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Afinal, qual é o babado da imprensa?

quarta-feira, 16 de junho de 2004 Texto de

Isa­bel Car­va­lho
Es­pe­cial para o blog

A Pa­rada do Or­gu­lho GLBT (Gays, Lés­bi­cas, Bis­se­xu­ais e Trans­gê­ne­ros), do dia 13 de ju­nho, em São Paulo, trans­cor­reu com muito bri­lho e sem qual­quer in­ci­dente.

O fi­asco fi­cou por conta da im­prensa, que se­guiu a li­nha do “po­li­ti­ca­mente cor­reto” e re­por­tou o que há de mais pe­jo­ra­tivo no mo­vi­mento ho­mos­se­xual: pri­vi­le­giou o “exó­tico” e ig­no­rou as ma­ni­fes­ta­ções po­lí­ti­cas exis­ten­tes.

A co­ber­tura das TVs, se­gundo re­la­tos – fe­liz­mente não vi por­que es­tava en­tre os GLBT’s na Ave­nida Pau­lista – foi es­ta­pa­fúr­dia. Ao in­vés de pôr de lado toda a es­te­re­o­ti­pia ado­tada de praxe nas co­ber­tu­ras de ma­ni­fes­ta­ções de mo­vi­men­tos mi­no­ri­tá­rios rei­vin­di­ca­tó­rios, expôs pe­jo­ra­ti­va­mente drags que­ens como se o mo­vi­mento ho­mos­se­xual se re­su­misse ape­nas nos ti­pos tra­ves­ti­dos, ges­ti­cu­la­do­res e bi­zar­ros.

Já que as “drags” aca­ba­ram de ser ci­ta­das, boa parte de­las, cer­ta­mente, es­tava sentindo-se ver­da­dei­ra­mente re­pre­sen­tante de um mo­vi­mento com múl­ti­plas fa­ce­tas – in­clu­sive, a da ale­gria e do bri­lho -, sem con­tar a co­ra­gem, a li­ber­dade e a cri­a­ti­vi­dade de mostrar-se tal como é: ser no mundo, na Pau­lista, na con­vi­vên­cia harmô­nica en­tre tan­tos ti­pos de pes­soas, per­so­na­li­da­des, di­fe­ren­ças…

A mí­dia, se qui­sesse exer­cer um pa­pel real de for­ma­ção sócio-cultural, de­ve­ria, no mí­nimo, ter ex­pli­cado aos te­les­pec­ta­do­res, ou­vin­tes e lei­to­res o ver­da­deiro ob­je­tivo da Pa­rada do Or­gu­lho GLBT. Mas não o fez. Pre­fe­riu ou­vir his­tó­rias ape­nas das ado­rá­veis ca­ri­ca­tas drags que­ens e tra­ves­ti­dos, ge­ne­ra­li­zando os ho­mos­se­xu­ais como se to­dos usas­sem fan­ta­sias para ocul­tar sua se­xu­a­li­dade no dia-a-dia in­di­gesto da so­ci­e­dade ca­pi­ta­lista sel­va­gem.

O pa­pel da im­prensa há tempo deve ser re­pa­gi­nado. O jor­na­lista pre­cisa se des­pir do pre­con­ceito e ir a fundo no porquê das coi­sas. Neste caso, pri­mei­ra­mente, se­ria fun­da­men­tal ex­pli­car o porquê da re­a­li­za­ção das Pa­ra­das.

As Pa­ra­das, em es­pe­cial as da ca­pi­tal pau­lista, ocor­rem há oito anos. Mas, ape­nas nos úl­ti­mos três anos, é que se tem dado des­ta­que maior na mí­dia por causa dos mi­lhões de pes­soas que com­pa­re­cem ao evento. Com ta­ma­nha vi­si­bi­li­dade, fica im­pos­sí­vel não dar um link du­rante a pro­gra­ma­ção do­mi­ni­cal, mas sem agre­dir os la­res cris­tãos sin­to­ni­za­dos.

Claro que ape­sar dos in­te­res­ses mer­ca­do­ló­gi­cos das Pa­ra­das, as quais con­tam com mega-patrocinadores que vêem no pú­blico ho­mos­se­xual con­su­mi­dor po­ten­cial e no evento a opor­tu­ni­dade de ven­der seus pro­du­tos sob a vi­trine de em­pre­sas pre­o­cu­pa­das e sen­si­bi­li­za­das com a causa GLBT – por di­rei­tos ci­vis e pre­vi­den­ciá­rios, igual­dade e fim do pre­con­ceito -, a Pa­rada em si é uma ma­ni­fes­ta­ção de um mo­vi­mento re­pleto de rei­vin­di­ca­ções, sim!

Em 1996, com uma sim­ples ma­ni­fes­ta­ção dos ho­mos­se­xu­ais, com a pre­sença de 2 mil pes­soas em São Paulo, foi dada a lar­gada para o que ve­mos acon­te­cer anu­al­mente na Pau­lista. O nú­mero de par­ti­ci­pan­tes GLBT´s e sim­pa­ti­zan­tes cres­ceu pro­gres­si­va­mente até atin­gir a ci­fra ofi­cial de 1,8 mi­lhão. Mas, que para mim, cer­ta­mente ul­tra­pas­sou os 2 mi­lhões. Ga­nhou vi­si­bi­li­dade e tornou-se a maior do mundo, su­pe­rando as Pa­ra­das de São Fran­cisco, Nova Ior­que e To­ronto.

