de­mais meios?

O jor­na­lismo im­presso ainda não en­con­trou seu ca­mi­nho nesta era de co­mu­ni­ca­ção ele­trô­nica e di­gi­tal ins­tan­tâ­nea. O jor­nal pu­ra­mente no­ti­ci­oso é algo su­pe­rado. A no­tí­cia está aí na TV, no rá­dio, na in­ter­net. O lei­tor de jor­nal quer algo a mais. Quer tex­tos mais ana­lí­ti­cos, quer ver dis­cus­sões am­plas so­bre te­mas de toda a or­dem; o lei­tor quer en­ten­der por que as coi­sas acon­te­cem. En­tre­tanto, os jor­nais con­ti­nuam sendo fei­tos exa­ta­mente como eram fei­tos há 30 anos. Ao mesmo tempo, su­mi­ram das suas pá­gi­nas re­por­ta­gens in­ves­ti­ga­ti­vas, re­por­ta­gens de aven­tu­ras. Tudo foi subs­ti­tuído por pe­que­nas no­tí­cias; uma quan­ti­dade imensa de in­for­ma­ções que nos afo­gam e de­so­ri­en­tam. Você lê todo dia como está a eco­no­mia do Bra­sil, mas não en­tende pa­ta­vina o que vem acon­te­cendo. Você não é in­for­mado que a eco­no­mia está em fran­ga­lhos, que a nossa in­fla­ção do real é a maior da Amé­rica do Sul, que es­ta­mos, ano após ano, em­po­bre­cendo e nos tor­nando mais de­pen­den­tes do ca­pi­tal in­ter­na­ci­o­nal e que na ver­dade o país já foi ven­dido e en­tre­gue a gran­des cor­po­ra­ções. O dia que os jor­nais en­con­tra­rem seu novo ca­mi­nho, con­quis­ta­rão o lei­tor.

E a te­le­vi­são, que é onde você tra­ba­lha e cuja evo­lu­ção tec­no­ló­gica é bas­tante di­nâ­mica, o que esse meio de co­mu­ni­ca­ção cada vez mais in­qui­eto exige do pro­fis­si­o­nal?

A TV re­al­mente é um ins­tru­mento em per­ma­nente evo­lu­ção. Creio que che­gará o dia que com­pu­ta­dor e TV se­rão um único ins­tru­mento. Pro­fis­si­o­nal­mente, a TV exige de nós jor­na­lis­tas um pre­paro cada vez maior. Não basta do­mi­nar a téc­nica de fa­zer no­tí­cia; te­re­mos de ser es­pe­ci­a­li­za­dos em eco­no­mia, em po­lí­tica, em co­ber­tura de as­sun­tos po­li­ci­ais. A TV já exige de seus pro­fis­si­o­nais não ape­nas o di­ploma de jor­na­lista, mas tam­bém do­mí­nio de uma se­gunda e ter­ceira lín­guas. O in­glês é fun­da­men­tal hoje. Vi­ve­mos num mundo em que tudo é dis­cu­tido em in­glês. Quem não fala esse idi­oma está fa­dado a ser ex­cluído do mer­cado em to­das as ati­vi­da­des pro­fis­si­o­nais. Esta é mi­nha pre­o­cu­pa­ção com meus fi­lhos, que es­tão fa­zendo jor­na­lismo: que eles en­ten­dam que não basta co­nhe­cer o in­glês e o es­pa­nhol, por exem­plo. Mas que de­vem ter o do­mí­nio des­sas duas lín­guas como do­mi­nam o por­tu­guês, fa­lando e es­cre­vendo.

Você é um jor­na­lista ex­tre­ma­mente res­pei­tado no meio. Nós sa­be­mos que o jor­na­lismo não está imune à falta de ética e pro­fis­si­o­na­lismo. O que é pre­ciso ter em mente na hora de bus­car um ca­mi­nho limpo para atuar na pro­fis­são?

