Deu na Fo­lha de do­mingo: ci­da­dãos su­pos­ta­mente en­di­nhei­ra­dos es­tão dei­xando seus ca­chor­ros de raça em clí­ni­cas ve­te­ri­ná­rias e pet shops de São Paulo. Os do­nos op­tam pelo aban­dono se o mas­cote ado­ece ou o or­ça­mento do­més­tico aperta. 

Aquele bi­cho com pe­di­gree que foi com­prado num im­pulso para aten­der a uma exi­gên­cia do sta­tus recém-conquistado vira um trans­torno quando a res­pon­sa­bi­li­dade fala mais alto do que a di­ver­são.

En­quanto ele é fi­lhote e corre sau­dá­vel pela casa, tudo bem. Ao cres­cer e per­der pê­los ou fi­car amu­ado num canto, já co­meça a ser ar­qui­te­tada a pas­sa­gem só de ida para a clí­nica mais pró­xima. E, as­sim, livra-se do ani­mal como se ele fosse um guar­da­napo de pa­pel usado. 

Para não ser lo­ca­li­zado, o pro­pri­e­tá­rio chega a pas­sar en­de­reço falso para o ve­te­ri­ná­rio. Con­clu­são: de­sa­pa­rece sem dei­xar ves­tí­gios. Nas clí­ni­cas, se os ani­mais não são ra­pi­da­mente ado­ta­dos, o jeito é sacrificá-los. Que jeito besta de vi­ver a vida.

Na mi­nha ado­les­cên­cia, tive al­guns ga­tos, mas nunca fui uma grande 

freqüen­ta­dora de pet shops. Ok, na­quela época, bu­ti­ques e sa­lões de be­leza de bi­chos ainda não eram um fi­lão lu­cra­tivo, mas, in­de­pen­den­te­mente dessa cir­cuns­tân­cia do mer­cado, ja­mais tive in­te­resse em exi­bir meus ami­gos como fi­fis ou lu­lus de ma­dame. Eles eram ga­tos e sem­pre fo­ram tra­ta­dos como tal. Tal­vez, se isso re­co­me­çasse a ser pra­ti­cado, a ocor­rên­cia dos aban­do­nos não fosse sig­ni­fi­ca­tiva a ponto de des­per­tar a aten­ção da mí­dia.

Sabe por quê? Quando você trata um gato ou um ca­chorro como gato ou ca­chorro, é pos­sí­vel inclui-lo nas des­pe­sas men­sais sem fra­tu­rar o saldo ban­cá­rio. Ele pre­cisa de va­cina? Sim, pre­cisa, mas não de xampu im­por­tado. Pre­cisa de tosa? Tam­bém, mas rou­pi­nha de mo­le­tom é per­fei­ta­mente dis­pen­sá­vel.

O pro­blema é que muita gente en­cara o ani­mal como um brin­que­di­nho de luxo, uma aqui­si­ção com­pa­tí­vel com o ní­vel so­cial a ser pro­vado a qual­quer custo. Esse ra­ci­o­cí­nio torpe au­to­riza que os gas­tos men­sais ul­tra­pas­sem a casa das cen­te­nas de re­ais – tudo para jus­ti­fi­car o alto in­ves­ti­mento e com­pro­var que a di­nhei­rama existe para ser tor­rada, in­clu­sive com os ca­pri­chos im­pos­tos pelo dono ao seu yorkshire de san­gue puro. 

De­fi­ni­ti­va­mente, isso não é gos­tar de ani­mal. Gos­tar de ani­mal é respeitá-lo como tal, sem ten­tar “humanizá-lo”. Festa de ani­ver­sá­rio foi feita para cri­ança, não para bi­cho. Nos­sos ca­ma­ra­das de qua­tro pa­tas de­tes­tam essa pre­se­pada e até se es­tres­sam com tanta al­ga­zarra pro­mo­vida pelo dono – esse, sim, o ver­da­deiro ca­pi­tão da festa.

Mas, por fa­vor, me dei­xem fa­lar so­bre os meus ga­tos. Eles sem­pre fo­ram, dig­na­mente, ga­tos. Sting era um quase si­a­mês que com­par­ti­lhava uma caixa de pa­pe­lão com um vira-lata preto e branco cha­mado Tony. Sa­ra­dos e na flor da idade, os dois na­mo­ra­vam to­das as ga­tas do bairro nos te­lha­dos, mi­a­vam lou­ca­mente na hora do al­moço e do jan­tar, ado­ra­vam ca­funé na ore­lha, ca­ça­vam ra­tos para tor­tu­rar e co­ça­vam pul­gas: aque­las már­ti­res que es­ca­pa­vam da água do tan­que quando, fi­nal­mente, eu con­se­guia capturá-los para o ba­nho.

Os dois iam ao ve­te­ri­ná­rio se a si­tu­a­ção agra­vava e, mesmo as­sim, só de­pois que seus pró­prios mé­to­dos te­ra­pêu­ti­cos fa­lha­vam (acho que co­mer fo­lhas era um de­les). Meus ga­tos par­ti­ram há anos, mas ja­mais rou­bei de­les a con­di­ção de fe­li­nos. Um vi­zi­nho co­varde en­ve­ne­nou o Sting; o Tony foi em­bora para mor­rer só. Ga­tos com­bi­nam com esse gesto de gla­mour: despedem-se da vida so­zi­nhos para que nos lem­bre­mos de­les em dias mais exu­be­ran­tes.

Na mi­nha me­mó­ria, to­dos os dias fo­ram exu­be­ran­tes para es­ses for­mi­dá­veis pro­je­ti­nhos de ti­gres, que me es­co­lhe­ram como dona mui­tos anos atrás. Ainda acho que vou revê-los no céu dos ga­tos so­bre te­lha­dos de nu­vens, na­mo­rando como nunca. 

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