Muito bem. O Bra­sil, aos olhos da mí­dia mun­dial, no que­sito or­ga­ni­za­ção de Pa­ra­das GLBT´s está indo muito bem. Mas, afi­nal, o que o mo­vi­mento GLBT rei­vin­dica e o que a so­ci­e­dade re­al­mente pensa da classe? E a im­prensa, como se com­porta?

Para Wil­son Silva, co­lega mi­li­tante GLBT, ape­sar do su­cesso, a Pa­rada, mais uma vez, foi mar­cada por pro­ble­mas. A co­me­çar pelo tema se­le­ci­o­nado pela As­so­ci­a­ção do Or­gu­lho GLBT: ‘Te­mos fa­mí­lia e or­gu­lho’. Para um se­tor do mo­vi­mento, o tema ti­nha a ver com a ne­ces­si­dade do re­co­nhe­ci­mento le­gal das re­la­ções en­tre ca­sais GLBT (com a re­gu­la­ri­za­ção das par­ce­rias ci­vis que trans­fi­ram para os ho­mos­se­xu­ais os mes­mos di­rei­tos exis­ten­tes para os ca­sais he­te­ros­se­xu­ais, como os di­rei­tos pre­vi­den­ciá­rios e, no meu en­ten­der, o di­reito à ado­ção de cri­an­ças). Nada mais justo.

Ou­tros re­la­ci­o­na­ram o tema às mui­tas di­fi­cul­da­des que GLBT’s têm em suas fa­mí­lias: dis­cri­mi­na­ção e pre­con­ceito po­dem se trans­for­mar em ati­tu­des como a ex­pul­são da casa ou o em­prego da vi­o­lên­cia do­més­tica. Algo tam­bém im­por­tante.

Con­tudo, pelo tom dado pela pró­pria As­so­ci­a­ção, tanto a co­ber­tura da mí­dia como os even­tos pa­ra­le­los à Pa­rada fo­ram mar­ca­dos por uma abor­da­gem con­ser­va­dora: a de­fesa do pa­drão tra­di­ci­o­nal de fa­mí­lia.

Exem­plar da la­men­tá­vel ló­gica que per­meia a mai­o­ria do mo­vi­mento, que de­fende a “in­te­gra­ção” dos ho­mos­se­xu­ais ao sis­tema tal como é. A de­fesa do ca­sa­mento e da fa­mí­lia tra­di­ci­o­nais é prima-irmã da pos­tura que vê como con­quista o sur­gi­mento de um mer­cado vol­tado para os ho­mos­se­xu­ais. Uma enorme bo­ba­gem que só pri­vi­le­gia se­to­res de classe mé­dia.

Além desse pro­blema, repetiram-se ou­tros já co­nhe­ci­dos: a aber­tura da Pa­rada foi feita pela pre­feita pe­tista sem que qual­quer um pu­desse questioná-la (não só por sua pés­sima ad­mi­nis­tra­ção, como tam­bém por não ter feito nada pe­los GLBT’s); du­rante todo o per­curso houve muita mú­sica, car­ta­zes e fai­xas pe­dindo o fim da vi­o­lên­cia, da dis­cri­mi­na­ção e rei­vin­di­cando di­rei­tos bá­si­cos, mas, evi­den­te­mente, a co­ber­tura da im­prensa pri­vi­le­giou o “exó­tico”, ig­no­rando as ma­ni­fes­ta­ções po­lí­ti­cas exis­ten­tes.

O que a im­prensa não in­forma: censo GLBT

O GLS Pla­net em par­ce­ria com o Grupo Arco-Íris vai lan­çar em breve o Censo GLS, o pri­meiro le­van­ta­mento mais am­plo da po­pu­la­ção GLS no Bra­sil. Para tor­nar os da­dos con­fiá­veis, os ide­a­li­za­do­res pre­ten­dem le­van­tar da­dos fi­de­dig­nos so­bre a co­mu­ni­dade GLBT no Bra­sil, tanto em ter­mos de per­fil sócio-econômico como tam­bém da­dos que se­jam do in­te­resse das ONG´s ati­vis­tas e en­ti­da­des de pes­quisa. A pes­quisa vai ser feita via in­ter­net, atra­vés do do­mí­nio e site ex­clu­sivo da pes­quisa www.censogls.com.br, que está em cons­tru­ção, no mo­mento.

Du­rante a co­le­tiva con­ce­dida à im­prensa no dia da Pa­rada do Or­gu­lho GLBT de São Paulo, Sô­nia Al­ves, di­re­tora do GLS Pla­net, in­for­mou so­bre a re­a­li­za­ção do censo e pe­diu aos jor­na­lis­tas a “gen­ti­leza” de di­vul­gar o fato. Não vi qual­quer veí­culo de co­mu­ni­ca­ção re­por­tar o tema.

Pre­con­ceito, má von­tade dos jor­na­lis­tas, falta de uma for­ma­ção uni­ver­si­tá­ria de qua­li­dade des­ses pro­fis­si­o­nais para dis­cer­nir o que é im­por­tante ou pres­são dos do­nos da mí­dia para ocul­tar a ver­dade que mui­tos não que­rem ver?

A ver­dade, doa a quem doer, é que os ho­mos­se­xu­ais exis­tem e es­tão numa luta justa, digna e per­ma­nente para ter os mes­mos di­rei­tos dos he­te­ros!

Isa­bel Car­va­lho é jor­na­lista

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