Pri­meiro, a gente tem que ter em mente que jor­na­lismo não é mer­ca­do­ria; não é como uma caixa de sa­bão em pó, que a gente pega na pra­te­leira do su­per­mer­cado e usa. Quem pra­tica jor­na­lismo exerce uma ati­vi­dade de cons­ci­ên­cia; quando se pra­tica o mau jor­na­lismo, quem perde é a so­ci­e­dade. A elei­ção de Fer­nando Col­lor foi um exem­plo dra­má­tico de mau jor­na­lismo ge­ne­ra­li­zado. Eu co­bri a elei­ção pre­si­den­cial e vi o quanto es­tá­va­mos des­pre­pa­ra­dos para um evento da­quela im­por­tân­cia, em 1989, por­que fi­ca­mos anos sem elei­ção e sem pra­ti­car uma co­ber­tura da­quela gran­deza. Os em­pre­sá­rios do se­tor de co­mu­ni­ca­ções, com medo do Lula, se des­lum­bra­ram com Fer­nando Col­lor e o apoi­a­ram, di­reta ou in­di­re­ta­mente. A nossa im­prensa omi­tiu in­for­ma­ções pre­ci­o­sas do elei­tor, e este foi às ur­nas achando que o cha­mado “ca­ça­dor de ma­ra­jás” era o sal­va­dor da pá­tria. O país acor­dou, me­ses de­pois, de uma imensa res­saca. E de fernando-em-fernando, de ita­mar e lula, a gente vai en­ten­dendo que o pro­cesso de­mo­crá­tico pode não ser o me­lhor dos mun­dos, mas é, sem dú­vida, a ma­neira que en­con­tra­re­mos um dia o nosso des­tino. Eu fui di­re­tor do sin­di­cato dos jor­na­lis­tas, anos atrás, nas dé­ca­das de 1970 e 1980. Na­quela época, de­fen­dia al­gu­mas pro­pos­tas que fo­ram der­ro­ta­das em as­sem­bléia. De­fen­dia uma re­vi­são no de­creto lei 972/69 que re­gu­la­men­tou a pro­fis­são. En­tendo que esse de­creto não trouxe ne­nhum be­ne­fí­cio ao pro­fis­si­o­nal, ape­nas im­pe­diu que gente ta­len­tosa, mas sem re­cur­sos fi­nan­cei­ros para pa­gar uma fa­cul­dade, pu­desse tra­ba­lhar na área sem di­ploma e/ou re­gis­tro pro­fis­si­o­nal. O de­creto, un­gido pe­los mi­li­ta­res para con­tro­lar a ati­vi­dade, ser­viu para dar di­nheiro aos do­nos de fa­cul­da­des e uni­ver­si­da­des e criar uma ne­ces­si­dade que não existe. Eu de­fendo há anos que além do sin­di­cato te­nha­mos um Con­se­lho Re­gi­o­nal de Jor­na­lismo, nos mol­des de uma OAB, CREA e CRM. Esse con­se­lho re­gu­la­ria a ati­vi­dade pro­fis­si­o­nal e te­ria po­de­res ple­nos para pu­nir aque­les pro­fis­si­o­nais que usam a pro­fis­são para se lo­cu­ple­ta­rem ou pra­ti­ca­rem um jor­na­lismo es­pú­rio. Mas a ca­te­go­ria é muito di­vi­dida. Aban­do­nei o sin­di­cato há vá­rios anos, de­sisti do sin­di­ca­lismo, de­cep­ci­o­nado com as pos­tu­ras de pes­soas que exer­ciam grande in­fluên­cia so­bre a ca­te­go­ria. Eu não es­tava equi­vo­cado, como che­ga­ram a me ar­gu­men­tar àquela época. Va­le­mos me­nos hoje do que há 10 ou 20 anos. So­mos subs­ti­tuí­veis com fa­ci­li­dade. Esta é a re­a­li­dade hoje, tan­tos anos após a re­gu­la­men­ta­ção da pro­fis­são.

Para o tipo de tra­ba­lho que você exe­cuta, ou seja, atrás das câ­me­ras, bus­cando a in­for­ma­ção a todo ins­tante, quais são os pré-requisitos na­tu­rais?

Eu acre­dito que co­ra­gem, de­ter­mi­na­ção e von­tade de tra­ba­lhar, ali­a­dos a uma boa base cul­tu­ral, são os ele­men­tos im­por­tan­tes para que qual­quer jor­na­lista ob­te­nha vi­tó­rias. Você pode ter boas idéias, mas se não ti­ver a co­ra­gem e a de­ter­mi­na­ção para implementá-las, elas ja­mais acon­te­ce­rão. Para isso, você tem que tra­ba­lhar, mui­tas ve­zes um tra­ba­lho so­li­tá­rio, de ho­ras, dias, se­ma­nas, me­ses. Eu te­nho exem­plos pró­prios. Uma das mi­nhas pri­mei­ras re­por­ta­gens im­por­tan­tes le­vou mais de 8 me­ses para fi­car pronta. Foi em 1977. Pas­sei me­ses so­zi­nho lendo vo­lu­mes e mais vo­lu­mes de um pro­cesso que era na época iné­dito no Bra­sil e que le­vou uma grande mon­ta­dora aos tri­bu­nais pro­ces­sada por uma fa­mí­lia que per­deu dois de seus in­te­gran­tes num aci­dente mo­ti­vado por fa­lha me­câ­nica num veí­culo que ti­nha aca­bado de sair da con­ces­si­o­ná­ria. Soube do as­sunto por in­ter­mé­dio do ad­vo­gado do caso e fui pes­qui­sar. Claro que re­cebi mui­tas pres­sões de as­ses­so­res da in­dús­tria, mas tive o res­paldo de mi­nha che­fia. Pas­sei mui­tas noi­tes em claro lendo lau­dos pe­ri­ci­ais; de­pois, le­vei um bom tempo para en­tre­vis­tar os pe­ri­tos, as par­tes, to­dos os per­so­na­gens deste caso. Oito me­ses de­pois en­tre­guei a re­por­ta­gem, com tudo apu­rado. Fi­quei a noite em claro es­pe­rando ro­dar o jor­nal e só fui para casa quando vi um exem­plar com a re­por­ta­gem. Eu gosto de de­sa­fios as­sim, que me es­ti­mu­lam e me fa­zem acre­di­tar que o bom jor­na­lismo é este. Fiz com o Caco Bar­ce­los uma sé­rie de re­por­ta­gens so­bre a his­tó­ria de um ca­sal morto pela di­ta­dura, cu­jos ho­mi­cí­dios não apa­re­ciam em ne­nhum lu­gar. Nem a fa­mí­lia sa­bia que o ca­sal ha­via sido exe­cu­tado pe­los mi­li­ta­res em 1968. Sou­be­mos da his­tó­ria, por­que um ex-soldado, que par­ti­ci­pou da exe­cu­ção, ar­re­pen­dido do que fi­zera mais de 30 anos an­tes, nos pro­cu­rou e de­sa­ba­fou. Fi­ca­mos um ano apu­rando essa his­tó­ria e con­fir­ma­mos se tra­tar de um fato ver­da­deiro. A sé­rie de re­por­ta­gem saiu no Jor­nal Na­ci­o­nal, com grande des­ta­que. A re­por­ta­gem re­ce­beu três prê­mios. Foi a gló­ria. Acre­dito que quem quer ser jor­na­lista não pode nunca su­bes­ti­mar sua crença na pro­fis­são.

Como é o seu dia-a-dia em São Paulo? Há uma ma­neira de, ao me­nos nas ho­ras de folga, desligar-se das pres­sões que a pro­fis­são exerce?

Eu fico per­ma­nen­te­mente com um ce­lu­lar li­gado e um rá­dio Nex­tel, que me man­tém em co­mu­ni­ca­ção per­ma­nente com mi­nha equipe e com meus su­pe­ri­o­res. Aos fins de se­mana, quando es­tou em folga, me dou o di­reito de me des­li­gar. Só fico com o ce­lu­lar li­gado, por­que re­cebo li­ga­ções pes­so­ais tam­bém. Mas a gente nunca deixa de pen­sar no tra­ba­lho, mesmo quando está fol­gando. Gos­ta­ria de ter tempo para con­ti­nuar es­tu­dando, mas isso tem sido im­pos­sí­vel den­tro da ro­tina que te­nho. Por isso, nos fins de se­mana que es­tou de folga, pro­curo me atu­a­li­zar, atra­vés da lei­tura. Com­pro mui­tos li­vros, leio muito. 

Mala, hoje discute-se muito nas fa­cul­da­des so­bre a “di­ta­dura econô­mica”, ou seja, as di­fi­cul­da­des que o jor­na­lista en­frenta para atuar quando os in­te­res­ses econô­mi­cos da em­presa po­dem fa­lar mais alto. Como você ana­lisa o pa­pel do jor­na­lista di­ante desse con­texto?

Toda em­presa pri­vada tem seus in­te­res­ses. Al­gu­mas mais que ou­tras. Eu posso di­zer com a maior tranqüi­li­dade que ao longo des­ses anos to­dos não re­cebi qual­quer tipo de pres­são para dei­xar de co­brir de­ter­mi­nado as­sunto, por­que ha­via in­te­resse econô­mico. Creio que esse tipo de pres­são econô­mica vem mais do go­verno de plan­tão, por­que as em­pre­sas são de­pen­den­tes de cré­dito ou de im­por­ta­ções. Mas até onde posso re­cor­dar nos ca­sos que houve in­ter­fe­rên­cia dessa or­dem, a em­presa jor­na­lís­tica se en­car­re­gou de de­nun­ciar a pres­são. Tal­vez, o no­ti­ciá­rio possa ser in­flu­en­ci­ado por pres­sões econô­mi­cas em em­pre­sas pe­que­nas, do in­te­rior, onde o dono da imo­bi­liá­ria ou do su­per­mer­cado fala di­re­ta­mente com o dono do jor­nal ou da rá­dio e eles ti­ram a no­tí­cia que lhes é in­con­ve­ni­ente. Numa im­prensa como a pau­lis­tana, di­fi­cil­mente isso ocor­re­ria. Se acon­tece, é de uma ma­neira dis­si­mu­lada, que não fi­ca­mos sa­bendo. Eu posso ga­ran­tir que ao longo des­ses anos to­dos nunca re­cebi ne­nhuma pres­são de su­pe­ri­o­res para dei­xar de dar de­ter­mi­nada in­for­ma­ção por causa de pres­sões econô­mi­cas.

Você atua no jor­na­lismo desde o fim da di­ta­dura mi­li­tar, quando a im­prensa se des­do­brava para no­ti­ciar as­sun­tos con­si­de­ra­dos in­con­ve­ni­en­tes ao re­gime. O que mu­dou de lá para cá na atu­a­ção do jor­na­lista? O que di­fere o jor­na­lista atual do jor­na­lista dos anos de chumbo? O que é mais fá­cil: lu­tar con­tra a di­ta­dura mi­li­tar ou con­tra a di­ta­dura econô­mica?

O jor­na­lismo que se faz hoje é muito di­fe­rente da­quele da época da di­ta­dura mi­li­tar. A pró­pria pauta de co­ber­tura mu­dou muito. Hoje, os meios de co­mu­ni­ca­ção são in­flu­en­ci­a­dos por pes­qui­sas de mer­cado. As em­pre­sas con­tra­tam ins­ti­tu­tos para ou­vir o pú­blico, que opina so­bre o que gos­ta­ria de ver nas pá­gi­nas do jor­nal, da re­vista, no no­ti­ciá­rio de rá­dio e na TV. Isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que apren­de­mos que de­ve­mos ou­vir as pes­soas que com­pram nosso jor­nal, nossa re­vista, que li­gam na nossa TV e no nosso rá­dio. Com isso, nos tor­na­mos mais pró­xi­mos da­quilo que o te­les­pec­ta­dor, rádio-ouvinte e lei­tor que­rem sa­ber. Mas, de ou­tro lado, isso nos tor­nou vul­ne­rá­veis à me­dida que nosso pú­blico es­ta­be­le­ceu pa­râ­me­tros de jor­na­lismo di­fe­ren­tes da­que­les que es­tá­va­mos acos­tu­ma­dos a pra­ti­car. Quando você hoje com­pra as três prin­ci­pais re­vis­tas se­ma­nais de in­for­ma­ções, mui­tas ve­zes en­con­tra re­por­ta­gens in­ter­nas e de ca­pas com as­sun­tos so­bre saúde, es­té­tica, la­zer, com vá­rias pá­gi­nas de­di­ca­das a es­ses te­mas. Você pas­sou a se­mana in­teira acom­pa­nhando os as­sun­tos mais im­por­tan­tes que acon­te­ce­ram no seu país e no mundo. Aquela de­nún­cia nova de cor­rup­ção em Bra­sí­lia aca­bou vi­rando uma pe­quena nota in­terna ou nem foi abor­dada por sua re­vista. Em com­pen­sa­ção, a re­vista trouxe de capa uma re­por­ta­gem com mais de seis pá­gi­nas abor­dando no­vas téc­ni­cas de re­ju­ve­nes­ci­mento. Você logo se in­te­ressa pelo as­sunto e es­quece a de­nún­cia de cor­rup­ção. A pes­quisa é im­por­tante e deve ser­vir de ba­li­za­dor, mas ela não pode de­ter­mi­nar uma mu­dança ra­di­cal no es­tilo de jor­na­lismo. É por isso que to­das as re­vis­tas se­ma­nais são muito pa­re­ci­das, por­que elas tra­ba­lham com pro­ces­sos idên­ti­cos de afe­ri­ção, uma in­fluên­cia do jor­na­lismo ame­ri­cano, que é um jor­na­lismo de con­sumo. Se você pe­gar o ar­quivo de re­vis­tas an­ti­gas, como a Re­a­li­dade, verá que o tom de jor­na­lismo era muito di­fe­rente na­quela época. As abor­da­gens eram di­fe­ren­tes e os as­sun­tos con­si­de­ra­dos im­por­tan­tes eram re­la­ci­o­na­dos mais à po­lí­tica do que a com­por­ta­men­tos! Al­guns edi­to­res po­dem ar­gu­men­tar: mas o lei­tor não gosta de po­lí­tica e nem de eco­no­mia; pre­fere com­por­ta­men­tos na co­ber­tura de ge­ral; e quer ser­vi­ços na abor­da­gem de ques­tões econô­mi­cas. Ou seja, o lei­tor não se in­te­ressa so­bre como a dí­vida do Bra­sil com o FMI está nos es­ma­gando. Ele quer sa­ber como deve fa­zer para re­ce­ber a res­ti­tui­ção do seu im­posto de renda mais rá­pido; como ga­nhar mais di­nheiro em fun­dos de apli­ca­ções. As pri­o­ri­da­des mu­da­ram muito. Tal­vez re­fli­ta­mos a pró­pria in­di­vi­du­a­li­dade que nossa so­ci­e­dade está as­su­mindo ao longo des­tes úl­ti­mos anos. As pes­soas que­rem ser mais bo­ni­tas, que­rem sa­ber as no­vas téc­ni­cas de pre­ven­ção de do­en­ças, que­rem co­nhe­cer os no­vos lu­ga­res da moda, e quando pas­sam os olhos em as­sun­tos po­lí­ti­cos, des­pre­zam aque­les te­mas e só lêem com aten­ção quando al­gum po­lí­tico é de­nun­ci­ado por al­guma amante traída.

His­to­ri­ca­mente, sua atu­a­ção sem­pre foi bas­tante li­gada ao jor­na­lismo po­lí­tico. Em­bora o as­sunto já es­teja, di­ga­mos, “frio”, eu gos­ta­ria da sua opi­nião so­bre o epi­só­dio em que o jor­na­lista do Ti­mes pin­tou um país pre­o­cu­pado com um su­posto ví­cio etí­lico do pre­si­dente Lula. Te­ria ha­vido exa­gero de am­bas as par­tes?
O cor­res­pon­dente do New York Ti­mes fez um jor­na­lismo pre­gui­çoso, por­que ele se li­mi­tou a co­piar de vá­rias pu­bli­ca­ções tre­chos de no­tas e/ou de ma­té­rias que fa­la­vam que o Lula gos­tava de be­ber. Daí para o as­sunto vi­rar um es­cân­dalo, bas­tou en­tre­vis­tar o Bri­zola, que já ti­nha uma di­fe­rença com o pre­si­dente. O pro­blema do Lula nunca foi a be­bida, mas a falta de von­tade de go­ver­nar. Ou tal­vez, a falta de uma vi­são do que re­al­mente é o Bra­sil. O Lula não está des­truindo o país, mas des­truindo a si mesmo e ao seu par­tido, com essa po­lí­tica econô­mica sui­cida, her­dada do Fer­nando Hen­ri­que. Ele está des­truindo o so­nho de quem acre­di­tou que o PT re­pre­sen­tava a mu­dança.

Mala, este site é bas­tante vi­si­tado por es­tu­dan­tes de jor­na­lismo. Trata-se de um pú­blico quase sem­pre ávido por in­for­ma­ções que pos­sam ajudá-lo a mol­dar seu per­fil pro­fis­si­o­nal. Que ti­pos de di­cas você pode pas­sar àque­les que es­tão na fa­cul­dade e que da­qui a pouco vão en­fren­tar o mer­cado de tra­ba­lho?

Pri­meiro, que to­dos se­jam hu­mil­des e quei­ram sem­pre apren­der e não en­si­nar; se­gundo, que nunca dei­xem de es­tu­dar, apren­der, pes­qui­sar, por­que es­tas são nos­sas fer­ra­men­tas; ter­ceiro, te­nham sem­pre em mente que jor­na­lismo é pres­ta­ção de ser­viço à so­ci­e­dade. Não ven­de­mos pro­du­tos e nem so­mos mer­ca­do­rias; quarto, te­nham ânimo para en­fren­tar um mer­cado de tra­ba­lho muito com­pe­ti­tivo, se­le­tivo e que não pensa duas ve­zes para eliminá-lo, por conta de re­du­ção de cus­tos.

Para ter­mi­nar, uma cu­ri­o­si­dade: em sua densa tra­je­tó­ria jor­na­lís­tica, você deve ter reu­nido mui­tas his­tó­rias in­te­res­san­tes. Você tem pla­nos de al­gum dia reuni-las em al­guma pu­bli­ca­ção?

A vida de to­dos é feita sem­pre de boas e más his­tó­rias. Daí, isso vi­rar um li­vro, acho di­fí­cil. Mi­nha vida não da­ria uma crô­nica, quanto mais um li­vro. Eu não me con­si­dero um per­so­na­gem. Um dia, junto com um amigo, sen­ta­mos para es­cre­ver um li­vro so­bre téc­ni­cas de re­por­ta­gem. Não saiu da pri­meira pá­gina, por­que, ape­sar de tudo o que apren­de­mos, so­mos in­ca­pa­zes de di­zer: é as­sim que se faz. 

Va­mos ao pingue-pongue?

Co­mida pre­fe­rida: Hoje , sa­la­das, pei­xes, frango, tudo muito leve. 

La­zer: Ler. Gosto de ler li­vros de 500, 600 pá­gi­nas. Fujo de best-sellers, dos paulo-coelhos. Quero sem­pre uma lei­tura mais densa, que me faça re­fle­tir. Gosto muito de ir ao ci­nema, pro­curo ver mui­tos fil­mes por ano. Ul­ti­ma­mente, a gente tem visto muita por­ca­ria em­pa­co­tada em Hollywood. 

Um exem­plo de ho­mem ou mu­lher: Meus pais, que mor­re­ram – jo­vens, aliás – e que me en­si­na­ram que a ho­nes­ti­dade e a dig­ni­dade são va­lo­res ine­go­ciá­veis. In­fe­liz­mente, não tive tempo de re­tri­buir a eles tudo o que me en­si­na­ram.

Time do co­ra­ção: por res­peito fa­mi­liar, o Pal­mei­ras.

Filme: To­dos os Ho­mens do Pre­si­dente, que é uma li­ção de jor­na­lismo.

Li­vro: Ca­nu­dos, que nunca dei­xou de ser uma grande re­por­ta­gem.

O pas­sado: Foi o ali­cerce do que sou hoje. 

O pre­sente: In­fe­liz­mente, es­tou en­ve­lhe­cendo e gos­ta­ria de ter mais tempo para fa­zer as coi­sas

O fu­turo: Es­pero que meus fi­lhos con­ti­nuem meu tra­ba­lho, já que de­ci­di­ram, con­tra a mi­nha von­tade, ser jor­na­lis­tas.

Compartilhe